terça-feira, 29 de novembro de 2011

Prazos de validade

Eu sempre tive um hábito meio mórbido de fazer amigos, mas do qual ainda não consegui me livrar (embora esteja tentando).

Já há alguns anos, sempre na época dos vestibulares, eu me dirijo a algum local de prova e fico na frente do portão, junto com os vendedores de água e baganas e os parentes dos candidatos que ficam do lado de fora trocando lero. A diferença é que não vendo nada nem sou parente de ninguém. Observo todos os candidatos passando pelos portões, até que vai se aproximando a hora-limite de entrada e o clima começa a ficar tenso: será que alguém vai perder a prova?

Quando os responsáveis pelo fechamento dos portões começam a se movimentar, a tensão se espalha. Sempre há candidatos retardatários vindo correndo no final da rua, e a multidão em coro toma para si a perseverança desses sujeitos atrasados e começam a lançar gritos e gritos de alerta.

Corre!, corre!, vai fechar!

Quase sempre o candidato consegue entrar, graças à benevolência do fiscal que retarda o trancamento dos portões. Mas sempre há alguém que fica de fora, e então eu - que sempre assisto entusiasmado a esse pequeno show urbano - começo a agir.

Lembro-me de uma vez que uma garota chegou e não pôde entrar por questão de segundos. Segundos mesmo. Desde o início da leitura dessa frase até esse momento: esse foi o tempo entre o fechamento do portão e a chegada da garota, uma mulata baixinha, que só não caiu no choro na mesma hora porque aparentemente não lhe havia caído a ficha. Assim que a garota literalmente esbarrou no portão - ao som consolador de dezenas de vozes -, ela lá ficou por alguns segundos, inerte, sem voz sequer para pedir inutilmente ao fiscal que a deixasse entrar; então foi saindo dali, como se tendo uma vertigem ainda apoiando-se no portão e, logo que este acabou, apoiando-se no muro. Da parte das pessoas, após o choque inicial, já se ouviam algumas risadinhas e umas provocações indiretas, do tipo "a única coisa que ela tem que fazer no ano é essa prova, e chega atrasada". Estavam se alimentando da desgraça alheia.

A moreninha andou uns duzentos metros, saiu do meio da multidão, e então sentou no chão encostando-se na parede salpicada do muro, com um semblante tão pálido que parecia que não havia respirado naqueles minutos. Eu comprei um copo de água mineral e me aproximei, oferecendo e sugerindo-lhe que ficasse calma. Ela aceitou, realmente não tinha fôlego, mas aos poucos foi se recuperando e a conversa, no início tortuosa, foi fluindo melhor. Assim como conheci essa garota, conheci também outras pessoas. Ficava sempre nas portas dos locais de provas, esperando os retardatários, aqueles que (talvez pela primeira vez) sentem o peso de 30 segundos, de um minuto, em suas vidas. Conversar no início era sempre difícil - muitas vezes, depois da tensão inicial a pessoa caía em prantos e a conversa se tornava por algum tempo impossível; porém, eram esses casos que eu mais gostava -, no entanto aos poucos a comunicação evoluía.

Em geral, eu conhecia mais garotas nesses locais. O papo com elas se desenvolvia sempre com mais facilidade, porque elas exprimem mais as emoções. É até uma oportunidade para eu testar tudo que aprendi autodidaticamente com tantos livros de psicologia. Só que também já conheci alguns caras. Um deles, o único com quem ainda mantenho algum parco contato, era meio metido a surfista. Nunca teve nenhuma meta na vida que passasse pelo vestibular, mas não deixou de ser um baque ser barrado no portão do local de prova. Raros são os que reagem normalmente. Alguns são até insossos, mas também sentem.

A minha última namorada, inclusive, eu conheci na porta do então Cefet-RN. Logo após ela ter sido barrada, fomos até o bosque que há ali perto e lá lanchamos e conversamos o dia todo, e no dia seguinte até umas dez semanas depois estávamos namorando, ainda que não fosse um namoro propriamente dito, mas que seja: namoros não necessariamente precisam ser tais como são propriamente ditos.

Os desatentos pensariam que eu gosto de ver as desgraças alheias; não, não gosto. Se dependesse de mim, não sofreriam desgraças quaisquer. É apenas que a pessoa nesta ocasião está sensibilizada, e de modo geral ela, no momento posterior a um tropeço desses, sempre esboça qualquer característica fundante ignorada, talvez alguns defeitos de personalidade desconhecidos ou mesmo virtudes até ali reprimidas. Eu vislumbro sempre este último caso.

Apesar de tudo, nenhuma dessas amizades durou muito tempo. Tratavam-se de relações cujo elo de ligação era a desgraça, o fracasso, a tensão. Eu gostava de conhecer a pessoa pelo que ela tinha de irresponsável. E, sobretudo, gostava de conhecê-la num momento de total ausência de humor, já que não tenho muito saco para besteirol. Só que após os primeiros dias, ou as primeiras semanas (quando sai o resultado do vestibular, sempre bate de novo aquela crise nos retardatários), elas sempre conseguem "superar" o problema. Suas vidas, passam, então, a se permear de novas boas coisas. As garotas começam a querer que eu vá com elas para uma balada insossa ou passar um fim-de-semana na casa de praia com sua turma, os caras começam a me chamar para churrascadas ou para jogos de futebol. A socialização a dois enterra-se, e a amizade só se sustentaria se eu topasse participar desses programas coletivos e chatos demais. Então eu desisto, todas as vezes, de maneira que essas relações nunca ultrapassam a barreira dos três meses. Depois, vem a espera por novas oportunidades.

Mas isso cansa.

Neste final de semana, bem que acordei com aquela velha vontade de fazer brotar mais um amigo e uma namorada; no entanto, assim que pensei no vazio que emergiria daqui a uns três meses - justo quando eu já estivesse desacostumado com ele -, percebi que valeria mais a pena voltar a dormir.



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

As lembranças marcadas na mão direita

Eu estava pensando nos amigos que morreram este ano, em particular uma garota chamada Marta, que faleceu em fevereiro com a minha idade, 25, ou talvez tivesse um ano a mais. Não eram exatamente boas as lembranças que eu trazia dela; mas ainda assim as tinha.

Você é o cara mais sujo que eu já conheci, Deftones. Esta é uma sentença entre as muitas que me recordo terem sido emitidas pela Marta no tempo em que éramos mais próximos, sobretudo durante a adolescência, até uns cinco anos atrás, quando ela passou uns dias na minha casa e foram estas as últimas ocasiões que a vi. Deftones era meu apelido na época, e o que eu chamo de casa era, na verdade, um pequeno kit-net com dois vãos mal divididos e que se situava na subida da José Bernardo, perto do Viaduto do Baldo. Seria legal ter a paisagem daquele caquético viaduto pela janela, no entanto meu kit-net não tinha nenhuma abertura para o mundo lá fora. Era tapado, havia nele apenas a porta de saída e um acesso para o banheiro, este sem porta, minúsculo, tão minúsculo que tudo que eu lá fazia saltava pra fora: a urina, a água do banho e, sobretudo, o mal cheiro.

Quando penso na Marta, a imagem que me vem é de ficarmos umas horas deitados na cama - na verdade, ela deitada na cama, eu deitado no chão embebedado -, e enquanto proseávamos lentamente (não tínhamos pressa, não cumpríamos horário, não trabalhávamos nem estudávamos, não tínhamos famílias ou amigos no campo de vista), ela fazia rabiscos no meu livro Almoço Nu, aliás, fez tantos rabiscos que eu não quis mais o livro, disse que quando ela fosse poderia levar aquela droga, mas ela nunca levou. Como nos rabiscos tinha uma data, a data que ela veio a primeira vez, nunca mais esqueci. Essa memória de estar deitado no chão ao lado da cama permanece vívida na minha cabela, e se tornou uma das imagens mais presentes na minha vida. Aquela fase de modo geral é algo de que nunca me esqueci, dada a excrescência da situação, de modo que sempre que estava diante de dificuldades procuro me lembrar dessa época, para entender que já estive em situação pior. Isso porque aquele kit-net foi o pior lugar em que morei, abafado e asqueroso, não tendo nada que o procurasse embelezar; nele só havia uma cama de farrapos e um birô de quatro ou cinco gavetas, e o que eu chamara de tapete era, na verdade, um de meus lençóis que eu carregava na mochila para onde ia, na qual continha também um caderno, roupas, vários livros e alguns CDs quebrados, soltos e uns parcos bem guardados. O aluguel eu pagava com os trocados que recebia em certos bicos, distribuindo panfletos no meio da rua ou ajudando os camelôs da Cidade Alta a fazer o carregamento de seus produtos no fim da tarde.

Esse foi, repito, o pior lugar em que já morei. Pior que o kit-net da Rua Neópolis, onde faltou luz por um mês, pior que a prisão de Brejinho em que passei a noite com dois ou três velhos nojentos, deploráveis, pior até que o Hotel Nordeste, que nem toalete tinha no recinto e cujo ambiente claustrofóbico convidava os hóspedes a se atirar da janela rumo ao suicídio.

Quando não estava nos bicos, estava sentado no chão do kit-net, encostado na cama, tomando qualquer coisa num vidrinho ou ficava deitado no chão, dormindo, estático, pensativo, enquanto Marta, por sua vez, quando estava lá ficava na cama, mas nunca parada; ora estava deitada de bruços, ora sentada, ora mexendo nos meus livros, ora bebendo cerveja quente, ora se esforçando com a mão direita e os dentes para amarrar um pedaço de pano no braço esquerdo para prender a circulação e começar a picotar a si mesma.

Vai um também?, ela me perguntava, oferecendo a seringa.

Não gosto de agulhas, eu falei.

Então me ajuda aqui, seu viado.

Se vira.

Seu viado, se eu não estivesse dopada matava você.

Marta era uma viciada que não tinha rumo, nós estudamos juntos no distante ensino fundamental e nos encontrávamos vez ou outra nos círculos marginais da Cidade Alta. Neste dia, ela me viu num show de rock de quinta categoria que rolava na Rua João Pessoa e ficamos conversando. Pentelha como ela era, não saiu da minha cola nem quando tentei me despedir. Ela pediu pra dormir na minha casa só essa noite e eu não queria, mas decidi aceitar, ciente comigo mesmo de que se passasse 24 horas eu colocava pra fora sem qualquer receio, da maneira que fosse.

Vamos fazer amor?, ela perguntou assim que entramos no kit-net.

Fazer o quê?!, perguntei.

Fazer amor.

Dá um tempo, Marta. Olha pra você, eu falei. Ela realmente não era atraente. Não estava cheirando mal, mas não parecia exatamente limpa.

Mas é um viado mermo, disse.

Eu desconsiderei as palavras dela, não ia me aborrecer por tão pouca coisa. Mas Marta não ficou somente 24 horas lá comigo. Passou sete ou oito dias. Para mim era conveniente: ela saía e trazia comida não sei de onde, provavelmente conseguia com alguns caras sedentos de sexo com qualquer trapo feminino. Eu achava ótimo, pra ser sincero; só assim para eu comer três vezes ao dia naqueles tempos difíceis.

Certa vez, porém, eu estava deitado na cama, num fim de tarde, e ouvi Marta chegando. Só que ela não estava sozinha. Trazia consigo um outro cara, que eu tinha a impressão de conhecê-lo, mas nada que fosse além dessa vaga impressão. Eu continuei como estava, despertando gradativamente.

Quem é você?, perguntei ao sujeito.

Ele é meu namorado, disse Marta.

Seu o quê?! Isso é uma piada?

Meu namorado, eu também tenho direito, sabia?

Certo, é um prazer conhecê-lo, tchau.

Eu trouxe ele pra cá, ela disse. Aí eu não suportei. No entanto, ainda procurei ser calmo.

Vão embora daqui, eu falei.

É só um tempo, ela insistiu.

Marta, eu já falei: vão-embora-daqui.

Deixe de ser fresco, cara, disse o sujeito.

Eu me levantei e fui em direção a ele, que era da minha altura e parecia mais novo, mais magro, só que parecia bem corajoso, mantinha a face firme como a de um militar em formação. Cheguei bem perto do seu rosto e mandei ele repetir a merda que havia falado.

Deftones, pare de provocá-lo!, disse Marta.

Deixe de ser fresco, ele repetiu de maneira acintosa.

Agora vire suas costas, vá embora e nunca mais quero te ver na minha frente, eu disse. Marta a essa altura me xingava deliberadamente, ainda que eu não a ouvisse mais.

Tá com ciúmes dela, mané?, o sujeito perguntou. O clima pesou.

Suma daqui, agora, e leve essa louca com você.

Foda-se!, ele disse.

Na mesma hora eu lhe desferi um murro que me deixou até hoje com a marca de seus dentes em minha mão direita. A raiva acumulada me deu tanta força que o golpe fez o cara ser jogado pra trás, tentando se segurar na parede, porém cambaleando mais alguns passos de lado e finalmente caindo bastante tonto. Sua boca sangrou feio na frente.

Seu cretino!, seu selvagem!, gritava Marta.

Fui em direção ao cara e ofereci a mão pra ajudá-lo a levantar. Ele segurou, levantou e saiu com uma cara que buscava disfarçar sob um ar de firmeza a qualquer custo, a imensa dor que seus lábios friccionados e suas franzidas testes denunciavam. Ele se foi e a Marta foi junto, bem como eu queria.

Quando fechei a porta que me deitei na cama e peguei o livro que estava no birô ao lado, era exatamente Almoço Nu, cheio de rabiscos dela. Ainda dei uma pequena corrida até a porta e abri para entregar a ela. Os dois ainda estavam no final do corredor abraçados bem como um amoroso casal em início de relacionamento. Eu gritei para que ela viesse levar meu livro que ela tanto encheu de rabiscos inúteis, mas fui ignorado, ela logo puxou o rapaz pra saírem logo do corredor e enfim irem embora, em definitivo.

Eu só soube do falecimento da Marta três dias depois dela ter sofrido um atropelamento fatal na Hermes da Fonseca. Ouvi dizer que estava acompanhada na ocasião, mas não soube detalhes da história. Fui na missa de Sétimo Dia e lá encontrei o sujeito que tinha sido pivô de minha briga com a falecida. Pedi desculpas pelo murro que desferi nele e ele acatou. Depois da missa, ele ainda chamou pra beber alguma coisa. Eu não queria, mas ainda dividimos uma garrafa de cerveja. Ficamos contando um para o outro histórias torpes envolvendo a Marta, mas nos divertimos bastante nisso. No final da conversa, ainda mostrei pra ele as marcas dos dentes dele que carrego na mão; dentre as várias risadas que demos aquele dia, esta foi a derradeira.




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Esse sono que demora a chegar...

Queria dormir, eu falei.

Mas você não dorme porque não quer, ela respondeu no ato. E continuou: quem manda ficar até tarde da noite na internet, fazendo não sei o quê, depois vai ler livros e revistas, vai escrever artigos, contos, vai ver tv, ver filmes, enche a cama de papelada e quando é de dia ainda teima em deixar a moto em casa e sair por aí de ônibus, fica fazendo passeios inúteis no supermercado, fica bebendo no bar, sentado na praça olhando pro poste de luz, bem ao seu estilo, e assim perdendo horas preciosas que poderia passar na sua cama, dormindo?

Quando falei que queria dormir não era exatamente dormir...



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Salustino e depois Cibele

Como eu poderia te pagar?

Me vê o relógio, os óculos escuros e as botas, ele ordenou, já apontando.

Eu conhecia o Salustino só do botequim, mas já sabia de variadas histórias sobre sua figura, o suficiente para saber que tais ordens bem poderiam ser brincadeiras, bem poderiam ter sido ditas com a mais eminente seriedade. Mesmo assim tive coragem pra questionar.

Sem essa, não darei tudo isso por uma merda de conhaque. Nem consumindo todo o o bar inteiro eu pagaria com todas essas coisas.

Esse é o seu conhaque favorito, patife.

Deixo só o relógio, mas como garantia de que volto amanhã pra pagar e você me devolve.

Assim seja.

Passei meu relógio pro canalha.

Parece feminino, ele falou. E resmungou baixinho, talvez ironizando: Technos...

Osborne, disse eu, também baixinho...




Cadê seu relógio?, perguntou-me Cibele, uma garota com quem eu estava comendo um bauru no trailler de seu irmão - assim não precisaríamos pagar a conta - situado em algum lugar da Bernardo Vieira, horas depois do episódio no bar.

Lá se foi o disco voador, brinquei.

Não entendi, ela disse.

Bom, perdi.

Como se perde um relógio?

Apostei.

E você agora é apostador? Não tinha nada mais deprimente pra ser na vida?

Pra ser sincero, acho que não.

É a pessoa mais decadente que já conheci, ela disse, enquanto uma gota de maionese enfeitava a ponta direita da sua boca, balançando aos movimentos de sua face.

Claro. Mas é comigo que você está, comendo sanduíche no meio da rua, às onze da noite.

E o que que tem?, perguntou.

Nada.

Você é tão deprimente – ela continuou – que tava no cinema sozinho hoje.

Não somente hoje, eu falei.

E ainda admite, ela disse.

Estou aproveitando minhas férias. Hoje é o primeiro dia.

Grandes férias, ela ironizou.

Limpe esse troço na sua bochecha.

Ela de repente se calou e pegou um espelhinho, tirando com o dedo mínimo a gotícula de maionese no rosto. Depois, colocou tudo na bolsa e como se eu a tivesse xingado, disse:

Quer saber? Vou embora.

Fique aí, eu a deixo em casa.

Não, vou embora, tchau, e se levantou.

Como vai pra casa?

Ela não respondeu e se foi.

Não comi o bauru inteiro. A visão da maionese suspensa na bochecha dela foi me tirando o apetite, mas enquanto conversávamos eu me distraía e continuava comendo.

Depois desse dia, levei muito tempo até voltar a comer sanduíches. Fui pra casa dormir, e tanto dormi que não lembrei mais de voltar no bar para pagar a conta e recuperar o relógio.



domingo, 22 de maio de 2011

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Por fora do esquema

História real originalmente escrita para
a seção policial "No Esquema", da revista Tá na Cara!


GEANDERSON QUERIA EMOÇÃO, por certo. Só não sabia onde buscar. No estádio, nas tentativas amorosas, nas firulas do empreendedorismo? Necas. Achou por bem buscá-la na criminalidade. Quem sabe elas surjam com mais altivez. É isso – esse impetuoso dilema a respeito do que fazer, por que fazer, como fazer –, tudo o que se sabe de Geanderson até algumas semanas atrás. Dele e de seu parceiro, José Ricardo.

Não há qualquer outro registro fácil desses dois sujeitos por aí. Eram dois anônimos. Até pegarem nas mãos um revólver calibre 38; assim se transformaram. Assim se viram revigorados diante da vida. Geanderson poderia comemorar tardiamente o 31° aniversário – ou adiantar o 32°. O Zé Ricardo pegaria apenas carona nessa aventura clandestina, por falta de perspectiva ou de oportunidades outras, talvez. Poderia ser também por opção própria, irmandade; só que no pueril ambiente da criminalidade, falar de confraria é remeter a conceitos desencontrados num idioma estranho; como tentar pronunciar o substantivo “saudade” em inglês ou francês. Isso explica porque era somente a falta – de perspectiva ou de oportunidades – que movia o Zé a acompanhar o Gé.

No final das contas, ele trocou uma falta por outra; agora provavelmente lhe falta a liberdade. Isso porque o duo, provavelmente muito desentrosado e sem ter lá o tempo necessário para ensaiar, deixou-se levar na primeira peripécia profissional no mundo do crime. Há quem diga que cometeram pequenos furtos, desses que ocorrem com pessoas solitárias em paradas de ônibus. Coisas de principiante.

Desta vez, foram ambiciosos: tentaram assaltar um ônibus. Vá lá que tinha pouca gente, o que em tese deveria lhes facilitar o serviço; não facilitou. Mal contava vitória o dueto após reunir uma pequena porém considerável quantia em dinheiro e celulares numa mochila falsificada da Nike, logo o sucesso lhes mandaria lembranças. Se eles anunciaram o assalto nas proximidades da Rua Chile e foram interceptados pela Polícia Militar nas proximidades da Rodoviária Velha como disseram todos os noticiários, isto significa que mal chegaram no fundo do ônibus - se é que ainda lá chegaram -, o estrago já estava feito. Quando viram os policiais, sequer reagiram. Isto é, o Geanderson ainda sacou a arma, mas mesmo com o 38 em punho, ele permaneceu inofensivo, feito um adolescente estático ao saber que se ferrou...

É tudo e um pouco mais do que se sabe a respeito de Gê Garcia da Rocha.



domingo, 27 de março de 2011

Lançamento do livro Contos Subterrâneos foi um sucesso

Ontem lancei o meu primeiro livro, Contos Subterrâneos, depois de um duradouro e até tortuoso processo de produção que se iniciou com uma troca de emails com um velho amigo virtual e culminou com essa atividade no Sebo Cata-Livros.

A ideia do lançamento envolvia momentos de confraternização, com música, comida e bebida, e assim foi. Convidei meu amigo músico Jael Barbosa (à esq. na foto) para preparar um repertório particular, trazendo clássicos e músicas próprias. Apesar de alguns contratempos com o amplificador, deu pra rolar um som desplugado legal, inclusive depois fizemos até uma jam com vários de nossos amigos tocando e cantando, como Felipe (à dir. na foto), que faz faculdade comigo, Diego, Darlan, amigos de sempre desde os tempos de ensino médio, e até eu mesmo.

Um dos pontos de destaque foi com a visita do vereador George Câmara (foto), que fez questão de comparecer mesmo em meio aos compromissos referentes à comemoração do aniversário de 89 anos de nosso partido (Partido Comunista do Brasil) e a outras atividades como o comparecimento num evento da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins. Sua presença demonstra o que todos já sabem: que ele é um dos poucos, talvez o único, vereador de Natal que dá respaldo a projetos culturais elaborados à revelia da grande mídia e das superproduções que geralmente as prefeituras promovem em festejos especiais. Durante sua presença no lançamento do Contos Subterrâneos, George e sua esposa dialogaram com o público e com os donos do sebo e apreciaram o musical por bastante tempo.


Infelizmente o sebo ficou apertado porque quando sugeri pra Vera, dona do recinto, que fizéssemos lá o lançamento, não havia ocorrido o incêndio na outra sede deles. Depois dessa catástrofe, boa parte do material de doação que receberam precisou ficar na sede atual, o que causou certo desconforto, sobretudo no momento de pico, mas foi contornável. Ao menos o lanche teve de sobra para todos. Depois da comida e dos autógrafos, voltamos ao som e ficamos lá até não sei que horas...


No mais, agradeço a todos que compareceram, ao pessoal lá da UFRN, do movimento estudantil, amigos dos tempos de escola, amigos virtuais, camaradas do Partido Comunista, alunos e aos que eu não conhecia. Todos os exemplares foram vendidos e já solicitei uma nova remessa pra Editora CBJE.

Recebi convites para relançar os Contos Subterrâneos na Semana de Humanidades da UFRN em junho e na Expotec do IFRN em outubro. Aproveitarei as oportunidades e agilizarei esses relançamentos.

O início das vendas pela internet começará no dia 15 de abril.


Abraço especial pros parceiros Ivo Ávila e E. P. Freitas, os outros autores do livro, que estão na labuta pra levantar o nome de nossa obra lá no Rio Grande do Sul. O Ivo não segue muito a linha maldita que percorro junto com o Edu Freitas, mas tem uma escrita elegante e de inegável qualidade, dando destaque ao livro e agregando a ele elementos que se completam àqueles elencados nos outros contos.

Encerro essa postagem com o primeiro parágrafo do livro, parte do conto inédito Quarto com Duas Portas. Até a última página, sem falsa modéstia, posso afirmar que os leitores se depararão com textos de alta qualidade. O prenúncio de muitas outras coisas boas que virão.

Nos próximos dias, o Literatura Vil voltará a seu ritmo normal, com contos inéditos.

Abraços a todos!


Meu quarto é uma cápsula hermeticamente fechada. Não tem janelas, possui somente duas portas. A primeira dá acesso ao corredor que leva à rua, a segunda não é utilizada e vai dar sabe-se lá onde. Imagino que dê passagem a alguma peça escura, mofada, cheia de pó e teias de aranha. Por algum motivo não revelado, ou então já há muito esquecido, foi condenada a passar o restante dos dias fechada. A imagem de uma porta que nunca se pode abrir é realmente muito triste. Talvez seja o retrato dos meus dias atuais.




terça-feira, 22 de março de 2011


Nesta semana, enfim ocorrerá o lançamento do livro Contos Subterrâneos pela Editora CBJE, um sonho meio tortuoso, enfim realizado.

Este livro reúne contos inéditos, com alguns textos revisitados. É enxuto e traz em si o melhor do estilo consagrado aqui no blog e na literatura dos meus dois amigos, os gaúchos Ivo Ávila e E. P. Freitas, que foi o primeiro blogueiro que li, e o que me incentivou a começar a fazer literatura, muitos anos atrás.

Não conheço pessoalmente nenhum dos dois, mas como admirador mútuo da literatura feita por eles, desenvolvemos esse projeto já concretizado. Eles lançaram em janeiro em Porto Alegre e já esgotaram todos. Estou lançando aqui agora. O início das vendas pela internet, caso os leitores do blog tenham interesse, começará em abril.

O lançamento exposto no cartaz será no Sebo Cata-Livros, ponto de encontro tradicional de artistas, intelectuais, estudantes e uma grande variedade de produtores da arte e do conhecimento potiguar. Sendo o principal sebo no qual me formei enquanto leitor, é uma honra poder fazer lá o lançamento.

Meu amigo Jael Barbosa fará um pocket show, voz e violão, de repente talvez role umas jam sessions, uns saraus e coisas assim.

A entrada é livre; a quem quiser, as portas estão abertas.

Obrigado.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Com um nó no estômago

Acordei no sofá, com as costas doendo, como sempre. Era o prenúncio de um mau dia, como são todos os outros dias. A TV estava ligada, e eu vi o viaduto por onde passo todo dia em direção aos trabalhos, faculdades e outros tormentos. O viaduto estava em segundo plano, em primeiro estava uma repórter bonita mas totalmente sem sal dizendo que o tempo estava nublado, mas que não choveria. Eu me levantei com muito esforço, sendo meu sofá bem rústico e duro, é péssimo para dormir... todo o corpo estava em cacos... peguei um copo de água e fui para a janela ver as pessoas passando na rua... fico olhando a rua em frente, os estudantes, os operários, as mães com suas crianças, todos seguindo em direção a algum lugar, seguindo até o fim da rua, seguindo até sumirem no horizonte, e eu quase morri nessa falta de perspectiva.

Tomei um banho rápido e enquanto me vestia silenciosamente, o telefone tocou. O telefone residencial. Nunca havia passado o número para ninguém e ele agora estava tocando. Levei um susto, fiquei meio paralisado por segundos. Depois, ignorei. Continuei a vestir-me. Não queria atender. Não tinha nada a dizer, não queria ouvir nada, também não queria sair de casa. Por que era obrigado a atender essas exigências bobas? Tentei pôr mais pressa enquanto me arrumava, pois o telefone não parava de tocar e eu já estava incomodado. Mas antes que eu saísse de casa, ouvi o ônibus passando à frente. Foi-se rapidamente, e eu teria que esperar o próximo. O próximo, eu sabia, não passaria nos 40 minutos seguintes. Sentei-me no sofá com as mãos tapando o rosto... estava puto! Perdi a hora justo quando não devia... tinha uns exames de sangue para fazer. Tive que ligar para a moça do consultório.

O que deseja?

Quero remarcar o meu exame de sangue para amanhã.

Para amanhã não será possível, pois...

Então, interrompi, quero remarcar para depois-de-amanhã.

Também não será possível, senhor.

Tudo bem, quando há uma data disponível?

Infelizmente, não há mais datas disponíveis. O doutor fará exames até sexta e entrará em licença até maio. Você pode tentar...

Não, não vou tentar mais nada, obrigado.

Eu estava agora com uma pilha de exames incompletos, e para tê-los todos teria que esperar até quase o segundo semestre... Horas e horas marcando consultas e fazendo exames de raios X para terminar nisso... Desisti. Como já estava com a necessidade de sair de casa para compromissos outros, como dar aulas, e precisaria me deslocar mesmo assim até o Centro, decidi ficar vestido como estava, mesmo que só fosse sair depois do meio-dia, portanto dali a umas quatro horas. Cochilei no sofá enquanto isso e pus o despertador para alarmar exatamente ao meio dia.

Nesse dia, só dei duas aulas. Daria cinco, mas fiquei nas duas, já que o restante das turmas saiu antes da minha aula para participar de alguma atividade interativa fora da escola, e sendo assim fiquei livre mais cedo. Não sei se isso agradou ao meu dia. Era uma das últimas semanas que eu lecionaria; hoje já não sou mais professor, mas daria tudo pra dar aulas novamente. De qualquer modo, foi o jeito: saí de lá e fui para a parada de ônibus. Só que estava havendo uma passeata de uns servidores públicos, funcionários da Saúde, e estavam fechando a avenida pela qual os carros vinham. Como o trânsito estava desregulado, precisei pegar a condução em outro lugar. Escolhi uma outra parada, mas não tinha certeza de que o ônibus passava lá. Esperei dez minutos e saí. Fui para uma outra parada, onde esperei mais dez minutos e nada. Cheguei na Avenida Rio Branco, onde tem mais quase quinze paradas de ônibus, e eu tinha que adivinhar em qual delas o meu ônibus parava... Como vi que seria difícil, decidi aproveitar o tempo que estava no Centro para fazer algo. Fui à biblioteca do Sesc, ali por perto.

Apresentei minha carteira de sócio na entrada e fui procurar uns livros. Procurei, procurei e nada encontrei. Decidi ir para a mesa de revistas. Enquanto folheava lá algo sobre a rodada do Campeonato Brasileiro no fim de semana anterior, uma funcionária veio ao meu encontro:

Com licença, este é você?

Ela perguntou me mostrando um formulário que continha meu nome, foto, dados e uma listagem de dois livros que eu tomara emprestado meses antes.

Sim, sou eu. Apresentei minha carteira de sócio ao entrar.

Claro, senhor. É que há dois livros da biblioteca que estão emprestados a você, e estão atrasados.

É mesmo?

É sim, um do Rubem Fonseca e um do... deixe-me ver, Ernesto...

Ernest. Ernest Hemingway.

Pois é isso mesmo.

Olha, eu mandei um email recentemente para saber a quantas andava a minha situação aqui.

E não obteve resposta?

Claro que não... Ninguém responde nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir, e dizem o que querem dizer. Ninguém mais sabe perguntar nada, assim como ninguém responde nada também.

Mas, veja bem, os livros não são seus e...

Ué, lógico que são! Sou eu naquelas histórias! Hemingway me roubou, roubou a minha história e a minha personalidade para fazer aqueles contos! Acredite, minha querida, se ama mesmo a Literatura, aqueles livros estão melhores comigo do que aqui esquecidos nessa biblioteca decadente.

Você tem dez dias para trazê-los, não digo mais nada.

Ela sententicou e enfim me deixou em paz.

Depois que li todos os comentários sobre o futebol, a economia e os conflitos contemporâneos, saí, meio indisposto de continuar vagando, fui para uma parada de ônibus na qual sabia que meu ônibus pararia; para tanto tive que andar muito, cerca de meia hora. Peguei o ônibus e cheguei em casa, cochilei, bebi mais água, abri uns emails, li emails antigos, e percebi que havia muito mais emails ainda para trás... emails que nunca deletei em vários anos de uso ininterrupto de internet.

Comecei então a ler e a deletar, e deletar, e deletar. Enquanto deletava ainda relembrava muitos, ainda via neles boas e más lembranças, sentia que estava estourando bolas de encher, preenchidas de emoção. Enquanto deletava, imaginava isso como uma versão moderna da coisa de queimar cartas, lê-las e jogá-las na lareira enquanto o rosto expõe faces de alegrias e decepções. Passei coisa de seis ou sete horas nesse rito, do fim da tarde ao início da madrugada, e já me sentia muito pesado por tanta carga emocional reavivada nesse momento - uma carga pesadíssima, registrada em doses homeopáticas, agora rememorada em escala industrial. Desisti de deletar os emails, só sobraram alguns poucos do passado. Estava querendo dormir, e fiquei com isso na cabeça. Reconhecia o meu rosto íntimo, dissimulado, de quem sai para a rua disfarçado com o próprio corpo. Pensei em refazer coisas, mas era impossível, a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo. Eu pensei nisso depois que li um deles, que escrevi há bastante tempo não lembro para quem e nem cheguei a enviar, ainda que fosse um email-resposta. Estava lá salvo na caixa de rascunhos do servidor. Em letras mal-formatadas, eu só adormeci depois de pensar bastante após reler tais palavras:

eu estava vendo e aprendendo algo sobre o escorpião, sobre a tendência regenerativa desse ser que se manifesta num impulso destrutivo, para reconstruir a vida permanentemente, e fiquei pensando nisso que você falou, que a vida é sempre um andar para a frente,mesmo que trôpego e cambaleante, e já não dá retorno possível para o passado. fica tudo se acumulando no altar do esquecimento. eu que só queria acordar sem esse nó no estômago. queria qualquer coisa doce, já que ando cada dia mais azedo. qualquer coisa que fosse como um deslumbramento ou um abraço. mas nada disso virá, a gente sabe. tudo se vai.

que merda.

até amanhã... quanto a depois, logo se vê.




terça-feira, 1 de março de 2011

A paz que me engana

Já vislumbrei a paz diversas vezes,
já arrumei a mala e parti por meses
com sentido fixo, em sua direção.

Perdi o prumo e o passo, perdi-me todo.
A paz que vi não era mais que engodo
a me ludibriar, mera tapeação.

Reencontrei a tal paz anos depois
e um novo dilema sobre mim se pôs:
se valia a pena tentar segui-la novamente.

Mas só uma coisa agora me vinha à mente:
eu não queria me ver de novo enganado.
Nessa vida, já não preciso de outro fardo.

Então o tempo passou e veja o que ocorre...
Certas coisas parecem que nunca morre,
como essa insistência dela em me flertar.

Agora penso no que vale a pena, no preço da paz,
penso no que preciso fazer pela virtude que ela traz,
mas mais uma vez ela parece me enganar.

Então eu me retiro, prefiro ficar aqui distante,
prefiro tentar fugir desse conflito delirante,
e pretendo anunciar minha completa indiferença.

Porém ela persiste e nunca pára, pois não pensa,
a mim caberá resistir à sua recompensa,
e eliminar o seu poder embriagante.