<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579</id><updated>2012-02-06T08:12:34.480-03:00</updated><title type='text'>Literatura Vil</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>163</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7780698944155399292</id><published>2011-11-29T09:16:00.003-03:00</published><updated>2011-11-29T19:43:32.961-03:00</updated><title type='text'>Prazos de validade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu sempre tive um hábito meio mórbido de fazer amigos, mas do qual ainda não consegui me livrar (embora esteja tentando).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já  há alguns anos, sempre na época dos vestibulares, eu me dirijo a algum  local de prova e fico na frente do portão, junto com os vendedores de  água e baganas e os parentes dos candidatos que ficam do lado de fora  trocando lero. A diferença é que não vendo nada nem sou parente de  ninguém. Observo todos os candidatos passando pelos portões, até que vai  se aproximando a hora-limite de entrada e o clima começa a ficar tenso:  será que alguém vai perder a prova?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os responsáveis pelo  fechamento dos portões começam a se movimentar, a tensão se espalha.  Sempre há candidatos retardatários vindo correndo no final da rua, e a  multidão em coro toma para si a perseverança desses sujeitos atrasados e  começam a lançar gritos e gritos de alerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre!, corre!, vai fechar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase  sempre o candidato consegue entrar, graças à benevolência do fiscal que  retarda o trancamento dos portões. Mas sempre há alguém que fica de  fora, e então eu - que sempre assisto entusiasmado a esse pequeno show  urbano - começo a agir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de uma vez que uma garota  chegou e não pôde entrar por questão de segundos. Segundos mesmo. Desde o  início da leitura dessa frase até esse momento: esse foi o tempo entre o  fechamento do portão e a chegada da garota, uma mulata baixinha, que só  não caiu no choro na mesma hora porque aparentemente não lhe havia  caído a ficha. Assim que a garota literalmente esbarrou no portão - ao  som consolador de dezenas de vozes -, ela lá ficou por alguns segundos,  inerte, sem voz sequer para pedir inutilmente ao fiscal que a deixasse  entrar; então foi saindo dali, como se tendo uma vertigem ainda  apoiando-se no portão e, logo que este acabou, apoiando-se no muro. Da  parte das pessoas, após o choque inicial, já se ouviam algumas  risadinhas e umas provocações indiretas, do tipo "a única coisa que ela  tem que fazer no ano é essa prova, e chega atrasada". Estavam se  alimentando da desgraça alheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moreninha andou uns duzentos  metros, saiu do meio da multidão, e então sentou no chão encostando-se  na parede salpicada do muro, com um semblante tão pálido que parecia que  não havia respirado naqueles minutos. Eu comprei um copo de água  mineral e me aproximei, oferecendo e sugerindo-lhe que ficasse calma.  Ela aceitou, realmente não tinha fôlego, mas aos poucos foi se  recuperando e a conversa, no início tortuosa, foi fluindo melhor. Assim  como conheci essa garota, conheci também outras pessoas. Ficava sempre  nas portas dos locais de provas, esperando os retardatários, aqueles que  (talvez pela primeira vez) sentem o peso de 30 segundos, de um minuto,  em suas vidas. Conversar no início era sempre difícil - muitas vezes,  depois da tensão inicial a pessoa caía em prantos e a conversa se  tornava por algum tempo impossível; porém, eram esses casos que eu mais  gostava -, no entanto aos poucos a comunicação evoluía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em geral,  eu conhecia mais garotas nesses locais. O papo com elas se desenvolvia  sempre com mais facilidade, porque elas exprimem mais as emoções. É até  uma oportunidade para eu testar tudo que aprendi autodidaticamente com  tantos livros de psicologia. Só que também já conheci alguns caras. Um  deles, o único com quem ainda mantenho algum parco contato, era meio  metido a surfista. Nunca teve nenhuma meta na vida que passasse pelo  vestibular, mas não deixou de ser um baque ser barrado no portão do  local de prova. Raros são os que reagem normalmente. Alguns são até  insossos, mas também sentem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha última namorada, inclusive,  eu conheci na porta do então Cefet-RN. Logo após ela ter sido barrada,  fomos até o bosque que há ali perto e lá lanchamos e conversamos o dia  todo, e no dia seguinte até umas dez semanas depois estávamos namorando,  ainda que não fosse um namoro propriamente dito, mas que seja: namoros  não necessariamente precisam ser tais como são propriamente ditos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os  desatentos pensariam que eu gosto de ver as desgraças alheias; não, não  gosto. Se dependesse de mim, não sofreriam desgraças quaisquer. É  apenas que a pessoa nesta ocasião está sensibilizada, e de modo geral  ela, no momento posterior a um tropeço desses, sempre esboça qualquer  característica fundante ignorada, talvez alguns defeitos de  personalidade desconhecidos ou mesmo virtudes até ali reprimidas. Eu  vislumbro sempre este último caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de tudo, nenhuma dessas  amizades durou muito tempo. Tratavam-se de relações cujo elo de ligação  era a desgraça, o fracasso, a tensão. Eu gostava de conhecer a pessoa  pelo que ela tinha de irresponsável. E, sobretudo, gostava de conhecê-la  num momento de total ausência de humor, já que não tenho muito saco  para besteirol. Só que após os primeiros dias, ou as primeiras semanas  (quando sai o resultado do vestibular, sempre bate de novo aquela crise  nos retardatários), elas sempre conseguem "superar" o problema. Suas  vidas, passam, então, a se permear de novas boas coisas. As garotas  começam a querer que eu vá com elas para uma balada insossa ou passar um  fim-de-semana na casa de praia com sua turma, os caras começam a me  chamar para churrascadas ou para jogos de futebol. A socialização a dois  enterra-se, e a amizade só se sustentaria se eu topasse participar  desses programas coletivos e chatos demais. Então eu desisto, todas as  vezes, de maneira que essas relações nunca ultrapassam a barreira dos  três meses. Depois, vem a espera por novas oportunidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso cansa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste  final de semana, bem que acordei com aquela velha vontade de fazer  brotar mais um amigo e uma namorada; no entanto, assim que pensei no  vazio que emergiria daqui a uns três meses - justo quando eu já  estivesse desacostumado com ele -, percebi que valeria mais a pena  voltar a dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7780698944155399292?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7780698944155399292/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7780698944155399292&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7780698944155399292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7780698944155399292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/11/prazos-de-validade.html' title='Prazos de validade'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-4586511016814625304</id><published>2011-10-21T01:07:00.001-03:00</published><updated>2011-10-22T19:45:57.704-03:00</updated><title type='text'>As lembranças marcadas na mão direita</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu estava pensando nos amigos que morreram  este ano, em particular uma garota chamada Marta, que faleceu em fevereiro com a minha idade, 25, ou talvez tivesse um ano a mais. Não eram exatamente boas as lembranças que eu trazia dela; mas ainda assim as tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é o cara mais sujo que eu já conheci, Deftones. Esta é uma sentença entre as muitas que me recordo terem sido emitidas pela Marta no tempo em que éramos mais próximos, sobretudo durante a adolescência, até uns cinco anos atrás, quando ela passou uns dias na minha casa e foram estas as últimas ocasiões que a vi. Deftones era meu apelido na época, e o que eu chamo de casa era, na verdade, um pequeno kit-net com dois vãos mal divididos e que se situava na subida da José Bernardo, perto do Viaduto do Baldo. Seria legal ter a paisagem daquele caquético viaduto pela janela, no entanto meu kit-net não tinha nenhuma abertura para o mundo lá fora. Era tapado, havia nele apenas a porta de saída e um acesso para o banheiro, este sem porta, minúsculo, tão minúsculo que tudo que eu lá fazia saltava pra fora: a urina, a água do banho e, sobretudo, o mal cheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando penso na Marta, a imagem que me vem é de ficarmos umas horas deitados na cama - na verdade, ela deitada na cama, eu deitado no chão embebedado -, e enquanto proseávamos lentamente (não tínhamos pressa, não cumpríamos horário, não trabalhávamos nem estudávamos, não tínhamos famílias ou amigos no campo de vista),  ela fazia rabiscos no meu livro Almoço Nu, aliás, fez tantos rabiscos que eu não quis mais o livro, disse que quando ela fosse poderia levar aquela droga, mas ela nunca levou. Como nos rabiscos tinha uma data, a data que ela veio a primeira vez, nunca mais esqueci. Essa memória de estar deitado no chão ao lado da cama permanece vívida na minha cabela, e se tornou uma das imagens mais presentes na minha vida. Aquela fase de modo geral é algo de que nunca me esqueci, dada a excrescência da situação, de modo que sempre que estava diante de dificuldades procuro me lembrar dessa época, para entender que já estive em situação pior. Isso porque aquele kit-net foi o pior lugar em que morei, abafado e asqueroso, não tendo nada que o procurasse embelezar; nele só havia uma cama de farrapos e um birô de quatro ou cinco gavetas, e o que eu chamara de tapete era, na verdade, um de meus lençóis que eu carregava na mochila para onde ia, na qual continha também um caderno, roupas, vários livros e alguns CDs quebrados, soltos e uns parcos bem guardados. O aluguel eu pagava com os trocados que recebia em certos bicos, distribuindo panfletos no meio da rua ou ajudando os camelôs da Cidade Alta a fazer o carregamento de seus produtos no fim da tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse foi, repito, o pior lugar em que já morei. Pior que o kit-net da Rua Neópolis, onde faltou luz por um mês, pior que a prisão de Brejinho em que passei a noite com dois ou três velhos nojentos, deploráveis, pior até que o Hotel Nordeste, que nem toalete tinha no recinto e cujo ambiente claustrofóbico convidava os hóspedes a se atirar da janela rumo ao suicídio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não estava nos bicos, estava sentado no chão do kit-net, encostado na cama, tomando qualquer coisa num vidrinho ou ficava deitado no chão, dormindo, estático, pensativo, enquanto Marta, por sua vez, quando estava lá ficava na cama, mas nunca parada; ora estava deitada de bruços, ora sentada, ora mexendo nos meus livros, ora bebendo cerveja quente, ora se esforçando com a mão direita e os dentes para amarrar um pedaço de pano no braço esquerdo para prender a circulação e começar a picotar a si mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai um também?, ela me perguntava, oferecendo a seringa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gosto de agulhas, eu falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então me ajuda aqui, seu viado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu viado, se eu não estivesse dopada matava você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marta era uma viciada que não tinha rumo, nós estudamos juntos no distante ensino fundamental e nos encontrávamos vez ou outra nos círculos marginais da Cidade Alta. Neste dia, ela me viu num show de rock de quinta categoria que rolava na Rua João Pessoa e ficamos conversando. Pentelha como ela era, não saiu da minha cola nem quando tentei me despedir. Ela pediu pra dormir na minha casa só essa noite e eu não queria, mas decidi aceitar, ciente comigo mesmo de que se passasse 24 horas eu colocava pra fora sem qualquer receio, da maneira que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos fazer amor?, ela perguntou assim que entramos no kit-net.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer o quê?!, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá um tempo, Marta. Olha pra você, eu falei. Ela realmente não era atraente. Não estava cheirando mal, mas não parecia exatamente limpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é um viado mermo, disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu desconsiderei as palavras dela, não ia me aborrecer por tão pouca coisa. Mas Marta não ficou somente 24 horas lá comigo. Passou sete ou oito dias. Para mim era conveniente: ela saía e trazia comida não sei de onde, provavelmente conseguia com alguns caras sedentos de sexo com qualquer trapo feminino. Eu achava ótimo, pra ser sincero; só assim para eu comer três vezes ao dia naqueles tempos difíceis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, porém, eu estava deitado na cama, num fim de tarde, e ouvi Marta chegando. Só que ela não estava sozinha. Trazia consigo um outro cara, que eu tinha a impressão de conhecê-lo, mas nada que fosse além dessa vaga impressão. Eu continuei como estava, despertando gradativamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é você?, perguntei ao sujeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é meu namorado, disse Marta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu o quê?! Isso é uma piada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu namorado, eu também tenho direito, sabia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo, é um prazer conhecê-lo, tchau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu trouxe ele pra cá, ela disse. Aí eu não suportei. No entanto, ainda procurei ser calmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vão embora daqui, eu falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É só um tempo, ela insistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marta, eu já falei: vão-embora-daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixe de ser fresco, cara, disse o sujeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me levantei e fui em direção a ele, que era da minha altura e parecia mais novo, mais magro, só que parecia bem corajoso, mantinha a face firme como a de um militar em formação. Cheguei bem perto do seu rosto e mandei ele repetir a merda que havia falado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deftones, pare de provocá-lo!, disse Marta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixe de ser fresco, ele repetiu de maneira acintosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vire suas costas, vá embora e nunca mais quero te ver na minha frente, eu disse. Marta a essa altura me xingava deliberadamente, ainda que eu não a ouvisse mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá com ciúmes dela, mané?, o sujeito perguntou. O clima pesou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suma daqui, agora, e leve essa louca com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foda-se!, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesma hora eu lhe desferi um murro que me deixou até hoje com a marca de seus dentes em minha mão direita. A raiva acumulada me deu tanta força que o  golpe fez o cara ser jogado pra trás, tentando se segurar na parede, porém cambaleando mais alguns passos de lado e finalmente caindo bastante tonto. Sua boca sangrou feio na frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu cretino!, seu selvagem!, gritava Marta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui em direção ao cara e ofereci a mão pra ajudá-lo a levantar. Ele segurou, levantou e saiu com uma cara que buscava disfarçar sob um ar de firmeza a qualquer custo, a imensa dor que seus lábios friccionados e suas franzidas testes denunciavam. Ele se foi e a Marta foi junto, bem como eu queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando fechei a porta que me deitei na cama e peguei o livro que estava no birô ao lado, era exatamente Almoço Nu, cheio de rabiscos dela. Ainda dei uma pequena corrida até a porta e abri para entregar a ela. Os dois ainda estavam no final do corredor abraçados bem como um amoroso casal em início de relacionamento. Eu gritei para que ela viesse levar meu livro que ela tanto encheu de rabiscos inúteis, mas fui ignorado, ela logo puxou o rapaz pra saírem logo do corredor e enfim irem embora, em definitivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu só soube do falecimento da Marta três dias depois dela ter sofrido um atropelamento fatal na Hermes da Fonseca. Ouvi dizer que estava acompanhada na ocasião, mas não soube detalhes da história. Fui na missa de Sétimo Dia e lá encontrei o sujeito que tinha sido pivô de minha briga com a falecida. Pedi desculpas pelo murro que desferi nele e ele acatou. Depois da missa, ele ainda chamou pra beber alguma coisa. Eu não queria, mas ainda dividimos uma garrafa de cerveja. Ficamos contando um para o outro histórias torpes envolvendo a Marta, mas nos divertimos bastante nisso. No final da conversa, ainda mostrei pra ele as marcas dos dentes dele que carrego na mão; dentre as várias risadas que demos aquele dia, esta foi a derradeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-4586511016814625304?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/4586511016814625304/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=4586511016814625304&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4586511016814625304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4586511016814625304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/09/as-lembrancas-marcadas-da-mao-direita.html' title='As lembranças marcadas na mão direita'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-868730812814589631</id><published>2011-08-12T14:24:00.005-03:00</published><updated>2011-08-12T14:30:32.541-03:00</updated><title type='text'>Esse sono que demora a chegar...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Queria dormir, eu falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas você não dorme porque não quer, ela respondeu no ato. E continuou: quem manda ficar até tarde da noite na internet, fazendo não sei o quê, depois vai ler livros e revistas, vai escrever artigos, contos, vai ver tv, ver filmes, enche a cama de papelada e quando é de dia ainda teima em deixar a moto em casa e sair por aí de ônibus, fica fazendo passeios inúteis no supermercado, fica bebendo no bar, sentado na praça olhando pro poste de luz, bem ao seu estilo, e assim perdendo horas preciosas que poderia passar na sua cama, dormindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando falei que queria dormir não era exatamente dormir...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-868730812814589631?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/868730812814589631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=868730812814589631&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/868730812814589631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/868730812814589631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/08/esse-sono-que-demora-chegar.html' title='Esse sono que demora a chegar...'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-3661255806931717670</id><published>2011-07-07T10:04:00.001-03:00</published><updated>2011-07-25T13:22:54.211-03:00</updated><title type='text'>Salustino e depois Cibele</title><content type='html'>&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Como eu poderia te pagar?&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Me vê o relógio, os óculos escuros e as botas, ele ordenou, já apontando.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Eu  conhecia o Salustino só do botequim, mas já sabia de variadas histórias  sobre sua figura, o suficiente para saber que tais ordens bem poderiam  ser brincadeiras, bem poderiam ter sido ditas com a mais eminente  seriedade. Mesmo assim tive coragem pra questionar.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Sem essa, não darei tudo isso por uma merda de conhaque. Nem consumindo todo o o bar inteiro eu pagaria com todas essas coisas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Esse é o seu conhaque favorito, patife.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Deixo só o relógio, mas como garantia de que volto amanhã pra pagar e você me devolve.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Assim seja.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Passei meu relógio pro canalha.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Parece feminino, ele falou. E resmungou baixinho, talvez ironizando: Technos...&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Osborne, disse eu, também baixinho...&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Cadê  seu relógio?, perguntou-me Cibele, uma garota com quem eu estava  comendo um bauru no trailler de seu irmão - assim não precisaríamos  pagar a conta - situado em algum lugar da Bernardo Vieira, horas depois  do episódio no bar.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Lá se foi o disco voador, brinquei.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Não entendi, ela disse.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Bom, perdi.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Como se perde um relógio?&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Apostei.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;E você agora é apostador? Não tinha nada mais deprimente pra ser na vida?&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Pra ser sincero, acho que não.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;É  a pessoa mais decadente que já conheci, ela disse, enquanto uma gota de  maionese enfeitava a ponta direita da sua boca, balançando aos  movimentos de sua face.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Claro. Mas é comigo que você está, comendo sanduíche no meio da rua, às onze da noite.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;E o que que tem?, perguntou.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Nada.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Você é tão deprimente – ela continuou – que tava no cinema sozinho hoje.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Não somente hoje, eu falei.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;E ainda admite, ela disse.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Estou aproveitando minhas férias. Hoje é o primeiro dia.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Grandes férias, ela ironizou.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Limpe esse troço na sua bochecha.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Ela  de repente se calou e pegou um espelhinho, tirando com o dedo mínimo a  gotícula de maionese no rosto. Depois, colocou tudo na bolsa e como se  eu a tivesse xingado, disse:&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Quer saber? Vou embora.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Fique aí, eu a deixo em casa.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Não, vou embora, tchau, e se levantou.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Como vai pra casa?&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Ela não respondeu e se foi.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Não  comi o bauru inteiro. A visão da maionese suspensa na bochecha dela foi  me tirando o apetite, mas enquanto conversávamos eu me distraía e  continuava comendo.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Depois  desse dia, levei muito tempo até voltar a comer sanduíches. Fui pra  casa dormir, e tanto dormi que não lembrei mais de voltar no bar para  pagar a conta e recuperar o relógio.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-3661255806931717670?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/3661255806931717670/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=3661255806931717670&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3661255806931717670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3661255806931717670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/07/salustino-e-depois-cibele.html' title='Salustino e depois Cibele'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-8812367279679222656</id><published>2011-05-22T19:11:00.001-03:00</published><updated>2011-05-22T19:11:23.581-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este blog está de férias até o segundo semestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-8812367279679222656?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/8812367279679222656/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=8812367279679222656&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8812367279679222656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8812367279679222656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/05/este-blog-esta-de-ferias-ate-o-segundo.html' title=''/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-961801369301535583</id><published>2011-04-14T08:31:00.009-03:00</published><updated>2011-04-14T23:38:33.096-03:00</updated><title type='text'>Por fora do esquema</title><content type='html'>&lt;style type="text/css"&gt;  &lt;!--   @page { margin: 2cm }   P { margin-bottom: 0.21cm }  --&gt;  &lt;/style&gt;  &lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm; text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;História real originalmente escrita para&lt;br /&gt;a seção policial "No Esquema", da revista Tá na Cara!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;G&lt;span style="font-size:78%;"&gt;EANDERSON QUERIA EMOÇÃO&lt;/span&gt;, por certo. Só não sabia onde buscar. No estádio, nas tentativas amorosas, nas firulas do empreendedorismo? Necas. Achou por bem buscá-la na criminalidade. Quem sabe elas surjam com mais altivez. É isso – esse impetuoso dilema a respeito do que fazer, por que fazer, como fazer –, tudo o que se sabe de Geanderson até algumas semanas atrás. Dele e de seu parceiro, José Ricardo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt; Não há qualquer outro registro fácil desses dois sujeitos por aí. Eram dois anônimos. Até pegarem nas mãos um revólver calibre 38; assim se transformaram. Assim se viram revigorados diante da vida. Geanderson poderia comemorar tardiamente o 31° aniversário – ou adiantar o 32°. O Zé Ricardo pegaria apenas carona nessa aventura clandestina, por falta de perspectiva ou de oportunidades outras, talvez. Poderia ser também por opção própria, irmandade; só que no pueril ambiente da criminalidade, falar de confraria é remeter a conceitos desencontrados num idioma estranho; como tentar pronunciar o substantivo “saudade” em inglês ou francês. Isso explica porque era somente a falta – de perspectiva ou de oportunidades – que movia o Zé a acompanhar o Gé.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt; No final das contas, ele trocou uma falta por outra; agora provavelmente lhe falta a liberdade. Isso porque o duo, provavelmente muito desentrosado e sem ter lá o tempo necessário para ensaiar, deixou-se levar na primeira peripécia profissional no mundo do crime. Há quem diga que cometeram pequenos furtos, desses que ocorrem com pessoas solitárias em paradas de ônibus. Coisas de principiante.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt; Desta vez, foram ambiciosos: tentaram assaltar um ônibus. Vá lá que tinha pouca gente, o que em tese deveria lhes facilitar o serviço; não facilitou. Mal contava vitória o dueto após reunir uma pequena porém considerável quantia em dinheiro e celulares numa mochila falsificada da Nike, logo o sucesso lhes mandaria lembranças. Se eles anunciaram o assalto nas proximidades da Rua Chile e foram interceptados pela Polícia Militar nas proximidades da Rodoviária Velha como disseram todos os noticiários, isto significa que mal chegaram no fundo do ônibus - se é que ainda lá chegaram -, o estrago já estava feito. Quando viram os policiais, sequer reagiram. Isto é, o Geanderson ainda sacou a arma, mas mesmo com o 38 em punho, ele permaneceu inofensivo, feito um adolescente estático ao saber que se ferrou...&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt; É tudo e um pouco mais do que se sabe a respeito de Gê Garcia da Rocha.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-961801369301535583?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/961801369301535583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=961801369301535583&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/961801369301535583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/961801369301535583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/04/por-fora-do-esquema.html' title='Por fora do esquema'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6162884597971301899</id><published>2011-03-27T18:38:00.009-03:00</published><updated>2011-03-30T08:49:48.244-03:00</updated><title type='text'>Lançamento do livro Contos Subterrâneos foi um sucesso</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ontem lancei o meu primeiro livro, &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Contos Subterrâneos&lt;/span&gt;, depois de um duradouro e até tortuoso processo de produção que se iniciou com uma troca de emails com um velho amigo virtual e culminou com essa atividade no Sebo Cata-Livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-9wUNYpwRprA/TY-12NwAX2I/AAAAAAAAAY8/0_O6qVgc4gs/s1600/DSC00335.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 199px; height: 149px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-9wUNYpwRprA/TY-12NwAX2I/AAAAAAAAAY8/0_O6qVgc4gs/s400/DSC00335.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5588885605598650210" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A ideia do lançamento envolvia momentos de confraternização, com música, comida e bebida, e assim foi. Convidei meu amigo  músico Jael Barbosa (à esq. na foto) para preparar um repertório particular, trazendo clássicos e músicas próprias. Apesar de alguns contratempos com o amplificador, deu pra rolar um som desplugado legal, inclusive depois fizemos até uma jam com vários de nossos amigos tocando e cantando, como Felipe (à dir. na foto), que faz faculdade comigo, Diego, Darlan, amigos de sempre desde os tempos de ensino médio, e até eu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos pontos de destaque foi com a visita do vereador George Câmara (foto), que fez questão de comparecer mesmo em meio aos compromissos referentes à comemoração do aniversário de 89 anos de &lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-iwW60ugrX14/TZHGcOqQ8EI/AAAAAAAAAZc/zzGIH0H6coA/s1600/george.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 115px; height: 124px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-iwW60ugrX14/TZHGcOqQ8EI/AAAAAAAAAZc/zzGIH0H6coA/s400/george.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5589466800817500226" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;nosso partido (Partido Comunista do Brasil) e a outras atividades como o comparecimento num evento da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins. Sua presença demonstra o que todos já sabem: que ele é um dos poucos, talvez o único, vereador de Natal que dá respaldo a projetos culturais elaborados à revelia da grande mídia e das superproduções que geralmente as prefeituras promovem em festejos especiais. Durante sua presença no lançamento do Contos Subterrâneos, George e sua esposa dialogaram com o público e com os donos do sebo e apreciaram o musical por bastante tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-LdiSjaiivLA/TZCssE4UJtI/AAAAAAAAAZE/6f7h0pWpWMQ/s1600/DSC00340.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 218px; height: 161px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-LdiSjaiivLA/TZCssE4UJtI/AAAAAAAAAZE/6f7h0pWpWMQ/s400/DSC00340.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5589157010790950610" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente o sebo ficou apertado porque quando sugeri pra Vera, dona do recinto, que fizéssemos lá o lançamento, não havia ocorrido o incêndio na outra sede deles. Depois dessa catástrofe, boa parte do material de doação que receberam precisou ficar na sede atual, o que causou certo desconforto, sobretudo no momento de pico, mas foi contornável. Ao menos o lanche teve de sobra para todos. Depois da comida e dos autógrafos, voltamos ao som e ficamos lá até não sei que horas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mais, agradeço a todos que compareceram, ao pessoal lá da UFRN, do movimento estudantil, amigos dos tempos de escola, amigos virtuais, camaradas do Partido Comunista, alunos e aos que eu não conhecia. Todos os exemplares foram vendidos e já solicitei uma nova remessa pra Editora CBJE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebi convites para relançar os &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Contos Subterrâneos&lt;/span&gt; na Semana de Humanidades da UFRN em junho e na Expotec do IFRN em outubro. Aproveitarei as oportunidades e agilizarei esses relançamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O início das vendas pela internet começará no dia 15 de abril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-UXSAG_69mjc/TZCssmGGzNI/AAAAAAAAAZU/4EGpD2VqKs8/s1600/DSC00343.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-UXSAG_69mjc/TZCssmGGzNI/AAAAAAAAAZU/4EGpD2VqKs8/s400/DSC00343.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5589157019707165906" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Abraço especial pros parceiros Ivo Ávila e E. P. Freitas, os outros autores do livro, que estão na labuta pra levantar o nome de nossa obra lá no Rio Grande do Sul. O Ivo não segue muito a linha maldita que percorro junto com o Edu Freitas, mas tem uma escrita elegante e de inegável qualidade, dando destaque ao livro e agregando a ele elementos que se completam àqueles elencados nos outros contos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encerro essa postagem com o primeiro parágrafo do livro, parte do conto inédito Quarto com Duas Portas. Até a última página, sem falsa modéstia, posso afirmar que os leitores se depararão com textos de alta qualidade. O prenúncio de muitas outras coisas boas que virão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos próximos dias, o Literatura Vil voltará a seu ritmo normal, com contos inéditos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços a todos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   &lt;span style="font-style: italic;"&gt; Meu quarto é uma cápsula hermeticamente fechada.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não tem janelas, possui somente duas portas. A primeira dá &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;acesso ao corredor que leva à rua, a segunda não é utilizada e &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;vai dar sabe-se lá onde. Imagino que dê passagem a alguma&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;peça escura, mofada, cheia de pó e teias de aranha. Por algum &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;motivo não revelado, ou então já há muito esquecido, foi &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;condenada a passar o restante dos dias fechada. A imagem de &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;uma porta que nunca se pode abrir é realmente muito triste.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Talvez seja o retrato dos meus dias atuais.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6162884597971301899?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6162884597971301899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6162884597971301899&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6162884597971301899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6162884597971301899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/03/lancamento-do-livro-contos-subterraneos.html' title='Lançamento do livro Contos Subterrâneos foi um sucesso'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-9wUNYpwRprA/TY-12NwAX2I/AAAAAAAAAY8/0_O6qVgc4gs/s72-c/DSC00335.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-91594823652786344</id><published>2011-03-22T09:41:00.004-03:00</published><updated>2011-03-22T12:32:41.847-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-Cwtvvzkjybo/TYjAijvB0PI/AAAAAAAAAYw/wKAGgrOek4s/s1600/Lan%25C3%25A7amento%2521.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 462px; height: 355px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-Cwtvvzkjybo/TYjAijvB0PI/AAAAAAAAAYw/wKAGgrOek4s/s400/Lan%25C3%25A7amento%2521.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5586927037693677810" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Nesta semana, enfim ocorrerá o lançamento do livro &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Contos Subterrâneo&lt;/span&gt;s pela Editora CBJE, um sonho meio tortuoso, enfim realizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este livro reúne contos inéditos, com alguns textos revisitados. É enxuto e  traz em si o melhor do estilo consagrado aqui no blog e na literatura dos meus dois amigos, os gaúchos Ivo Ávila e E. P. Freitas, que foi o primeiro blogueiro que li, e o que me incentivou a começar a fazer literatura, muitos anos atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conheço pessoalmente nenhum dos dois, mas como admirador mútuo da literatura feita por eles, desenvolvemos esse projeto já concretizado. Eles lançaram em janeiro em Porto Alegre e já esgotaram todos. Estou lançando aqui agora. O início das vendas pela internet, caso os leitores do blog tenham interesse, começará em abril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lançamento exposto no cartaz será no Sebo Cata-Livros, ponto de encontro tradicional de artistas, intelectuais, estudantes e uma grande variedade de produtores da arte e do conhecimento potiguar. Sendo o principal sebo no qual me formei enquanto leitor, é uma honra poder fazer lá o lançamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo Jael Barbosa fará um pocket show, voz e violão, de repente talvez role umas jam sessions, uns saraus e coisas assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A entrada é livre; a quem quiser, as portas estão abertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-91594823652786344?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/91594823652786344/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=91594823652786344&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/91594823652786344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/91594823652786344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/03/blog-post.html' title=''/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-Cwtvvzkjybo/TYjAijvB0PI/AAAAAAAAAYw/wKAGgrOek4s/s72-c/Lan%25C3%25A7amento%2521.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1738740164135636578</id><published>2011-03-07T12:50:00.004-03:00</published><updated>2011-03-07T13:06:18.975-03:00</updated><title type='text'>Com um nó no estômago</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acordei no sofá, com as costas doendo, como sempre. Era o prenúncio de um mau dia, como são todos os outros dias. A TV estava ligada, e eu vi o viaduto por onde passo todo dia em direção aos trabalhos, faculdades e outros tormentos. O viaduto estava em segundo plano, em primeiro estava uma repórter bonita mas totalmente sem sal dizendo que o tempo estava nublado, mas que não choveria. Eu me levantei com muito esforço, sendo meu sofá bem rústico e duro, é péssimo para dormir... todo o corpo estava em cacos... peguei um copo de água e fui para a janela ver as pessoas passando na rua... fico olhando a rua em frente, os estudantes, os operários, as mães com suas crianças, todos seguindo em direção a algum lugar, seguindo até o fim da rua, seguindo até sumirem no horizonte, e eu quase morri nessa falta de perspectiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei um banho rápido e enquanto me vestia silenciosamente, o telefone tocou. O telefone residencial. Nunca havia passado o número para ninguém e ele agora estava tocando. Levei um susto, fiquei meio paralisado por segundos. Depois, ignorei. Continuei a vestir-me. Não queria atender. Não tinha nada a dizer, não queria ouvir nada, também não queria sair de casa. Por que era obrigado a atender essas exigências bobas? Tentei pôr mais pressa enquanto me arrumava, pois o telefone não parava de tocar e eu já estava incomodado. Mas antes que eu saísse de casa, ouvi o ônibus passando à frente. Foi-se rapidamente, e eu teria que esperar o próximo. O próximo, eu sabia, não passaria nos 40 minutos seguintes. Sentei-me no sofá com as mãos tapando o rosto... estava puto! Perdi a hora justo quando não devia... tinha uns exames de sangue para fazer. Tive que ligar para a moça do consultório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que deseja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero remarcar o meu exame de sangue para amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para amanhã não será possível, pois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, interrompi, quero remarcar para depois-de-amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também não será possível, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo bem, quando há uma data disponível?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, não há mais datas disponíveis. O doutor fará exames até sexta e entrará em licença até maio. Você pode tentar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não vou tentar mais nada, obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava agora com uma pilha de exames incompletos, e para tê-los todos teria que esperar até quase o segundo semestre... Horas e horas marcando consultas e fazendo exames de raios X para terminar nisso... Desisti. Como já estava com a necessidade de sair de casa para compromissos outros, como dar aulas, e precisaria me deslocar mesmo assim até o Centro, decidi ficar vestido como estava, mesmo que só fosse sair depois do meio-dia, portanto dali a umas quatro horas. Cochilei no sofá enquanto isso e pus o despertador para alarmar exatamente ao meio dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia, só dei duas aulas. Daria cinco, mas fiquei nas duas, já que o restante das turmas saiu antes da minha aula para participar de alguma atividade interativa fora da escola, e sendo assim fiquei livre mais cedo. Não sei se isso agradou ao meu dia. Era uma das últimas semanas que eu lecionaria; hoje já não sou mais professor, mas daria tudo pra dar aulas novamente. De qualquer modo, foi o jeito: saí de lá e fui para a parada de ônibus. Só que estava havendo uma passeata de uns servidores públicos, funcionários da Saúde, e estavam fechando a avenida pela qual os carros vinham. Como o trânsito estava desregulado, precisei pegar a condução em outro lugar. Escolhi uma outra parada, mas não tinha certeza de que o ônibus passava lá. Esperei dez minutos e saí. Fui para uma outra parada, onde esperei mais dez minutos e nada. Cheguei na Avenida Rio Branco, onde tem mais quase quinze paradas de ônibus, e eu tinha que adivinhar em qual delas o meu ônibus parava... Como vi que seria difícil, decidi aproveitar o tempo que estava no Centro para fazer algo. Fui à biblioteca do Sesc, ali por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apresentei minha carteira de sócio na entrada e fui procurar uns livros. Procurei, procurei e nada encontrei. Decidi ir para a mesa de revistas. Enquanto folheava lá algo sobre a rodada do Campeonato Brasileiro no fim de semana anterior, uma funcionária veio ao meu encontro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com licença, este é você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela perguntou me mostrando um formulário que continha meu nome, foto, dados e uma listagem de dois livros que eu tomara emprestado meses antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, sou eu. Apresentei minha carteira de sócio ao entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, senhor. É que há dois livros da biblioteca que estão emprestados a você, e estão atrasados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sim, um do Rubem Fonseca e um do... deixe-me ver, Ernesto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ernest. Ernest Hemingway.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é isso mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, eu mandei um email recentemente para saber a quantas andava a minha situação aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não obteve resposta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que não... Ninguém responde nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir, e dizem o que querem dizer. Ninguém mais sabe perguntar nada, assim como ninguém responde nada também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, veja bem, os livros não são seus e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ué, lógico que são! Sou eu naquelas histórias! Hemingway me roubou, roubou a minha história e a minha personalidade para fazer aqueles contos! Acredite, minha querida, se ama mesmo a Literatura, aqueles livros estão melhores comigo do que aqui esquecidos nessa biblioteca decadente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você tem dez dias para trazê-los, não digo mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sententicou e enfim me deixou em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que li todos os comentários sobre o futebol, a economia e os conflitos contemporâneos, saí, meio indisposto de continuar vagando, fui para uma parada de ônibus na qual sabia que meu ônibus pararia; para tanto tive que andar muito, cerca de meia hora. Peguei o ônibus e cheguei em casa, cochilei, bebi mais água, abri uns emails, li emails antigos, e percebi que havia muito mais emails ainda para trás... emails que nunca deletei em vários anos de uso ininterrupto de internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei então a ler e a deletar, e deletar, e deletar. Enquanto deletava ainda relembrava muitos, ainda via neles boas e más lembranças, sentia que estava estourando bolas de encher, preenchidas de emoção. Enquanto deletava, imaginava isso como uma versão moderna da coisa de queimar cartas, lê-las e jogá-las na lareira enquanto o rosto expõe faces de alegrias e decepções. Passei coisa de seis ou sete horas nesse rito, do fim da tarde ao início da madrugada, e já me sentia muito pesado por tanta carga emocional reavivada nesse momento - uma carga pesadíssima, registrada em doses homeopáticas, agora rememorada em escala industrial. Desisti de deletar os emails, só sobraram alguns poucos do passado. Estava querendo dormir, e fiquei com isso na cabeça. Reconhecia o meu rosto íntimo, dissimulado, de quem sai para a rua disfarçado com o próprio corpo. Pensei em refazer coisas, mas era impossível, a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo. Eu pensei nisso depois que li um deles, que escrevi há bastante tempo não lembro para quem e nem cheguei a enviar, ainda que fosse um email-resposta. Estava lá salvo na caixa de rascunhos do servidor. Em letras mal-formatadas, eu só adormeci depois de pensar bastante após reler tais palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;eu estava vendo e aprendendo algo sobre o escorpião, sobre a tendência regenerativa desse ser que se manifesta num impulso destrutivo, para reconstruir a vida permanentemente, e fiquei pensando nisso que você falou, que a vida é sempre um andar para a frente,mesmo que trôpego e cambaleante, e já não dá retorno possível para o passado. fica tudo se acumulando no altar do esquecimento. eu que só queria acordar sem esse nó no estômago. queria qualquer coisa doce, já que ando cada dia mais azedo. qualquer coisa que fosse como um deslumbramento ou um abraço. mas nada disso virá, a gente sabe. tudo se vai.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;que merda.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;até amanhã... quanto a depois, logo se vê.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1738740164135636578?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1738740164135636578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1738740164135636578&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1738740164135636578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1738740164135636578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/03/com-um-no-no-estomago.html' title='Com um nó no estômago'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6544352230076225970</id><published>2011-03-01T02:40:00.000-03:00</published><updated>2011-03-01T02:42:41.248-03:00</updated><title type='text'>A paz que me engana</title><content type='html'>Já vislumbrei a paz diversas vezes,&lt;br /&gt;já arrumei a mala e parti por meses&lt;br /&gt;com sentido fixo, em sua direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi o prumo e o passo, perdi-me todo.&lt;br /&gt;A paz que vi não era mais que engodo&lt;br /&gt;a me ludibriar, mera tapeação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reencontrei a tal paz anos depois&lt;br /&gt;e um novo dilema sobre mim se pôs:&lt;br /&gt;se valia a pena tentar segui-la novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas só uma coisa agora me vinha à mente:&lt;br /&gt;eu não queria me ver de novo enganado.&lt;br /&gt;Nessa vida, já não preciso de outro fardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o tempo passou e veja o que ocorre...&lt;br /&gt;Certas coisas parecem que nunca morre,&lt;br /&gt;como essa insistência dela em me flertar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora penso no que vale a pena, no preço da paz,&lt;br /&gt;penso no que preciso fazer pela virtude que ela traz,&lt;br /&gt;mas mais uma vez ela parece me enganar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu me retiro, prefiro ficar aqui distante,&lt;br /&gt;prefiro tentar fugir desse conflito delirante,&lt;br /&gt;e pretendo anunciar minha completa indiferença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém ela persiste e nunca pára, pois não pensa,&lt;br /&gt;a mim caberá resistir à sua recompensa,&lt;br /&gt;e eliminar o seu poder embriagante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6544352230076225970?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6544352230076225970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6544352230076225970&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6544352230076225970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6544352230076225970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/03/paz-que-me-engana.html' title='A paz que me engana'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-2784650236973636199</id><published>2011-02-18T08:59:00.006-03:00</published><updated>2011-02-19T08:04:47.126-03:00</updated><title type='text'>Viver é seguir uma trajetória autônoma de perdas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diz a minha única e coruja avó - dizia, aliás, quando ainda tinha lucidez suficiente para tecer afirmativas - que eu, quando criança ao ser questionado sobre que amigos eu convidaria para uma viagem de família, respondi com uma frase que depois viraria até propaganda do governo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Meus amigos são os livros, eu teria dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bem da verdade, não me lembro deste fato. As únicas lembranças que trago da minha infância são acusações idiotas dos outros moleques da rua e da escola, que, quando digladiavam entre si, tinham sempre uma saída para o conflito - era somente direcionar toda a culpa do que quer que fosse à minha inepta pessoa. Não é à toa então que não sinto saudades dessa molecada da infância. Porém, da infância em si, certamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é sobre minha infância que estou falando, e sim sobre livros. De fato, independente de meus lampejos retóricos, sempre fui um profícuo leitor, o que para mim não é motivo de orgulho, mas condição básica para exercitar a nossa tão mutilada inteligência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como minha mãe me ensinara a ler antes de começar a escola e eu aprendi a escrever "livro" antes de saber o meu nome (pois somente vim ter nome quando minha primeira escola exigiu o registro de nascimento; até os 4 anos eu não o tinha). Minha mãe sempre me fez ler, às vezes excessivamente. Isso não era muito bom. Ler Guerra e Paz com menos de doze anos me fez criar certa antipatia com os russos, somente suprida nas minhas depressões juvenis com Dostoievski, muito tempo depois. Já a antipatia com Shakespeare nunca consegui superar. Quase nenhum dos autores que minha mãe recomendou ficaram. Quando veio a hora, fui buscar outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha muitos lugares para buscar. Especialmente sebos. E de fato foi neles que me encontrei. No Sebo Rio Branco, no Sebo Traças, talvez no Sebo Vermelho. Mas o maior de todos, aquele que tinha o mais rico acervo, os mais carismáticos e inteligentes donos, o que oferecia ao ambiente sempre uma agradável música clássica a abençoar os ouvidos de quem lá fuçava quase diariamente, o que não se atinha a livros, mas tinha também quadros raros, LPs e várias antiguidades, tudo reunidos durante mais de 40 anos; isto tudo junto, somente se poderia encontrar no Sebo Cata-Livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá eu comprei muitas dezenas entre as centenas de livros que tenho. De Jack London a Arthur Clarke, de Marx a Freud, da literatura papa jerimum a obras sobre  a América Pré-Colombiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca fui no Sebo Cata-Livros para sair com menos de dois livros na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando consegui viabilizar a publicação do meu primeiro livro, o Contos Subterrâneos, eu sabia que a editora não pretendia organizar uma atividade de lançamento. Eu teria que buscar por minha própria conta. E quando pensei em um lugar, em mim não restou a mais incipiente dǘvida; esse lugar teria que ser o Cata-Livros. Fui meio receoso em fazer o pedido. O local, sempre muito bem frequentado, não tinha porque se propor a lançar livro de autores de primeira viagem. Mas a Vera, uma das donas, não estabeleceu o menor requisito. Não somente disse que cederia o espaço, como faria toda a ornamentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Vera é uma pessoa sempre muito sorridente, e eu pessoalmente não sou muito de sorrir mas sempre me dei bem com ela. Quando acertamos o lançamento, ela sorria especialmente por estar muito empolgada com a nova sede que haviam aberto, na Salgado Filho, num dos pontos mais movimentados da cidade. O Jácio, seu companheiro e idealizador do sebo, aparentemente mais sério contudo sempre disposto a um papo bom em qualquer nível, sempre escondido atrás de pesados óculos escuros não importando a hora do dia, continuaria lá, cuidando, junto do amigo Ramon, da sede mais antiga e mais tradicional, onde se pode estimar no mínimo umas 25000 obras de toda ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lançamento do meu livro ficou marcado para a sede nova do Sebo Cata-Livros. Esta sede, recém-inaugurada, detinha os livros mais novos, era mais organizada e mais central. Mas nem toda organização e centralidade supera a dimensão que tinha a sede original, que fica na Xavier da Silveira. Ali tudo se pode encontrar dentre o que já foi produzido. Em qualquer lugar, qualquer ramo da ciência, nunca se pode afirmar que ali se procurou algo sem encontrar. Pode ser difícil, mas afirmava categoricamente: tem tudo lá para se encontrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, porém, não posso mais afirmar isso. Os livros não estão mais à disposição. O próprio sebo é difícil de encontrar em meio às quinquilharias e ao odor permanente de papel queimado, que se sente muitos metros antes de chegar ao sebo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O incêndio que ocorreu na sede deste sebo, e do qual fui levado a tomar conhecimento pelo jornal, vendo, transtornado, a matéria, e ouvindo que tudo havia sido perdido - esta foi sem dúvida das maiores decepções que já tive na vida. Não pelas muitas coisas que eu ainda tinha deixado para procurar depois; mas pelas gerações de leitores, novas ou velhas, que perdiam um espaço singular demais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os livros que ali se acumulavam foram se encontrar com seus autores defuntos. Para nós que aqui ficamos é que os sinos dobram. Ficamos sem eles e sem nós mesmos, se sabemos que a maior forma de autoconhecimento é buscando-o por si próprio, na leitura voraz das coisas que te formam enquanto sujeito intelectual e enquanto pessoa. Essa tragédia de proporções alexandrinas, este incêndio que causou o maior desastre a um acervo, reunido em 40 anos, num estado tão carente de leitura em um país igualmente carente disso... que se há para fazer agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recomeçar tudo, diz a Vera, num misto de abatimento ainda latente pelo incêndio que ocorrera no dia anterior e de confiança pelo apoio recebido de intelectuais, artistas, jornalistas e os leitores menos importantes, como eu. Vamos lançar seu livro, ela me confirma, dizendo que não será mais somente o lançamento de um livro, mas o marco novo do Sebo Cata-Livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho desejo que eu carregava, que venho viabilizando ansiosa e cansativamente, e que pensava estar comprometido, nem a maior tragédia sofrida pela literatura nesta cidade conseguiu impedir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-ELvksghdyx8/TV-iYxs_VcI/AAAAAAAAAWk/d0x2DgEhgg4/s1600/363.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 275px; height: 183px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-ELvksghdyx8/TV-iYxs_VcI/AAAAAAAAAWk/d0x2DgEhgg4/s400/363.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5575353410250560962" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Dois momentos do Sebo. Jácio e Ramon socializando... e abaixo tudo isso destruído. Clque para ampliar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-plipruz5kJ8/TV-iZD8J89I/AAAAAAAAAWs/dM_jDyjVemc/s1600/fd.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 274px; height: 183px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-plipruz5kJ8/TV-iZD8J89I/AAAAAAAAAWs/dM_jDyjVemc/s400/fd.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5575353415146009554" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-2784650236973636199?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/2784650236973636199/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=2784650236973636199&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2784650236973636199'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2784650236973636199'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/02/viver-e-seguir-uma-trajetoria-autonoma.html' title='Viver é seguir uma trajetória autônoma de perdas'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-ELvksghdyx8/TV-iYxs_VcI/AAAAAAAAAWk/d0x2DgEhgg4/s72-c/363.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-380254890495045767</id><published>2011-01-27T11:32:00.004-03:00</published><updated>2011-01-27T14:19:40.951-03:00</updated><title type='text'>53 reais a menos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu gosto das pessoas. Gosto de observá-las. Só não sei interagir, e também não gosto. Em geral, as formas de interação são tão pueris que nossa melhor companhia de repente pode perder toda a graça. Mas é por gostar apenas da companhia das pessoas e não da interação que me dou bem em lugares como estádio de futebol, fila de banco, ônibus, trem. Imagino-me pegando um trem lotado - há tempos não faço isso -, e dando de frente com todo aquele povo estranho. Cada um no seu lugar, uns sentados, muitos de pé, crianças chorando, mulheres com saco de compra, homens oferecendo lugares a idosos e grávidas e eu lá, no meu silêncio, observando tudo, sem que ninguém precise me falar - e esperar que eu fale de volta - nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que o lugar que mais gosto é o último banco do ônibus. Quando me sento ali, tenho uma visão panorâmica de todo o interior da condução, posso observar a todos, ainda que com as limitações daquele ângulo de vista, e sou também observado por aqueles que vão descer, mesmo que por lapsos de menos de um segundo. Todas as vezes que preciso me recolher em um lugar, o lugar que escolho é sempre nesse último banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vou para algum jogo de futebol acompanhar o meu time, o ABC, não é diferente: gosto de ir de ônibus. Gosto da expectativa da vitória dentro de campo aliado ao prazer de ir observando as outras pessoas que estão no ônibus. Gosto de curtir o bom resultado ou amenizar a dor da derrota bisbilhotando os hábitos alheios, no retorno de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na semana passada, chovia muito e era noite; se eu quisesse ir para o amistoso internacional do ABC contra o River Plate, não poderia ser de ônibus, pois não tem mais ônibus depois das 23h00.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saquei então a minha moto e me dirigi ao Frasqueirão. A chuva era intensa, muito mais do que eu esperava. Somente quando deixei a moto no estacionamento é que ela se elevou a tal ponto que eu mal conseguia me movimentar. Oh chuva para causar desgraças, será que não me permitirá nem chegar nas arquibancadas?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com muito esforço alcancei a arquibancada e lá assisti, mesmo debaixo da tempestade, uma partida meio sem graça. A chamada do evento engrandecia o que ele era de fato. Mas nunca se pode esperar um grande jogo da primeira partida do ano. O estádio parecia apenas metade cheio. As outras milhares de pessoas estavam se acotovelando debaixo das arquibancadas para se proteger da chuva. O primeiro tempo terminou sem gols. No segundo eu já estava trêmulo, apesar de a chuva ter diminuído. Mas quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o primeiro. Quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o segundo. Quando pensei, o River já estava marcando o terceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gosto de ir embora antes do jogo acabar, mas essa soma de fatores foi determinante para me fazer tomar rápido o caminho de casa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que no estacionamento a moto não queria pegar. Não adiantou eu tentar por dezenas de vezes. Não pegou. Saí empurrando, mesmo debaixo da chuva. Queria ver se fazia ela pegar no tranco, correndo. Só que ainda chovia, a pista estava cheia de água e havia muitos carros estacionados e outros saindo do local do jogo. não tinha condições de pegar no tranco. Pensei que podia ser a gasolina em falta. Levei no posto que fica em frente ao estádio e abasteci. Nada. Um amigo chegou e viu meu problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será o cachimbo? Vela encharcada? Liga o afogador, de repente pegue, disse ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui tentando dando uma sacada em cada ítem, mas não resolvia. E não tinha mecânico para levar, sequer eu tinha como sair debaixo daquele pé d'água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento, ouvi uma gritaria da torcida no estádio. O ABC havia marcado o primeiro, eu sei. Mas nem comemorei. Apenas sentei e lá fiquei como se a solução dos problemas me fosse cair do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me dei conta, já havia bem menos gente pelas redondezas. O jogo já havia terminado há tempos. Deixei a moto ali mesmo, no posto, ciente de que no dia seguinte ligaria para o meu tio e lhe repassaria uns trocados com a mais límpida convicção de que ele iria fazê-la funcionar e descrever acertadamente o problema para que nunca mais venha a se repetir. Sendo assim, não havia mais nada a fazer. Iria caminhando para casa, até talvez aparecer um táxi. E apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai pra onde?, perguntou o taxista com o carro em lento movimento, seguindo minha caminhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parque Industrial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde fica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto do aeroporto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem quanto aí?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15, 20... sei lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tem mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais quanto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei lá, bem mais. O aeroporto é longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entra, se tiver mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do carro, pude ver o teor da chuva. Todo o trajeto usual que eu fazia estava completamente alagado, e a BR 101 havia simplesmente desmoronado por quase toda a via. Essas circunstâncias fizeram o taxista dar muitos arrodeios a mais para chegar ao meu destino. A conta deu exatos 53 reais. Eu não tinha tudo isso no bolso. Quando cheguei em casa, fui no quarto e catei umas últimas notas pra fechar a conta. Repassei a grana, ele sorriu e se foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora a chuva já era parca e rala, suficiente apenas para que se pudesse ouvi-la caindo sobre os telhados, a pavimentação e as poças. Estava escuro, e na rua somente os postes me faziam reverência em seu silêncio estático, luminoso, molhado demais. Eu fiquei ali parado até o táxi virar a esquina, e ainda continuei alguns segundos a mais, inerte, pensando nos impropérios daquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dessa vez eu nem tive o último banco do ônibus para me recolher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-380254890495045767?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/380254890495045767/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=380254890495045767&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/380254890495045767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/380254890495045767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/01/43-reais-menos.html' title='53 reais a menos'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6178677597658008141</id><published>2011-01-15T08:48:00.003-03:00</published><updated>2011-01-15T09:02:43.005-03:00</updated><title type='text'>Versos otimistas como não sei fazer</title><content type='html'>Hei, eu a chamei,&lt;br /&gt;você me viu,&lt;br /&gt;eu lhe mostrei, você abriu,&lt;br /&gt;dei um livro e um abraço,&lt;br /&gt;"A Conquista do Espaço".&lt;br /&gt;Mas não me satisfaço:&lt;br /&gt;Faço-lhe mapas e traços,&lt;br /&gt;corto papéis em pedaços,&lt;br /&gt;brincamos e imaginamos&lt;br /&gt;e nesses descompassos&lt;br /&gt;nós nos entrosamos.&lt;br /&gt;Lembro como se fosse agora,&lt;br /&gt;quando, onde você ainda mora,&lt;br /&gt;brincávamos até cansar,&lt;br /&gt;e íamos até o mar&lt;br /&gt;contar, na praia, histórias&lt;br /&gt;criando ritos e glórias&lt;br /&gt;nas margens do oceano&lt;br /&gt;que era nosso cotidiano.&lt;br /&gt;A praia ficou para trás,&lt;br /&gt;pois já não a levo mais;&lt;br /&gt;fico na tola esperança&lt;br /&gt;de que essa vaga lembrança&lt;br /&gt;supra a minha vontade&lt;br /&gt;de ir matar a saudade&lt;br /&gt;de visitá-la e de levá-la&lt;br /&gt;sem quaisquer troços ou malas&lt;br /&gt;praqueles longos passeios.&lt;br /&gt;Mas é que agora, creio,&lt;br /&gt;não posso mais fazer nada&lt;br /&gt;por você, minha afilhada;&lt;br /&gt;porque estamos tão distantes,&lt;br /&gt;diferente de como era antes,&lt;br /&gt;que já não posso acolhê-la,&lt;br /&gt;espero apenas poder vê-la&lt;br /&gt;porque às vezes a tristeza&lt;br /&gt;nos deixa sem qualquer defesa.&lt;br /&gt;Mas não estou triste, prometo,&lt;br /&gt;tenho em você um amuleto&lt;br /&gt;que recheia minha memória,&lt;br /&gt;que dá sentido à minha história,&lt;br /&gt;que melhora um pouco tudo isso.&lt;br /&gt;É uma espécie de compromisso.&lt;br /&gt;E desde quando eu nasci&lt;br /&gt;só agora de fato entendi&lt;br /&gt;que em tudo reside uma lógica;&lt;br /&gt;eu tenho enfim sobrevivido,&lt;br /&gt;tenho buscado algum sentido&lt;br /&gt;que ainda não encontrei,&lt;br /&gt;mas ainda assim eu sei&lt;br /&gt;o que você sequer imagina:&lt;br /&gt;mesmo que haja um caminho certo&lt;br /&gt;essa busca nunca termina.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6178677597658008141?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6178677597658008141/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6178677597658008141&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6178677597658008141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6178677597658008141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/01/versos-otimistas-como-nao-sei-fazer.html' title='Versos otimistas como não sei fazer'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7737594727993992136</id><published>2011-01-11T14:45:00.002-03:00</published><updated>2011-01-11T14:55:33.074-03:00</updated><title type='text'>A primeira noite</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já eram 23h e tantos e ele ainda não sabia para onde ir aquela noite. O centro da cidade estava esvaziado, e só se fazia presente a incômoda fetidez de mijo e cerveja que toma conta do lugar à noite. Embora a hora denotasse que já estava ficando tarde, parecia-lhe que muita coisa ainda aconteceria nos instantes seguintes. Mas ele não queria passar &lt;span style="font-style: italic;"&gt;aquela noite&lt;/span&gt; na rua. Quisesse ou não, ela tinha algo de emblemático, de simbólico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de vaguear ante as pequenas lojinhas das ruas-beco que se acotovelam entre as principais vias da Cidade Alta, encontrou um hotel asqueroso, mas que oferecia a comodidade pela qual poderia pagar. "Ao menos uma TV ou um radinho deve ter", imaginou, consolando a si mesmo. O salão do hotel, com um balconista e outros quatro caras ao redor de uma mesa jogando cartas, era uma ebriedade só, e lhe trazia à sua memória os filmes vagabundos aos quais costumava assistir na infância - aquele lado escuro da vida, que nunca pensou em experimentar de fato. No entanto, o tempo corria e ele não estava chegado a reflexões. Pegou a primeira chave que o estonteado atendente lhe oferecera e foi ter com o primeiro quarto desconhecido que o acolheria. Lá, nada de radinho ou TV. Apenas uns beliches sujos, quase nenhum com estofado. Da janela, que ficava a quatro andares do chão, o que dava uns quinze metros de altura, sentia o forte vento frio que invadia o quarto e contemplava a decadência dos muitos mendigos, entorpecidos nas calçadas pequenas daquelas ruelas. A maioria das pessoas agradeceria por ter uma cama para dormir, ele pensou. "Sou um ingrato filho-da-puta".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante toda a vida, esperou por aquela noite. Contudo, não imaginava que passaria como um mundano, num hotel nojento qualquer. Não chegou a chorar; e se o fizesse não seria por saudades nem por desesperança. Aconchegou-se da forma que pôde, e, pela noite, leu um livro de Allen Ginsberg, mais um inconseqüente doutros tempos que o ensinara a desprezar a boa-vida vazia de sentido que recebera até ali. Apesar da leitura o absorvê-lo por um tempo, não agüentava o tormento daquelas horas e retirou da mochila uma garrafa de vinho pela metade, que o ajudaria a se aquecer e divagar o restante da madrugada, bem percebendo que estava longe de sentir sono. A certo instante, somente quando precisou do banheiro, foi que ele se deu conta de que não estava num suíte - não havia suítes ali, afinal. Caminhou até o fundo do corredor, mas o pouco de dignidade que guardava - que bobagem... - o impedia de usar o banheiro coletivo repugnante que era dividido entre todos os hóspedes do andar, composto de bêbados, prostitutas e, ocasionalmente, um ou outro adolescente fugidio, "igual a você", conforme lhe dissera um dos embriagados que conhecera na entrada do hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo se passou num misto de alegria e tristeza - mas uma tristeza jubilosa, quase uma constatação de que estava vivendo um lado mais sincero e honesto da vida, tal como ela deveria ser de verdade no seu imaginário. Estava, no final das contas, satisfeito. Nos vinte anos anteriores, fora sempre tido como um sujeito esquisito e ermo, mas os adjetivos inglórios até então recebidos pouco significavam agora. Já não pensava mais em nada depois de alguns tragos de vinho, quando reparou num crucifixo que ornamentava, solitário, uma das paredes do quarto, entre rabiscos de caneta outrora traçados por hóspedes canalhas e metidos a poetas. "Aprendi com você a ser um errante", foi o que disse, olhando para o crucifixo. Ou parece que disse, não tinha certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua paz acabou quando bateram na porta, às 4h e poucas, enquanto filetes de luz matinal já começavam a iluminar o ordinário ambiente. Embora ele se mantivesse acordado, estava absorto demais para ter consciência disso. Estava drogado, diriam, como sempre disseram, os lugares-comuns que povoaram sua vida. Mas enfim percebeu que havia mesmo alguém forçando a porta no corredor. Quem seria? Ele não imaginava. Bem poderia se tratar de apenas um beberrão tentando entrar no quarto errado, ou até um serviço de quarto, mas isto ele sabia que não havia naquele antro. Talvez alguém que, após alguma procura, descobrira o seu paradeiro. Tentou não dar muita atenção, entretanto as batidas não cessaram. Num dado momento, contudo, sem entender muito bem o porquê e sem que se preocupasse com motivos ou razões, desceu-lhe uma minúscula lágrima pelo rosto, e um sorriso indolente desestatuou seus lábios. Pegou uma caneta que tinha no bolso para pôr uma sentença na parede, como tantas outras que já estavam ali expostas. Ele se viu quase completamente sem o controle dos próprios nervos, e, com muito esforço, escreveu: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida&lt;/span&gt;. Dito isto, não tinha muito mais a fazer. Então se dirigiu à janela. É bem verdade que quinze ou vinte metros nem sempre chegam a ser fatais, mas ele estava decidido a pular de cabeça para baixo, para não ter muitas chances. "Nunca tive segundas chances", pensou, no fim. "Seria muita ironia se tivesse agora".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7737594727993992136?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7737594727993992136/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7737594727993992136&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7737594727993992136'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7737594727993992136'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2011/01/primeira-noite.html' title='A primeira noite'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-3940461778229647176</id><published>2010-12-19T02:59:00.005-03:00</published><updated>2010-12-19T03:25:11.530-03:00</updated><title type='text'>Diálogo existencialista (peça incompleta)</title><content type='html'>&lt;div  style="color: rgb(51, 0, 153); text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Eu estava bebendo conhaque e olhando Júpiter pela janela com a luneta que havia comprado recentemente. Gabriela estava deitada na cama, fora de minha vista e de minha audição; mas como ela quisesse conversar, então me voltei em sua direção.)&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;GABRIELA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Você gosta de tristeza?&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Eu me fiz de desentendido.)&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;O livro? Um dos melhores que já li.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Ela riu. Depois ficou com um pequeno sorriso, mas meio sem querer perguntar novamente.)&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Não é isso não...&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;O sentimento, é?&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Sim.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Não necessariamente  gosto... Convivo com ele.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Acho que a vida é  triste. &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Os momentos de  alegria são meros lapsos.&lt;span style="font-style: italic;"&gt; (dei uma boa parada, coloquei mais um pouco de conhaque e bebi antes de continuar a falação.) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;A nossa condição existencial é a solidão, e não nos conformamos com isso. Porque fisiologicamente somos um animal social, mas existencialmente, somos solitários.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Puxa. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;(parecia surpresa, mas não demonstrava ter nada mais a dizer.)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Continuei como se não a tivesse ouvido.)&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;... Então, acho que quando se adquire mais percepção a respeito das vicissitudes, os dilemas que a vida oferece, cada vez mais se entende que tudo o que conhecemos por reconhecimento, conquista, é pueril e simplório demais, e não sustenta nenhum senso de grandeza. Sendo assim, é uma sensação (a conquista, a vitória, a alegria) que surge e tende a esmorecer rápido, antes que nos demos conta disso... Isso só perdura naqueles que ignoram o lado obscuro da vida.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Acha mesmo?&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Fui sentencioso.)&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Acho sim.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Silêncio, por alguns minutos. Gabriela estava sentada com as pernas curvadas sobre a cama, então deitou e se cobriu; eu estava bebericando e olhando-a fixamente. Como se tivesse se lembrado de algo, ela virou o rosto para mim rapidamente, mas ainda ficaria alguns segundos calada.)&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca parei pra pensar sobre essas coisas.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Eu sempre parei, era só o que fazia... não fazia mais nada, afinal. Agora continuo não fazendo muita coisa, eu me acostumei com essa condição.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Ela fazia murmúrios, como se procurasse as palavras.)&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;E antes de pensar tanto sobre essas coisas, você era mais alegre?&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Não. Por isso, eu achava que havia algo errado comigo. Sentia-me desprezado, injustiçado, relegado... Achava que as pessoas eram más e esperava sempre algo delas que nunca me ofereciam, em momento algum.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Continua.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Depois, entendi que  não se tratava disso. &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Ainda é estranho  aceitar, às vezes. Há ressentimentos e coisas assim.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Mas eu passei a  entender melhor o porquê de as pessoas agirem dessa maneira. &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;De serem  indiferentes a outras, de serem insensíveis, e tal...&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;São motivos distintos?&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;De modo geral, o motivo é o mesmo... aí cada pessoa tem suas particularidades, que só se diferenciam do todo em alguns casos específicos...&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GABRIELA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Entendi.&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic;font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;(Voltei a olhar para a janela. Júpiter ainda estava no campo de vista. Enchi o copo com conhaque e dei uma última olhada para Gabriela. Ela estava me olhando, mas como se não estivesse me vendo, como se eu fosse transparente. Fiz-lhe uma última pergunta.)&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;Uma grande bobagem tudo isso?&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:verdana;font-size:100%;"  &gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div  style="font-weight: bold; color: rgb(51, 0, 153); text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0); font-style: italic; font-weight: normal;font-family:georgia;font-size:100%;"  &gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;(Não me lembro da resposta&lt;/span&gt;.)&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-3940461778229647176?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/3940461778229647176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=3940461778229647176&amp;isPopup=true' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3940461778229647176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3940461778229647176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/12/dialogo-existencialista-peca-incompleta.html' title='Diálogo existencialista (peça incompleta)'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-8198457838028534397</id><published>2010-12-10T04:04:00.006-03:00</published><updated>2010-12-10T05:56:11.445-03:00</updated><title type='text'>A estagiária</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uns meses atrás, quando a minha moto andou encostada devido a uma conjunção de pequenos fatores, eu teria que ir ao trabalho e à faculdade de ônibus. De certo modo, havia algo de positivo nisso, pois me permitia ter um mínimo de relação com outras pessoas, coisa que já não tinha mais, uma vez que nos dias comuns, em que uso meu próprio transporte para ir a meu destino, praticamente as únicas pessoas com quem converso são alunos e professores da escola onde dou aula, colegas e professores da faculdade em que estudo e atendentes de bancas de revista, de lojas, de padarias e coisas assim;  a maioria destas relações, como se vê, regida pela insossa relação profissional-cliente, uma das coisas que mais detesto, tanto estando eu na situação do profissional como do cliente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi pegar o ônibus em três horários diferentes. Nas segundas e quartas, eu pegava o ônibus ao meio-dia na ida e às 22h00 na volta. Nas terças e quintas, eu pegava o ônibus às 13h00 e voltava às 23h00. Nas sextas, o horário era flexível, pois eu dava apenas um horário de aula, e como não havia faculdade nesses dias eu voltava cedo, geralmente ainda no final da tarde, de maneira que não pegava ônibus no mesmo horário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ônibus de meio-dia, certa vez ao meu lado sentou uma mulher bastante imponente. Eu estava no banco da janela e ela no do corredor. Era uma mulher grande, balzaquiana, de quadris largos, o que fazia com que, quando ela se sentasse, me imprensasse, deixando suas pernas bem coladas na minha. Como o ônibus nesse horário lotava rapidamente, aos poucos a mulher era obrigada a imprensar-se ainda mais sobre mim, o que gerava também uma reação contrária, caso contrário eu não teria sequer lugar pra sentar. A mulher passou a viagem toda falando no telefone até que enfim chegasse seu ponto; quando ela decidiu descer, um cara sentou em seu lugar e me puxou o braço pra falar algo que não entendi e pedi que repetisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostosa, a Marta, essa mulherona que tava aqui do teu lado, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sim. Na verdade, não a notei muito, eu falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não notou?! Ela tava praticamente se oferecendo pra você. Ela é a dama do lotação versão Águas Claras, disse o cara, referindo-se ao conjunto habitacional em que ela morava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem notei mesmo, quem sabe na próxima...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu não pode marcar bobeira assim, rapá!, ele dizia, como se fôssemos velhos conhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me fale você, eu disse, tentando inverter o interrogatório. Que sabe dela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto ele falava eu olhava pela janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, uma terça-feira, eu saí de casa às 13h00. Nesse horário, o ônibus nem sempre lotava; frequentemente o banco ao meu lado ficava vazio. Eu ficava reparando ora no trajeto que passava irreversivelmente lá fora do ônibus, ora nas pessoas dentro dele, estudantes,  vendedoras e coisas assim. Uma garota de feitio comum em particular chamava a atenção por ser bastante comunicativa, pelo visto conhecia bastante gente que pegava ônibus naquela hora (sempre a via falando com alguém). Notei pela sua farda que trabalhava na Companhia de Águas e Esgotos. Eu reparava nela como reparava nas outras garotas, às vezes prestando alguma atenção, mas sempre distante, despretensioso, como se as observa num romance de Scott Fitzgerald.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma rara ocasião, essa garota sentou ao meu lado. Depois de poucos minutos de viagem, perguntou a mim as horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... são 13h15, eu falei, sem olhar para o relógio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem olhou para o relógio, ela disse, estranhando o fato de eu dizer a hora diretamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu relógio estava parado fazia alguns dias. Precisava levar em algum relojoeiro. Mas por força do hábito eu sempre o punha no braço, mesmo assim, inutilizável. Então tentei explicar a situação de alguma maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, meu relógio parou agora há pouco, notei só depois que saí de casa, falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso ver?, ela perguntou. E ao notar a data que marcava no relógio, disse mas ele parou há três dias, pelo menos é o que se vê aqui na data.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, não ligo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não liga?, ela insistiu. Ela ria enquanto questionava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Relógio pra mim é mais um mero acessório, apenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se fez algum silêncio por um tempo. Até que eu retomei a conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você trabalha na Caern, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sabe?, ela perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já notei pela sua farda em outros dias (ela não usava farda nesse dia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sim! Sou estagiária de lá, disse efusivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começamos a prosear sobre Caern e outras coisas. Quando eu disse que havia sido aprovado no concurso para trabalhar nessa companhia, ela havia ficado particularmente mais interessada na conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim os dias se revezavam. Em uns eu falava com o rapaz que sentava ao meu lado, que se chamava Martins. Era um mauricinho, fora nossa idade semelhante nada de comum entre nós, mas a conversa às vezes fluia bem. De modo geral, falávamos de mulheres; aliás, quase sempre era ele quem falava, oferecendo histórias mirabolantes, cada uma com acessos de ousadia de sua parte na sedução de garotas que eram dignos de um Casanova. Pelo menos, assim parecia; nos outros dias, eu falava com essa garota que ocasionalmente sentava ao meu lado e íamos sempre conversando, que se chamava Luziana. Ela era bonita, da minha altura, tinha uns 18 anos e isso era visível na sua pele clara e delicada ornamentada por longos cabelos bem escuros. Seu sorriso de covinhas chamava atenção, até a mim que não ligo muito para sorrisos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um certo dia o Martins, que parecia saber coisas de todas as garotas do bairro, entoando sempre longos discursos nos quais eu nem sempre prestava atenção, falou por acaso sobre a Luziana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como assim, você conhece a Luziana?, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que conheço! A propósito, ela bem que gosta de caras assim como você, com esse ar astuto, metido, professoral, completou, meio ironicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes eu converso com ela no ônibus das 13h00.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Invista nela, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não liguei muito para o que ele havia falado. Porém, dias depois, a Luziana me convidou para uma festa que haveria na Caern. Era aniversário da empresa e a festa seria aberta para a comunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venha, você vai gostar, aproveita e vê um pouco como é o ambiente lá, dizia ela, insistindo para que eu fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo, eu irei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Martins ficou especialmente interessado quando falei do convite da Luziana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bote quente!, ele falava, imperativamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse período, eu já havia consertado minha moto, mas continuava indo ao trabalho de ônibus só para manter essas prosas cotidianas. Só que para a festa da Caern em particular, não fui de ônibus. A Luziana não entendeu o fato de eu ter ido de moto, provavelmente achou num primeiro momento que ela fosse emprestada de alguém. Havia bastante gente na festa, como havia bastante comida e bastante bebida. Depois de passarmos umas duas horas lá, a Luziana deve ter cansado do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos sair daqui?, ela pediu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abandonamos o recinto. Como eu estava de moto, saímos passeando pela cidade. Antes do final da tarde, a Luziana estava quase implorando para vir à minha casa, e eu mesmo a contragosto - nunca trago ninguém para cá -, acatei. Fizemos sexo por várias horas e ficamos de papo furado outras tantas - sexo e papo, aliás, sempre interrompidos por telefonemas de sua mãe e justificativas pueris da parte da Luziana -, e eu a deixei em casa por volta da meia noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você pensa depois de transar com alguém?, ela me perguntou na hora da despedida, já em frente à sua casa. Sorria, como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqui a quantos anos será a próxima vez?, eu pensei. Mas não falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso na verdade nunca foi uma preocupação minha. A depender de mim, aquela noite nem teria existido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dessa ocasião, sempre que a Luziana me encontrava no ônibus, pressionava mais para sairmos outras vezes. Aliás, ela sempre pressionou, desde o princípio. A única coisa que eu queria era uma prosa cotidiana; ela queria provavelmente um namorado novo e uma transa a cada dois dias. Exigências demais para um sujeito sem saco pra nada disso como eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que na semana que vem em diante não pegarei mais o ônibus, eu lhe disse, o que não a agradou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou trabalhar de moto, falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não entendi. E por que você está indo de ônibus todas essas semanas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moto estava quebrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas faz dias que você consertou!, disse a Luziana. Ela parecia gradativamente mais irritada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, só que preferi continuar indo de ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus, que maníaco é você?! Imagine como deve ser louco um cara que usa relógio parado como acessório e anda de ônibus pra descolar garotas!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí por diante, os seus comentários seriam ainda menos simpáticos. Apesar disso, ela ainda me telefonou uma ou outra vez, bem esporadicamente. No entanto, não demoraria a me esquecer em definitivo; é provável que outro cara já houvesse entrado na sua rota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa das últimas viagens de ônibus que fiz ao meio-dia, encontrei o Martins, com quem não falava há algum tempo. Ele andou com atestado médico, então não havia ido trabalhar naqueles dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ei, mas e a saída com a Luziana??, ele perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, nada, não rolou nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como assim nada?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem um boquetezinho?!, ele insistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah meu irmão, você é muito mole, muito sem futuro. Quer saber? Vou é parar de falar contigo, tava me deixando mal, fazia um tempão que não comia ninguém, foi só ficarmos distante esses últimos dias que eu fiquei com duas morenaças!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei se ele falou tudo isso ironicamente, mas decerto tornou bem mais fácil o fim do contato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana seguinte voltei a usar minha moto para ir ao trabalho e à faculdade, e ela até hoje não quebrou mais. Melhor assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-8198457838028534397?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/8198457838028534397/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=8198457838028534397&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8198457838028534397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8198457838028534397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/12/estagiaria.html' title='A estagiária'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-205457794355848990</id><published>2010-11-22T23:59:00.005-03:00</published><updated>2010-11-23T01:27:08.159-03:00</updated><title type='text'>Anoitecer na estrada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu tocava adiante na estrada, vendo somente os raios de sol cortarem o tronco das árvores que se punham em sequência como se fosse uma cortina natural, situada ao longo do meio fio, fazendo um jogo de luzes e sombras que desenhavam formas bastante peculiares no asfalto e que ganhavam um visual bem singular quando visto por detrás de meus óculos escuros, e a tudo isso eu cortava ao mesmo tempo em que sentia a brisa pincelando meu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o final de uma tarde de verão e eu estava viajando de moto com a viseira levantada, em algum lugar do norte de Alagoas, num trecho não muito movimentado, permeado de estradas sinuosas e pequenos morros cobertos por uma vegetação verde e litorânea, no qual o único sinal de movimento além dos meus sobre a moto eram treminhões que levavam carregamentos pesadíssimos para os latifúndios da região, e, talvez, um ou outro mochileiro de bicicleta viajando no sentido contrário. Eu pretendia passar a noite em Maceió; ficaria alguns dias por lá, mas durante a viagem de moto imaginei que, em algum momento, eu tivesse pego o caminho errado, pois estranhara o fato de seguir já há muito tempo naquela estrada enfiada num cenário meio paradisíaco, sem jamais encontrar qualquer vestígio da capital alagoana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu trajeto, eu procurava apenas uma placa que indicasse Maceió a XXX quilômetros, mas não encontrava. As únicas placas que apareciam no correr da estrada diziam em letras grandes CUIDADO COM OS TREMINHÕES.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um certo momento, notei que atrás de mim vinha outro motociclista. Bem que pretendi solicitar ajuda, mas ele vinha numa moto superesportiva e passou por mim em tão alta velocidade que num espaço de poucos segundos eu já o perdera completamente de vista, a ponto de duvidar de mim mesmo se alguém havia passado por mim naquele instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o sol descia ainda mais, eu encontrei um garoto encostado ao pé da rodovia, mexendo numa bicicleta. Parei ao seu lado e lhe perguntei para que lado ficava Maceió, se eu estava seguindo no sentido correto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maceió?, ele perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha uns 12 anos, mas provavelmente não fazia a menor noção de para que lado ficava Maceió.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu segui adiante, ainda na esperança de encontrar placas que indicassem a distância ou o sentido para o qual eu devia seguir para achar Maceió, mas todas as placas que apareciam se atinham a me avisar CUIDADO COM OS TREMINHÕES.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu andasse já há tanto tempo e naquela estrada deserta não houvesse posto de gasolina, esperei chegar a primeira cidadezinha e decidi que dormiria nela, para pegar a estrada e continuar a viagem na manhã seguinte. A cidadezinha de fato apareceu, com feitio aconchegante. Ao lado de um barzinho que ficava às margens da rodovia tinha um motel, pensei em dormir ali. Antes de ir no motel, entretanto, fui no bar, queria beber alguma coisa. Entrei, sentei no balcão, e fiquei conversando com o atendente. Era o próprio dono do bar, que inclusive, no decorrer da conversa ofereceu gasolina que ele tinha estocado para que eu pudesse prosseguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é matador?, perguntou-me um bêbado barbudo da mesa em que estava sentado, interrompendo minha conversa com o dono do recinto. Eu não ouvira a pergunta, ou não me houvera dado conta de que havia sido feita para mim. Somente quando ele repetiu - você é matador? -, eu virei o rosto e notei que era mesmo comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que a pergunta?, questionei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa dessas roupas aí, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu usava uma calça jeans meio surrada, e um colete de motoclube, além de um bracelete punk. Usava também uma bandana, mas havia tirado logo que tirei também o capacete. Provavelmente corria para ele a lenda de que motociclistas nesse estilo eram assassinos e saqueadores. Mas eu estava sozinho, por isso ele e os demais se sentiam seguros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, eu lhes disse. Não sou matador, sou escritor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escritor? O que faz um escritor?, perguntou outro cara que não cheguei a ver, apenas ouvi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho mais fácil você ser matador do que escritor, sentenciou o barbudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que seja, eu falei. Mas eu sou escritor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu também acho mais fácil ser matador, disse uma voz feminina que se aproximou de mim, pelo outro lado, sem que eu notasse sua chegada. Apenas balancei a cabeça para ela. Era uma morena de pele clara e cabelos negros mas com umas mechas loiras, bem baixinha, com roupas que denunciavam o que ela fazia; era nitidamente uma mulher muito usada pelos caras da região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mora aqui nessa cidadezinha?, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durmo no motel, ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dorme no motel?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durmo, mas não apenas durmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sim, eu falei. E comecei a pensar na ideia de gastar uns trocados com aquela miudinha. Mas quando dei-lhe uma vista geral, notei algo que não havia visto na primeira vez, que eram as suas pernas expostas; eram até bem grossas e ficavam realçadas pelo shortinho que mais parecia de pijama, mas que, pelo que se via, há muito tempo não haviam sido depiladas. Quando eu olhava melhor, ela bem poderia ser confundida com pernas de homem. Aquilo não me animou muito. Ela continuou dando mole e pedindo algumas bebidas que prontamente paguei, mas achei melhor não ficar naquela cidade, sob risco de passar a noite sendo perseguido por essa baixinha peluda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí do bar, ouvindo pela metade os comentários da mulher e do bêbado barbudo e fui em direção à minha moto, que estava rodeada por umas três ou quatro crianças que nunca haviam visto motos naquele estilo custom; provavelmente achavam que era uma moto de brinquedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 real se alguém me disser quanto tempo falta pra Maceió nessa direção, ofereci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maceió?? Maceió fica praquele lado!, disse um dos moleques, apontando no sentido contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só então me dei conta de que estava o tempo todo viajando no sentido contrário. Que grande merda, pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demoro muito para chegar lá? É longe?, ainda perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É quase longe, disse um deles. Acho que entendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei rumo de volta, e a essa altura o sol já houvera se posto por trás dos morros verdes, e diante de mim só restava a estrada sinuosa que eu acompanhava com o farol alto da moto, recebendo como comunicado somente as mesmas placas de CUIDADO COM OS TREMINHÕES. Eu já estava cansado de ver tais placas, sobretudo porque ainda não havia visto nenhum treminhão por ali. Reclamava, de dentro de meu capacete, de todas as instâncias governamentais que não colocavam uma mísera placa apontando para que lado ficava Maceió.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de duas horas de viagem em pleno breu, encontrei uma encruzilhada de três direções que passara batida na minha viagem, mais cedo. Decidi tomar o rumo que houvera ignorado. Nesse rumo, somavam-se mais curvas, mais montanhas, e mais placas de CUIDADO COM OS TREMINHÕES. Segui em frente, confiante de que chegaria em Maceió antes da madrugada. De repente, no meio daquele breu infinito, eu vi luzes acumuladas algumas centenas de metros à frente, na estrada. Diminuí a velocidade, vi que havia bastante movimento. Eram luzes de carros. Estavam estacionados vendo um estrago na rodovia. Era um ciclista que, ignorando os anúncios para tomar cuidado com os treminhões, havia passado rápido demais numa área de risco. Foi atropelado pelo treminhão, tendo sua bicicleta estraçalhada e seu corpo dilacerado e espalhado na estrada. Eu, um matador de araque, fiquei meio desconfortável quando vi braços aqui e pernas ali. E fiquei apreensivo também com aquele treminhão, cuja imponência justificava as tantas placas que alertavam para o risco de me encontrar com um deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a viagem não duraria muito tempo depois dali. Bastou mais vinte e cinco minutos adiante para que eu chegasse em Maceió.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-205457794355848990?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/205457794355848990/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=205457794355848990&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/205457794355848990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/205457794355848990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/11/anoitecer-na-estrada.html' title='Anoitecer na estrada'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1721378086489895155</id><published>2010-11-08T01:43:00.008-03:00</published><updated>2010-11-10T09:59:18.866-03:00</updated><title type='text'>Prazos de validade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu sempre tive um hábito meio mórbido de fazer amigos, mas do qual ainda não consegui me livrar (embora esteja tentando).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já há alguns anos, sempre na época dos vestibulares, eu me dirijo a algum local de prova e fico na frente do portão, junto com os vendedores de água e baganas e os parentes dos candidatos que ficam do lado de fora trocando lero. A diferença é que não vendo nada nem sou parente de ninguém. Observo todos os candidatos passando pelos portões, até que vai se aproximando a hora-limite de entrada e o clima começa a ficar tenso: será que alguém vai perder a prova?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os responsáveis pelo fechamento dos portões começam a se movimentar, a tensão se espalha. Sempre há candidatos retardatários vindo correndo no final da rua, e a multidão em coro toma para si a perseverança desses sujeitos atrasados e começam a lançar gritos e gritos de alerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre!, corre!, vai fechar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase sempre o candidato consegue entrar, graças à benevolência do fiscal que retarda o trancamento dos portões. Mas sempre há alguém que fica de fora, e então eu - que sempre assisto entusiasmado a esse pequeno show urbano - começo a agir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de uma vez que uma garota chegou e não pôde entrar por questão de segundos. Segundos mesmo. Desde o início da leitura dessa frase até esse momento: esse foi o tempo entre o fechamento do portão e a chegada da garota, uma mulata baixinha, que só não caiu no choro na mesma hora porque aparentemente não lhe havia caído a ficha. Assim que a garota literalmente esbarrou no portão - ao som consolador de dezenas de vozes -, ela lá ficou por alguns segundos, inerte, sequer sem voz para pedir inutilmente ao fiscal que a deixasse entrar; então foi saindo dali, ainda apoiando-se no portão e logo que este acabou, apoiando-se no muro. Da parte das pessoas, após o choque inicial, já se ouviam algumas risadinhas e umas provocações indiretas, do tipo "a única coisa que ela tem que fazer no ano é essa prova, e chega atrasada". Estavam alimentando-se da desgraça alheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulatinha andou uns duzentos metros, saiu do meio da multidão, e então sentou num muro, com um semblante tão pálido que parecia que não havia respirado naqueles minutos. Eu comprei um copo de água mineral e me aproximei, oferecendo e sugerindo-lhe que ficasse calma. Ela não tinha fôlego mesmo, mas aos poucos foi se recuperando e o papo fluía melhor. Assim como conheci essa garota, conheci também outras pessoas. Ficava sempre nas portas dos locais de provas, esperando os retardatários, aqueles que (talvez pela primeira vez) sentem o peso de 30 segundos, de um minuto, em suas vidas. A conversa no início era sempre difícil - muitas vezes, depois da tensão inicial a pessoa caía em prantos e a conversa se tornava por algum tempo impossível; porém, eram esses casos que eu mais gostava -, no entanto aos poucos a comunicação evoluía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em geral, eu conhecia mais garotas nesses locais. A conversa com elas fluía sempre com mais facilidade, porque elas exprimem mais as emoções. É até uma oportunidade para eu testar tudo que aprendi autodidaticamente com tantos livros de Psicologia. Só que também já conheci alguns caras. Um deles, o único com quem ainda mantenho algum parco contato, era meio metido a surfista. Nunca teve nenhuma meta na vida que passasse pelo vestibular, mas não deixou de ser um baque ser barrado no portão do local de prova. Raros são os que reagem normalmente. Alguns são até insossos, mas também sentem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha última namorada, inclusive, eu conheci na porta do então Cefet-RN. Logo após ela ter sido barrada, fomos até o bosque que há ali perto e lá lanchamos e conversamos o dia todo, e no dia seguinte até umas dez semanas depois estávamos namorando, ainda que não fosse um namoro propriamente dito, mas que seja: namoros não necessariamente precisam ser tais como são propriamente ditos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os desatentos pensariam que eu gosto de ver as desgraças alheias; não, não gosto. Se dependesse de mim, não sofreriam desgraças quaisquer. É apenas que a pessoa nesta ocasião está sensibilizada, de modo geral ela, no momento posterior a um tropeço desses, esboça qualquer característica fundante ignorada, talvez alguns defeitos de personalidade desconhecidos ou talvez virtudes até ali reprimidas. Eu vislumbro sempre o segundo caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de tudo, nenhuma dessas amizades durou muito tempo. Tratavam-se deamizades cujo elo de ligação era a desgraça, o fracasso, a tensão. Eu gostava de conhecer a pessoa pelo que ela tinha de irresponsável. E, sobretudo, gostava de conhecê-la num momento de total ausência de humor, já que não tenho muito saco para besteirol. Só que após os primeiros dias, ou as primeiras semanas (quando sai o resultado do vestibular, sempre bate de novo aquela crise nos retardatários), as pessoas sempre conseguem "superar" o problema. Suas vidas, passam, então, a se permear de novas boas coisas. As garotas começam a querer que eu vá com elas para uma balada ou passar um fim-de-semana na casa de praia com sua turma, os caras começam a me chamar para churrascadas ou para jogos de futebol. A socialização a dois enterra-se, e a amizade só se sustentaria se eu topasse participar desses programas coletivos e chatos demais. Então eu desisto, todas as vezes, de maneira que essas relações nunca ultrapassam a barreira dos três meses. Depois, vem a espera por novas oportunidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso cansa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste final de semana, bem que acordei com aquela velha vontade de fazer brotar mais um amigo e uma namorada; no entanto, assim que pensei no vazio que emergiria daqui a uns três meses - justo quando eu já estivesse desacostumado com ele -, percebi que valeria mais a pena voltar a dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1721378086489895155?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1721378086489895155/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1721378086489895155&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1721378086489895155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1721378086489895155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/11/prazos-de-validade.html' title='Prazos de validade'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6295970831688239241</id><published>2010-11-03T18:05:00.007-03:00</published><updated>2010-11-03T18:12:29.943-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eu estive nessas últimas semanas meio atarefado com a campanha eleitoral e com a monografia que estou preparando;&lt;br /&gt;a campanha passou, de maneira que&lt;br /&gt;agora posso voltar a escrever com mais assiduidade&lt;br /&gt;(a monografia pode esperar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por ora, posto um poema para retomar as atualizações.&lt;br /&gt;Em breve, postarei novos contos.&lt;br /&gt;Estou produzindo alguns livros a serem lançados em breve&lt;br /&gt;e o blog entrará numa fase de divulgação,&lt;br /&gt;mas até lá preciso resgatar os queridos leitores,&lt;br /&gt;e, por meio deste, trazer novos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço e obrigado aos que têm frequentado o blog&lt;br /&gt;mesmo com os últimos contratempos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;Para a margem oposta do rio&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na margem oposta do rio&lt;br /&gt;não há sonhos ou esperanças,&lt;br /&gt;não há bichos e nem crianças;&lt;br /&gt;naquele lugar toda quimera&lt;br /&gt;são mostras de que coisas boas&lt;br /&gt;não satisfaziam pois não existiam&lt;br /&gt;senão noutro tempo, noutra era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na margem oposta do rio&lt;br /&gt;não vemos garotas, não temos desejos,&lt;br /&gt;não temos abraços, não temos beijos;&lt;br /&gt;temos o bocejo que marca o cansaço&lt;br /&gt;de quem, numa simplória expectativa&lt;br /&gt;imprime ali o seu derradeiro passo,&lt;br /&gt;a sua última e fracassada tentativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque a margem oposta do rio,&lt;br /&gt;para quem observa do lado de cá,&lt;br /&gt;oferece loas de primaveras e luzes,&lt;br /&gt;mas esconde a negritude e as cruzes&lt;br /&gt;que nos apresentam a sua outra face&lt;br /&gt;deixando-nos num verdadeiro impasse&lt;br /&gt;(é por isso que não há mais ninguém lá).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na margem oposta do rio, disseram poetas&lt;br /&gt;as estátuas esculpidas substituíram os atletas,&lt;br /&gt;a paisagem verdejante, com vida e com cor&lt;br /&gt;se transformou numa natureza morta pela dor.&lt;br /&gt;E é por amor à dor e ao sofrimento de agora&lt;br /&gt;que é pra lá que vou quando daqui for-me embora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6295970831688239241?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6295970831688239241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6295970831688239241&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6295970831688239241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6295970831688239241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/11/eu-estive-nesses-ultimos-dias-meio.html' title=''/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-4816569932367836576</id><published>2010-09-15T08:37:00.001-03:00</published><updated>2010-09-15T12:10:28.269-03:00</updated><title type='text'>Frio e poucas luzes</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cansado e triste foi que, como todos os dias, eu cheguei em casa também numa sexta-feira daquele outono. Não cansado do dia, mas cansado da vida. Não triste por algumas pessoas em específico, e sim triste pelas pessoas em geral. Ainda assim, eu pareço insistentemente receber segundas chances da vida - que talvez não sejam segundas chances, podem ser meras armadilhas. Naquele final de abril foi a mesma coisa. Deitei na cama, com calça, camisa de botões - todos bem fechados, como se eu acabasse de me arrumar -, sapatos e tudo, e fiquei lendo Jack London até o braço perder as forças para segurar o livro. Mas estava sem sono. Fui ao sofá, liguei a TV, assisti a algum programa de notícias pueris até que tudo acabasse e somente sobrassem os programas evangélicos. Passei alguns minutos assistindo e concordando com tudo que dizia o pastor; cheguei a prometer a mim mesmo que na manhã seguinte eu faria uma visita à igreja  cujo endereço ele repetia insistentemente entre suas lições de moral. Mas logo que desliguei a televisão, esqueci-me de tudo o que ele falara, e inclusive do que eu me prometera. Sentei-me ao computador para pegar informações sobre como o meu time jogaria no domingo e também para conversar com outros incautos que estivessem acordados, ainda àquela hora. Havia uma garota disponível, que antes que eu tomasse ciência de sua presença me interpelara, questionando se eu havia lido sua mensagem, enviada minutos ou horas antes ao meu celular. Antes de lhe responder, fui ver a referida mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EU QUERIA VER O MAR...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sabia se havia entendido direito. Mas depois imaginei apenas o óbvio: ela queria ver o mar, e certamente não o faria da sacada de seu apartamento. Queria que passeássemos de moto até algum lugar do superestimado litoral natalense, conforme eu já a convidara noutras ocasiões passadas, mas que já havia desistido de fazer (não faço mais convites a ninguém). Assim foi. Fui para seu apartamento e lá passamos muito pouco tempo. Quando cheguei, ela já estava pronta, desceu rapidamente antes que eu pudesse subir. Suas amigas de quarto continuavam lá em cima, sem tomar conhecimento do destino que essa garota tomaria nesta noite. Ela subiu na moto e fomos para o ponto mais deserto possível das praias natalenses, no meio da Via Costeira, onde não havia comércio, transeuntes, residências e até a iluminação era falha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descemos até a beira do mar, onde as luzes não chegavam, ficamos de prosa e não demorou muito para que começássemos a nos beijar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia já meses que eu não saia com uma garota, e voltaria a fazer ainda mais tempo após esse episódio, porque não tenho muito saco para certos papos, só que isso fez parecer que eu estava com uma gana exagerada, só que ela também não voltou atrás; passamos algum tempo, mas não sei quanto, não sei se foram apenas alguns minutos ou na verdade se haviam se passado várias horas ali mesmo, na areia, sob a vastidão do ceu negro e do mar cinzento, da brisa veloz que trazia o frio dos mares e que passava despercebido pela gente, muito longe da vista de qualquer pessoa, e apesar de todo o erotismo que havia, ainda estávamos vestidos, talvez só a blusa dela e o sutiã haviam sido retirados, não muito mais que isso, dada a intensidade do ato, que, ao invés de apressar a liberação de nossos fluidos, parecia segurá-los até algum momento posterior, apoteótico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a maré subiria, engolindo a nós dois, e paramos imediatamente, à caça de celulares e coisas assim que tivessem ficado enterrados na areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O banho de mar gelado que tomamos nos anunciou que era hora de partir. Fizemos uma horinha conversando e nos fomos. Levei-a até sua casa onde pretendia só deixá-la e voltar ao meu recinto escuro e distante. Só que eu não resistiria facilmente às tentações da carne e lá ainda nos ativemos a muitos beijos e afagos libidinosos, e só me lembrei de que deveria ir embora quando ela foi puxando a minha calça; fui tirando a sua mão porque sei os impropérios que vêm acompanhados de qualquer trepada e eu sabia que não teria saco para isso, nem com ela como não tenho com qualquer garota, então eu decidi parar por ali e ir logo embora, sobretudo porque num lapso de segundo eu lembrei também que a garota tinha namorado, e pensei em todas as namoradas que (não) tive, todos projetos precocemente abortados justo por peripécias e desconfianças afins, de modo que eu não poderia sustentar aquele incidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei a minha moto e varei a esvaziada BR 101 em direção à minha casa, lá perto do aeroporto, onde termina a cidade, sob a brisa fria do amanhecer que entrava pelo blusão e a luz avermelhada do sol nascente driblando os prédios que ficam do lado leste da avenida, e fui cortando esse trajeto todo sem pensar em nada, queria apenas chegar, deitar, olhar para o teto - conforme o fiz -, ao lado da Xelita, a cachorra da minha mãe que ela sempre esquece lá em casa, e quando me deitei a primeira coisa que a Xelita fez foi subir na minha cama e se coçar ao meu lado. Eu a tiraria, mas dessa vez estava absorto em pensamentos. Peguei o livro que não terminara de ler na noite anterior. Desta vez, li até o fim. Sobre a minha cama ainda havia vários outros troços jogados, como discos de Dylan e uma revista Playboy, edição de aniversário, que eu havia comprado para ler um conto inédito do Rubem Fonseca; as mulheres vieram de brinde, mas bem que poderia ser melhor para uma edição especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que adormeci, ronquei até a tardezinha. Queria passar o resto do dia em casa, mas era aniversário de um velho amigo. Desperto, resolvi telefonar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felicidades, eu lhe disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos beber?, ele perguntou. Vai rolar um encontro com uns amigos em Ponta Negra, na praia. Tá dentro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai ter quantas pessoas?, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Umas seis, sete. Vai ter um violão lá pra nos animar, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis pessoas?! Violão?! Então vou ficar em casa mesmo, obrigado pelo convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bora, porra, ele insistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vão ficar lá até que horas?, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei, até umas 22h00 da noite, eu acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então às 22h00 eu apareço e nós bebemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei na hora em questão e estavam apenas o aniversariante e mais um outro amigo nosso. Todos os que estavam antes, os amigos dele que eu não conhecia e que não estava a fim de conhecer, já tinham ido para suas casas ou para seus outros compromissos naquela noite sem fim. Deixei a moto estacionada num lugar no qual ela permaneceria até amanhecer, e fui beber com eles, conversando besteiras relacionadas à vida e ao tempo, e à coisa de ter contado mais um aniversário. Saímos caminhando pela areia, sentindo o leve toque do mar em nossas canelas, enquanto rumávamos, por horas, a áreas menos iluminadas e movimentadas da praia, e seguíamos recitando versos e cantando alguns clássicos, e conversando, geralmente alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dado instante, nós decidimos parar e sentar, no ponto mais isolado da praia, e então me dei conta de que eu estivera exatamente naquele lugar vinte e quatro horas antes com uma garota, o que me deixou numa confusão de pensamentos, pois já havia bebido bastante e aceleradamente, como se quisesse me aproximar do estágio etílico deles, que já haviam começado a beber algum tempo antes de eu chegar, e então sugeri que fôssemos a outro lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começamos a sair da praia, atravessamos a Via Costeira, a única rua das redondezas e escalamos todo o morro do Parque das Dunas que separavam a praia do Centro de Convenções, que ficava lá no alto do morro. Perguntei o que estava rolando no Centro de Convenções a essa hora e um dos dois - não lembro qual - disse simplesmente nada, não está rolando nada. Depois de minutos e minutos e minutos escalando as dunas, com alguns arranhões devido às pequenas plantas espinhosas e a algumas quedas na escalada, chegamos ao alto e todo o complexo do Centro de Convenções estava vazio e sob um visual absolutamente negro, com todas as luzes apagadas. Embora meio cambaleantes, conseguimos juntar alguns tambores de lixo que estavam por ali e fomos dando pé para que o outro conseguisse subir no teto dos complexos, desde os menores até os maiores, e quando chegamos à lage do maior prédio, apenas subimos a escada que leva até a caixa d'água, num ponto absurdamente alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que lá chegamos, num lugar de uma altura incrível, sobre o qual não havia mais nada além do céu estrelado, sentamos na beirada, com os pés balançando ao sabor do vento e, silenciosos, vimos tudo o que a cidade tinha para oferecer; as luzes dos prédios, das avenidas, os pequenos lampejos de farois de carros que se movimentavam para lá e para cá, o barulho da praia, as ondas quebrando na areia, talvez até alguns gritos e tiros se pudessem ouvir por ali, delimitando a urbanidade de toda aquela vista, além do pretume do mar, que criava uma sensação de vazio tão grande que gerava até uma incômoda sensação de angústia em quem se encontrasse naquele lugar, àquela hora, naquelas circunstâncias; tão grande que eu queria ir logo pra casa e cheirar um monte, mas decidi continuar, mesmo quando meus amigos disseram, uma ou duas horas depois, que estavam indo embora, eu lhes disse apenas que a gente se vê, e lá permaneci até quase o dia amanhecer, desestimulado e fechando os olhos como se torcesse para que quando os abrisse novamente já estivesse em casa, na minha cama, no meu quarto com o mal cheiro que lhe é característico, mas isso não aconteceria. Somente quando estava perto da alvorada e eu via sobre o horizonte de água os primeiros ensaios de luz matinal é que fui descendo, vagarosamente, cada estrutura de concreto, sofrendo alguns deslizes e colecionando mais arranhões do que já havia adquirido na subida, e levando uma queda que me fez caminhar manco por uma hora e meia até onde a minha moto estava. Por um momento pensei que estava arrependido e que havia sido péssimo tudo aquilo, mas o péssimo, para mim, está sempre dentro do esperado, todos os dias, quando acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-4816569932367836576?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/4816569932367836576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=4816569932367836576&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4816569932367836576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4816569932367836576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/08/frio-e-poucas-luzes.html' title='Frio e poucas luzes'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-797561481720893885</id><published>2010-08-31T02:05:00.005-03:00</published><updated>2010-08-31T03:57:31.884-03:00</updated><title type='text'>O quintal</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aqui faz silêncio e ainda é Natal. A família se reuniu ontem, toda ela, na noite do dia 24. Estavam todos aqui em casa, disseram que era o melhor ponto de encontro. Minha mãe e minhas tias prepararam uns bolos e perus. Parentes e amigos dos familiares vieram, com lembretes, com ânsia de comer, com ânsia de beber. Para mim, isso tudo não significa muita coisa. De tanto não significar, passou rapidamente (ainda bem). Na manhã de hoje, 25, todos já tinham ido embora. Minha mãe e uma ou outra tia ficou para arrumar tudo aqui. Pela tarde, foram, elas tambêm, para suas respectivas casas. Fiquei eu aqui, sozinho, no quintal, atento a suas feituras, seu muro esburacado, observando as formigas caminhando, vindo lá de dentro da casa - provavelmente levando restos de bolo ou qualquer coisa assim para seus lares subterrâneos. Enquanto olho para elas, eu me lembro de outras formigas. Quando olho ao redor, é outro quintal que se ocupa de minha memória. Quando me dou conta de que dia é hoje - 25 de dezembro -, é uma outra data especial que me marca, para além do Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O 25 de dezembro me faz lembrar um aniversário, para o qual eu me aprontava ano a ano, e era o único que me mobilizava a comprar algum presente por aí. Não que presente algum fosse necessário; não era. Era apenas um acessório a mais, mas naquela ocasião, fazia sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor de tudo, contudo, é quando eu me dirigia àquele quintal, que não é este em que me encontro agora. Ali sim era onde eu realmente me sentia aconchegado, por alguma oculta razão. Onde as melhores palavras estavam sempre no ar, mas não foram nunca pronunciadas. Fico me lembrando daquele quintal, do orvalho que havia ali, do cecém ali no canto da parede, no pouco espaço que restava ao gramado, das formigas no chão, que pareciam completamente donas do espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensando agora, fica para mim a impressão de que, naquela época, era sempre de manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra coisa que me lembro daquele quintal era aquela mesinha que o centralizava, sob um guarda-sol permanentemente aberto - e provavelmente achado no lixo, sei lá, mas que combinava de algum modo com o local - e com as quatro cadeiras que a cercavam (mas somente duas ficavam ocupadas, as outras ficavam livres). Não me lembro de vozes enquanto estava sentado ali; lembro-me apenas de respiração. As vozes existiam, eu as sentia, mas não as ouvia: a comunicação que existia naquele quintal era anterior à comunicação tradicional, falada. Mas era tudo muito claro e direto: naquele olhar que parecia feito ali naquele quintal, as palavras que não eram ditas pareciam visíveis como manchas negras sobre folhas de papel em branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxando na memória, agora, fico matutando aqui se ali passava o tempo. No período que frequentei aquele local de rara harmonia, tudo parecia estático como retrato. A dialética da natureza se percebia nas minúcias; o macro permanecia inalterado a olhos desavisados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dúvida não é à toa. E não é que faltassem ponteiros  ou coisas assim. Elas estavam lá, nas paredes, girando incessantemente, feito os relógios comuns de braço, ou aqueles do alto das catedrais. É só que o tempo suplanta ponteiros e calendários, e só hoje sei disso: o tempo, eu diria, parece-se menos com o maquinário dependurado e mais com a parede lascada que o sustenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo não cabe em maios nem em catedrais. Não cabe em fotos de calendários de farmácias (essas fotos, aliás, mostram o contrário: que os dias são todos iguais). Esse tempo de que falo está acima dos retratos de tempos dos quais talvez a minha companhia naquele quintal talvez já nem se lembre mais. É o mesmo tempo que enfrentamos todos, que dá poder a impérios ocultos, que dissolve as nossas manhãs, todas elas, uma a uma; só nos daremos conta disso no futuro, quando formos sujeitos velhos e amargurados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre algumas últimas lembranças daquele quintal, fico pensando nos ingredientes que o montavam, entre insetos pequenos e clorofila, onde eu depositava as manhãs de um tempo estranho, que já era muito depois da infância, e naquela fase difícil de minha vida, aqueles ingredientes amorteciam-me das piores dores que pode viver um homem sem quaisquer perspectivas maiores, como eu estava naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele quintal, para mim, está agora misturado entre lamentos silenciosos, que devem estar pretendendo mudar sua feição, o seu caráter imutável, onde as laranjas não caiam do pé e as lagartas nunca se tornavam borboletas. Hoje posso dizer que ali o presente é apenas uma lembrança de como os gafanhotos solitários timidamente nos davam um alô enquanto assistíamos à dança das formigas bêbadas, perambulando pelo muro, e de como os cachorros também nunca dormiam à sombra daqueles cinamomos, e onde, perto dos arbustos, as flores ficavam abertas a vida inteira, por séculos adentro, quem sabe (eu não duvido).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele recinto, será sempre de manhã. O sol sempre se portará imóvel, em um conforto inabalável; tão inabalável que eu fico feliz só de pensar que esse quintal por tanto tempo foi propriedade de uma pessoa só, uma pessoa que hoje não presenteio mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico, portanto, somente com essas lembranças daquele lugar no qual, eu sei, nunca haverá morte. Enquanto perdurar o silêncio que, até hoje, ali deve existir, todas as memórias hão de permanecer assim: imperturbáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-797561481720893885?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/797561481720893885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=797561481720893885&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/797561481720893885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/797561481720893885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/08/o-quintal.html' title='O quintal'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-2301612768067012332</id><published>2010-08-06T02:20:00.004-03:00</published><updated>2010-08-06T02:34:16.255-03:00</updated><title type='text'>O Emoldurador</title><content type='html'>Enquanto estávamos sempre assim, sem que ninguém soubesse,&lt;br /&gt;sob a aura colorida de uma luz que te obedece,&lt;br /&gt;era tão perfeito te ver, mesmo que pouco tempo eu tivesse,&lt;br /&gt;e agora já é tudo passado, mas a lembrança ainda floresce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como num campo bem cultivado, num conto bem escrito,&lt;br /&gt;num rio muito mergulhado e vivo.&lt;br /&gt;Em ambientes tão vividos, nesse mundo em que habito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tudo tão bonito mas agora tão duro, mesmo quando posso te ver,&lt;br /&gt;pois pelos teus olhos escuros, hoje é como se visse um muro.&lt;br /&gt;Não deixar os pés distantes do chão é quase um dever,&lt;br /&gt;mas, tão vago e violável, desobedeço-o,&lt;br /&gt;e, no ponto mais alto,&lt;br /&gt;te emolduro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eternizo teu brilho, tua cor, teus traços, teu valor!&lt;br /&gt;E finalizo meus anseios, pois de mais que isso não sou merecedor...&lt;br /&gt;Fico somente a admirar-te, como diante de um altar suntuoso.&lt;br /&gt;E agora, por destino, este meu coração conflituoso&lt;br /&gt;para sempre abrigará uma dor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-2301612768067012332?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/2301612768067012332/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=2301612768067012332&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2301612768067012332'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2301612768067012332'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/08/o-emoldurador.html' title='O Emoldurador'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-8699002303178344213</id><published>2010-07-25T03:57:00.005-03:00</published><updated>2010-07-25T05:34:55.766-03:00</updated><title type='text'>Antes de estourar os miolos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;É muito fácil parecer moderno,&lt;br /&gt;enquanto se é, na verdade, o maior idiota jamais nascido&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Charles Bukowski&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um sujeito bem Século XX, eu me prostei diante da TV ao modo de quem espera que ela ofereça respostas, feito uma divindade moderna e literalmente antenada com os novos tempos. Na tela plana, o meu programa de entrevistas favorito - Provocações - aproximava-se do fim, e, como marca desse momento de clímax, perguntou o entrevistador Abujamra a mais um intrépido convidado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é a vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta não se deu imediatamente... fez-se um silêncio; jogou-se um sorrisinho discreto, o olhar se perde no alto. Como se não houvesse nada melhor a dizer, eis a resposta, que veio pausada e reticentemente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje estou tentando entender...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu decidi desligar a TV, e com isso perdi o poema que fecha o programa. Mas de que servia o poema? O momento mais importante da entrevista, aquele que poderia oferecer a chave da questão - o que é a vida? -, passou, e, na minha cabeça, foi novamente decepcionante. Mais uma vez, para mim que tanto penso no que é a vida, não tive nenhuma ajuda na resposta desses personagens que semanalmente fogem da mesma pergunta com palavreados vazios travestidos com um ar intelectualizado, experimentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que hão de responder sobre a vida, afinal, aqueles que perdem o tempo apenas a vivê-la, sem nem questioná-la? Acho que por nunca se perguntarem é que nunca têm a resposta. Todas as vezes em que assisto ao programa e vejo a pergunta sendo feita, respondo, espontaneamente, e sempre uma resposta diferente, como se a inquirição tivesse sido feita para mim. Mas não é. Na verdade, ando tão desacostumado a responder perguntas, coisa que somente faço nas salas de aulas para os alunos - que me perguntam repetidamente de quantos pontos estão precisando para passar -, que até demoro a responder quando a moça da padaria ou o garçom do botequim perguntam se desejo algo mais; eu sempre penso em dizer que sim, que desejo bastantes coisas mais!, mas certamente as tais coisas não se encontrariam nas prateleiras nem nos cardápios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não conseguia dormir desde a hora do programa até essa alta madrugada de frio e de chuva forte, decidi sentar e dissertar mil coisas a respeito da vida, mas na medida em que pensava, o ritmo da escrita diminuía numa constante gradação. Os poetas chinfrins gostam de dizer que a vida não pode ser explicada, e não talvez não seja possível mesmo. Não posso, nesse quarto, tecer respostas sobre ela quando noutros tantos quartos escuros muitos ainda mais vividos que eu não conseguiram encontrá-la, como Hemingway, que talvez só a tenha obtido no nanossegundo imediatamente anterior àquele em que sua bala estourava seus próprios miolos, ou como o Fante, que de tanto viver num quarto escuro, passou a ver escura toda a vida quando a cegueira o engoliu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de quando trabalhei numa peixaria, carregando nas costas pesados pacotes cheios, sempre ansioso por ver terminar aquele expediente maldito, que parecia eterno. Não bastasse o desconforto do peso que carregava, tinha ainda que aturar as ladainhas da rapaziada que trabalhava comigo. Homens másculos e falantes demais, todos sempre com um sorriso despojado enquanto o cigarro pende no canto da boca, sempre xingando a uns e a outros - eu sempre na lista de alvos primordiais - e eu sempre na minha, com ódio de todos eles, da minha família, de Deus e do mundo. Uma vez, um desses sujeitos, o Alverga, disse para mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não vai com a nossa cara, seu merdinha. Mas foda-se. A vida é assim, e você terá que suportá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não durei nem um mês completo na peixaria. Mas o temor daquela vida de merda ainda me acompanhou durante muito tempo - na verdade, ainda está por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sempre achei tão vagas essas percepções que se costuma ter da vida, essas coisas que sempre vêm à mente quando pensamos nos colegas ou parentes que se foram por acidentes diversos ou por inconsequências babacas, nos aperreios acumulados na vida escolar, familiar, nas caminhadas noturnas pela Cidade Alta, completamente vazia e tomada por vagabundos andarilhos, nas noites passadas em banheiros trancados, ainda ouvindo do outro lado da porta a soturna música do The Cure, que hoje já não me significa muito; essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo. Para fugir, por ora, dessa atmosfera nada positiva que me persegue, só mesmo tentando dormir. Foi o que fiz, de uma vez por todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-8699002303178344213?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/8699002303178344213/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=8699002303178344213&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8699002303178344213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8699002303178344213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/07/antes-de-estourar-os-miolos.html' title='Antes de estourar os miolos'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-8781760205275494760</id><published>2010-06-08T10:43:00.008-03:00</published><updated>2010-06-08T12:34:09.419-03:00</updated><title type='text'>O universo reprimido</title><content type='html'>Abra bem a boca, isso, assim, hmmm.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;São com essas palavras da Janine que me recordo de ter começado o dia, hoje. Lembro bem porque ao ouvir-lhe dizer isso, percebi que eram 8h00 no relógio de parede. Janine era uma dentista, e fazia muito tempo que eu não visitava dentista algum; na verdade, não frequento qualquer consultório médico. Mas, até por fazer esse tempo todo, acho que uns cinco anos, decidi dar uma passada, só que nada que se assemelhasse a algum tratamento semanal. Apenas uma consulta de ocasião. Mas eu não sabia se a Janine concordava comigo que uma mera consulta seria suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hmmmm, ela continuava murmurando. Hmmmm, hmmm.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que entre os murmúrios, teceu uma pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que não tem ido ao dentista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque acho desagradável uma pessoa me tocando, eu lhe disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hmmm. Acha desagradável só o fato de tocarem em você?, perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se fosse, hmm... E se fosse sua namorada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas acharia um pouco menos desagradável, respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a Janine me interrogava, eu me sentia desconfortável pelo fato de estar com a boca quase todo o tempo aberta, enquanto a dela estava escondida atrás da máscara. Era uma situação injusta. Eu estava desarmado. Minha língua saltava para todos os lados de tensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos terminar?, pedi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não. Vamos, abra mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na medida em que aqueles troços metálicos faziam cócegas e sons opacos nos meus dentes e a minha saliva ia se acumulando pelo nervosismo, mais excreções preenchiam também o resto de meu corpo. Logo estava suando e lacrimejando, porque a visão fixada da Janine na minha boca me lembrava dos colegas de infância dos quais não sinto a menor saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre a boca!, ordenavam eles. Porém, não o faziam por interesse terapêutico, mas somente para rir à vontade dos meus caninos acentuados e dos meus premolares entramelados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ha!Ha!Ha!, ainda ouço suas torpes risadas ecoando no universo reprimido da minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses dias ruins, eu sempre chegava em casa e dizia para a minha mãe que meus dentes são horríveis e que eu queria ter outros dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não tem dentes cariados, ela dizia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não gosto dos meus dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas você não tem dentes cariados, repetia, e o fazia quantas vezes necessário fosse. Era uma sentença já cristalizada no seu vocabulário, para fazer minha propaganda a outras pessoas. Era como "meu filho só tem nota boa", ou "meu filho é muito educado". Só não fazia sentido ela repetir as mesmas coisas para mim, objeto de culto daquelas afirmações, independente dos defeitos que estivessem ocultos por trás delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa ocasião, chegou a vez dela - da minha mãe - quebrar seus dentes, sabe-se lá onde e como, e colocar uma dentadura postiça. Seu sorriso modou, ela rejuvenesceu, tudo parecia límpido e renascido. Um prodígio da engenharia odontológica a seu serviço; precisaria eu de um acidente de automóvel para consertar os meus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha só - despertou-me da minha divagação a dentista Janine -, eu vou recomendar que você faça um tratamento costumeiro. Pegue essa ficha, vá ali na recepção e explique para a menina que fica lá, e ela já saberá como encaminhá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou com cáries?, perguntei, meio receoso; um receio reprimido desde a mais tenra idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estou com cáries?, repeti, como faço usualmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeci, peguei a ficha e fui até a recepção. A menina responsável estava falando ao telefone e já tinha uma criança acompanhada de sua mãe ao balcão sendo atendida. Sentei e esperei. Pensei na coisa de fazer um tratamento, sabe-se lá por que - não entendia o que estava escrito na ficha -, e pensava no quanto aquilo me fazia rememorar coisas ruins de longos tempos atrás. Aproveitei que dificilmente a menina me atenderia nos minutos seguintes e deixei a ficha de consulta em cima do criado mudo, junto com as revistas Veja e Istoé, e fui embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqui a cinco anos volto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-8781760205275494760?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/8781760205275494760/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=8781760205275494760&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8781760205275494760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8781760205275494760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/06/o-universo-reprimido.html' title='O universo reprimido'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-5701981522222592782</id><published>2010-04-18T07:04:00.002-03:00</published><updated>2010-04-18T08:35:32.532-03:00</updated><title type='text'>Inês dorme</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu não consigo nem escutar música enquanto escrevo, não consigo e não quero que a luz da manhã ilumine o quarto, tranco todas as portas e janelas, mas ainda assim o recinto é invadido por feixes luminosos intrusos, acompanhados dos ruídos que aos poucos adentram no ambiente; é manhã de domingo, a pele nem sente o calor do sol (ainda), no entanto, embora o dia esteja começando, para mim isso é apenas o desfecho de um sábado estranho, em que amanheci na casa de amigos, ressacado e triste, três horas antes dos ditos cujos acordarem, e ficando, assim, preso à solidão daquele ambiente - mesmo que a casa abrigasse ainda meia dúzia de gentes, todas adormecidas. Quase sempre vou embora nessas horas, mas desta vez decidi esperar, e esperei,  lendo Maupassant para passar o tempo - é só para o que ele serve, hoje eu sei. O tempo enfim passou, despertando os amigos um a um, sendo a Clara a primeira, já de prontidão para preparar o almoço. Ela também estava ressacada, com pressão baixa e tontura: até a tarde estaria em um prontossocorro. Depois acordariam os demais, um a um, e essa movimentação toda no sábado é que o fez se me parecer diferente, estranho (no sábado normalmente não vejo ninguém).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui para casa no início da noite, porém mal cheguei e já fui saindo novamente, pois tinha ainda um outro compromisso: iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa. Fôramos convidados pela Inês, uma garota muito jovem, muito bonita, muito louca, que conhecia há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, de maneira que sempre falávamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... No dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse (tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades). Eu vi então algum valor real na Inês, o que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e ela me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada mas com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família; ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado... Não sei, não sou ela para saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais - sentem tudo muito mais intensamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então ela nos fizera o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos: entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, entre salgados, entre coquetéis, entre uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes (do tipo que são organizadas em clubes e afins), e isso já me bastava sobremaneira, sendo todo o resto por mim contínua e solenemente ignorando, fossem as outras pessoas, a música ou a decoração do local; a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com seus pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava apenas em como estava sendo legal aquilo tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos todos - eu, a Inês e os amigos - para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua torpe decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito, proposto ou sequer cogitado. A mãe interrompeu a nossa prosa e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior: a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos (porque ela mesmo nos dissera) que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, lançava assuntos, falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo. Eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário: as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe disse, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe havia comentado sobre isso mas ela lê o que escrevo e assim já me conhece bem, e por isso falava de sexo comigo e até se propõs a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas ela sabia que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era uns dez anos atrás, quando eu tinha a sua idade, 15 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, no entanto desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão (a essa altura, já está meio desorientada e enjoada), e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e então ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observar a Inês no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade; ela vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, chora, vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. Num dado momento, mesmo sua mãe enfim sucumbiria a si mesma, e fica a perguntar-se o que poderia fazer ou o que teria feito de errado, mas de que importa?, ela não obteria respostas (talvez nunca obtenha)... Somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, a Inês se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora estou bem melhor, diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe. Mesmo se dissessem que estava suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa. Uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada. Agora, Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-5701981522222592782?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/5701981522222592782/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=5701981522222592782&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5701981522222592782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5701981522222592782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/04/ines-dorme.html' title='Inês dorme'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7166877104323655800</id><published>2010-04-02T02:08:00.003-03:00</published><updated>2010-04-02T06:43:56.885-03:00</updated><title type='text'>Abaixando o volume</title><content type='html'>Hoje, eu estava escutando rádio&lt;br /&gt;em volume alto,&lt;br /&gt;e, nessas condições,&lt;br /&gt;para passar bem o tempo&lt;br /&gt;ative-me à análise;&lt;br /&gt;primeiro do discurso&lt;br /&gt;do locutor da FM,&lt;br /&gt;a repetir inveteradamente as mesmas coisas:&lt;br /&gt;as mesmas informações,&lt;br /&gt;as mesmas promoções,&lt;br /&gt;os mesmos elogios&lt;br /&gt;para músicas diferentes,&lt;br /&gt;do Parangolé com seu Rebolation&lt;br /&gt;aos Dois Rios do Skank.&lt;br /&gt;A única coisa que mudou&lt;br /&gt;nos 40 minutos em que ouvi a tal rádio&lt;br /&gt;foi a hora,&lt;br /&gt;nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha segunda análise&lt;br /&gt;foi à própria natureza do trabalho&lt;br /&gt;daqueles - pobres - locutores&lt;br /&gt;fechados em recintos assépticos,&lt;br /&gt;estúdios maçantes, sem-graça,&lt;br /&gt;e no entanto sendo obrigados a se manifestarem&lt;br /&gt;como se estivessem numa autêntica&lt;br /&gt;balada,&lt;br /&gt;talvez numa praia,&lt;br /&gt;enfim, qualquer lugar&lt;br /&gt;cheio de pessoas bonitas&lt;br /&gt;e de música percussiva,&lt;br /&gt;e de sol e de alegria&lt;br /&gt;ao redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso me fez mal.&lt;br /&gt;Não gosto de FM. Porém,&lt;br /&gt;escutava muito no passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me&lt;br /&gt;daquele programa&lt;br /&gt;que trazia momentos de reflexão&lt;br /&gt;acompanhados de traduções&lt;br /&gt;de músicas escritas em inglês.&lt;br /&gt;As letras diziam o mesmo&lt;br /&gt;que as das canções brasileiras&lt;br /&gt;(às vezes eram bem incoerentes),&lt;br /&gt;mas nós sempre achávamos aquilo&lt;br /&gt;o suprassumo&lt;br /&gt;da composição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordo-me de outro programa,&lt;br /&gt;em que o radialista&lt;br /&gt;narrava&lt;br /&gt;histórias de desgraças humanas&lt;br /&gt;escritas por ouvintes fracassados&lt;br /&gt;para outros ouvintes fracassados,&lt;br /&gt;ao som de um triste dedilhado.&lt;br /&gt;Nunca me senti tão completo&lt;br /&gt;enquanto ouvia rádio&lt;br /&gt;como nessas&lt;br /&gt;horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para finalizar,&lt;br /&gt;rememoro também um outro programa&lt;br /&gt;que passava nas madrugadas&lt;br /&gt;e eu escutava diariamente,&lt;br /&gt;sentado na poltrona da sala,&lt;br /&gt;desta vez com o volume&lt;br /&gt;bem baixo.&lt;br /&gt;Eram madrugadas&lt;br /&gt;em que eu - adolescente de autoestima&lt;br /&gt;destroçada por esses bobos tropeços amorosos,&lt;br /&gt;cuja amplitude nossa mente imatura&lt;br /&gt;não consegue medir - me deleitava,&lt;br /&gt;aos sons melancólicos.&lt;br /&gt;Às vezes (muitas vezes),&lt;br /&gt;eu ligava e pedia uma canção sem-graça&lt;br /&gt;e na hora em que o apresentador&lt;br /&gt;de voz grave e garbosa&lt;br /&gt;perguntava-me para quem eu oferecia,&lt;br /&gt;eu dizia, sem titubear:&lt;br /&gt;para Kelly, no bairro de Capim Macio,&lt;br /&gt;ou poderia dizer&lt;br /&gt;para Cristina, no bairro de Lagoa Nova,&lt;br /&gt;ou talvez&lt;br /&gt;Para Alice, Sabrina, Camila,&lt;br /&gt;"com muito amor",&lt;br /&gt;todas em lugares dispersos pela cidade.&lt;br /&gt;O locutor apenas não sabia&lt;br /&gt;- ou talvez soubesse pela experiência -&lt;br /&gt;que nenhuma dessas garotas existia,&lt;br /&gt;senão na minha cabeça.&lt;br /&gt;Elas, em suas existências&lt;br /&gt;presas à minha imaginação,&lt;br /&gt;eram como o próprio programa que eu ouvia:&lt;br /&gt;apenas o escape&lt;br /&gt;para um adolescente meio reservado&lt;br /&gt;e com algumas tolas ilusões amorosas.&lt;br /&gt;Tão desesperançoso era&lt;br /&gt;esse adolescente, no entanto,&lt;br /&gt;que todas as vezes em que ligava&lt;br /&gt;em todos os dias&lt;br /&gt;era sempre&lt;br /&gt;para pedir a mesma música ruim&lt;br /&gt;que se chamava:&lt;br /&gt;A Vida Não Presta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7166877104323655800?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7166877104323655800/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7166877104323655800&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7166877104323655800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7166877104323655800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/04/abaixando-o-volume.html' title='Abaixando o volume'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1613623084868687678</id><published>2010-03-26T05:33:00.003-03:00</published><updated>2010-03-26T11:21:57.052-03:00</updated><title type='text'>Condução lotada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje eu voltava para casa de ônibus - muito lotado, devo dizer - e dei sorte de conseguir um lugar sentado, no lado do corredor. Enquanto viajava, notei que uns dois metros à minha frente voltava uma garota com quem eu já houvera ficado, apenas dado uns beijos, na verdade, uns dez anos atrás - nós tínhamos 13, 14, 15 anos, portanto -, e agora estávamos novamente próximos. Chamava-se Marcela, e não chegou a me ver. Então fiquei observando-a durante o trajeto. Ela estava em pé, e o ônibus estava, como dito, muito cheio. A Marcela estava tão imprensada que já quase se jogava em cima do passageiro sentado. Na posição em que estava, ela ficava até com a bunda bem arrebitada, favorecida pela calça jeans que vestia, que usava justamente com propósito de avantajar um pouco mais seu dote posterior. Inclinei um pouco a cabeça e constatei isso. Aliás, constatei também que todo passageiro que passava por ela tirava uma casquinha, com um sarro muito bem dado no seu belo traseiro - que não aproveitei nos meus tempos de adolescência fracassada recheada de profícua masturbação. Os sujeitos tentavam se aproveitar de toda maneira: os mais altos agachavam-se um pouco; os mais baixos ficavam na ponta dos pés, tudo na perspectiva de apontarem seus membros para a bunda circular da Marcela. Começaram a vir as paradas e o ônibus começou a esvaziar. Na medida em que o número de pessoas diminuia eu a via melhor. Ela continuava lá, em sua imutável posição. Estava nitidamente gostando daquilo. Isso se percebia nos seus olhos grandes, que ficavam maiores cada vez que passava alguém por trás, e perdiam-se completamente nessas horas. Ela tapava a boca com a mão, sabe-se lá o porquê. Algumas cadeiras vagavam perto de si, mas a Marcela oferecia para as pessoas ao seu redor e permanecia no mesmo estado em que se encontrava. Seu bumbum bem desenhado conservava-se numa posição que o realçava sobremaneira, e agora tornara-se não somente uma área de lazer da rapaziada que nela se esfregava quando se dirigia aos fundos do ônibus, mas também alvo de olhares (o que, com o ônibus lotado do modo que estava antes, não era possível). Não fui apenas eu, portanto, que notei o quanto ela gostava do esfrega-esfrega. Só quando a condução já estava indisfarçavelmente esvaziada ela se dirigiria até as últimas cadeiras, passando por mim sem reconhecer, e lá ficando até chegar seu ponto. Achei engraçada e patética a situação. Cheguei a sorrir boa parte do tempo em que assistia a esse ordinário espetáculo moderno. Neste momento em que escrevo, eu penso que podia até ser neura minha achar que ela estava empinando a bunda pra rapaziada, mas na hora pensei apenas no quão vadia ela tinha se tornado ou, o que é mais provável, sempre houvera sido. Eu devo ter um chama para rapariga, só pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1613623084868687678?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1613623084868687678/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1613623084868687678&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1613623084868687678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1613623084868687678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/03/conducao-lotada.html' title='Condução lotada'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-4654355389403602241</id><published>2010-03-01T11:01:00.006-03:00</published><updated>2010-03-02T23:56:41.269-03:00</updated><title type='text'>Manuscrito</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar. Sobretudo porque o evento para mim não me interessava. Era mero pretexto para ter a companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dança guatemalteca é assim, me dizia ela baixinho, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormecia durante algumas cenas cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, principalmente quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei bastante pensativo porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Quando a convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Eu queria só conversar, mas ela só sairia se fosse para ir a algum algum evento, como se sair sem ter um destino fosse algum pecado imperdoável. Foi quando lhe surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe menti a mesma coisa. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive que me contentar com um bar novo - na época - por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas estas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deseja mais alguma coisa?, perguntou-me a garçonece por fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, obrigado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, muito obrigado e volte sempre, disse, virando as costas com um sorriso forçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ainda quisesse beber mais um quebrado, fui numa conveniência, comprei um litrinho e fui para uma praça lá mesmo no Centro, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores, dos prédios, das luzes da cidade, da fonte que jorrava água para o alto e que me fazia sentir alguns respingos bem finos. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las. Pensava na garota com quem estava saindo, e na sensação de posse que eu nutro mesmo sobre ex-namoradas. Pensava em como essas idéias apenas me distanciavam de todas elas cada vez mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também pensava no meu trabalho, em como era bom dar aulas, aliás a única coisa que eu sabia fazer, já que não tenho talento para mais nada e nem gosto de carregar peso, mas ficava reflexivo porque percebia que isso não me nutria, como nenhum trabalho ou nenhuma prática permite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas coisas me deixavam sempre meio triste, o trabalho, as garotas, a revista para a qual eu escrevia, o meu partido, as minhas conquistas tão facilmente desmoronadas, dava até certa vontade de chorar, mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebi uma mensagem no celular em dois bips que quebraram o silêncio da incipiente madrugada. Era uma mensagem alegre, animada, alto-astral, vinha da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo de divagação, eu já não alimentava nenhuma tristeza nem raiva por tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não havia razão para ficar triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas senti que meu problema era o cansaço disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado dos projetos pessoais que temos que carregar, dos trabalhos que temos que achar interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-4654355389403602241?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/4654355389403602241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=4654355389403602241&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4654355389403602241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4654355389403602241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/03/manuscrito.html' title='Manuscrito'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-196708510727228445</id><published>2010-02-02T23:16:00.008-03:00</published><updated>2010-02-04T14:01:10.685-03:00</updated><title type='text'>Da carência feminina</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Publicado originalmente na terceira edição da&lt;br /&gt;revista&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; Tá na Cara!&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, de novembro de 2009&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Houve um cara que disse que fazemos parte de uma geração criada por mulheres. E lançou o  questionamento: será de uma outra mulher que precisamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando  tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles nunca as procuravam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-196708510727228445?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/196708510727228445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=196708510727228445&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/196708510727228445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/196708510727228445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/02/da-carencia-feminina.html' title='Da carência feminina'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1216911545061486752</id><published>2010-01-21T12:35:00.006-03:00</published><updated>2010-01-23T20:26:40.878-03:00</updated><title type='text'>Paladar fraco e outras coisas a menos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Onde está o apetite que um dia tive por todas essas coisas?, eu me pergunto de quando em quando. Passo todo o dia dessas férias sentado na frente da janela, observando as pessoas passarem em prosas animadas e às vezes até escuto parte da conversa delas, algumas perguntas que uns fazem aos outros, e eu fico respondendo imaginativamente, como se a pergunta fosse pra mim, mas não é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, diariamente me quedo nesse exercício puramente cerebral que ao menos talvez seja melhor do que passar várias horas do dia em frente à TV - coisa que também adoro fazer, por sinal, e nunca me demoro a religá-la -, porque são esses parcos exercícios que mantêm a minha mente em atividade. Minhas cordas vocais, no entanto, estão cada vez mais enrijecidas porque eu não as tenho usado muito, no máximo quando ia ali na padaria e dizia quero quatro pães e nada mais!, mas agora já nem preciso mais falar porque a garota que atende, conhecida por Cleidinha, já sabe o que vou pedir quando chego lá (e faz questão de dizer: já sei!), sempre com um sorriso no rosto que eu não entendo muito bem, e termino oferecendo um pretenso sorriso também mas que na verdade não passa de um franzido labial, e depois que saio tanto do balcão como do caixa da padaria esvaece a última chance de utilizar a minha voz no dia, às vezes eu até esqueço como é seu som e quando estou tomando banho e começo a cantar alguma música dos Engenheiros do Hawaii eu chego a me espantar por um instante por não a reconhecer, e esse espanto, por sua vez, me faz perder o prumo da canção e então desisto de cantar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não são só vozes e mente que estão cada vez mais mirrando, todo meu corpo segue nesse rumo porque eu não faço nada, não caminho, não pratico esportes nem nada assim, e vou sentindo que todos os membros vão se enfraquecendo de maneira tal que às vezes até pra levantar a caneca de café eu sinto um desconforto e preciso derramar uma pequena parte da bebida ainda quente na pia, e depois assopro bastante porque o meu paladar também já não está lá essas coisas, tanto que já nem faço mais questão de aditivos nas comidas aqui em casa, como temperos no almoço, ou margarina no pão, ou sei lá o que, porque quando como nem sinto isso, não me lembro mais a última vez que fiz hmmmmmmm! para alguma guloseima que ingeri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até mesmo pra segurar livros eu andava meio preguiçoso e passei a ler mais no computador, onde eu poderia ficar estático, mas não totalmente estático né, já que é preciso descer a barra de rolagem, e depois que me acostumei com isso já cansei também, e então voltei pra velha leitura de papel, e pra não precisar ficar catando livros pela casa eu tenho acumulado todos eles aqui no quarto, já não bastavam as duas estantes de livros aqui, eu fui lá numa salinha de despensa que tem nos fundos e peguei uma caralhada de livros velhos e empoeirados e trouxe, porque vez ou outra os folheio e agora não preciso mais ir até os fundos de casa e abrir um cadeado para pegar gripe com essa papelada envelhecida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes ocorre de eu tentar ir na contramão dessa tendência, saio de casa, vou assistir algum espetáculo, algum show, um jogo de futebol, vou pra umas reuniões ou sair com uma garota, vou ver uns amigos, assistir a algum filme, vou viajar de moto pra algum lugar, e na verdade só quando me entrego a essas coisas percebo que às vezes cometi alguns enganos, porque há certas coisas que não temos como mudar ou pelo menos não cabe a nós mudar, então fico com pena das meninas que saem comigo, como lamento aos amigos que me convidam para beber e fazer umas rodinhas idiotas de violão na praia (sempre vou embora quando aparece um violão na parada), e percebo que conhecer gente já não é mais o foco das minhas viagens como antes, agora quero só deixar que alguns aperreios se dissipem com o vento que bate e se vai, e os shows também não frequento, vou tentando resistir às tentações, porque sei que sempre me empolgo antes de shows mas na hora é que sinto que aquilo não mais me contagia, de modo que eu percebo que existe uma luta intensa dentro de mim entre um lado que deseja se socializar, se soltar e besteiras assim e outro que já sentiu um cansaço de todas essas coisas e que agora quer mesmo é sossegar sem ter que ouvir vozes alheias quando acorda nem antes de dormir, sem ter que atender telefones e é este meu lado que eu premio, deixando todo o resto pra lá, e se me pergunto onde andava todo aquele meu pique de alguns anos atrás (em verdade, eu já nem lembro se tinha mesmo ou se é uma memória forjada pelo meu inconsciente) é por uma trivial curiosidade e não por depressão ou lamento pelo que sou hoje, pois gosto de ser assim, gosto de ficar apenas escrevendo porque é a atividade fisiologicamente mais econômica que posso fazer, já que trabalho apenas com os dedos, permanecendo todo o resto do corpo num transe absoluto, e até o conteúdo escrito não é fruto de conclusão nem de reflexão qualquer que seja, e sim tão-somente um derramamento de palavras cuja leitura se configura numa ordinária perda de tempo, mas constatar isso somente agora já é tarde demais para quem leu até aqui... Só que não pedirei desculpas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1216911545061486752?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1216911545061486752/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1216911545061486752&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1216911545061486752'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1216911545061486752'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2010/01/paladar-fraco-e-outras-coisas-menos.html' title='Paladar fraco e outras coisas a menos'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-348522449221596876</id><published>2009-12-29T09:00:00.000-03:00</published><updated>2009-12-29T09:01:20.010-03:00</updated><title type='text'>A última carga pesada</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Tá tudo tão escuro lá fora e aqui dentro que eu consigo até enxergar coisas que não são reais me arrodeando, todas elas me assustando demais; faltou energia no bairro, o céu noturno está coberto por uma névoa temerosa e no meu íntimo as coisas não parecem muito mais claras, porque eu me sinto até mais livre, mas a tal liberdade não parece sinônimo de satisfação, porque agora vejo que todas as coisas que eu conquistei nos últimos anos (conquistei não é bem a palavra), como alguns trabalhos legais, a possibilidade de poder escrever e ser lido, alguma estabilidade financeira mesmo que não tão estável assim entre outras não parecem significar nada nesse momento em que eu penso mil coisas, porém não consigo chegar à conclusão de sequer uma delas, e acho que não haveria nada, nem pessoas, nem bebidas, nem livros nem outros entretenimentos quaisquer que pudessem me suprir isso, inclusive nem sei por que estou escrevendo pois nem isso gostaria de estar fazendo agora, eu gostaria apenas de dormir – mas desta vez sem sonhar – por tantas horas que se eu me esquecesse de acordar isso seria um mero detalhe para mim ou para os demais, no entanto como eu sei que não vai acontecer fico aqui temendo a chegada do sol junto das coisas chatas correlatas, as pessoas me ligando e perguntando se continuarei dando aula em certa escola no ano que vem, supervisores me pedindo documentos, ou textos, ou qualquer merda por uma ordinária burocracia, entre outras pessoas que não ajudam a melhorar o meu dia, gente que não tem nem culpa disso, porque quando começamos a conversar percebo que precisam apenas de uma ajuda, de algumas palavras de consolo e afeto, mas não sou eu que oferecerei essas palavras porque eu também as queria pra mim; então não me resta mais nada porque eu não tenho saído e não tenho sentido falta, já não bebo mas não sinto a diferença de quando bebia, e também tenho escrito tão pouco sobre mim, aliás, eu me decidi por isso mesmo, que iria escrever menos essas coisas, a carga era muito pesada, além de não significar necessariamente uma forma de autoconhecimento, então desisti, talvez só volte a escrever essas coisas daqui a uns 50 dias, ou talvez nunca mais, porém eu ainda mantenho esse vício da escrita em si, que alguns dizem ser saudável, de modo que passei a escrever outras coisas, eu queria voltar a escrever textos políticos mas fui repreendido por isso pelos camaradas de partido porque devo ser um péssimo analista, então o jeito de suprir minha vontade era voltando pra literatura, e aí andei escrevendo textos de terror, como histórias de vampiros ou coisas assim, também escrevi ficção científica, distopias, pesquisas jornalísticas, histórias infantis, e eu observava a maioria dos escritores, eles começavam a escrever para si mesmo para depois escrever para as outras pessoas, e comigo acontece o inverso, eu escrevia para ser lido e cada vez mais ando escrevendo para mim mesmo, sem publicar e sem comentar com ninguém, porque ninguém quer saber, só que não faço isso porque gosto (é por pura falta de opção) mas às vezes até me divirto e me satisfaço quando leio as coisas que fiz, pena que é uma satisfação tão tênue quanto qualquer outra, uma alegria breve que não se sustenta em si mesma...&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-348522449221596876?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/348522449221596876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=348522449221596876&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/348522449221596876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/348522449221596876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/12/ultima-carga-pesada.html' title='A última carga pesada'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-793036573943521613</id><published>2009-12-23T15:12:00.001-03:00</published><updated>2009-12-23T21:50:51.554-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Achando a festa meio maçante, eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que olhava para a multidão, e voltava-me para o balcão. De repente, ao meu lado, senta-se uma menina e me causa um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa!, uma boneca!, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, manteve o olhar fixo em mim por míseros dois segundos, mas eu rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa longa história juntos, abri de modo bastante original a conversa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-793036573943521613?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/793036573943521613/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=793036573943521613&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/793036573943521613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/793036573943521613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/12/achando-festa-meio-macante-eu-me-dirigi.html' title=''/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1165450552225321451</id><published>2009-12-06T07:09:00.007-03:00</published><updated>2009-12-10T10:28:30.889-03:00</updated><title type='text'>O céu e o sertão</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;O céu noturno mais estrelado que já vi foi no meio do sertão, lá pelo médio oeste do Rio Grande do Norte, quando eu viajava de moto - não lembro para onde, mas no trajeto eu pretendia parar na cidade de Frutuoso Gomes porque o sol já estava se pondo e eu encontraria lá um abrigo para passar a noite - até que, após enfrentar uma área onde a rodovia estava destruída, além de recheada de pedregulhos junto a muitos objetos na estrada - alguns possivelmente cortantes - talvez derrubados de um caminhão, eu percebi que a moto perdeu força e começou a deslizar, o que logo me fez levantar a suspeita (confirmada logo depois) de que o pneu dianteiro havia sido furado, o que me irritou no primeiro instante e me frustrou no segundo, porque eu sabia que não teria condições de conseguir consertá-lo ainda naquele dia, só que ainda tentei tirar o pneu para levá-lo à cidade mais próxima, que eu acreditava ser Janduís, mas percebi então que não houvera levado ferramentas necessárias, de maneira que decidi encostar a moto atrás de uma árvore - não muito grande, devia ter no máximo uns três metros, mas cercada de arbustos secos, como é comum naquela área - e sair caminhando pelo chão carregado de pequenas pedras que o tornavam bastante escorregadio, fatores que me fizeram repensar a ideia de sair à procura de algum mecânico, coisa que, eu sabia, só me traria aborrecimento naquele dia (dificilmente algum mecânico ou borracheiro sairia à noite para fazer o remendo no pneu) e voltar para onde estava a moto; levou esse tempo de mais ou menos meia hora para que me caísse a ficha de que teria que ficar ali mesmo, ao relento, sem nenhum tipo de mantimento que me permitisse dormir a céu aberto, pois carregava apenas uma mochila com umas roupas, livros, uns e outros acessórios, entre eles um lençol, que abri ao chão, o que apenas amenizaria, ainda assim parcimoniosamente, o desconforto de sentar no solo pedregoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo a noite cairia - nenhum carro houvera passado ou passaria por ali nos momentos em que lá estive, embora eu não estivesse esperando -, tornando-se o local muito escuro e estranho, com sons de animais típicos ouvidos por trás das colinas baixas e das matas áridas, elementos que me deixariam apreensivo por me sentir em um ambiente adverso, mas para o qual tentei me tranquilizar e para isso só me restava fazer algo para passar o tempo, como ficar revezando a leitura de livros, iluminado pela lanterna da moto, lendo-os em voz alta, interpretando seus personagens, ou deixar os livros de lado e ficar falando besteira, comigo mesmo, ou então levantar para ficar caminhando em círculos, porque estava ficando frio, além do que meu corpo estava muito incômodo por motivos que desconheço - estava coçando demais as pernas e os braços -, então decidi desligar o farol e ao apagá-lo percebi que o breu repentino gradativamente se iluminaria com a quantidade de estrelas no céu que pareciam surgir do nada pois quanto mais eu olhava mais eu via surgir novas estrelas, e isso de algum modo me deixou mais calmo porque eu teria agora um ótimo passatempo (o meu passatempo predileto na infância que estava esquecido) que seria ficar apontando, contando e desenhando as constelações, deitando rapidamente e identificando de imediato a de Escorpião - era agosto -, sempre a minha primeira referência, e embora eu houvesse esquecido a maioria delas ainda conseguiria reconhecer umas vinte na medida em que o tempo passava e novas estrelas se me apresentavam, e eu, meio embriagado pela brisa noturna (que não era nada gostosa de sentir porque era uma brisa muito seca causando uma sede que eu não teria como suprir, porque eu havia bebido rápido demais o pote de água que carregava), ficava lá discutindo comigo mesmo, chegando a gritar às vezes, como se estivesse dentro de meu próprio quarto, e a última constelação que vi surgir antes de adormecer foi a da Lebre, o que denota que passei pelo menos umas cinco horas naquele exercício estranho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao acordar, sentindo a alta temperatura do solo rompendo a camada relativamente fina de tecido do lençol, meus olhos ficaram por vários segundos ofuscados pelo ardente sol matinal, que se erguia solitário na imensidão do céu azul sem estar acompanhado de uma nuvem sequer, e pela extensa camada de terra que minha vista alcançava só se percebia o visual semidesértico, esbranquiçado e claro como é usual à vegetação seca e ao solo sertanejos, de modo que nem quis perder tempo e levantei rapidamente guardando as trouxas na mochila para sair em seguida em busca da ajuda que só encontraria depois de caminhar cerca de trinta quilômetros cercado por aquele ambiente de feitio monótono e carregado de uma vida estranha - sem encontrar uma casa sequer no decorrer da pernada -, havendo ainda o agravante de que o único borracheiro que encontrei só trabalhava com carros, mas topou um remendo de quebragalho no meu pneu que seria suficiente para eu chegar em outra cidade e resolver o problema em definitivo; quando fomos ao local onde estava a moto, havia um guaxinim muito peludo dormindo sobre o banco, e curiosamente o animalzinho nem se assustaria com a nossa chegada, somente saindo de cima da moto quando o mecânico começou a mexer nela, foi quando notei que o guaxinim estava machucado pois ele conseguia andar normalmente mas dava para perceber que estava manquejando em uma das patas e mirei a vista em sua direção de uma forma que, estático, eu o observei indo embora por centenas de metros, como se eu quisesse saber para onde ele iria, vendo-o tornar-se apenas uma pontinha se mexendo na linha do horizonte, sendo esta a minha última lembrança daquele dia, e eu até voltaria para o Sertão depois dessa experiência, como também viveria outros impropérios com a moto; só que esses impropérios já não me incomodavam mais, porque me davam a oportunidade de viver essas emoções tão humanas e viciosas, pensando em alguma coisa - contando constelações, caminhando em círculos, esquecendo até o fato de estar em completo isolamento - só para sentir algo ali, e deixar de sentir o que aqui sinto demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1165450552225321451?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1165450552225321451/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1165450552225321451&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1165450552225321451'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1165450552225321451'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/12/o-ceu-e-o-sertao.html' title='O céu e o sertão'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7419308306300963924</id><published>2009-11-26T07:37:00.006-03:00</published><updated>2009-11-26T11:08:26.189-03:00</updated><title type='text'>Subproduto do esquecimento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;Foi quando me olhei no espelho que percebi o quanto estava apreensivo. Conseguia ver embaçada minha imagem refletida mesmo estando o vidro total e perfeitamente polido. Eu estava na sala, sozinho no cômodo, e lá na cozinha havia uma mulher, a cantar alto, frequentemente me convidando para acompanhá-la no rito, sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezoito anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida (talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.) Na época - como também continuaria acontecendo depois -, eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tivesse ao menos beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente das garotas passadas que todas que apareciam na minha vida eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você que é um cara de sorte, confidenciou-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado - não de propósito - para que ela visse em mim não um moleque vazio, e sim um rapaz com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome -, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai, disse ela ao me ver observando a foto do rebento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me ofereceu um vinho e eu nem gosto muito dessa bebida mas aceitei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences do ex-marido que só lembrava de pegar quando, de repente, sentia falta. Ela continuava a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há três dias ele veio pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Claras, Priscilas, Cinthias, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e corpos, lábios rosados por natureza ou pintados, peles macias e finas como algodão e silhuetas de diferentes formas que ainda povoam minha cabeça de quando em quando. Com elas, compartilhei ilusões que pareciam belas e sadias, dessas que aquecem e viciam a alma de quem vive castigado pelo sofrimento. Se pudéssemos parar o tempo, esses instantes que eu teria passado com elas teriam valido por tudo no mundo (só que não se pode pará-lo, e, portanto, o que valem, senão nada?), porque os momentos que compartilhamos foram em geral bons momentos, porém nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saia a vagar sozinho pela madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como muitas mulheres solteiras em sua idade, muito carente e fogosa. Seu jeito maternal, contudo, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria mesmo. E jamais voltaria a vê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim eu devo ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeia calado pela noite escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7419308306300963924?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7419308306300963924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7419308306300963924&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7419308306300963924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7419308306300963924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/11/subproduto-do-esquecimento.html' title='Subproduto do esquecimento'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6191559431055713920</id><published>2009-11-18T14:47:00.014-03:00</published><updated>2009-11-21T00:08:46.759-03:00</updated><title type='text'>Fissuras reprimidas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu observava o balançar glúteo da garota que seguia à minha frente e não conseguia mudar o foco de minha atenção. Era muita beleza reunida naquele pedaço de carne em movimento constante, moldado por uma calça jeans de um tipo que não sei bem descrever. Eu não sou de ficar feito pateta babando por cada bunda bonita que vejo, mas essa garota tem um conjunto de corpo tão atraente para mim que eu fico fissurado quando a vejo passar, gosto de ver primeiro seu rosto, seu olhar verde e perdido, seus mãos a segurar os cadernos e livros, braços cobertos pela penugem fina que parece ser igual aos cabelos castanhos, e enquanto a observo, bem pequena, bem charmosa em seus movimentos suaves, chego até a fazer algumas artimanhas, como fazia nessa vez, para poder segui-la sem que ela notasse a menos de cinco metros de distância (onde posso vê-la bem) pelo decorrer dos pátios do campus até o momento em que eu ia pegar a minha moto e ela se dirigia para sua parada de ônibus. Já pensei em falar com ela alguma vez, tentar conhecê-la melhor, só que achei melhor não, ela faz ensino médio, deve ter seus 15 ou 16 anos, então eu deixo suspenso o meu interesse, vez que ela nessa idade tanto pode como não pode gostar da ideia de chamar a atenção de caras mais velhos, isso embora eu não seja muito mais velho, só uns sete anos no máximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu sabia como ela se chamava, era Andressa, alguém me falou numa certa ocasião, e eu remeti imediatamente a uma outra garota de nome parecido - esta se chamava Andreza, com z - que morava perto da escola onde eu estudava na época do ensino fundamental (eu tinha, sei lá, uns 15 anos, e a Andreza também), e como toda garota daquela área, ela estava sempre em oferta para quem chegasse, o preço não podia ser mais primitivo: era sempre o cara mais forte que chamava a atenção das meninas por ali, e eu nunca fui forte nem nada - apanhei muitas vezes na vida, aliás, apanhei em todas as vezes que briguei -, no entanto teve uma fase em que fiquei amigo do Eric e ele serviu de atalho pois era um cara forte, e não somente forte, era um gaúcho muito bem-apessoado, além de carregar aquele sotaque característico que eu acho chato mas as meninas achavam charmoso e tudo isso formava elementos que despertariam inveja em todos os outros caboclos da turma, eu inclusive. Isso era no ano 2000, e eu conheci o Eric um mês depois de iniciada as aulas, na semana em que se comemoravam os 500 anos do país e havia todas aquelas festividades, o que pra mim era uma chatice enorme, e eu na minha origem punk decidi como uma forma de rebeldia fajuta dessas que a gente nutre na adolescência rabiscar na minha camisa da farda a frase PAU NO CU DO QUINTO CENTENÁRIO, e enquanto andava com essa camiseta no pátio da escola, o Eric me parou certa vez e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pô, massa demais... até que enfim alguém que pensa como eu por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pega, pinta a tua camisa também, falei, entregando-lhe logo uma caneta vermelha, dessas de escrever em lousa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali em diante, eu, com a amizade do Eric, teria algumas portas abertas no meio mais obscuro da escola, porque Eric era um garoto de classe média alta que tinha ido parar ali como forma de castigo, mas seus pais não esperavam que o castigo do garoto se tornasse um carma para eles, porque Eric naquela escola virou rei, rei das garotas, a quem conquistava facilmente e rei da negrada, sendo ele o traficante-mor daquele gueto, carregando sempre dinheiro para fazer circular tudo de bom e de ruim sob vista grossa da Ritinha, a diretora da instituição. Eu e Eric formamos junto com outro cara chamado Maurício uma banda punk chamada Cavalo Amarelo, que depois passou a se chamar Aura Oculta e aí ficamos realmente próximos e com ele comecei a viver mais coisas, comecei a pôr em prática os delírios que eu absorvia da literatura que me convinha (com Jack Kerouac e Neal Cassady falando da magia de viver as ruas e o mundo, fugir dos escritórios e dos ambientes claustrofóbicos, de frequentar meios marginais), e nessa tendência convivi por uns anos com o meio barra-pesada que o gaúcho frequentava, e nesse período foi que conheci, pelas infinitas rodas de bebedeira, a Andreza,  que também tinha uma bela bunda como a garota de nome parecido, além de tantas outras conheci nessa fase - só que ao mesmo tempo não conheci nenhuma, pois todas essas meninas que comi e de quem esqueci logo depois foram apenas símbolo de um tempo de deslumbre, quando eu, adolescentemente, queria viver todas as coisas e não vivia nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o Eric foi embora - ele sofrera um acidente de carro que o faria perder a voz e os pais mandaram-no para morar com outros familiares no Rio Grande do Sul -, nossas vidas já estavam se desestruturando, de modo que se continuássemos naquela a coisa ficaria preta para nosso lado. A Aura Oculta já era artifício do passado, o Maurício já tinha se tornado pai de família aos 16 anos, e eu terminei ficando sem o meu suporte principal, de maneira que percebi já ser a hora de deixar de frequentar os círculos tenebrosos com os quais eu ainda estava envolvido. Levou pelo menos dois anos para que eu abandonasse completamente essas influências, precisando manter-me recluso, mudando de escola, diminuindo gradativamente meu relacionamento com outras pessoas - tanto as desse meio como as pessoas "comuns" - e precisando segurar a vontade que eu tinha de abandonar o isolamento para retomar os contatos com intuito de comprar algumas trouxinhas de cocaína, mas resisti talvez porque não fosse viciado, e sim apenas fascinado pelas maravilhas narcóticas. A Andreza, porém, que me deu a maior força e foi a única pessoa com quem mantive contato, ficou para trás, no entanto eu soube há não muito tempo que ela havia se mudado. Espero que para bem longe, ainda que hoje ela já não deva mesmo ostentar aquele corpo bonito que mantinha nem talvez o carisma que me fez lembrar dela antes das muitas outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, algumas coisas permanecem, a minha fissura pela cocaína por exemplo era a mesma que mantinha por sexo, e tanto um como outro quando cruzam hoje o meu caminho me fazem remeter àquele período estranho, e por isso eu sempre tentei me convencer de que a cocaína é uma merda, o chá de cogumelo é uma merda, sexo é uma merda, punk é uma merda, só que eu não pensava essas coisas por apreensão, nem vergonha, nem repúdio das memórias que trago, pelo contrário, sem elas não seria o que sou; é apenas porque realmente não gosto mais dessas coisas, elas me chateiam - mas de Kerouac ainda gosto, enfim aprendi a lê-lo. Em paralelo, aos poucos vou tentando me livrar do estigma que sempre carreguei, mas que se intensificou durante e depois daquele período, de valorizar tão pouco as outras pessoas, de maneira que hoje, anos depois, tenho me relacionado melhor com as drogas do que com o sexo (por isto ser uma coisa que necessita de presença alheia, o que para mim é algo potencialmente incômodo) e findo lamentando, quando olho para trás, pela pessoa que eu parecia ser, afeita a certos prazeres tão desmedidos que agora pareço estar sequelado, vendo a garota à minha frente balançar suas belas nádegas redondas em meu convite - e aposto que além desses atributos, ela ainda é uma garota de muito mais cérebro do que todas aquelas que experimentei na adolescência - mas eu prefiro deixar pra lá, para não ter que pensar em tudo de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6191559431055713920?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6191559431055713920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6191559431055713920&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6191559431055713920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6191559431055713920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/11/depois-do-sexo-depois-das-drogas-depois.html' title='Fissuras reprimidas'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-2105358368402131294</id><published>2009-11-09T13:44:00.011-03:00</published><updated>2009-11-10T12:37:54.760-03:00</updated><title type='text'>50 caixas de sutiãs anatômicos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nunca fui tanto à Igreja quanto no último mês. Desde que abandonei a minha moral católica há uns dez anos, só frequento tal recinto para levar minhas considerações a amigos e colegas falecidos, nas missas de Sétimo Dia. Ultimamente, tem se tornado comum. Lembro-me que pouco mais de um mês atrás, um sujeito conhecido como Pequeno,  também chamado de "velho companheiro", infelizmente viu seu fim de forma trágica. Ele era o pedreiro que estava remontando algumas coisas no meu quintal, reconstruindo um muro, reinstalando, versátil como era, a fiação elétrica para que eu pudesse ter alguma luz quando quisesse matar algumas noites ali - elas haviam sido danificadas por um curto-circuito recente. Na décima vez em que Pequeno completara o serviço do dia - faltando apenas outros dois dias para concluir toda a reforma -, ele me chamou para o Video-Bar do Léo. Eu não gosto de beber nos bares daqui, então até pensei em topar, mas depois voltei atrás. Vi Pequeno sair em sua bicicleta, meio trôpego e cambaleante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no sábado a gente vai!, dizia enquanto se afastava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sábado chegou, porém, e o Pequeno não reapareceu. Somente na terça-feira eu recebi a informação de que o corpo de alguém encontrado embaixo do viaduto da BR-101, dias antes, poderia ser dele, e estavam solicitando pessoas que o conhecessem. Fui no Instituto Técnico de Polícia e me alertaram desde já que o corpo estava em grande parte irreconhecível não somente pela decomposição, mas porque o rapaz em questão havia sido espancado brutalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendo, falei, meio sem saber no que pensar. Parecia estar no piloto automático.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o legista puxou o lençol mostrando-me o corpo, eu até me espantei com o estrago que fizeram com o rosto. Mas eu o reconheci pela sua dentição irregular. Reparo rápido nas dentições das pessoas, talvez porque a minha também é bastante irregular; deve ser uma forma inconsciente de autodefesa, ou de autoafirmação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É ele mesmo, Pequeno, chama-se José Vieira, não sei o nome todo, falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo bem, nós já temos aqui, disse o legista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Junto com alguns vizinhos - que sempre requisitavam os serviço de Pequeno nas suas reformas -, bancamos um funeral modesto para ele. Pequeno morava com a mãe, uma velha que ainda precisa lavar roupa pra poder se sustentar. Grande parte das minhas economias, inclusive um dinheiro que iria utilizar para viajar para um congresso, repassei para a pobre dona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pequeno enchera a cara no Bar do Léo e, segundo a polícia, ao sair, bêbado, foi seguido por dois elementos que esperaram o momento certo - a ocasião em que ele passava sob o Viaduto da BR-101, uma área bastante deserta - e derrubaram-no da bicicleta, encheram de porrada e levaram para casa algo em torno de, sei lá, 30 reais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo que participei do movimento estudantil na época em que fazia ensino médio tinha sido determinante para que eu pudesse fazer algumas amizades. Se dependesse de minha iniciativa em conhecer pessoas pura e simplesmente por conhecer pessoas, provavelmente eu estaria vivendo num deserto hoje. O hábito de estar sempre em interação me permitiu conhecer pessoas de anos diferentes, turmas diferentes, ser convidado para momentos de confraternização e outras coisas afins que sempre fiz com prazer. Mesmo não mantendo contato com praticamente ninguém, há um respeito latente quando nos vemos, e sempre assunto para algumas horas de conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um amigo do passado, porém, essas horas de conversa não mais existirão. Era o caso de Ítalo, que conheci de modo adverso - questionando-o aí em alguma assembléia estudantil anos atrás - mas que depois viramos grandes amigos, também decolou para o além há alguns dias, semanas na verdade. Em viagem de carro para a cidade de Currais Novos, seu pai perderia o controle da direção e sofreriam uma colisão de frente com uma carreta que vinha em sentido contrário, num acidente que foi fatal para as quatro pessoas no carro (a prima de Ítalo ainda sobreviveria mais uns dez dias internada).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamentei bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última vez que o encontrei faz seis meses. Eu estava assistindo algumas bandas instrumentais no Som da Mata e ele me chamou e até me pagou um lanche e papeamos por muito tempo, inclusive saudei-o bastante por ser ainda um cara de ideias avançadas e prosa fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu pensava, enquanto conversávamos, nas outras pessoas que me circulam hoje, quase todas de conversas redundantes, incapazes de conseguirem falar de algo além do assunto em questão - geralmente alguma merda bem banal - e desarticuladas demais até mesmo para formular algumas perguntas (o que faz as conversas parecerem um interrogatório de minha parte), concluia que deveria ser mais amigo de pessoas como o Ítalo. Mas ser mais amigo não é uma escolha. Deixei por obra do acaso a responsabilidade do nosso próximo encontro, no entanto a vida tomou outro caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante anos, o ponto comercial que tem aqui do lado da minha casa esteve alugado a um bom sujeito chamado Tércio. Ele estava agora com seus 50 anos, era um cara vivido, um aventureiro, contudo alguns anos atrás, ele, cansado, já sem tanta saúde, decidira levar uma vida pacata, dividindo com sua esposa - Mercedes, na mesma faixa de idade - e a filha - Juliana Carla, de 21 anos - a propriedade de uma pequena loja de roupas femininas. Tércio passava o dia todo, manhã e tarde, na loja. Lá pelas 14h00, a Juliana aparecia. Depois desse horário, ele ou a esposa, ou às vezes os dois, saiam, para bancos, distribuidoras e coisas assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Mercedes, porém, faleceu pouco tempo depois de abrirem a lojinha aqui. Eles pensaram em fechar a loja, mas Tércio achou melhor mantê-la. Pensava em dar para a filha no futuro. A Juliana e eu nos conhecemos e viramos bons amigos, e até mais - ou menos - que amigos, por muitas vezes já nos pegamos ali na salinha dos fundos da loja. Às vezes, quando tinham algumas peças que não iam mais vender por motivos diversos, como defeitos de fabricação , a Juliana brincava com elas, experimentava, botava, tirava, sob a minha vista e com minha ajuda, claro; depois, jogava as peças fora, ou doava, até para mim mesmo. Eu trouxe várias. Presenteei muitas outras garotas com esses trajes íntimos não-vendíveis. Com a Juliana, a coisa não foi pra frente, mesmo com todas essas travessuras a dois, apesar de que quase namoramos, dada a frequência com que eu ia visitá-la - claro, quando o pai não estava presentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela já tinha outros planos. Arrumou um namorado de fato no meio tempo em que estivemos distantes um do outro e ficou noiva rápido. Conheci o cara quando ele veio à loja certa vez. Não senti inveja dele. A Juliana era uma ótima garota, no entanto eu levaria muito tempo para me acostumar à ideia de casar com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se casaram no início deste ano, só que Juliana manteve o costume de cuidar da loja com o pai. Semana passada, porém, essa rotina foi definitivamente quebrada. Quando a Juliana chegou, pela tarde, no seu horário de sempre, discutiu bastante com o pai porque segundo ele faltavam peças de sutiã. Ele ficou com raiva porque a filha havia sido muito desleixada ultimamente com a loja, e mandou que ela fosse na distribuidora trazer um número previamente acertado de caixas de sutiãs com barbatanas de sustentação anatômica: 50.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juliana saiu na picape em alta velocidade. Pude ouvir daqui. E sabia que todas as vezes que ela saia rápido assim no carro significavam que havia brigado com o pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, ela demorou demais. Levou quase duas horas para voltar. Quando enfim chegou, com aquele monte de caixas arroseadas na caçamba, a rua estava pacata como sempre e ninguém tomava conta da loja. Somente quando entrou é que percebeu o pai já desacordado, provavelmente já estava morto; havia tido uma parada cardíaca e nenhum socorro pôde ser prestado pois não havia ninguém para ajudá-lo. Ela chamou a ambulância, mas não adiantou, o Tércio havia mesmo ido. Tudo isso por causa da teimosia em terminar o dia com 50 caixas de sutiãs anatômicos na loja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia de que um homem morreu aqui na casa ao lado, em si me apavora um pouco. Só que é um pavor que passa rápido. No máximo, gera algum arrepio. De maneira geral, para mim não fez diferença. Eles estavam mesmo para ir embora, afinal. A Juliana fechou a loja, com o falecimento do pai, e foi viver às custas do novo marido. O estoque restante ela vendeu por migalhas, saiu distribuindo, até a mim mesmo ela me viu cinco ou seis caixas de sutiãs dessa. Minha mãe todas pegou para si e para vender no trabalho, eu acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia desses toquei violão no trem com uma garota que se chamava Frida, ou pelo menos se identificava assim. Nós nos conhecemos aqui no bairro há três anos, mas eu não dou muito as caras pelas ruas as redondezas, prefiro ficar trancado em casa, então não rola muito de nos encontrarmos. As vezes em que nos conversamos se deram quando nos esbarramos no ônibus, ou no trem. Sempre, pelo menos uma vez por mês, eu esbarrava nela em alguma dessas conduções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Frida era uma garota rebelde demais, dos tipos que talvez precise se esforçar para parecer provocativa e ousada, mas dava para notar certa autenticidade nela. Era inteligente, apesar de tudo. Falava sobre várias coisas. Xingava muito. Ainda assim, meu cinismo a irritava mais que os seus xingamentos a certos hábitos meus. Tinha uma energia muito explosiva, emitia emoções facilmente, falava alto e rápido. Gostava de falar sobre livros, já emprestei um ou outro para ela. Depois que ela me devolvia, repudiava a maioria dos livros. Dizia que, se eu fosse recomendar algo, que soubesse fazê-lo. Atínhamo-nos a desconstruir os argumentos do outro. Era um exercício interessante. Ela nunca me emprestou nenhum livro, acho que nem tinha livros, aliás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, ela me comentou o fato de eu nunca ter lhe perguntado onde morava. E questionou se era por falta de interesse que eu não lhe perguntava isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu souber onde mora, não ficaria de bom tom para meu lado caso não fizesse uma visita, eu lhe disse, completando: mas não gosto de fazer visitas, como não gosto de recebê-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela de fato já sabia disso, tanto que entendeu - ou pelo menos achei que houvesse entendido. Numa dada ocasião, insistiu que eu conhecesse sua casa. Então concordei e fui. Sabia que ela morava com a mãe, só que a mãe não estava, e não faço ideia de onde poderia estar. No seu quarto, todas as marcas de sua inconsequência: paredes rabiscadas, alguns desenhos demoníacos em papel jogados debaixo da cama, papelotes de pó convenientemente escondidos nos fundos das gavetas, um cd de músicas incompreensíveis já no ponto no mini-system, só esperando ser dado o play, coisa que ela não demora a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosta desse estilo?, ela pergunta. É gore-grind.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é uma merda, eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela comentou que aquele excremento sonoro tinha exatamente essa pretensão, de ser antimúsica, de fugir de convencionalismos. As músicas se ligavam de maneira bizarra, sem pausas ou intervalos quaisquer. Ela adorava. Dizia que esse som é como um trem pro inferno: não tem freio. Haja contorcionismo conceitual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu falei que não queria cheirar nada, e também não queria ouvir nada. Ela acatou, desligou o som e guardou os papelotes, e passei a noite por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois meses depois, eu a encontrei no trem Natal-Parnamirim. Ela estava com violão em punho e perguntou porque eu não a procurei nesse tempo todo. Estava um pouco mais amável do que seu jeito habitual, entretanto continuava elétrica como sempre. Parecia mais bonita também, apesar de a pele estar pálida. Devia estar exagerando nos entorpecentes, eu falei, e ela mudou de assunto. Pegamos o violão e cantamos uma ou outra música. Mas ela não gostava das músicas que eu tocava. Enquanto eu ficava lá dedilhando, ela preferiu pegar a minha agenda e ler se tinha algo escrito. Encontrou um fragmento de poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;porém, não te sou insincero, meu amor&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;a vida pra mim é, e sempre foi, uma dor&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;uma vala de cacos e fatos incolores&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;uma estrada escura e tão vazia de valores&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Gostei disso, ela falou, agora num tom mais sério. Mas não comentou mais, o trem havia parado e era a estação dela. Pegou o violão e se foi, me implorou que a visitasse dentro de um mês depois. Haveria uma novidade na sua vida que queria me contar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Só que não houve "um mês depois". No máximo dez dias após essa conversa, soube que ela morrera por acúmulo de entorpecentes. Havia tomado muitos calmantes  acompanhados de uma notável quantidade de álcool que potencializou os efeitos dos comprimidos, o que causou uma grande depressão em seu sistema nervoso central fazendo-a perder a consciência e sofrer uma parada respiratória definitiva. Morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já sinto a falta da Frida. E fico a lamentar também pelo Tércio, pelo Ítalo. Lamento também pelo Pequeno, com quem eu sempre conversava enquanto o via trabalhar. Era um sujeito que tinha muito a falar, mas ninguém para ouvir, então eu ouvia. Eu ficava sentado numa cadeira de praia tomando cerveja e dizia para ele segurar a vontade, que depois do serviço poderia beber cerveja à vontade. Apesar disso, eu nunca cumpria a promessa. Sempre dividia com ele a bebida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso pensar que nenhum deles fazia parte da minha vida diretamente, pois não participavam dela, não eram parte do meu cotidiano. Só não é suficiente para deixar de lamentar. Decidi passar para o computador e continuar escrevendo os versos manuscritos fragmentados que tinham sido objeto de apreciação, ainda que breve, da Frida, e enquanto digito sinto um frio sinistro me correr a espinha. Olho ao redor e não vejo e já não sinto nada, não há nem vento aqui. O quarto está todo escuro, e hoje está mais fúnebre do que nos outros dias. Mas eu prefiro não acender a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-2105358368402131294?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/2105358368402131294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=2105358368402131294&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2105358368402131294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2105358368402131294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/11/50-caixas-de-sutias-anatomicos.html' title='50 caixas de sutiãs anatômicos'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-3610938015467036318</id><published>2009-10-29T18:25:00.008-03:00</published><updated>2009-10-29T21:27:35.334-03:00</updated><title type='text'>Por umas horas de sono a mais</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando abro os olhos, despertando vagarosamente de um sono curto, postado de maneira bastante desconfortável no sofá, meio sentado, meio deitado de lado, vários travesseiros amontoados entre minhas pernas, na minha barriga, junto à minha cabeça, um calor latente que faz o suor descer testa abaixo, um maldito gosto de saliva acumulada na boca e fora dela, um filme pornográfico na televisão, as luzes acesas, o computador ligado, fito a janela sem sequer mexer qualquer outra parte do corpo, e por uma pequena fresta posso perceber que há um luz solar tentando a entrar na sala, denunciando que o dia está apenas começando e na mesma hora eu lamentei, pois decidira para mim mesmo que dormiria por oito horas, quinze horas, vinte e quatro horas se preciso fosse - era só o que eu queria, afinal: dormir -, mas não, aquele filete de sol nascente, o relógio de parede logo acima da janela e o cansaço do meu corpo deixam claro que não passaram sequer duas horas desde a hora que adormecido até agora, mas como pode?, eu me pergunto, por que também não tenho direito ao sono?, fico matutando, como se alguém pudesse me dar alguma resposta sobre isso, e pior, como se logo eu pudesse ter a resposta desses questionamentos; tanto não a tenho como fico pensando, na verdade, que isso é consequência de equívocos que eu mesmo cometi muito tempos antes, afinal, claro, não foi sempre que eu tive problemas com o sono, embora nem me lembre de quando eu tenha começado a tê-los, mas a minha relação com o dormir é estranha mesmo, porque durante muito tempo eu busquei estímulos para a minha vida, e no entanto, esses estímulos não faziam parte do meu cotidiano, de maneira que eu passei a buscá-los, veja só, nos sonhos; então num primeiro momento eu me vi levado a dormir por muito mais tempo que o usual, dormia bastante, inclusive se me fosse dada a escolha creio que eu teria preferido passar a maior parte do tempo dormindo a passá-la acordado - no entanto houve um momento, não sei precisar qual, em que vi essa minha virtude escapar pelas mãos, meus sonhos já não eram mais os subterfúrgios de que eu precisava, eu costumava acordar trêmulo, desesperado, e isso potencializou a minha asma, levando-me a sofrer crises respiratórias constantes caso passasse muito tempo dormindo, então achei que deveria dormir menos, que dormir estava sendo o meu grande problema, passei a fazer de tudo nessas horas - conversava na internet, lia, ouvia música, bebia, dançava, analisava a situação do meu time, tecia comentários solitários sobre as notícias da política e do cotidiano -, tornando a minha madrugada um horário de extrema mobilidade, e quando o dia amanhecia e o barulho externo começava a invadir a casa, eu enfim deitava, embora naturalmente por pouco tempo, duas ou três horas no máximo, em parte pelo próprio relógio biológico desregulado do meu corpo e em parte pelos compromissos que eu tinha mundo afora, e que os cumpria de maneira cada vez menos eficiente, uma vez que estava sempre muito estafado, acometido de reflexos bastante lentos, incapaz de acompanhar o ritmo dinâmico que meu trabalho num escritório e a minha faculdade exigiam: fui demitido e jubilado, passando a viver, após esse momento, pelo menos seis meses parado, e nesses seis meses a coisa somente pioraria, porque depois de me ver com necessidades que vão além da falta de sono eu sabia que precisava me organizar, a começar arrumando um novo trabalho, um bico, um estágio qualquer se não quisesse morar debaixo de uma ponte nos meses seguintes, obrigando a mim mesmo a tentar recuperar a minha relação saudável com o corpo, dando-lhe o descanso merecido, tentando me deitar cedo para acordar cedo, praticar algum esporte talvez, aceitaando convites de amigos para dormir na casa deles. De qualquer modo, nada disso me ajudaria no meu propósito... eu só percebi isso quando seguia de moto pela Avenida Rio Branco, no Centro da Cidade, e tive um microssono de 4 segundos que me levou a bater em cheio na traseira de um Fiat 174 que estava estacionado. Talvez isso tenha agravado o impacto, pois levei vários pontos no braço, e, enquanto a enfermeira bonita os colocava delicadamente, eu pensava que não havia motivos para aquela minha reação súbita, já que sequer era noite para eu adormecer enquanto pilotava a moto - por sinal, precisei vendê-la depois do acidente -, e só então percebi que eu necessitava na verdade era de um médico, apesar de que nunca gostei de médicos, sempre me distanciei deles, nunca vi neles qualquer perspectiva de melhora nas minhas piores situações, mas tentei engolir meus preconceitos desta vez; porém, este médico em específico também não me ajudaria muito nisso, chegou até a dizer que eu estava com propensão a narcolepsia, uma doença pouco comum que faz as pessoas adormecerem de maneira totalmente repentina, e me recomendou um tratamento que, se eu quisesse pôr pra frente, teria que sacar uma boa grana para pagar novas consultas e comprar os estimulantes que ele recomendara, mas essa grana eu não tinha, e assim terminou mais uma de minhas relações com médicos - como sempre, encerrando-se justo quando o assunto entra na parte financeira. Resolvi aceitar a minha condição e tentar conviver com esse problema - se é que ainda é um problema meu, pois nunca mais voltou a ocorrer -, e atualmente voltei à rotina que mantinha anos atrás, de ocupar as minhas madrugadas com tantas coisas, fico bebericando um conhaque enquanto ouço música no escuro ou fico lendo artigos e artigos da minha área, ou então fico corrigindo provas de alunos, e são sempre muitas provas e trabalhos, outras vezes converso com alguém que se dispõe a virar a noite na internet, o que quase não  acontece, mas quando acontece é muito bom pois supre o meu problema de carência agravado por tantas noites solitário, no entanto às vezes eu queria dormir, apenas dormir, por bastante tempo, mas enquanto me vejo neste instante, quedado, ainda suado, ainda mal-posto no sofá e ainda a observar a fresta de luz nascente na janela, eu percebo que não é desta vez que terei esse direito. Decido então me levantar do sofá, meio cambaleante e contorcido por causa das muitas dores na coluna, sentar ao computador e escrever até o sono chegar; nunca se sabe quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-3610938015467036318?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/3610938015467036318/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=3610938015467036318&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3610938015467036318'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3610938015467036318'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/10/por-umas-horas-de-sono-mais.html' title='Por umas horas de sono a mais'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-417864101984925254</id><published>2009-10-12T10:29:00.004-03:00</published><updated>2009-10-12T11:16:38.177-03:00</updated><title type='text'>Alegoria de um narcisista</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu não me lembro de quando comprei meu primeiro relógio. Não me lembro de quando comprei a TV. Não me lembro da primeira assinatura de revista ou jornal que fiz. Também vejo meus livros, discos, filmes, e não me lembro da circunstância em que adquiri a maioria deles. Mas duma coisa eu me lembro: de quando comprei o meu primeiro espelho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando no Alecrim, no meio daquele amontoado de camelôs e lojas puxando-nos pelo braço, seguia para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu o vi - ou me vi, não sei bem. Meu olhar fora preso de batepronto. O fato que estava colocado é que eu não poderia deixar ali aquela magnífica obra: um belo espelho! Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura, ainda que não fosse carregada de imponência, tinha uma feição hodierna, disposta numa madeira recheada de mesclas douradas e escuras, o que lhe dava muito estilo. A superfície da lâmina de vidro, eficientemente revestida de estanho, suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: peguei o dinheiro que tinha e comprei no mesmo instante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho, talvez por isso não reagi ao impulso de adquiri-lo. O último que tive, quebrei, propositalmente. No dia em que uma garota havia terminado comigo, eu, sentindo-me culpado, não suportando ver minha face horrenda refletida naquele adorno estúpido, descontei justo nele, dando-lhe um murro apenas: toda a vidraça se espatifaria como castelo de cartas. Ainda hoje carrego pequenas cicatrizes na mão direita. Marcas de um passado taciturno que, eu tinha certeza, ficariam para trás com a presença deste novo elemento no meu cotidiano. Depois de comprado o novo espelho, eu nunca mais me interessaria por outro. Para mim, já bastava um no quarto, porque ter qualquer outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis nas sarjetas e por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos -&lt;span style=";font-family:&amp;quot;;font-size:12;"  &gt;&lt;/span&gt; os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, os que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, apliquei-o na parede adjascente à porta de entrada do quarto, ao lado direito, e ficou bem situado também à direita da cama. Esteticamente não era um bom lugar para colocá-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para aquele lado que sempre me levanto, ao acordar. Tal rito passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante uns quinze, vinte minutos, às vezes mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois buscaria um café, um pão, qualquer coisa assim, e voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho, dando sequência à minha liturgia matinal. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem! Não compreendia o que me atava a ele. Não era beleza o que eu via, pois não sou bonito, também não era pose &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;nem grandiosidade, não tenho nada disso, era alguma outra coisa, muito mais subjetiva, que, depois dos primeiros lapsos de curiosidade, desisti de pensar no que poderia ser. Eu nunca adquiriria respostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A despeito de todos os questionamentos, esse hábito passou a fazer parte de todos os meus dias, invariavelmente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matava ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu atentei para outras coisas além disso. Afinal, foi graças ao espelho que percebi, a partir da própria imagem que eu captava do meu quarto através de sua superfície polida, que as coisas precisavam ser mudadas. Então me situei: estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança, e não na inércia, na imobilidade. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava, de algum modo, uma segunda e última chance de tentar colocar a vida nos trilhos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, já se passaram vários anos desde que adquiri esse entendimento, no entanto por mais que esteja empoeirada em quase toda a armação e sua estrutura notoriamente caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-417864101984925254?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/417864101984925254/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=417864101984925254&amp;isPopup=true' title='25 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/417864101984925254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/417864101984925254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/10/alegoria-de-um-narcisista.html' title='Alegoria de um narcisista'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>25</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1231214984175180001</id><published>2009-10-02T12:40:00.004-03:00</published><updated>2009-10-02T16:26:26.501-03:00</updated><title type='text'>Fragmento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estava nos arredores da Rodoviária Velha e procurei um bar em qualquer dos becos adjacentes, escolhi o único aberto, bastante movimentado, sentei e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, até mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Muitos caras altos e bonitos, de barbas ralas e cabelos caindo pelo rosto, que só olhavam meio de lado e estavam sempre de meios-sorrisos, com camisetas de etiquetas pequeninas porém situadas em pontos estratégicos, muitos carros estacionados que se prolongavam pela rua, alguns populares dividindo espaço com outros mais elitizados e eu ali no bar sozinho em uma mesa, na espera de apenas alguns copos de cerveja, incapaz, pela própria ignorância, de distinguir um Corsa de um Palio entre veículos que vejo diariamente pelo trânsito. Era curioso que um bairro antigo e boêmio tivesse virado rota de atração dessa classe média alta, vinda lá do outro lado da cidade, mas era compreensível, sobretudo porque há de fato uma escassez de programas noturnos em todas as zonas, e os que existem, já estão saturados, como este, que se mantinha lotado, cada vez mais.As conversas eram prolongadas, pessoas de mesas diferentes se interagiam como se estivessem em perfeita comunhão, as garotas vez ou outra se atinham a desfilar pelo ambiente, dirigindo-se a algum canto pra cochicharem qualquer coisa, sempre atraindo vários olhares atrevidos, menos o meu. No máximo, eu olhava apenas para as garçonetes, todas mulheres. Mas elas não davam muita atenção. Quando uma veio me atender, perguntei o que me sugeriria, no entanto ela apenas  passou o cardápio, numa tentativa de ser simpática e impessoal. Não demorou e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair sem terminar de beber toda a cerveja e pedi a conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deseja mais alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz que não lentamente com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, muito obrigado e volte sempre, disse, apressadamente, mal oferecendo um sorriso e dando as costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1231214984175180001?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1231214984175180001/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1231214984175180001&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1231214984175180001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1231214984175180001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/10/fragmento.html' title='Fragmento'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1535373415480333760</id><published>2009-09-20T16:16:00.007-03:00</published><updated>2009-09-20T17:32:35.833-03:00</updated><title type='text'>Enfim, Tá na Cara!...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dou pausa nos contos e poemas para anunciar a publicação da 3ª edição da revista Tá na Cara!, para a qual escrevo e reviso, além de fazer parte do conselho editorial. A revista foi agraciada com uma cerimônia de lançamento realizada na Livraria Siciliano do shopping Midway Mall (Natal), na qual estiveram presentes mais de 50 pessoas e foram vendidas pelo menos 30 edições. O lançamento contou com a presença ilustre de Juliano Siqueira (militante político, ex-vereador de Natal, ex-deputado pelo RJ, professor de Direito da UFRN) e homenageado nesta edição e Pablo Capistrano (escritor mais vendido do estado e uma das revelações nacionais da Editora Rocco, que relançou seu livro &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pequenas Catástrofes&lt;/span&gt;), que emprestaram, durante 50 minutos, seus conhecimentos sobre técnica literária, jornalismo, política e mídia participativa na cerimônia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Na nova edição da Tá na Cara!, eu assino quatro textos, são eles:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SraKEpaqxKI/AAAAAAAAAL0/LLoUGvVPjDw/s1600-h/digitalizar0002.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 133px; height: 191px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SraKEpaqxKI/AAAAAAAAAL0/LLoUGvVPjDw/s320/digitalizar0002.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5383642217009824930" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Catando Histórias no Chão da Praça&lt;/span&gt;, um diagnóstico da vida de um mendigo do Centro de Natal, construído a partir de suas vivências relatadas em entrevista na Praça André de Albuquerque;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Matou a Garota e Foi à Igreja&lt;/span&gt;, um thriller de suspense e selvageria onde se narra os acontecimentos trágicos que levaram à morte pós-estupro de uma menina de 15 anos, baseada na história real de Maria Luiza, que causou bastante repercussão na imprensa local e nacional neste ano. Toda a história é feita a partir das declarações do suspeito, com quem conversei por telefone (ele está preso em local secreto), e das investigações policiais;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Sobre a Carência Feminina&lt;/span&gt;, um conto curto onde rememoro momentos diversos  em que me vi diante de mulheres no estado emocional em questão;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SraL0SYpnpI/AAAAAAAAAL8/9seaU7EAM8Y/s1600-h/digitalizar0003.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 135px; height: 209px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SraL0SYpnpI/AAAAAAAAAL8/9seaU7EAM8Y/s320/digitalizar0003.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5383644134972694162" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;ABC, Para Além de Qualquer Lógica&lt;/span&gt;, uma redação produzida com olhar de torcedor onde se discute a origem da mística que existe em torno do time mais popular do estado, o ABC Futebol Clube. Este texto é parte de uma trilogia a continuar nas próximas edições, que destacam os três grandes do estado (ABC, América e Alecrim);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revista conta ainda com os textos &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Noite Perdida em Natal&lt;/span&gt;, principal matéria desta edição onde se relatam histórias vividas nas casas de drinques diversas da Cidade, e &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Dez Horas com Juliano Siqueira&lt;/span&gt;, minibiografia produzida após quase meio dia de conversa entusiasmada da nossa equipe com esse notório potiguar - ambos escritos por Angelo Girotto (editor e diagramador); &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Você Escolheu Errado seu Super-Herói&lt;/span&gt;, texto do já falado Pablo Capistrano; além das contribuições de Meri Medeiros (militante histórico do Partido Comunista e dos poetas mais reverenciados da cidade), com &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Rimas do Meu Verso&lt;/span&gt;; e de Ubiratan Júnior (professor de Comunicação Social da UFRN), que assina &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Vida em Clausura: Uma Felicidade Pela Renúncia&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as minhas matérias são ilustradas pela &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Ana Luísa Medeiros&lt;/span&gt;, estudante de Arquitetura que tem diversos trabalhos disponibilizados na internet, cujos desenhos são destaque em todas as edições da revista; ilustra também a Tá na Cara o desenhista argentino &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Andrés Casciani&lt;/span&gt;, autor de obras publicadas na América e na Europa, e que agora, enfim, é publicado no Brasil. A matéria de Angelo é ilustrada com desenhos de Di Cavalcanti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revista é trimestral e custa 5 reais, estando à venda nas livrarias Siciliano e nas bancas da região metropolitana de Natal. Ela também pode ser adquirida via internet, bastando apenas fazer contato pelo email leonknunes@yahoo.com.br, sem acréscimo no preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SraGycHGyeI/AAAAAAAAALs/calFkolDL8c/s1600-h/lansamentod.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SraGycHGyeI/AAAAAAAAALs/calFkolDL8c/s320/lansamentod.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5383638605665585634" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Foto:  eu (camisa verde-musgo) com amigos e membros do Conselho Editorial, no final do lançamento&lt;/span&gt;.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1535373415480333760?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1535373415480333760/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1535373415480333760&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1535373415480333760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1535373415480333760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/09/enfim-ta-na-cara.html' title='Enfim, Tá na Cara!...'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SraKEpaqxKI/AAAAAAAAAL0/LLoUGvVPjDw/s72-c/digitalizar0002.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-3433245351312495850</id><published>2009-09-07T23:26:00.009-03:00</published><updated>2009-09-08T00:39:07.446-03:00</updated><title type='text'>As Artes e Você</title><content type='html'>Eu não sou crítico da arte;&lt;br /&gt;sou apreciador.&lt;br /&gt;Nas sete artes&lt;br /&gt;não há o que se descarte&lt;br /&gt;e não há consolador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tuas partes&lt;br /&gt;só faço&lt;br /&gt;admirar-te.&lt;br /&gt;Tu és minha arte,&lt;br /&gt;e teu abraço&lt;br /&gt;- que ainda sinto -&lt;br /&gt;é meu baluarte&lt;br /&gt;(e não minto).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És o que eu vejo,&lt;br /&gt;Estás em quem eu beijo.&lt;br /&gt;Estás até na pintura&lt;br /&gt;dum azulejo.&lt;br /&gt;És a pequena escultura&lt;br /&gt;no jardim.&lt;br /&gt;Ou aquela música&lt;br /&gt;que me falavas:&lt;br /&gt;"esta foi feita pra mim!"&lt;br /&gt;És também o filme&lt;br /&gt;que me entrete.&lt;br /&gt;E até em meus contos&lt;br /&gt;dou mostras de como&lt;br /&gt;meu amor por ti&lt;br /&gt;se derrete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no palco dos meu sonhos&lt;br /&gt;Tu és a única estrela&lt;br /&gt;da peça em cena,&lt;br /&gt;que quando começa&lt;br /&gt;fica até fácil notar&lt;br /&gt;na primeira fila,&lt;br /&gt;eu, só a te fitar.&lt;br /&gt;Ao passar das cenas&lt;br /&gt;Vou te vendo tão distante&lt;br /&gt;- e já quase agonizante -&lt;br /&gt;por não poder te tocar&lt;br /&gt;(que pena...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que amor surreal,&lt;br /&gt;algo pós-moderno.&lt;br /&gt;Neste texto conceitual&lt;br /&gt;dedico-lhe o que faço&lt;br /&gt;no seu jeito mais terno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois na arte, nada é certo.&lt;br /&gt;O que vale&lt;br /&gt;é ter nosso sonho por perto.&lt;br /&gt;Nem me acho artista,&lt;br /&gt;mas em algo somos iguais:&lt;br /&gt;(vivemos nas nuvens)&lt;br /&gt;somos sonhadores habituais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E poucos homens&lt;br /&gt;revelam-se desta forma:&lt;br /&gt;eu viveria&lt;br /&gt;sobre uma plataforma&lt;br /&gt;só a te ver bailar&lt;br /&gt;e descreveria&lt;br /&gt;cada passo teu&lt;br /&gt;numa bela caligrafia&lt;br /&gt;e no teu olhar&lt;br /&gt;em minha direção&lt;br /&gt;eu logo pensaria:&lt;br /&gt;"agora sou eu!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por mais fria&lt;br /&gt;que fosse a noite&lt;br /&gt;eu contigo dançaria,&lt;br /&gt;até que surgissem no céu&lt;br /&gt;as ingratas luzes do dia.&lt;br /&gt;E mesmo se fosses embora&lt;br /&gt;eu pensando ficaria&lt;br /&gt;que a nossa dança,&lt;br /&gt;em meus sonhos,&lt;br /&gt;nunca terminaria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-3433245351312495850?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/3433245351312495850/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=3433245351312495850&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3433245351312495850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3433245351312495850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/09/as-artes-e-voce.html' title='As Artes e Você'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-846470627879318918</id><published>2009-08-28T10:39:00.006-03:00</published><updated>2009-09-07T14:26:47.822-03:00</updated><title type='text'>No alto da serra</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu estava ainda na primeira metade da garrafa de conhaque, embora a tarde aos poucos já anunciasse o seu fim. As outras pessoas começavam a ir embora, o local começava a esvaziar-se. Eu estava no Mirante do Canto, um lugar situado no alto da Serra de Martins e que proporciona uma vista incrível de outras serras preenchidas pelo verde, de rios que cortam as terras em rumos sinuosos e azuis demais, alguns pequenos cercados camponeses, tudo sob a imensidão de um céu de sol e nuvens leitosas, paisagem que eu já vislumbrara noutras ocasiões, mas que agora não me parecia mais tão bonita. Eu havia chegado umas três horas antes, o tempo estava frio mas mesmo assim comprei uma cerveja. Só que não queria cerveja. Antes de terminá-la, comprei um conhaque, porém ali estavam vendendo somente em dose. Saí e comprei uma garrafa e voltei para o mirante. Estava a fim de beber até ver tudo engolido pelo breu da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todo o tempo que passei, meu silêncio só foi interrompido algumas vezes por pessoas que buscavam informações, ou queriam fazer novos amigos. Eu nunca estou muito aberto a isso, embora até que considerasse, e chegávamos a conversar por algum tempo. Geralmente vinham em grandes grupos, às vezes turistas, ou grupos de estudantes em aulas de campo, mas também apareciam pessoas que vinham sozinhas ou com suas famílias, tirarem fotos e conversarem pra caramba. Mais de uma vez me ofereceram alguma coisa, algum petisco para comer e me convidaram a mesa. Topei em uma dessas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que tá fazendo por aqui?, perguntou-me um cara bem falante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou professor, vim tirar umas fotos para mostrar a meus alunos, falei. Obviamente estava mentindo, nem máquina fotográfica eu havia levado. Ainda bem que ele não pediu pra ver as fotos, ou tirar alguma deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas são minha esposa e meus filhos - um casal de crianças. Sempre me pedem pra vir aqui, mas detesto subir essa serra, meu carro é do tipo que só se comporta bem em sentido plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também não gosto, disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer carona depois daqui?, perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, obrigado. Estou de moto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou um bom tempo falando que já foi motociclista, e dos riscos que essa prática traz. Felizmente, não demorou a ir-se embora. Assim me ative novamente às minhas divagações, a perder meu olhar no meio da vastidão de terra e água que se podia enxergar daquele mirante, e a enveredar mais algumas doses. Aos grupos que passavam, eu praticamente ignorei; às vezes, recebia algum aceno de cabeça e retribuía. Noutras, perguntavam o que achavam daquele local, daquela atração, e eu só dizia um "ô, muito bom", e pronto. Até porque para mim não era bem uma atração, era apenas um bom lugar, como uma praça, só que mais distante - uns 350km - de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já perto de ir embora me apareceu um confeiteiro com quem esbarrara noutras ocasiões e era muito bem-relacionado. Não lembrava bem o nome dele, parece que era Décio, mas não arrisquei mencionar. Era negro e baixo, devia ter 1,50m de altura, careca, tinha uma voz engraçada. Ele me reconheceu fácil pelas tantas vezes que fui ali, e lembrava inclusive meu nome, o que me surpreendeu e me deixou um pouco sentido de não lembrar o seu. Os responsáveis pelo mirante não gostaram muito. Notei de longe que olhavam estranho pra minha mesa quando o confeiteiro sentou comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorei o olhar e fiquei a prosear algum bocado com o velho camarada, e ele ainda me perguntou, onde está Cinthia? É Cinthia o nome de sua namorada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espantei-me novamente com o vigor de sua memória, e confirmei, sim, é Cinthia. Aliás, era, não namoramos mais há uns três anos, he-he...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puta merda, dou muita bola fora, falou, em tom de brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu confirmei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por algum tempo, conversei com ele apenas no piloto automático e fiquei com a imagem da Cinthia na cabeça. Eu e ela tínhamos ido ali meia dúzia de vezes, pelo menos. Ela, em todos os instantes, se admirava com a paisagem: é a coisa mais incrível do mundo, dizia. Talvez a Cinthia não tivesse visto outras maravilhas naturais que servissem como parâmetro de comparação, mas eu sempre concordava: a coisa mais incrível do mundo. Queria que ela ainda estivesse aqui; era só nisso que eu pensava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que notando o olhar de soslaio dos responsáveis pelo mirante, o confeiteiro rompeu meus devaneios e fez sinal para me falar algo no ouvido. Amigo, disse ele quase sussurrando, me acompanhe que há um lugar muito bom que vou te mostrar, porque aqui daqui a pouco está fechando. Venha, você vai gostar de conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu já estivesse mesmo de saída, topei. Saímos caminhando, deixei a moto lá estacionada. Era fim de tarde e andamos por umas ruelas de areia envolvidas por grandes árvores. Como já estava chegando a noite, já não era possível enxergar muita coisa, os meus olhos até lacrimejavam. O Décio, ou seja lá qual fosse seu nome, permanecia calado. Percebendo que a situação tomava contornos muito estranhos, eu, mesmo um pouco bêbado do conhaque - ainda levava a garrafa com bastante bebida na mão - decidi não arriscar mais. Bati-lhe a mão no ombro, segurando-o com alguma firmeza, e falei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu velho, preciso voltar, a noite já chegou e estou muito indisposto. Obrigado pelo papo, pegue esse conhaque pra você. Adeus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falei protuberantemente e com uma convicção tal que ele nem ameaçou insistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para o mirante e peguei a moto, já estava escuro e eu não tinha muitas condições de fazer nova viagem de volta pra capital, decidi passar a noite ali por perto, em alguma suíte. Fui para a Pousada Bela Vista, não é muito barata mas era a única que conhecia, era lá onde sempre me hospedava quando acompanhado pela Cinthia, e não tinha saco pra fazer pesquisa de preço agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que cheguei, dormi por algumas horas, acordando pouco depois da meia-noite, e aí não consegui mais adormecer. Tava com uma puta vontade de escrever, mas não tinha nada, nem computador, nem mesmo papel. Não tinha livros pra passar o tempo, mas tinha apenas uma TV, que, no entanto, não me serviria. À parte disso tudo, não tinha a Cinthia - o que tornava aquele ambiente muito mais morto e torturante para mim. O único subterfúgio que restava era a bebida, que eu não tinha mais. À minha disposição, ali, só havia um bom aparelho de som. Abri a janela, deixei aquele frio pesado das serras entrar no cômodo, e fiquei sentado a contemplar a imensidão negra lá fora ouvindo músicas lúgubres e lamentando mais de mil vezes por ter dado o litro de conhaque para o confeiteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-846470627879318918?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/846470627879318918/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=846470627879318918&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/846470627879318918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/846470627879318918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/08/no-alto-da-serra.html' title='No alto da serra'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6541110351767113856</id><published>2009-08-13T05:57:00.001-03:00</published><updated>2009-08-13T13:00:50.545-03:00</updated><title type='text'>O kit-net da Rua Neópolis, parte 1</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minhas últimas noites de sono de oito horas aconteceram antes de eu ir morar na Rua Neópolis. Tudo se tornou mais complicado depois dessa mudança. Comer, andar, dormir, transar, sequer respirar eu conseguia. Ouvir, também tive problemas. Comer, nem se fala. Nem evacuar era fácil pra mim. Dizem que o lar determina muito da nossa qualidade de vida. Eu digo, é verdade. A minha ruiu completamente, e até reerguê-la do buraco, o sacrifício há de ser grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda estava no primeiro ou no segundo trabalho num escritório pequeno quando precisei ir pra lá, brigado com a família, jubilado da faculdade, sobrevivendo com migalhas de um batente que eu sabia ser temporário. Saí de casa e o primeiro lugar a que fui foi o Hotel Nordeste, que hoje mudou de nome - como se fosse possível, assim, livrar-se da má fama. Passei apenas uma noite ali, num quarto que não tinha nada, nem uma radiola que fosse, as camas (beliches) não tinham cobertas, a parede caía aos pedaços e não se identificava nem mesmo sua cor original, além de que, o pior de tudo, não era suíte. Eu precisava dividir o banheiro, que ficava no final do corredor, com todos os tipos de meretrizes e cafetões e viciados. Na primeira vez que fui lá, uma rapariga estava sentada, ao lado do vaso, meio alucinada. Olhei da porta comiserativamente e voltei. O banheiro é um altar muito decadente, mas muito necessário para muita gente, para mim inclusive. Muitas e muitas vezes me vi trancado no banheiro querendo fugir até mesmo do ambiente familiar que a sala, a cozinha da casa proporciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do Hotel Nordeste, saí pulando de pensões em pensões. Algumas até muito boas, porém a grana que eu tinha não era suficiente para manter um padrão mínimo de qualidade. Fui escolhendo pensões cada vez mais distantes do Centro e com gradativamente menos regalias. Até que, já começando a alimentar alguns acessos de desespero, encontrei no jornal o anúncio de um kit-net cujo aluguel nem se aproximava dos 100 reais de tão baixo, mesmo assim acompanhado de água e energia. Dirigi-me até lá na hora. A única coisa que tinha era um violão e uma mochila. Gostava da coisa de ser andarilho, de não ter um lugar específico que me prendesse, mas eu estava começando a perceber que havia muitos revezes desagradáveis nesse modo de vida - muito mais do que os que eu imaginava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rua Neópolis fica no último bairro de Natal - na verdade já fica no território da cidade vizinha. Não havia muitas casas por perto, e as casas que havia viviam fechadas e com luzes apagadas. Não era possível saber se tinha gente morando nelas ou se estavam abandonadas, ou eram segunda casa, nada disso. Além do que, sobravam terrenos vazios: áreas cercadas, recheadas de mato crescente, o que denotava que aquela área ainda estava esperando sua vez para crescer. Eu me lembro de quando estava procurando o local; tinha apenas uma anotação indicando sua localização exata e lembro que, assim que encontrei a rua, me assustei com tamanho prolongamento. A rua devia ter quilômetros, talvez. Ela começava com casas estáveis, pequenos comércios, e na medida em que alçava os metros, notava que o asfalto sumia sob a areia enrijecida e pastel e, como já falara, as residências iam se escasseando. O kit-net que eu procurava ficava no final da rua, depois de subidas e descidas, onde a estrada era pura terra batida, embora desse pra notar alguns filetes asfaltados, o que demonstra que na verdade a área ali até já recebera uma atenção mínima do governo com uma pavimentação de má qualidade. O kit-net, eu fiquei olhando por uns minutos antes de entrar. Havia uma fileira de portas e janelas, devia ser uns sete ou oito. Começava a criar na minha cabeça a ligação com aquele lugar em que, presumia, passaria um bom tempo. A casa da dona do kit-net, a Sra. Jocastra, ficava mais adiante. Não tinha muito a lhe dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUERO UM KIT-NET, AQUI ESTÁ, PAGO ADIANTADO DOIS MESES.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CALMA, MEU FILHO, NÃO É ASSIM. E começou a falar, e falar, e falar. Tratavam-se apenas de amenidades, ela também não tinha nada a dizer. Depois do falatório, passou-me a chave e deu boa tarde - embora já fosse o início da noite. Fui para o meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ambiente não tinha muita coisa. Eram dois cômodos maiores, que podiam ser um quarto, sala e cozinha, além do banheiro. De aproveitável, só havia mesmo o sofá verde-musgo, já envelhecido, entretanto pelo visto ainda estava em condições de uso, acompanhado duma poltrona; uma televisão velha, ainda que perfeitavelmente utilizável; uma cama de solteiro pequena, parecia ser um modelo juvenil, com uma colcha muito fina, um birô no qual eu poderia guardar as minhas roupas. Poderia ser aconchegante se o cubículo não fosse sujo e abandonado. As gavetas do birô denunciavam com um odor bem desagradável a presença de insetos ali, tipo baratas. Por muito tempo, deixei minhas roupas guardadas na mochila. Comprei uns pôsteres para as paredes. Comprei livros e livros. Com tudo isso, comprei também um pequeno rádio para comper o silêncio em algumas madrugadas tristes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira pessoa que conheci nas redondezas foi de modo estranho; era madrugada e estava deitado no sofá ouvindo música clássica na televisão com as luzes apagadas, até que percebi pela sombra emitida sob a porta que alguém estava se aproximando. Logo bateram na porta. Fingi-me de desentendido. Bateram novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM É?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR FAVOR, QUERO UMA AJUDA. Parecia a voz de um cara não muito saudável. MORO AO LADO, afirmou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SAIA DAQUI, QUERO DORMIR.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR FAVOR!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi abrir a porta. PRAZER GAROTO, MEU NOME É TIMÓTEO, MORO AQUI AO LADO, repetiu. Ficamos nos olhando um tempo, alguns segundos em silêncio. Fiz uma careta como se perguntasse o que ele queria. TENHO UMA BEBIDA AQUI COMIGO, QUE TAL SE ENTRASSE PRA GENTE CONVERSAR UM POUCO?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a porta, ele parecia inofensivo, trazia consigo apenas uma garrafa de cachaça quase cheia. Não questionei porque na época eu também não tinha dinheiro para comprar bebidas de mais requinte e sabor. Tinha uns copos descartáveis e bebemos juntos. Ele realmente era menos velho do que eu pensava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR QUE VEIO AQUI?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TAVA COM UMA MENINA NA CAMA E ELA ME EXPULSOU, VEJA SÓ, ME EXPULSOU DE MINHA PRÓPRIA CASA. Sentenciou: EU SOU UM MERDA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EXPULSOU POR QUÊ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PORQUE EU GOZEI DENTRO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei que convinha ouvir outras bizarrices de sua vida. Timóteo trabalhava numa peixaria ali perto, bem se notava um mal cheiro quando ele se aproximava, mas, como se fosse psicológico, aquele fedor nauseabundo se tornou ainda mais forte depois que ele disse qual era seu trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversamos até amanhecer e o Timóteo me disse que também era como eu, também era aventureiro antes de chegar ali - morava num daqueles kit-nets há seis anos. NA ÉPOCA, SÓ EXISTIAM ESSES KIT-NETS. NEM AS CASAS ABANDONADAS DA RUA ESTAVAM AÍ, ele disse. MAS ESSA VIDA, MEU IRMÃO, ESSE BARRACO, E PRINCIPALMENTE ESSE TRABALHO MALDITO ACABOU COMIGO, FOI A PARTIR DELE QUE ME TORNEI O MERDA QUE SOU, completou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acreditei. Ele tinha voz fraca e esforçada. Sua face era recheada de suor incrustado e sua pele já dava sinais de falecimento, isso embora ele me dissesse ter 30 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início, eu tentei evitar maiores contatos com Timóteo; a maior parte do meu tempo eu vivia fora, ou ia para a faculdade só reencontrar os amigos, vez que não tinha mais matrícula, ou ia para algum outro lugar que me permitisse parar e ficar perdido em pensamentos, como um bar, uma praia. Apenas uma parte do dia eu trabalhava, no escritório. Nessa fase, escrevia bastante, e como estava sem computador, passei a me acostumar a escrever manuscritos, coisa de que nunca gostei. No trabalho, a única mudança era quando havia uma necessidade de digitar um memorando; mas quase nunca exigiam. Com o tempo, por inércia, acabei me tornando indisciplinado. Faltava demais, ou me atrasava, ou dava um jeito de sair cedo. Passei três meses lá, e a grana que peguei de saída, uns 400 reais, seria a minha única renda nos três ou quatro meses seguintes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a comer menos, bem menos. Antes meu almoço era num restaurante popular, desses barriga-cheia. Agora, já nem almoçava mais. Saia ao dia e voltava à noite, e comia alguns pães com um café, com um fogão duas-bocas que eu houvera comprado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da primeira fase de estranhamento com o Timóteo, nós nos reaproximamos e ele me ajudava arrumando uma margarina, uma cachaça, algum troço assim. Como ele tinha mais bebida que comida, passei a beber mais do que comer em paralelo. PRECISO DE UM TRABALHO, eu lhe falei. NÃO DÁ PRA FICAR ASSIM.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele dizia que veria o que podia fazer por mim na peixaria; fora dali, eu não tinha muitas expectativas. Morando na periferia, era difícil procurar emprego na Cidade porque o deslocamento era muito despendioso, sobretudo para quem teria que viver com a grana que restava. Timóteo me arrumou, na peixaria em que trabalhava de peão, uma entrevista com o gerente, um tal Seu Correia. A entrevista durou menos de cinco minutos, depois deixei meu contato e fui embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E AÍ, COMO FOI NA ENTREVISTA?, perguntou-me Timóteo à noite, depois de colocar uma dose de cachaça nos copos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FOI MUITO PRODUTIVA. MENTI QUE SÓ A PORRA, falei, e ele deu uma longa gargalhada, ao que eu também caí na risada. De fato, eu havia mentido em algumas coisas na entrevista, não tinha a menor chance de conseguir o trabalho se não fosse assim. Era meio surreal a coisa de achar engraçado estar me aproximando do fundo do poço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Timóteo me desejou boa sorte, mesmo assim, e disse que sairia da peixaria. Disse que estava vendo aí uns negócios em que poderia se dar melhor. Também lhe ofereci boa sorte. Depois disso, ele passou uns dias sumidos e eu estranhei sua ausência. Nesse período, eu havia trabalhado numas coisas bobas, tipo entregar panfleto, e havia conseguido uns trocados suficientes para pagar uns almoços de quando em quando. Começava a me sentir sozinho na região quando conheci, no longo trajeto até a parada de ônibus, uma senhora que morava com a filha perto de mim e precisava de um conserto no seu computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POSSO AJUDÁ-LA, falei. TENHO EXPERIÊNCIA NISSO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, consegui resolver o problema dela, que não era nada sério para mim que havia feito um curso - inacabado - de Desenvolvimento de Software. Tanto a mãe como a filha eram bastante simpáticas, e, sobretudo com a filha, a Ana Paula, uma menina com talvez dezesseis, eu criei uma ótima relação, de maneira que ela até me fazia visitas ocasionalmente, embora eu não gostasse, visto que o kit-net não era lá apresentável; de qualquer modo, com o tempo, visitaria ainda mais. O vínculo parecia ter sido construído tão rápido que sua mãe me convidara para fazer uma viagem de uma semana com elas para Monte Alegre, uma cidade não muito distante. Pensei que faziam isso por ter pena de mim, um pobre garoto com emprego vagabundo e sem família por perto. Então, recusei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas se foram e, sem que o Timóteo voltasse, tornei a me sentir solitário. Mais ainda quando, na mesma noite em que elas se foram, eu notei um movimento no kit-net ao lado. Pensei ser o Timóteo e fui vê-lo. Na verdade, era a Sra. Jocastra que estava lá arrumando algumas coisas sem a menor delicadeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUE QUER?, perguntou quando me viu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONDE ESTÁ O TIMÓTEO?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELE FOI EMBORA, TAVA PROGRAMADO PRA IR, JÁ.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranhei o sumiço do Timóteo e o fato de não ter comunicado o fato antes de ir. Fiquei meio puto por um instante, porém isso se amenizou porque eu achei que minha raiva não era justificada. Timóteo não me devia nada, afinal. Pelo contrário. Ajudou-me bastantes vezes naquele período desgraçado. Eu havia voltado à estaca zero, não tinha mais nenhum bico, não tinha mais dinheiro e não tinha mais comida, só bebida. Acordei no dia seguinte e quando fui olhar a hora no celular - eram 9 horas -, fiquei espantado ao ver que houvera recebido uma mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center; font-style: italic;"&gt;VOCÊ FOI ACEITO PRO CARGO, TERA UM MES DE ESPERIENCIA E DEPOIS ASSINAMOS SUA CARTEIRA. COMPARESSA AS 8H DESTA QUARTAFEIRA NA CASA DO PEIXE, RUA RIO MADEIRA, 481.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Percebi que já estava atrasado uma hora e me apressei, lavei o rosto rapidamente e só fiz beber uma água da torneira, nem tive tempo de tomar banho ou sequer escovar os dentes. Apesar das desavenças com a minha pouca pontualidade, trabalhei o primeiro dia e voltei para minha cama, exausto, e dessa vez bebi bastante não por falta de comida, mas por falta de apetite mesmo. À noite, faltaria luz em todo o bairro - e assim seria durante os trinta dias seguintes, um defeito incorrigível da companhia de energia do estado. A sra. Jocastra disse que não poderíamos reclamar porque toda a nossa energia era adquirida por gambiarra. Eu me lembrei de quando o Timóteo me dissera que, apesar de tudo de ruim que acontecera antes, seu primeiro dia de trabalho na peixaria fora o marco inicial da sua decadência. Isso ficou por tanto tempo na minha cabeça que deu vontade até de chorar. Mas eu não chorei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6541110351767113856?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6541110351767113856/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6541110351767113856&amp;isPopup=true' title='26 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6541110351767113856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6541110351767113856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/08/o-kit-net-da-rua-neopolis-parte-1.html' title='O kit-net da Rua Neópolis, parte 1'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>26</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-4713989987118580448</id><published>2009-07-29T02:16:00.000-03:00</published><updated>2009-07-30T02:48:19.253-03:00</updated><title type='text'>Deve ser herança da adolescência</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje perdi quase trinta reais no pôquer. Não parece muito, e não é. Vejo alguns sujeitos desajeitados perderem muito mais do que isso no clube em que jogo. No meu caso, aliás, nem cheguei a perder todo o dinheiro no jogo. Perdi vinte reais jogando, gastei mais uns oito reais em cervejas. Não me incomodo. Perderia, e ocorre de até mesmo perder, muito mais que isso gastando com cinema, ou gastando com discos, ou gastando com garotas. Trinta reais, contudo, é um limite diário que gasto, ou costumo gastar. Já gastei mais, já torrei centenas de reais em um dia com qualquer coisa – tão sem importância que de nada me lembro, agora –, mas trinta reais é um limite que minha consciência, quando se dá conta, leva a cabo. Deve ser herança da adolescência, quando minha mãe me dava justo essa quantia, e era tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tão estranho o clima de meio de ano, porque vejo mais pessoas no clube de pôquer. Várias delas estão de férias, não estariam ali em outros dias, outros meses. Conseguem, sei lá, um mês para não fazer nada e vão perder o dinheiro que têm de sobra com qualquer bobagem. Eu não tenho férias no meio do ano, então pra mim o cotidiano e suas responsabilidades nunca mudam muito. Alguns que jogam comigo comemoram. Hoje o clube tá bombando!, dizem. Eu acho chato demais, e geralmente quando percebo isso vou embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria procurar um lugar para arejar a cabeça, mas não encontraria. Natal tem poquíssimos pontos que propiciam isso, tão poucos que não lembro de nenhum. Ainda eram três da tarde e,  de tão longe de casa, preferi ficar na rua até cair a noite, quando iria pra faculdade fingir que assisto aula, e encheria o saco dos professores com coisas que eles deviam saber e não sabem. Mas demoro muito para pensar,  tanto que logo cairia uma chuva pesada e eu fui pego desprevenido. Procurei um meio de não ficar ali na rua, me molhando, ou abrigado sob um posto de gasolina. Como, aliado à chuva, havia o fato de a bebida ter me enebriado um pouco, decidi deixar minha moto onde estava e pegar um ônibus, dar um arrodeio pela cidade. Depois de uma viagem de uma hora acho que já estaria mais sossegado. Gastei duas pratas na passagem, e isso zerou a minha carteira, pois havia saído com trinta reais de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem de ônibus durou exatamente uma hora, a chuva enfim houvera passado - ainda que alguns materiais que eu carregava tivessem se molhado antes que pudesse notar -, e desci na mesma parada em que tinha pego a condução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saltei, uma pessoa bem conhecida estava na parada e me viu e cumprimentou. Eu não sei o que penso agora, mas na hora achei que era melhor não ter descido ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oi amigo!, tudo bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma ex-namorada, que agora fazia questão de me chamar de amigo. Cumprimentei, sorri, perguntei como estava. Ela estava bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E você?, perguntou-me, automaticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversamos algum tempo, e ela até tentava ser doce e simpática, mas não era esse seu jeito. Geralmente, tentava me deixar nervoso, e eu às vezes terminava fazendo a mesma coisa. Chamei-a para jogar no clube de pôquer. Ela gostava de jogar cartas, pelo menos antes de virar evangélica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gosto de pôquer, nunca gostei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei, mas o que custa aprender? Você sempre gostou de jogos de baralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostei de alguns, não de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua voz bonita e carregada de um certo cansaço estava mais próxima daquela que me marcara no passado, de maneira que comecei a ficar mais à vontade – acho que ela também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não tá trabalhando, né?, perguntou-me. Pra ficar jogando pôquer numa tarde de segunda-feira, só estando desocupado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, estou sim, mas sei lá, trabalho quando quero, dia sim, dia não, nunca fui afeito a trabalhos que exigem muita disciplina... expediente não é comigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei... disse, sarcasticamente, e completou: tenho pena dos seus alunos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é um amor, falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, ela pegou o primeiro ônibus que passou e se foi, sem dizer tchau e sem dar sequer um aperto de mão. Fiquei vendo-a subir meio apressadamente, e lembrando que no dia anterior eu estava com dois amigos bebendo e cantando no teto de um galpão do Centro de Convenções, sem ninguém por perto num raio de quilômetros, com toda a deslumbrante vista para a praia e para as coleções de luzes artificiais dos prédios e naturais das estrelas e da lua, e com tudo isso, era nessa garota que eu pensava, na vez que estivemos ali, anos atrás. Enquanto o ônibus ainda estava parado, até que ela sumisse completamente de minha vista não levaria nem dez segundos, mas eu ainda lhe dei um aceno e falei, de maneira que pudesse ouvir: vou escrever um conto sobre você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu de dentro do ônibus; detestava meus contos, sempre detestou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era fim de tarde e fui para faculdade e lá, no pátio largo, encontrei um amigo, estava chapado e observando os arredores. Sentei com ele e conversamos um pouco, ficamos olhando as garotas passando e alguns senis seguindo-as. Não tivemos muito tempo. Ele foi logo embora e fui para as aulas, que foram uma merda: hoje, perdi todos os debates. Estava com a retórica fragilizada pelo desânimo e toda aquela droga de turma se unira contra mim. Fui embora mais cedo, não fiquei para o último horário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de ir para casa, porém, passei na praia e fiquei em pé, olhando para o mar. O tempo estava bonito e eu tão sereno quanto. Havia um quiosque próximo, acompanhado de várias mesas, a maior parte delas ocupadas por casais. Observei um pouco, mas não comi nada, sequer sentei. Um dos casais, entretanto, era formado por velhos colegas, havíamos estudado juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sente-se aqui, venha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não, obrigado, respondi, depois de cumprimentá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venha, rapaz!, insistiam. Comecei a me arrepender de ter estado ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez que continuavam a me chamar, como se tivessem algo para dizer - mas não tinham nada, disso eu bem sabia -, precisei fingir que não os ouvia mais para que parassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não durei nem meia hora e me despedi da orla. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi deitar na cama, ainda arrumado, e havia tirado apenas os sapatos. Da cama mesmo, eu ia tirando tudo: relógio, celular, a carteira eu ainda abri uma última vez, para confirmar que de fato não tinha nada. De um dos bolsos da calça, tirei um pendrive e uma caneta, e de outro que pensava não ter nada, puxei alguma quantia em dinheiro. Quinze reais, que eu não sabia que estavam ali. Fiquei um pouco espantado na hora. Espantado e aborrecido. Por um instante, pensei que deveria ter gastado tudo aquilo na mesa de pôquer, mais cedo. Mas fiz bem em não fazê-lo; já bastava de derrotas por hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;style type="text/css"&gt;  &lt;!--   @page { margin: 2cm }   P { margin-bottom: 0.21cm }  --&gt;&lt;/style&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-4713989987118580448?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/4713989987118580448/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=4713989987118580448&amp;isPopup=true' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4713989987118580448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/4713989987118580448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/07/deve-ser-heranca-da-adolescencia.html' title='Deve ser herança da adolescência'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7177038623058331600</id><published>2009-07-23T02:42:00.007-03:00</published><updated>2009-07-23T16:36:21.193-03:00</updated><title type='text'>Na companhia do vazio</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não se preocupe com rejeições, parceiro.&lt;br /&gt;Fumei 25 cigarros esta noite,&lt;br /&gt;e você sabe sobre as cervejas.&lt;br /&gt;O telefone tocou apenas uma vez:&lt;br /&gt;era engano.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Charles Bukowski&lt;/span&gt;, O Amor é um Cão dos Diabos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já fazia quarenta minutos que eu caminhava solicitando carona a todos que passavam protegidos em seus automóveis, mas ninguém me concedia. Era alta madrugada e eu estava um pouco embriagado, mas desejava chegar logo em casa, ou, pelo menos, encontrar algo que me fizesse minimamente confortável. Pouco antes, eu bebia com os colegas de faculdade até que fechasse o bar - na verdade, eu não esperava que fechasse, pois não tinha mais condução que me levasse até em casa, 20 quilômetros distante. Todos se foram, cada qual para seu lado, com as moradias próximas ao boteco, caronas e quetais. Eu poderia usar de minha moto, mas a havia deixado na manhã anterior num borracheiro; estava com o pneu furado e eu teria de suportar o peso de andar a pé e, quando necessário, recorrer ao ônibus - como já disse, porém, não havia mais esta possibilidade na hora em questão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Vou ligar para alguém, pensei, mas para quem eu ligaria? Fiz uma tentativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porra, é quase uma da manhã, disse meu interlocutor quase sem me deixar começar a falar, deixando claro que eu lhe interrompera o sono e desligou, não sem antes xingar minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;O meu celular ainda me oferecia uma lista de pelo menos 30 pessoas a quem eu poderia ligar. Mas eu sabia que delas nada conseguiria senão aborrecidas recusas. Conformei-me em vagar na madrugada, já sem pretensões de conseguir carona ou um refúgio qualquer. Foi quando vi uma lan 24h, e entrei. Pelo menos a internet poderia me entreter até que amanhecesse o dia, eu pensei, já que eu passei da fase de achar legal ficar dormindo na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naveguei um pouco na internet e, dentre os poucos indivíduos disponíveis para conversar àquela hora, me deparei com uma garota insone, uma colega da faculdade que recentemente conhecera. No decorrer do palavreado, ela se queixava de tantas coisas, entre as quais o tédio de estar sozinha em casa naquela madrugada. Então eu pensei, já que estava a não mais que meia hora da casa dela: seria legal se...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Papo vai e papo vem, ela sabia que eu estava por perto e me convidou para ir até sua residência, ao que imediatamente aceitei. Ainda que existisse um certo flerte entre a gente, a verdade é que eu aceitei o convite na melhor das intenções, afinal, só queria um lugar para dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que, quando já estávamos ambos acomodados em sua casa, ainda conversamos um bocado, e como ela soubesse que eu havia bebido há pouco, por certo bateu-lhe também uma vontade de beber, pois logo me ofereceria algo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem uma vodka ainda aqui, que tal bebermos um pouco?, perguntou-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consenti prontamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas horas depois, repousávamos nus em sua cama, tínhamos feito de tudo e isso fez mal à garota se mostrava bastante deprimida e desculpava-se repetidas vezes por ter sido tão oferecida justo nessa primeira vez em que nos encontramos assim, sozinhos. Eu terminei me sentindo mal também com tudo aquilo, esperava que ela adormecesse, quem sabe pela manhã estaria melhor?, mas ela ainda não parecia ter sono, dizia estar arrependida e buscando um jeito de fazer com que não perdesse meu respeito, por mais que eu dissesse que isso não aconteceria. Como ela insistisse e eu fosse reincidente, então me pediu que lhe desse uma prova de que a continuaria respeitando pela manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vá em frente, incitei. Que prova você quer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me peça em namoro!, ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me assustei com a proposta. No entanto, como sabia que ela tinha bebido e sequer se lembraria da conversa depois de um cochilo, cedi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá bom... Namora comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu e sentenciou: hahaha! Não, seu otário, não gosto de você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos minutos depois, a garota estaria vomitando todo o banheiro, depois tomaria um banho rápido e voltaria despida para a cama, dormindo em seguida. Ela já nem sabia o que estava fazendo. Eu fiquei acordado, continuava a me sentir mal, não pelo excesso de bebida, mas por aqueles momentos a dois. Não esperava que um abrigo me custasse tão caro, e a noite de sexo realmente não compensou o peso psicológico que foi permanecer ali. Fiquei andando pela casa, sentando no sofá e levantando, até que só quando começava a ver filetes do alvorecer reprimidos pelas brechas da janela eu fui me deitar na cama, a seu lado, adormecendo logo. Não muito tempo depois, o telefone tocava e nós dois despertávamos, ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você precisa ir embora, ela proferiu calmamente, e explicou o porquê. Fui embora, portanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas horas depois, o colega que me houvera recusado um lugar para dormir estava a ligar, chamando para assistir uma apresentação de sua banda num festival de rock. Aceitei o convite, por mais que já não ande com muito saco de acompanhar festivais musicais, e sempre penso que ninguém tem saco também, de maneira que eu nunca convidaria alguém pra ver uma banda minha a tocar num festival, por mais que houvesse uma nova proposta literária ou musical no nosso som, ainda que não houvesse pretensão de nada disso no som da banda de meu amigo. Mesmo assim, fui e acompanhei. Meu bom camarada se divertiu bastante com seu espetáculo, e nossos amigos em comum também eram pura euforia no meio do público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final, ficaram todos juntos, bebendo e fumando e tal, eu fui embora logo. Não queria permanecer ali por muito tempo mais. Era relativamente cedo e teria bastante ônibus disponível àquela hora, então não perdi tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei em casa e uma impressão estranha me acometia. O silêncio parecia mais audível para mim do que nos outros dias. A escuridão era mais visível do que eu percebia normalmente. Li um pouco, ouvi música, fui para o computador. Agia por inércia, sem propósito, sem juízo. Fui logar em um de meus emails, e a resposta que obtive me fez concluir que, por tanto me procurar, enfim eu havia me encontrado: "o usuário não existe mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7177038623058331600?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7177038623058331600/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7177038623058331600&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7177038623058331600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7177038623058331600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/07/na-companhia-do-vazio.html' title='Na companhia do vazio'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-5258484021374661483</id><published>2009-07-08T23:53:00.003-03:00</published><updated>2009-07-09T23:55:30.372-03:00</updated><title type='text'>Cinco anos depois</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu comecei a frequentar blogs, no longínquo ano de 2002 ou 2003, numa época em que nem se sabia direito o que era isso, e nunca imaginaria que teria um. Então comecei a postar, há exatos cinco anos, e não pensei que fosse gostar, até mesmo precisar, tanto. Ao elaborar posts mais pretensiosos, como artigos, ou contos, nem sonhava que conseguiria escrever tantos deles, vez que nunca conseguia sequer finalizar uma história. A travessia pelos blogs foi tortuosa, fiz quase uns dez por aí, mas estanquei neste há dois anos, e importei para cá algumas destacadas postagens de outros blogs paralelos que tive, dos primeiros aos últimos, dos blogs de opinião aos de poesia, dos textos bem-trabalhados aos mais primários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu penso tudo isso enquanto me quedo numa mesa de biblioteca a ler alguns contos de Dalton Trevisan, com os olhos atentos e a atenção desvinculada da barulheira do ambiente - é meio-dia e há tantos estudantes -, porque é esse tipo de literatura que me atraiu de fato, os contos; tão subestimados, mas tão complexos em si. Acho curioso que, para muitos escritores notórios, seja mais difícil fazer um conto que um romance. Eu não sei, já que não sou romancista, mas posso dizer que me fascina, e que nunca penso pouco quando escrevo um conto, seja quanto relato algo, ou seja quando crie, ainda que isto ocorra em menos escala. Não tenho tanta imaginação assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É engraçado que eu receba, enquanto leio e enquanto penso, um convite para encontrar uns amigos num bar, e lá conversamos, entre outras coisas, sobre blogs, além de bebermos algum bocado. Assim como é engraçado o fato de aquele mesmo bar ter sido palco de outras histórias, com outras pessoas, no passado, algumas delas relatadas em texto nesta página.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também é curioso que para quem escreveu tantas histórias escatológicas, tantos artigos opinativos sobre diversos temas, já recomendou tantos outros blogs e escritores, não tenha muito mais a dizer ness'instante. Deve haver algum grau de autenticidade nisso, no fato de não conseguir nunca escrever texto sob encomenda. Não tenho certeza, e a essa altura não importa. O blog continua vivo porque o longo e tenebroso inverno que o sustentou no princípio ainda se faz latente. Permaneço exercendo a arte da escrita, e enquanto o fizer, é um claro sinal de que ainda não estou em paz. A vida é uma estrada, como se diz, e a ela estamos todos submetidos. Há quem reclame de todas as coisas, há quem as aprecie em sua totalidade, cada um tendo o que tanto merece. Mas a mim, quem me merece? Eu mereço a estrada, e nela sigo em frente, sem muitas pretensões de curveados ou de subidas. A vida é isso. Monotonia da estrada. Como dizia um americano morto, sobra apenas a necessidade de tirar algum drama de nenhum progresso de fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O Literatura Vil agradece a todos os que frequentam o blog, lendo&lt;br /&gt;e - especialmente - comentando os posts.&lt;br /&gt;08/07&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-5258484021374661483?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/5258484021374661483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=5258484021374661483&amp;isPopup=true' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5258484021374661483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5258484021374661483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/07/cinco-anos-depois.html' title='Cinco anos depois'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-8632865323040291726</id><published>2009-06-27T21:40:00.002-03:00</published><updated>2009-06-27T21:46:31.482-03:00</updated><title type='text'>Uma declaração de ódio</title><content type='html'>&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Eu nunca consegui&lt;br /&gt;escrever&lt;br /&gt;nos meus melhores momentos.&lt;br /&gt;Como quando estava alegre,&lt;br /&gt;ou quando me pediam.&lt;br /&gt;Escrever, para mim,&lt;br /&gt;e, acho, para os que realmente gostam&lt;br /&gt;– e precisam –&lt;br /&gt;disso,&lt;br /&gt;é uma forma de jogar fora&lt;br /&gt;os males, a urucubaca,&lt;br /&gt;ou seja lá como gostem de chamar&lt;br /&gt;seus azares.&lt;/p&gt;             &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Só escrevo quando estou com raiva,&lt;br /&gt;ou triste, ou entediado,&lt;br /&gt;embora neste último caso&lt;br /&gt;seja muito raro,&lt;br /&gt;vez que nunca sinto tédio.&lt;br /&gt;O tédio é uma declaração de cansaço&lt;br /&gt;de si mesmo.&lt;br /&gt;E eu não gosto tanto assim de mim,&lt;br /&gt;mas não trocaria a minha companhia&lt;br /&gt;pela de qualquer um.&lt;br /&gt;De maneira que me sobram&lt;br /&gt;dois momentos&lt;br /&gt;para escrever:&lt;br /&gt;o da raiva e o da tristeza.&lt;/p&gt;                    &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Entretanto,&lt;br /&gt;não adianta pensar que escrevo&lt;br /&gt;só quando estou triste.&lt;br /&gt;Porque a tristeza é uma condição&lt;br /&gt;inerente&lt;br /&gt;à minha personalidade&lt;br /&gt;(Personalidade? Eu tenho isso?&lt;br /&gt;Alguém tem?).&lt;br /&gt;Se eu fosse escrever somente estando triste,&lt;br /&gt;eu escreveria todo dia,&lt;br /&gt;toda hora,&lt;br /&gt;a cada instante,&lt;br /&gt;na cama, no ônibus,&lt;br /&gt;na faculdade, na fila do banco,&lt;br /&gt;na praia, à noite,&lt;br /&gt;até mesmo na privada&lt;br /&gt;como o sujo Enderby.&lt;br /&gt;Mas confesso&lt;br /&gt;que isto&lt;br /&gt;não seria nada mau.&lt;/p&gt;       &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Mas eu escrevo com mais frequência, sim,&lt;br /&gt;quando estou com raiva.&lt;br /&gt;Escrevo quando triste, também&lt;br /&gt;mas, principalmente, quando&lt;br /&gt;estou com raiva.&lt;br /&gt;Escrevo para me livrar dos fantasmas&lt;br /&gt;vivos e mortos&lt;br /&gt;que vivem a me incomodar.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;            &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;Portanto,&lt;br /&gt;Não procure humor no que escrevo,&lt;br /&gt;porque não sou bem-humorado.&lt;br /&gt;Não procure conselhos&lt;br /&gt;nas minhas letras,&lt;br /&gt;porque nelas estão&lt;br /&gt;minha declaração de ódio&lt;br /&gt;para com este mundo&lt;br /&gt;e tudo o que lhe pertence&lt;br /&gt;e lhe quer pertencer.&lt;br /&gt;E em relação a tudo isso,&lt;br /&gt;não existe nada&lt;br /&gt;mais vazio de sentido.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-8632865323040291726?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/8632865323040291726/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=8632865323040291726&amp;isPopup=true' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8632865323040291726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8632865323040291726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/06/uma-declaracao-de-odio.html' title='Uma declaração de ódio'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1347360444622707457</id><published>2009-06-21T18:07:00.003-03:00</published><updated>2009-06-22T23:34:17.360-03:00</updated><title type='text'>Inês dorme</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu não consigo nem escutar música enquanto escrevo, não consigo e não quero que a luz da manhã ilumine o quarto, tranco todas as portas e janelas, mas ainda assim o recinto é invadido por feixes luminosos intrusos, acompanhados dos ruídos que aos poucos adentram no ambiente; é manhã de domingo, a pele nem sente o calor do sol ainda, mas embora o dia esteja começando, para mim isso é apenas o desfecho do sábado, um sábado estranho, em que amanheci na casa de amigos, ressacado e triste, três horas antes dos outros amigos acordarem, ficando, assim, preso à solidão daquele ambiente - mesmo que a casa abrigasse ainda meia dúzia de gentes, todas adormecidas. Quase sempre vou embora nessas horas, mas desta vez decidi esperar, e esperei, ficava lendo Maupassant para passar o tempo, e o tempo passou, e conversei com os amigos que depois acordaram, primeiro a Carla, que acordara para preparar o almoço. Ela também estava ressacada, com pressão baixa e tontura: até a tarde estaria em um pronto-socorro. Depois viriam os demais, um a um, e essa movimentação toda no sábado é que o fez se me parecer diferente, estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui para casa no início da noite, mas mal cheguei e já fui saindo novamente, eu tinha ainda um outro compromisso, iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa, quem nos convidara foi Inês, uma garota muito jovem e muito bonita e muito louca que conheci há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, e sempre falamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... no dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse, e tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades. Então assim eu vejo algum valor real na Inês, que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e Inês me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada e com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família, e ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado; não sei, não sou ela pra saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais e sentem tudo muito mais intensamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então Inês nos fez o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos, entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, e vinham salgados, e vinham coquetéis, e vinha uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes, organizadas em clubes e afins, e isso me bastava, todo o resto eu continuava ignorando solenemente, todas as outras pessoas, toda a música e a decoração do local e a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com os pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava em como estava sendo legal aquilo tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, e lá só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras  - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito. A mãe interrompeu e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior, a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos, porque ela mesmo dissera, que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, e lançava assuntos, e falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo, e eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário, as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe digo, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe houvera falado disso mas ela lê o que escrevo e assim já consegue me conhecer bem, e por isso fala de sexo comigo e até se propõe a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas sabe que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era quando eu tinha a sua idade, 15 anos - ainda que eu tenha apenas pouco mais que isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, mas desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão, está muito desorientada e enjoada, e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observá-la no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade, e Inês vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, e chora, e vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. E mesmo sua mãe enfim sucumbe a si mesmo, pergunta-se o que poderia fazer, mas de que importa?, ela não obteria respostas, nem talvez nunca obtenha, e somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, ela se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora estou bem melhor, diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe, e mesmo que dissessem que estivesse suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles, e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa, e é uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada, e nem lembro onde, mas nem adiantava mesmo, ela se manteria lá, e agora Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1347360444622707457?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1347360444622707457/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1347360444622707457&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1347360444622707457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1347360444622707457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/06/ines-dorme.html' title='Inês dorme'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6979760127543637967</id><published>2009-06-14T22:26:00.006-03:00</published><updated>2009-06-15T03:18:48.404-03:00</updated><title type='text'>Essa é para Cláudia, que fez as malas e sumiu de vista</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Toda vez que acordo com uma garota ao lado na cama, levo as mãos à cabeça. Não sei porque faço isso. Quero sempre distância dos velhos casos - não por causa das garotas, mas porque não quero que eles se repitam, e se tornem mais frequentes, e se tornem compromissos aos quais nunca corresponderei. Eis que ainda me ocorrem dessas coisas. E desta última vez, nem pude levar as mãos à cabeça ao despertar, porque meus braços estavam enroscados no corpo dela, numa espelunca de quarto, que, pelo menos, não era o meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota em questão chamava-se Cláudia, que sempre foi muito louca, totalmente inconsequente, e tinha sido por mais de uma dúzia de vezes um objeto de prazer na minha adolescência. Era a época em que rolava algo entre nós, que nos conhecemos numa festa de amigos, nessas das quais hoje quero toda distancia. E logo depois de nos conhecermos, ali mesmo ficamos, ali mesmo transamos, ali mesmo nos despedimos, ainda que nos víssemos diversas vezes em lapsos de tempo preenchidos entre meus dezessete e dezenove anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há alguns dias, contudo, eu estava na biblioteca do SESC lendo um livro. Eu não gosto de ler livros em bibliotecas, no máximo cato alguns, sento e folheio um pouco, mas não leio; levo-os pra casa no meu cadastro. Só que em todas as bibliotecas onde tenho cadastro estou suspenso, não posso pegar livros emprestados, porque sempre atraso ou, até mesmo, não os devolvo. Da Biblioteca do SESC, estou com dois livros, de Rubem Fonseca e Ernest Hemingway, há mais de um ano. Sempre esqueço de devolvê-los. Com isso, não me resta outra opção senão pegar umas obras da prateleira e sentar naquelas mesas de leitura com papéis colados e ordens do tipo "faça silêncio", "não fume", "não desarrume os livros" e outras senilidades, ao lado de estudantes bitolados e poetas pobres fugitivos. Por ter de me ater a isso, ficar sentado num ambiente totalmente impessoal lendo um livro, terminei ficando muito vulnerável, e foi lá que a Cláudia, associada do SESC, me encontrou e quis matar saudades. Tanto conversamos que decidimos sair e dar uma volta. Eu estava de moto, mas com apenas um capacete, então saímos caminhando. Ficamos duas horas seguidas de papo e caminhada. Paramos numa lanchonete, comemos um cachorro-quente com um suco, e eu queria que nos despedíssemos, até cheguei a dizer que precisava ir embora, mas Cláudia não, ela queria que passássemos mais tempo juntos, e dali fomos para um motel pequeno no Areial, perto da Praia do Meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É meio deprimente um casal entrar num motel a pé, né?, ela perguntou. Eu não respondi. Entramos no quarto e resolvemos não muito rápido a parada. Há muitos meses eu não fazia sexo, e provavelmente o dobro de meses virá até que eu faça novamente, o que me deixa sempre com a sensação de estar vivendo uma experiência nova - e isso não é bom. Cláudia gosta de ficar falando enquanto transa, um hábito que não é só dela, convenhamos. Tá sempre perguntando coisas entre os gemidos, coisas que não tem nada a ver, sobre o que vou pensar no dia seguinte, algo assim. Eu nunca respondo. No final das contas, umas quatro horas depois, enfim dormiríamos, até as sete da manhã, quando despertei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mesmo modo em que estava quando abri os olhos me mantive, durante mais de uma hora, já com vontade de sumir, desaparecer, vaporizar. Sou muito desapegado, e eu sei que a maioria das mulheres não entende isso, e sabia que Cláudia também não entenderia quando acordasse. Chovia muito lá fora, o que era ainda pior, porque me obrigaria a ficar ali por muito mais tempo. Uma sensação estranha se acomete de mim sempre que acordo, e não estar em casa ajuda a me deixar ainda mais desconfortável. Aliviava-me pensar que dali a algumas horas enfim estaria bem longe, mas enquanto isso não acontecia, o pesar era tão grande que eu até simpatizaria com a ideia de resolver a situação com o barulho de um cano de grosso calibre. Uns quarenta minutos de divagações depois, Cláudia acordaria, levantando-se e enfim dando liberdade aos meus braços. Foi ao banheiro e na volta disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O banheiro daqui é horrível, fede a bosta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um banheiro, respondi. E me levantei, para fazer eu as necessidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E realmente era horrível o banheiro, ela estava certa... Mas entrei, e tranquei a porta, e sentei na privada tampada, só pelo sossego. Batia em mim a mesma sensação ruim que sinto quando não estou em casa ao acordar. Queria beber alguma coisa, mas não tinha dinheiro senão para pagar aquele quarto. Fiquei uns dez minutos por lá e saí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pega um espelhinho pra mim, por favor, está aí na bolsa, ela pediu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri sua bolsa, e além do espelho vi agendas, canetas, confeitos, batom, pente, uns três papelotes de pó e uma seringa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você ainda tá nessa?, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quê? Vai me dar alguma lição?, ela ria enquanto falava, como se tripudiasse de minha pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa seringa está cega, isso vai foder o seu braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O braço é meu, a buceta é minha, eu faço o que quero de meu corpo e minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de tudo, ela estava com a razão. Não era eu quem ficaria lhe explicando o problema de ficar enfiando seringas cegas e usadas no braço. Mesmo porque não sou melhor que ela, e também não sou exemplo; nunca fui. Peguei um dos papelotes de sua bolsa, e pus no bolso traseiro da minha calça, que estava na cabideira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso aqui é pra ajudar no pagamento do quarto, falei. Ela nem questionou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitei na cama e ficamos em silêncio. Depois, ela falou de alguns de seus planos. Pensava em tomar rumo para outro lugar, Europa talvez, Portugal em específico. Eu escutava com atenção, embora não acreditasse. Mas somente depois eu saberia que ela tinha viajado mesmo, foi para Lisboa, fazer um curso de fotografia - ou se tornar uma prostituta, nunca se sabe. Nesse dia, ela chegou a perguntar se eu queria ir junto, talvez só pra analisar minha resposta; mas não lembro se respondi à oferta. Durante aquelas horas, recebi dois telefonemas, e ela percebeu que se tratavam de garotas, e começou a ter o comportamento tolo de quem sente ciúmes, por bobo que seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muitas meninas adolescentes ainda em sua vida? Olha, você tem 25, daqui a pouco terá 30, sai desse mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho 25, tenho 23.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesma merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela insistia nesse papo enquanto eu me estafava ainda mais em ver que a chuva demoraria muito mais a passar, e estava também começando a me preocupar com a moto, que estava bem longe dali, além de ter passado a noite sozinha no meio da rua - talvez nem estivesse mais lá. Eu prometera uns trocados ao flanelinha que ficaria de olho, mas provavelmente ele, no seu fim de tarde, percebendo que não receberia nem uma prata sequer por ela, deve ter feito alguma merda na moto, do tipo secar pneu ou roubar retrovisores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falei pra ela que ia embora. Ela pediu muito para que eu permanecesse - e até permaneci por algum tempo -, mas não podia ficar mais. Depois perguntou se poderíamos nos ver no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um filme, uma praia, talvez. Amanhã é sábado. Podemos vir para esse motel novamente, gostei dele, é simpático, ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ando com pouco dinheiro, não posso, respondia. E não podia mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu saí na chuva, com o capacete na mão. Deixei paga a conta na saída do motel e me fui, primeiro correndo, depois, desistindo de tentar fugir da chuva, a passos curtos e regulares. Eu estava a quilômetros do local onde deixara a moto. À medida em que caminhava, e saía do pequeno bairro do Areial para entrar no do Centro, percebia que a cidade mantinha seu cotidiano, os camelôs nas ruas, os engarrafamentos, o comércio aberto, a multidão galopante, mesmo com o temporal e a ventania.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho, eu ainda recebia novos telefonemas de garotas. Ao contrário do que pensava a Cláudia, porém, os telefonemas nunca eram pra mim. Sempre eram pedidos de informação sobre alguns de meus amigos e coisas do tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não sei onde o Diego está, não o vejo há quatro dias, eu falava. E desligavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim cheguei à minha moto, ainda no mesmo lugar, e aparentemente sem sofrer nenhum tipo de prejuízo. O flanelinha nem estava lá. Subi, dei partida e fui embora, mesmo naquela chuva torrencial, a cidade toda sob água, a visibilidade baixíssima, o corpo sendo golpeado por pingos que pareciam pedregulhos. Não deu outra: numa das avenidas em que tentei passar, com quase meio metro de água, a moto emburacou-se numa fenda e eu caí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a levantei e levei para a calçada, notei que havia furado o pneu dianteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí empurrando a moto por um bairro residencial da zona sul à procura de um borracheiro para lhe pedir um remendo. Estava muito cansado e desanimado. Depois de algum tempo, eu encontraria uma oficina, mas estava fechada. Como na entrada havia o telefone do responsável, eu liguei e disse que precisava do serviço. Ele me atendeu na hora: morava nos fundos da oficina. Mas saiu nitidamente a contragosto, quando abriu a porteira notei que devia estar comendo algo, porque ainda mastigava e seus dentes estavam sujos, a cara fechada. Era um sujeito de poucas palavras. Enquanto fazia o serviço, eu tentei explicar a situação. Não tinha dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porra, nem um puto sequer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei apalpando os bolsos e realmente não tinha nada. A única coisa que saquei do bolso traseiro, o papelote de cocaína, foi o que lhe disse que restava, e ofereci. Ele ficou calado, terminou o serviço da moto e foi lá nos fundos da oficina, onde não sei se morava sozinho ou acompanhado. Percebi que lançava uns gritos, que pareciam se dirigir talvez para um cachorro, talvez para uma criança, talvez para a esposa. Aquilo de algum modo me irritou, mas eu não podia questioná-lo, não estava em condições. Ele voltaria em menos de um minuto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me dá o negócio que você tem, foi o que ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dei e fui embora. Às vezes, precisamos de canalhas desse tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6979760127543637967?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6979760127543637967/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6979760127543637967&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6979760127543637967'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6979760127543637967'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/06/essa-e-para-claudia-que-fez-as-malas-e.html' title='Essa é para Cláudia, que fez as malas e sumiu de vista'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-8241316701028163666</id><published>2009-05-31T18:52:00.005-03:00</published><updated>2009-05-31T19:16:41.003-03:00</updated><title type='text'>Fragmento de uma crônica</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Recordo Luís de Camões. Ele era um arruaceiro e acabou na prisão, ou por suas rixas ou por ter ser envolvido com a infanta dona Maria, irmã de rei João III.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para obter o perdão do Rei, Camões se propôs a servi-lo na Índia, como soldado. Lá ficou por dezesseis anos e, afinal, voltou para Portugal a bordo de um navio. No retorno, estava acompanhado de uma jovem indiana que ele amava e a quem dedicou o lindo soneto: "Alma minha gentil, que partiste".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o navio naufragou - e Camões só pensou, durante o naufrágio, em uma coisa: salvar o manuscristo dos &lt;em&gt;Lusíadas&lt;/em&gt; e de seus poemas. Deixou a mulher amada morrer afogada e perdeu todos os seus bens... mas salvou todos os seus manuscritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem ler? Estávamos nos século XVI e muito pouca gente em Portugal sabia ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Camões pensou exatamente neste punhado de leitores, era para eles que Camões escrevia, não importava quantos fossem.&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Os leitores vão acabar? Talvez. Mas os escritores não. A síndrome de Camões vai continuar. E o escritor vai resistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rubem Fonseca, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Romance Morreu&lt;/span&gt; (adaptado)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-8241316701028163666?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/8241316701028163666/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=8241316701028163666&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8241316701028163666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/8241316701028163666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/05/fragmento-de-uma-cronica.html' title='Fragmento de uma crônica'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-5776423710984131178</id><published>2009-05-16T00:24:00.004-03:00</published><updated>2009-05-16T01:25:39.199-03:00</updated><title type='text'>Junto com o coroa roncador</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois que paguei os 50 centavos e girei a catraca da Estação de Trem do Jardim Aeroporto foi que estranhei o fato de não haver quase ninguém por ali. Tinha apenas um cinquentão dormindo no banco. Era muito cedo, devia ser 5h00 da manhã, o céu já estava claro, mas o sol ainda nem havia aparecido no horizonte - no horizonte oposto ao que se permite ver da estação. Achei estranho não ter mais ninguém por ali, mas me detive a ficar à espera daquele trem fudido e despedaçado, mas que me permite usufruir do meu direito de ir e vir quando não tenho grana para pôr combustível na minha moto, então pego aquela condução que dança em cima da ferrovia mal-ajustada e desço na Estação da Ribeira, de lá desloco-me pra tudo que é lugar a pé, faço todas as coisas que tenho pra fazer, e, quando é noite, volto caminhando pra Ribeira, todo suado, cheirando mal e cansado, e uno-me a outras centenas de pessoas que estão suadas e cansadas e cheirando mal voltando pra suas casas. Apesar disso, estar na estação ou mesmo no trem era algo que me agradava, porque lá havia uma gente com quem eu, algumas vezes, conversava numa boa e havia uma mutualidade de interesses, sempre havia pessoas de vidas horríveis e asquerosas, e que tinham vergonha de contar experiências suas para estranhos, então eu tinha todo o espaço pra contar as coisas da minha, um espaço que geralmente faltava pra mim, porque não conto nada de mim pra outras pessoas, nem pros meus amigos, eles nunca têm muito interesse em saber, e como tudo mundo eu também às vezes sou meio carente, gosto de trocar uma conversa. Hoje mesmo uma amiga me disse por que você não fala de sua vida?, como se eu ocultasse coisas, e foi isso que ela perguntou também, por que você esconde coisas?, mas ela se engana, eu não escondo nada, ela que nunca se interessou em saber, é tanto que me fez uma pergunta pessoal e, depois da minha resposta, mudou de assunto, sem nem notar, como se nunca tivesse feito diferente, e não fazia mesmo. Mas agora, nem na estação de trem havia alguém para conversar ou sequer para cumprimentar com um aceno de cabeça, estávamos apenas eu e o coroa dormindo, pensei em acordá-lo para perguntar a hora ou algo assim, mas desisti, imaginei que estivesse bêbado ou fudido demais, às vezes cabe um bom senso antes de interromper o sono de alguém, e pensei em ir ali perto da bilheteira e falar com ela, dizer-lhe oi, bom dia?, quer conversar?, porque ela vive ali, catando moedas de 50 centavos e passando trocos, o dia todo, num cubículo de menos de 5m², tendo uma relação tão meteórica com as pessoas que não dura nem 5 segundos, é só o tempo de as tais pessoas dizerem um bilhete, por favor!, ou dois bilhetes, por favor!, e pronto, acabou-se, ela talvez nunca mais volte a ver aquelas faces, enfurnada dentro daquela salinha. Eu não iria lá, fatalmente ela já estava acostumada às relações efêmeras, não se permitia conversar com alguém na hora de trabalho, fiquei lá, sentado, vendo o dia clarear ainda mais, vendo o matagal à frente, porque existe um matagal, um sítio à frente da estação, um sítio imenso, parece uma fazenda, uma floresta, não existe vida habitável nesse terrenão todo até onde a vista alcança, no máximo uma casa lá pelo meio da fazenda, minha nossa, que vastidão de árvores, era legal ver, porque a estação fica situada num ponto alto, uns 5 metros acima do nível do chão da fazenda, então dava pra ver a vastidão de árvores se dirigindo até o horizonte, e eu morava ali perto, a uns 300 metros, ali, o último ponto da cidade, a periferia da periferia, depois da qual não existe civilização até que venha o próximo povoado. Esse marasmo todo, esse vazio me deu vontade de escrever, peguei uma agenda que nunca usava, tinha agenda apenas para ocupar minhas mãos, sou um cara muito nervoso, muito cheio de tiques, de mexe-mexe, nunca sei o que fazer com as mãos, se as ponho no bolso, ou na cintura, ou sei lá, estão sempre saio de casa com um livro ou uma agenda pra ter algo a segurar, mas agora especificamente me deu vontade de escrever na agenda, um poema!, vou escrever um poema!, faz tempo que não faço um, mas que merda!, nesse espaço que eles dedicam não rola fazer um poema!, fiquei puto porque na agenda cada dia tem apenas umas dez linhas, como vou escrever um poema, mesmo pequeno, em dez linhas tão pouco espaçadas?, eu escrevo muito, tenho letras grandes e garranchudas, eu poderia fazer um poema que tomasse a agenda toda, sem me importar com as linhas ou essas coisas, mas fiquei meio puto, nessa hora queria um caderno, ou uma folha totalmente em branco, pra que pudesse escrever livremente, porque essas linhas, mesmo sendo apenas isso, linhas, bloqueavam a minha criatividade, e tudo o que me vinha na cabeça e dava substância a escrever nessa estação, e eu sempre tive uma vontade de escrever na estação, agora tava munido de algo, uma agenda, estava com caneta, que mais que eu queria se tinha caneta e papel?, mas não, sempre tem que acontecer alguma merda pra me bloquear a criatividade, apoiei os cotovelos nos joelhos e escondi a minha cabeça entre as mãos, parecia frustrado, e estava mesmo, mas na verdade eu estava assim por causa do sono, nunca pego o trem às 5h00 da manhã, somente às 7h00, mas nesse dia em específico eu acordei duas horas mais cedo e terminei saindo de casa duas horas mais cedo, porque eu só ligo o relógio-despertador quando vou dormir, então fatalmente eu marquei a hora errada à noite, por isso acordei, também, na hora errada, acordei às 4h00 e quebrados pensando que já passara das 6h00, meu compromisso era as 8h00, mas 300 metros até voltar pra casa já era demais pra mim, abaixei a cabeça, joguei as pernas em cima do banco da estação e também aproveitei para tirar uma soneca  junto com o coroa roncador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-5776423710984131178?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/5776423710984131178/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=5776423710984131178&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5776423710984131178'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5776423710984131178'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/05/junto-com-o-coroa-roncador.html' title='Junto com o coroa roncador'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-422624469819034179</id><published>2009-04-26T20:35:00.008-03:00</published><updated>2009-05-10T15:37:24.191-03:00</updated><title type='text'>Notícias do lixo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um amigo me contou, enquanto bebíamos num bar perto da faculdade, que Rinaldo, um alcóolatra vizinho seu, havia sido atropelado. Foi atravessar a rua bêbado e duas garotas que vinham a todo pique em uma moto o atingiram. Seu corpo fora dividido em dois, sua perna direita jogada longe, sua perna e seu braço esquerdos espatifados no ato do acidente. Seu crânio amassado ao se colidir com o meio-fio. Meu amigo queria visitá-lo no hospital, mas não queria ir sozinho. Ofereci-me para acompanhá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rinaldo estava na UTI do Hospital São Lucas, uma clínica particular a qual a motociclista que o atropelara era associada. Ela havia se saído bem do acidente, sofrera apenas umas escoriações nos dois cotovelos. Quanto à sua moto, uma Virago 250cc - suponho que muito pomposa, embora definitivamente mal usada -, e à sua carona, não tenho conhecimento de como estão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu juro que não o vi, ele surgiu muito rápido!, dizia-nos ela. Soubemos que ela seria julgada por crime doloso, por isso seu desespero. Era uma garota bonita, do tipo que fatalmente não conversa com qualquer um. Estava ali sucumbi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rinaldo morreu dois dias depois do acidente. Além de mim e de meu amigo, apenas quatro pessoas - todas do conselho comunitário de seu bairro - foram visitá-lo no hospital. Ele esteve em coma todo o tempo, mas, ainda que estivesse consciente, não reconheceria ninguém. Seu cérebro estava afetado por completo, e o hipocampo, responsável pela memória, fora praticamente destruído. Não tinha jeito pra ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse acontecimento não me abalou tanto porque não conhecia o Rinaldo, mas não posso negar que me causou uma certa comoção. Deve ser mesmo triste chegar ao fim sendo tão pouco lembrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando penso em Rinaldo, vêm-me à mente os casos de todas aquelas pessoas problemáticas. Dia desses, escrevi sobre meus alunos, sobre os problemas que enfrentam por não terem outro caminho a seguir. É corriqueiro, para quem trabalha numa escola pública de uma cidade com problemas de metrópole (mesmo sendo tão mediana e antiquada como Natal), conviver com os dilemas de quem vem da periferia assistir às aulas. É corriqueiro também ser obrigado a se acostumar com as más notícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei pensando nas ocasiões em que, no ano passado, vi alguns alunos se vendo obrigados a sair em grupo da escola, visto o risco que era andar sozinho pelas ruas vestindo uma farda - a rivalidade entre as instituições é uma coisa que já tomam como algo banal por aqui, engraçado até.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses dias encontrei Vanaldo, que não é mais meu aluno, mas mesmo quando era eu o via pouco. Sendo frequentemente ameaçado, seria natural mesmo que aparecesse pouco. As ameaças, porém, eram simplórias, pelas coisas mais bobas; Vanaldo é grande atleta, sabe jogar futebol como poucos. Há quem não goste disso. Ano passado, foi espancado na abertura dos Jogos Escolares. O maior evento esportivo do estado vê um de seus participantes sendo espancado e nada faz; no máximo, notinhas críticas no dia seguinte "lamentando o ocorrido".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei a escrever esse texto, também povoava a minha cabeça o caso de Maria Luiza, também ex-aluna, que estava desaparecida há dez dias. Mas há instantes, telefonaram-me para me informar que já a haviam encontrado. Algumas crianças, enquanto brincavam - no Lixão de Cidade Nova - encontraram seu corpo ontem, e foi logo reconhecido hoje pela manhã e o funeral rapidamente convocado para instantes depois: o estado de decomposição em que se encontrava já não permitia maiores e mais longas cerimônias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Maria Luiza, filha da dona da cantina da escola, conhecida de todos, com um permanente sorriso preso ao rosto - e permanentes questionamentos acerca de minha aparência rude - foi duramente violentada e estrangulada, num caso que gerou bastante comoção. Seu enterro, mesmo feito às pressas, reuniu centenas de pessoas, seu nome seria objeto de faixas espalhadas pela cidade, amanhã mesmo um jogo amistoso no Machadão - ABC x América, os dois grandes do estado - dedicar-lhe-á um minuto de silêncio... devo ter sido o último a saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mais, só mesmo assim para que a garota risonha pudesse ocupar manchetes de todos os jornais, audiovisuais ou impressos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que eu penso nessas coisas todas, todas as outras perdem sentido, seja dormir, ver um filme, conversar um pouco, comer qualquer merda... diante da pobreza em que vivemos - e não me refiro apenas à pobreza no aspecto social -, essas coisas são vazias demais. Nessas horas se percebe que é por nós que os sinos dobram quando alguém se vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-422624469819034179?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/422624469819034179/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=422624469819034179&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/422624469819034179'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/422624469819034179'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/04/noticias-do-lixo.html' title='Notícias do lixo'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7247401083928591827</id><published>2009-04-12T13:29:00.003-03:00</published><updated>2009-04-12T14:56:45.418-03:00</updated><title type='text'>Memórias extraclasse</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todos os dias, quando eu deixava a escola onde dava aula dirigindo-me ao estacionamento, uma aluna me seguia, uma em específico, mas às vezes variava, ocorria também de virem outras e outras - mas não mais de uma no mesmo dia. E me pedia uma carona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos lá, é o que dizia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca era apenas a carona. Sempre parávamos em algum lugar, geralmente na beira-mar, já que a escola ficava próxima da praia. Tomávamos um suco, enquanto elas falavam de seus problemas amorosos e ginecológicos e eu escutava atentamente. A maioria delas já era noiva, aos 16, 17, ou até mesmo ex-noiva, e me mostravam algumas manchas de pancadas no braço ou nas costas, e pediam ajuda, pelo menos companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as vezes que saía da escola e, ao invés de ir para qualquer outro lugar, eu ficava bebendo sozinho a poucas quadras dali, alunos apareciam e pediam para beber comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senta aí, eu convidava. Pede um refrigerante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero uma gela, vamos dividir, não pode ser?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pede, então. Uma não, duas. Não divido nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eles pediam, e conversávamos bastante, no início a conversa era sempre animada, depois eles começavam a falar de seus problemas familiares e de suas amizades incômodas, e sobre pequenas cicatrizes causadas por canivete em partes do corpo, e pediam conselhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, a diretora me chamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós reconhecemos sua dedicação na sala e os alunos avaliaram bem você naquela pesquisa que fizemos, mas não é ético sair com eles, ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sair com eles?, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, consta que você saiu com alguns deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem lhe contou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso eu não vou dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então não é ético fazer nada com eles, eu falei. Entendo o seu lado, mas eu não transo com as meninas nem bebo com os menores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão não é essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual a questão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão é que não pode sair com alunos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, não sairei mais com quem quer que seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo dia, dei minhas aulas, discutimos na sala sobre os meios de orientação mais usados, os pontos cardeais, alguns alunos me surpreenderam ao demonstrar uma notável melhora na compreensão do tema, e pareciam muito empolgados em poder provar isso, outros pareciam ter esquecido solenemente tudo que eu lhes contara  dentro da sala nas últimas três semanas, chegando a ignorar quando eu os convidava para o debate, pareciam distraídos, divagantes, entorpecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao final das aulas, uma outra aluna, que nunca havia antes conversado comigo fora da sala, vem até mim e pede carona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso, não é adequado, eu digo. E faço a mesma coisa com o cara que sinaliza pra mim que me encontraria no bar dali a poucas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu ia embora, sozinho, ou bebia, sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, conversávamos pela escola e trocávamos emails, telefones. Passaram, então, a me ligar de quando em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos nos encontrar?, Olá, vamos sair pra  beber?, cada qual fazia convites a seu modo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, eu dizia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E saía com alguns deles, geralmente nos fins-de-semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novamente, a diretora me chamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Professor, ela disse, soubemos que foi reincidente no erro de sair com alunos. Quero dizer que estamos atentos ao que faz e que não achamos adequado. Se fizer de novo, lamento dizer mas terá que sair da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que o meu encontro com alunos prejudica a escola?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prejudica a reputação da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reputação da escola, repeti. O que a reputação da escola sabe sobre as condições dos alunos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos uma coordenação para cuidar desses problemas. Não darei aviso normalmente. Sabemos quem são os alunos e se houver reincidência, não só você deixará a escola, mas eles também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí da Direção e dirigi-me à Sala dos Professores. Lá, o assunto estava na pauta do dia. Quase em uníssono, os colegas, ou ex-colegas como alguns faziam questão de falar, me repreendiam. Diziam que eu deveria enveredar para outro trabalho, que estava rompendo a ética da profissão, que se fossem diretores já não seriam tão condescendentes com a minha permanência por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, nunca mais me demorei na Sala dos Professores. Entrava, no máximo, para pegar um café, e saía, ficava, do alto do corredor do segundo andar, olhando os alunos lá no pátio, os prédios vizinhos, as ruas, tudo numa intensa harmonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na saída da escola, oferecia negativas a quem me pedia carona ou companhia em mesa de bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao telefone, em alguns fins-de-semana, recusava novamente a todos os pedidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, nem atendia mais as ligações, deixava tocar até cansarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos emails e recados, eu também fui deixando de responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eles estariam melhor assim", é o que pensava sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era desse modo que eu enganava a mim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7247401083928591827?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7247401083928591827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7247401083928591827&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7247401083928591827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7247401083928591827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/04/memorias-extraclasse.html' title='Memórias extraclasse'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-2508855075890378648</id><published>2009-03-30T06:09:00.014-03:00</published><updated>2009-04-01T22:55:15.388-03:00</updated><title type='text'>Passeio pelo lado selvagem</title><content type='html'>&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt; Estava passando de moto em frente a uma borracharia que tem na Rua Auris Coelho, logo em frente a uma grande praça, meio descuidada mas até agradável, e decidi dar uma parada. Sentei-me num dos bancos, ao lado de uma banca de revista fechada, e fiquei fitando a borracharia. Próximo à praça, havia um Batalhão do Exército, também o observei um pouco, a sua arquitetura rígida militar, o sentinela que ficava na portaria de armas em punho fixamente, durante horas e horas. Atrás de mim, no parquinho infantil que havia na praça, ouvia vozes de meninas de sete anos que brincavam no escorrego.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Lembrei-me de outra vez que estive sentado naquele mesmo banco, só que a lembrança não era tão bucólica quanto o momento que eu agora vivia. Ocorreu numa madrugada distante. Estava bêbado nessa madrugada, vinha de uma festa pilotando uma moto, carregado de muito uísque na cabeça, alucinado, completamente louco, sem a menor carga de noção e em altíssima velocidade. Não sentia vento no corpo, não sentia frio nem cansaço, só sentia o desejo de correr, na minha pouca lucidez. Já sofri vários acidentes de moto, a maioria deles acidentes bobos, mas sem dúvida o momento em que estive mais suscetível a um acidente fatal foi nesse dia, que se deu alguns anos atrás, não muitos. Meu desvario completo ia passando na medida em que eu perseguia o nada a bordo de duas rodas a mais de 100 por hora numa via urbana, rompendo sinais vermelhos, pensando que a cidade era minha às quatro da madrugada, cantando, gritando.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Eu não tenho saudades dessa época, eu barbarizava, mas não sinto saudades, porque eu sabia que não ia me dar bem, bastava lembrar dos caras com quem dividia as aventuras, e eu me lembro de dois em especial, dois cocainômanos inveterados: um deles era o negrinho Josias que morava no bairro de Mãe Luiza, uma vez levou um tiro quando foi comprar uma sacolinha de pó no bairro de Petrópolis e não sabia o código, existia um código pra poder comprar o papelote, se você não soubesse estava condenado, mesmo que fosse uma cara conhecida. E ele era sim, uma cara muito conhecida. Josias era o cara que trazia todas as merdas ilícitas para maníacos covardes como eu, que gostavam e precisavam disso, mas nunca iam ao comércio negro, só em último caso. Josias sobreviveu, mas não sei mais por onde anda. Lembro-me também do Eric, um mauricinho que era amigo dos caras do morro, com quem eu me encontrava pra falar merda e fazer música, chegamos a montar uma banda que durou vários meses, mas ele foi mandado embora pro Rio Grande do Sul pelos pais, pra livrar-se de nossas más influências, antes que virasse mais um nas estatísticas de drogas e morte. Antes disso, porém, ele sofreria um acidente de carro, e por muito pouco não perderia a voz. Nenhum de nós, porém, ascendeu para além do que esperava, e nunca nos ligamos mesmo muito nisso. De que serviria? Não lembro quem foi que escreveu que, no nosso século, o "grande homem" pode, ao mesmo tempo, ser uma boa besta. Por que se importar muito então? Assim, ficávamos nessas aventuras malditas, pensando que éramos personagens das canções marginais de Lou Reed, envolvidos em viagens depressivas que em nada lembravam os paraísos artificiais baudelaireanos, sempre cheirando e sempre bebendo, e isso é foda, lembro-me de um velho amigo, que já esteve à beira de uma overdose, que dizia que cocaína e álcool são realmente o casal perfeito, duas drogas que se merecem.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Mas eu agora estava sozinho, não tinha mais amigos nesse meio, mas continuava fazendo merda, conheci depois uns malucos no movimento estudantil, mas eles eram uns tolos que fumavam maconha pra ficar estereotipado, nunca me senti bem nessa coisa de colocar na testa "sou drogado", além do que nunca usava drogas em grupo, no máximo na companhia do Josias e do Eric, e então gradativamente fui abandonando tudo, embora vez ou outra ainda enchesse a cara e cometesse loucuras como essa de voar pela cidade no meio da madrugada me achando dono do mundo. Nesse meu delírio a mais de 100 por hora, meus sentidos logo começariam a adormecer, então eu dei um pequeno cochilo, coisa de três segundos apenas, mas quando dei por mim já estava derrapando na estrada, com os dois pneus furados; eu provavelmente havia invadido algum meio-fio por um instante, ou passado por cima de várias tartarugas, aqueles troços fincados no chão que servem de divisória de uma rua para outra, e mesmo no aperreio do deslize e na lentidão de meus reflexos, tentei recuperar o controle da moto, sem sucesso, até que, depois de vários metros deslizando, enfim caí, com a sorte de que já havia perdido bastante velocidade e não me restaram nada mais que alguns arranhões e um deslocamento no braço, além do que, como não havia mais ninguém na estrada, não havia maiores riscos em levar uma relativamente pequena queda naquele chão frio da BR 101, vez que não passaria outro veículo pelo menos nos cinco minutos seguintes...&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Eu me lembrei dessa ocasião porque isso ocorreu justo perto da borracharia a que me referia, e foi até ela que empurrei a moto com o sangue quase gelado descendo por dentro da calça suja, e aguardei até que o estabelecimento abrisse, e demorou muito para abrir. Quando me sentei no banco da praça, o céu ainda começava a ver seus primeiros filetes de luz, então logo adormeci. Eu acordaria às 10 da manhã, bem encardido, e foi justo quando a borracharia estava abrindo. Depois que os pneus foram remendados me mandei pra casa, eu permanecia bêbado, porém estava bastante mais precavido, senti-me muito mal o dia todo, vomitei pra caramba na privada, e lá mesmo no banheiro eu fiquei por um bom tempo, não comi nada nesse dia nem nos três seguintes, fiquei muito fraco, porque estava com medo, ainda que eu suspeitasse que meu fim se daria assim mesmo, estatelado numa autoestrada, provavelmente com partes do meu corpo jogadas de lado a lado da avenida.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;De qualquer modo, depois dessa ocasião relevei mais certas coisas, nunca mais saí para festas afins, e em raras vezes eu bebo qualquer coisa fora de casa, aliás, tenho passado mais tempo em minha casa que em qualquer outro lugar, coisa que não me ocorria há pelo menos dez anos, e isso tem sido muito bom, tenho gostado de passar menos tempo correndo atrás de outras coisas. Os vícios do passado não se foram, não fiz maiores autocríticas porque nunca mudei efetivamente a visão que eu tinha do mundo, hoje meus hábitos são mais caseiros, mas meus gostos são os mesmos de anos atrás.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;E todos esses pensamentos se misturavam na minha cabeça enquanto eu ainda estava sentado no banco da praça, ao lado da revistaria que permanecia fechada, tomado de um sentimento de comiseração comigo mesmo. A essa altura, as meninas de sete anos ainda brincavam no parquinho, o sentinela permanecia fixo no seu lugar. Apesar de ainda ser cedo, umas três da tarde de domingo, comecei a sentir um pouco de dormência, decidi que tiraria uma soneca por ali mesmo, e eu continuava pensando, a vida não é tão boa assim, mas acho que ainda não é o momento de ir embora. Pela segunda vez, adormeci no mesmo lugar.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-2508855075890378648?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/2508855075890378648/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=2508855075890378648&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2508855075890378648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/2508855075890378648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/03/passeio-pelo-lado-selvagem.html' title='Passeio pelo lado selvagem'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-574084119889116034</id><published>2009-03-16T14:06:00.007-03:00</published><updated>2011-04-30T21:33:44.997-03:00</updated><title type='text'>Sem gosto de despedida</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já estava no fim da tarde, e eu estava deitado no sofá dividindo minha atenção entre o cochilo e a TV ligada no modo silencioso, quando escutei alguém me chamando lá fora, uma voz feminina, e me espantei porque raramente alguém me procura aqui, essa casa só tem algum tipo de movimento quando a minha mãe aparece, e isso ocorre com mais frequência nos domingos. Eu olhei pela janela do quarto e vi que era Cinthia, uma ex-namorada, e disse que poderia entrar, que o portão estava aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não está aberto, foi o que ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que merda, pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava encardido, não havia tomado banho ainda e vestia a mesma roupa do dia anterior, porque nesses tempos eu não faço nada, estou de férias das escolas onde dou aula e da faculdade, passo o dia bebericando, escrevendo, e comendo pão ou biscoito recheado, no máximo peço alguma comida pelo telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperaí, falei, e lhe joguei a chave pela janela. Abre aí e entra, disse num grito, eu vou tomar um banho rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saí do banho, a Cinthia estava no sofá, lendo umas cartas que estavam jogadas na mesinha de centro. Eu recebo muitas cartas, porque nas últimas semanas estava participando de um grupo informal de trocas de correspondências, e não chegava a ser exatamente divertido, a maioria dos correspondentes eram mulheres carentes de meia-idade que tentavam nos enganar e se enganar dizendo que queriam apenas amizade, mas era bacana se corresponder, de modo que eu passava o dia lendo e escrevendo cartas, escrevia em média catorze nos últimos dias. Expliquei essas coisas a Cinthia e ela achou tudo isso uma grande bobagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão de sua visita era para fazer um pedido. Ela estava terminando o curso de Turismo, estava no relatório final, dissertação, TCC, ou algo assim, e me pediu para ajudá-la. Faltavam apenas três semanas e ela só tinha esboços do que queria fazer, e – como nos seus primeiros anos de curso, quando nos conhecemos – pediu que eu a ajudasse de alguma maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinthia era uma ex-namorada por quem eu mantinha não somente uma grande consideração, mas um respeito pleno. Ela sempre fora a minha meta inalcançável. O meu ponto fraco. Por ela, eu não era apenas apaixonado, era obcecado, era viciado. Talvez isso, de lado a lado, gerasse o clima de turbulência que era constante entre nós. A vitalidade e a personalidade forte que eu via nela e que se mesclava com sua meiguice, nunca vi jamais em qualquer outra garota, quase todas com quem estive se reduzia a paparicações, passividade e voz extremamente aguda e recatada, e eu pensava nisso mesmo agora, depois dois anos que passamos distantes, e que eu sequer a beijava, pois ela já estava em outra, com outras metas, agora era uma moça evangélica, microempresária, e já próxima de noivar. Mesmo com tudo isso, ela ainda era presença constante em meus pensamentos, de maneira que eu continuava a sentir seu corpo, seus lábios, seu calor em qualquer outra garota com quem eu estivesse depois dela. Isso, no início, era um grande tormento para mim, mas depois de algum tempo já me faria estar conformado: eu estaria sempre acompanhado do fantasma dessa garota, marcado pelo seu estigma. E pra ser sincero, não achava uma má idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então passei a ajudá-la na pesquisa nesse dia, em que ela ficou umas quatro horas, e no dia seguinte, quando ela voltou. A Cinthia tinha meu endereço há anos, mas nunca me havia visitado, o que me surpreendeu bastante. E eu nunca tive muito em casa para oferecer, e estavam o quarto e a cozinha bagunçados e empoeirados. Era engraçado eu tentando arrumar rapidamente alguma coisa da maneira que desse. Ia comprar um refrigerante e preparar uma comida, talvez um macarrão, pra ser simpático, porque eu só tinha água e conhaque em casa, talvez uns camarões empanados, pré-prontos, mas ela disse que não precisava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O projeto que ela elaborara previa também uma viagem, da qual ela havia aberto mão, por não lhe ser viável, mas eu ofereci a idéia de irmos juntos, afinal eu tinha na época uma pequena moto, era uma Biz, bem modesta, mas certamente a levaria aos lugares que são seu objeto de estudo: algumas cidades parcamente visitadas do interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Ela aceitou a ideia e dentro em uma semana, saímos para passar dois dias viajando pelos quinhões sertanejos que ficam aqui do lado. E enquanto viajávamos, visitávamos os locais e ela fazia o seu estudo, e eu apenas permanecia contemplativo, só quebrando o galho em alguns momentos, e redescobri dois prazeres, que eram a companhia da Cinthia e o deleite de uma viagem de moto, sentindo o vento no corpo, ver a estrada e as paisagens e tudo o mais que houver ficando para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos duas noites na mesma pousada. Na primeira, ainda como viagem de ida, conversamos bastante, relembramos fatos de nosso passado, e as coisas que vivemos quando já estávamos distantes um do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você não mudou nada, era o que mais se ouvia dos dois lados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de estarmos nos dando bem nessa viagem, a cada momento ela dava um jeito de lembrar que não havia mais possibilidade para nós dois. Ela gostava agora de se dedicar a algumas coisas de sua igreja, já estava se estabilizando e contava várias coisas da loja de roupas que havia montado,  que eu simpaticamente disse que conheceria no futuro, e de seu namorado, um detetive particular. Eu lhe contava que agora dava aulas, tinha uma revista, mas ela não se interessou muito, lembrou que quando namorávamos eu já escrevia mal e porcamente. Talvez não estivesse errada - relendo algumas coisas da época, eu mesmo concordo -, mas ela também nunca fora eficiente nos seus projetos; a loja não era o primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesma pousada, no dia seguinte, quando já fazíamos trajeto de volta, não conversamos muito. Ela foi dormir rápido, se dizia cansada, mas bem. Eu até pensei que ela talvez quisesse romancear um pouco tudo aquilo. Que tal se aproveitássemos essa noite?, lhe perguntei. Ela deu um sorrisinho irônico e foi se deitar sem responder, e isso me lembrou a época em que namorávamos. Ela sempre teve uma personalidade muito forte, e eu também sempre fui de convivência difícil, e, como foi dito, frequentemente nosso relacionamento era acompanhado de momentos de tensão. Cada um tentava se impor sobre o outro, não era uma relação com mandante. De qualquer modo, na nossa rivalidade existia uma parceria involuntária, uma cumplicidade, um duobanditismo. Agora, muitos meses depois, éramos os mesmos, mas ninguém tomava postura sobre o outro, estávamos cada um na sua, mais assépticos, mais vazios, menos personalistas - nossa cumplicidade hoje se resumia a troca de gentilezas, transformamo-nos naquilo de que sempre tínhamos medo de nos tornar. Isso me deixou meio puto na hora, mas eu relevei, porque não sou do tipo que tenta deixar as coisas pra trás, que tenta esquecer o passado achando ser a melhor solução. Gosto demais da minha vida, em todos os seus impropérios, pra tentar apagar um minuto que seja da memória. Eu sabia que esses momentos seriam os últimos que passaríamos juntos - e era melhor que fossem mesmo -, mas mesmo assim eu o notava mais como reencontro que como despedida. Foi acompanhado dessas divagações que, enquanto ela se dirigia à cama em silêncio, eu ia dar uma volta pelas ruas escuras, até comprar umas cervejas em lata no posto de gasolina mais próximo e bebê-las solitário num ponto de ônibus com a boca franzida feito um bebê chorão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois desse dia, só tive chance de revê-la na sua apresentação, que foi aprovada com louvor. E eu raramente fico orgulhoso por alguém, mas fiquei muito por ela. A Cinthia havia me marcado tanto, e mesmo que estudássemos no mesmo lugar já não nos víamos mais, porque ela estudava pela manhã e eu à noite. E quando eu pensava nela antes da sua visita-surpresa, a única coisa que eu desejava era poder participar de sua vida uma última vez, participar de algo que lhe fosse importante. E eu consegui, mesmo não tendo oportunidade para algo como um novo último beijo, mas ainda assim me senti contemplado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois, eu comprei uma moto nova, para fazer reviver em mim o desejo de pegar a estrada – mas dessa vez, sem companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assisti à sua formatura, mas não me demorei muito tempo na cerimônia e saí sem cumprimentá-la. Sabia que era a última vez que a veria e não queria estender tanto aquele martírio, eu já estava bastante desconfortável, suado. Sentia o calor de sempre, o calor dessas ocasiões, porém mesmo esse calor insuportável não abranda o frio da alma. Fui para o Bar do Caixão, que ficava do outro lado da avenida, e passei ali as quatro horas seguintes enfiando goela abaixo uma cerveja atrás da outra. Eu me mantinha com o olhar fixado na bebida, observando o lúpulo que subia em minúcias e fazia um pequeno borbulhar no topo do copo, enquanto resmungava Cinthia... Cinthia... Cinthia... bem baixo, tão baixo que se houvesse mais alguém na minha mesa não escutaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-574084119889116034?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/574084119889116034/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=574084119889116034&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/574084119889116034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/574084119889116034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/03/esse-calor-insuportavel-nao-abranda-o.html' title='Sem gosto de despedida'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-3769804219322552387</id><published>2009-03-07T03:04:00.009-03:00</published><updated>2009-03-08T02:06:56.370-03:00</updated><title type='text'>Sobre nós e sobre os outros</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu recebi hoje um email de um conhecido dos tempos de colégio, estava anexado com umas fotos recentes de Rodrigo, um dos caras mais arruaceiros que já conheci, quando nos falamos a primeira vez devíamos ter uns 13 anos, e mantivemos contato pelos três ou quatro seguintes. Depois que nos distanciamos, só tive notícias suas em dois momentos: um foi quando ele passou uma semana preso por estar empossado de umas muambas, que, como se não bastasse, eram roubadas; o outro momento foi agora, através dessas fotos. No corpo da mensagem, o remetente tentava convencer a mim e aos outros três ou quatro destinatários a abrir as imagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;EI AMIGOS VEJAM O QUE ACONTECEU COM O VENTA&lt;br /&gt;HAHAHAHAHA QUEM SABE ELE APRENDE&lt;br /&gt;SAUDADES&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu não tinha entendido, só entendi quando vi as fotos. Rodrigo estava acabado, havia sofrido um acidente de carro e  era só cacos, com lesões que iam desde pequenos arranhões na bochecha até uma fratura horrível nos metatarsos que o impediria até de colocar o pé no chão por um tempo, mas estava vivo, e chegava até a sorrir em uma das sete fotografias, fazendo um sinal com as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu pensei em responder a mensagem pedindo algum contato do Rodrigo, telefone ou coisa assim, mas deixei pra lá. Ele provavelmente não se lembrava de nenhum de seus colegas do tempo da escola, sabia que no máximo era motivo de chacota para alguns que o chamavam de "venta", e eu nem sabia que ele tinha esse apelido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso tudo na verdade era só algum passatempo na madrugada. Não havia mais nada a fazer, e eu não tinha sono. Não tinha bebida em casa, nem comida. Tomei banho pra passar o tempo, mas isso só me fez pior, porque a água daqui tem muito cloro, e eu sou meio alérgico, sei lá, não sei se é possível ser meio alérgico, mas o fato é que passei vinte e cinco minutos no banho, às três da manhã, e quando saí o meu corpo era só pruridos. Eu demoraria mais no banho - enquanto estou embaixo d'água, nada sinto -, mas escutei o celular apitando, era uma mensagem que havia chegado. Eu pensava quem me escreveria algo a essa hora?, e sabia que havia grande possibilidade de ser uma mensagem automática da operadora lembrando-me de minhas dívidas. Mas não, não era uma mensagem automática, era uma mensagem de um amigo chamado Silas, perdido num apartamento de alguma garota fácil dessa cidade. Ele dizia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARA LEMBRA QUANDO VOCE ESTAVA MAL COM AQUELA GAROTA POIS EH AGORA ESTOU ME SENTINDO ASSIM TAMBEM LIGA PRA MIM VAMO CONVERSAR.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei matutando sobre o porquê de ele fazer a referência a um momento em que eu estava mal, sobretudo com "aquela garota". O que tinha a ver? Será que ele imaginava que eu só lhe daria atenção se houvesse um peso que me obrigasse a isso? De qualquer maneira, de nada adiantaria pensar nessas coisas, porque eu não tinha mesmo condição para lhe telefonar, e fiquei mal por isso. De fato, Silas tinha quebrado um bom galho noutros momentos, e agora eu não poderia retribuir o amparo, que babaca que sou, eu pensava de mim mesmo, mas o que poderia fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi matar o tempo com alguma leitura, embora não estivesse muito a fim. Dei uma olhada na estante e peguei rápido um livro qualquer que fosse, o quarto estava escuro ainda, de maneira que eu não sabia que livro tinha pego. Só depois que acendi, vi que havia sido um do Jack Kerouac. Eu achei que seria bom para adormecer, porque Kerouac é um dos tipos que me ajudam a escrever, quando quero escrever, que me ajudam a dormir, quando quero dormir, e me ajudam a passar o tempo, quando quero apenas passar o tempo, no ônibus, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ela é uma garota bonita demais. Eu me pergunto o que todos os meus amigos iam dizer... e o que aconteceria em Nola quando você a visse... sob o sol quente, ela de óculos escuros e um andar preguiçoso... Ela fala de um jeito parecido com minha velha tia franco-canadense lá de Lawrence. "Não quero su moa-ny, o que quero é yur loave." Loave, amor. "És yur lawv." Lawv, lei. Acontece a mesma coisa com Tristessa, que tá o tempo todo tão doidona, passando mal. Ela se aplica 10g de morfina sempre, e sai cambaleando pelas ruas da cidade tão bela, e seus olhos reluzem e seu rosto está úmido com o sereno...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa Tristessa é muito louca, muito intensa, eu pensei, e censurei a mim mesmo por ter pensado isso, porque é o que faço todas as vezes, penso demais enquanto leio esse livro, que leva o nome de sua protagonista, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tristessa&lt;/span&gt;, e é por meditar tanto nele que não consigo nunca lê-lo todo, mesmo sendo bem pequeno, nem pode ser chamado de livro, é um livreto que não custa nem 6 reais e fica jogado nessas seções de livros que só olha mesmo quem não tem dinheiro para comprar os best-sellers das outras estantes que custam dez vezes mais, embora seus conteúdos valham dez vezes menos. Fico aborrecido porque a leitura de Kerouac deveria ser feita como a escrita, de uma só vez, como o fiz em suas outras obras a que tive acesso. Em se tratando desta, porém,  deve haver algo de errado, ou com ela ou comigo. Só sei que sempre que a tomo em mãos, eu parto da primeira linha, e precisaria de um dia inteiro para chegar ao fim. Talvez seja uma forma inconsciente de eu não aceitar que essa história termine tão rápido, como fatalmente seria se fosse lida dum só lance. Decidi deixá-la de lado por uns instantes, fiquei a olhar para o nada e só então achei engraçado o fato de ter pego justo esse livro na estante, porque eu o comprei exatamente com uns trocados emprestados do Silas, que agora me pedia refúgio. Lembro que na ocasião da compra, estávamos num hipermercado, de bobeira, nem recordo o que estávamos buscando e vi esse livreto. O pior é que não tinha nem 6 reais no bolso, eu devia ter 4 reais ou menos, e lhe pedi o restante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho, mas peraí, disse o Silas, e saiu, enquanto fiquei folheando outros livros, e em menos de dez minutos ele voltava com a parcela que faltava, em umas dez moedas de 25 centavos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você fez?, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você acha que fiz? Eu saí pedindo, é claro, foi o que me disse. Vai aceitar ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aceitei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era curioso que ele agora estivesse nessa situação, porque no dia anterior estávamos conversando, eu, ele e mais três amigos, num barzinho pequeno, próximo à escola onde dou aulas, e tanto o Silas como os outros falavam alto sobre as garotas que comeram neste último carnaval, mas o papo não fazia muito sentido pra mim, porque não participei dessa farra licensiosa do carnaval, embora já tenha usufruído dela noutros tempos. É só que agora não tenho mais interesse porque nem meu ânimo é o mesmo, hoje acho que não tenho sequer condições para transar mais de uma vez por semestre, e olhe lá, sem repetições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você fala como um velho impotente, disse-me uma garota dia desses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é uma decepção, disse outra, menos de 48 horas depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para as duas eu apenas sorri e mudei de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-3769804219322552387?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/3769804219322552387/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=3769804219322552387&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3769804219322552387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3769804219322552387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/03/sobre-nos-e-sobre-os-outros.html' title='Sobre nós e sobre os outros'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-9137653374132063796</id><published>2009-03-03T13:50:00.009-03:00</published><updated>2009-03-05T01:35:33.253-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Literatura Vil ocasionalmente recebe selos de blogs amigos que reconhecem a qualidade do trabalho aqui exposto, composto de acordo com a minha capacidade, porém abaixo da minha infinita pretensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O blog não tem restrições quanto a selos - como a recusa automática a expô-los, por exemplo -, porém, como eu mesmo já comentei a algumas pessoas que mos ofertaram, sou um blogueiro ali dos tempos distantes, fiz meu primeiro blog há cinco anos, era um período em que a blogosfera estava em refluxo (os blogueiros mais antigos hão de concordar), ou seja, era uma fase em que escrever em blogs era o suprassumo da marginalidade cibernética - realidade que mudaria de 2007 em diante, quando tivemos uma nova guinada, e hoje temos um novo e produtivo cenário (uma mostra disso podem conferir nos blogs linkados no menu).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desse modo, ainda que seja saboroso o hábito de visitar e comentar postagens de outros blogs, o processo de interação que tenho para com eles (e para com o mundo dos blogs em geral) é quase zero: não participo de sites de blogs, nem de muitas campanhas existentes, não troco joguinhos, etc, senão muito ocasionalmente... Isso se dá porque, após anos postando em páginas solitárias e distante dessas atividades conjuntas, mantenho certa hesitação em me envolver nesses editos por não saber ainda lidar com eles. Portanto, selos, memes, brincadeiras e afins nunca me atraíram necessariamente. Sou um blogueiro amador, solitário e inquieto. Sempre fui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas apesar disso tudo, não sou ingrato, agradeço a todos que me enviaram selos e os exporei abaixo. Apenas lamento o fato de não ter feito imediatamente após exposto pelos blogs que me indicaram. E peço desculpas, mas não postarei regras, nem os indicarei para outrem, porque a minha seleção de blogs é una - é aquela que, conforme já foi dito, está posta na coluna à direita. É isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5308729629908283058" style="margin: 0px auto 10px; display: block; width: 167px; height: 112px; text-align: center;" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_LgVpesj5jYA/SaxleLdGLrI/AAAAAAAAAGs/lxjcOdxCweU/s400/laranja%5B1%5D.PNG" border="0" /&gt;O colega Italo Sena, do blog &lt;a href="http://quemmatouosama.blogspot.com/"&gt;Quem Matou Osama&lt;/a&gt;, enviou-me este selo: "este blog é alegre e criativo: reflete entusiasmo e criatividade". Hmmm... Se ele diz, né, que assim seja. Ademais, acrescento: o blog Quem Matou Osama é um dos raros blogs de humor que conseguem me tirar algumas risadas... só não posto no menu lateral porque, sinceramente, não acho que tem nada a ver com o Literatura Vil... creio que a justificativa é mútua. Sucesso para o Italo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;img src="file:///C:/DOCUME%7E1/LEONKA%7E1/CONFIG%7E1/Temp/moz-screenshot-9.jpg" alt="" /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_AlcH2t50s3s/SZHE7HirXEI/AAAAAAAAApY/re1bcRTMRE0/s1600-h/7.jpg"&gt;&lt;img style="cursor: pointer; width: 149px; height: 97px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_AlcH2t50s3s/SZHE7HirXEI/AAAAAAAAApY/re1bcRTMRE0/s400/7.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5301234756307606594" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Dina, do &lt;a href="http://acordapravidah.blogspot.com/"&gt;Acorda Pra Vida&lt;/a&gt;, exclama que o Literatura Vil é um blog maneiro... Pois é, eu concordo, tanto que sou o autor e o principal leitor deste recinto! No mais, quem ainda não a conhece, não há porque perder tempo...&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;h3 class="post-title entry-title"&gt; &lt;/h3&gt;  &lt;div class="post-body entry-content"&gt; &lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_WohU74g67XM/Saui-h9uLhI/AAAAAAAAE34/ZSm3j1wyWio/s1600-h/premio_literatura.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5308515780939099666" style="margin: 0px auto 10px; display: block; width: 161px; height: 161px; text-align: center;" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_WohU74g67XM/Saui-h9uLhI/AAAAAAAAE34/ZSm3j1wyWio/s320/premio_literatura.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;A Natalia, ou apenas Naty, do &lt;a href="http://soucontinenteperfeito.blogspot.com/"&gt;Sou Continente Perfeito&lt;/a&gt;, indicou o selo Literatura é Arte para este blog, motivo de orgulho para este que vos escreve. A Naty, que, obviamente, já havia sido indicada a receber este selo, sabe que seu reconhecimento também é merecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5309542967982197010" style="margin: 0px auto 10px; display: block; width: 138px; height: 113px; text-align: center;" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_m9OARlNI1-k/Sa9JMr5AiRI/AAAAAAAAAWw/CVXj9ykivRo/s200/ninaas023.png" border="0" /&gt;&lt;/div&gt;Recebi do blog &lt;a href="http://www.lostinmyillusions.blogspot.com/"&gt;O Instável Mundo da Juh&lt;/a&gt; o selo Meu Blog é um Encanto. Não dá nem margem pra comentário, só posso agradecer... o blog da Juh eu conheci dia desses, e, vá lá, é interessante. É um blog que tem um astral interessante, é reflexivo mas é algo bem pra cima... vale a visita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_cmOMR7rC9Ac/SZb__oIE0GI/AAAAAAAAASg/wnAWwueDyqQ/s1600-h/selo_ju_2.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5302707079843467362" style="margin: 0px auto 10px; display: block; width: 119px; height: 79px; text-align: center;" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_cmOMR7rC9Ac/SZb__oIE0GI/AAAAAAAAASg/wnAWwueDyqQ/s320/selo_ju_2.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A Mari Vilani, do &lt;a href="http://cantinhomisantropico.blogspot.com/"&gt;Cantinho Misantrópico&lt;/a&gt;, enviou-me o selo Esse Blog me Faz Sorrir (a Juh também me enviou). Demorei para relembrar essa indicação, assim como as outras, mas sso não diz nada; gostei da indicação como gosto do blog da Mari; digo mais, Cantinho Misantrópico bem que poderia ser nome do Literatura Vil... acho que escolhi mal. Mas ela foi mais esperta e o catou primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além destes selos, a Michele do blog &lt;a href="http://perscrutarei.blogspot.com/"&gt;Perscrutarei&lt;/a&gt; também me houvera enviando um meme (brincadeira) onde eu deveria listar seis coisas sobre mim. A Michele - e, salvo engano, a Naty também - é mineira, conterrânea de vários dos blogueiros e blogueiras que estão linkados pelo Literatura Vil (além de outros que visito). Terra boa é essa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis as coisas sobre mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Às vezes tenho preguiça de assistir aos jogos do meu time;&lt;br /&gt;- Pelo menos metade dos blogs que visito não estão linkados aqui, nem por isso me são menos importantes;&lt;br /&gt;- Meus textos são muito, mas muito influenciados pelos meus escritores favoritos;&lt;br /&gt;- Eu não me importaria em ser limpador de vidraças no futuro se tivesse meu tempo livre para escrever;&lt;br /&gt;- Tenho dois desejos: trocar uma prosa com Zé Ramalho e com Rubem Fonseca;&lt;br /&gt;- Uma das coisas mais prazerosas que existe, a despeito do pensamento corrente, é dar aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto. Agradeço a todos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*   *   *   *   *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Fragmento&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Achando a festa meio maçante, eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que olhava para a multidão, e voltava-me para o balcão. De repente, ao meu lado, senta-se uma menina e me causa um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa!, uma boneca!, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, manteve o olhar fixo em mim por míseros dois segundos, mas eu rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa longa história juntos,  abri de modo bastante original a conversa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-9137653374132063796?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/9137653374132063796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=9137653374132063796&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/9137653374132063796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/9137653374132063796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/03/o-literatura-vil-ocasionalmente-recebe.html' title=''/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_LgVpesj5jYA/SaxleLdGLrI/AAAAAAAAAGs/lxjcOdxCweU/s72-c/laranja%5B1%5D.PNG' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7825040018028555855</id><published>2009-02-26T01:52:00.007-03:00</published><updated>2009-02-27T15:11:43.946-03:00</updated><title type='text'>Da estupidez</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É sempre muito tarde quando eu percebo que me meto num programa-de-índio, é justamente esse maldito pensamento que me passa agora. A madrugada ainda está no seu início, acabo de me sentar numa parada de ônibus na Rodoviária Velha, muito bêbado e cansado. Isso tudo porque eu saí de casa horas atrás, ainda era dia, pra vir em um desses bares da Ribeira assistir a uma banda que tem um som meio setentista, meio rock progressivo, umas influências sinfônicas, enfim... Vi o anúncio no jornal, achei bacana, e vim ver, na maior boa vontade. A banda de fato era até legal, entretanto nem teve muito tempo, teve coisa de trinta minutos. No final das contas, o que rolava era apenas um desses festivais de merda onde as mesmas sete ou oito bandas se revezam todos os fins-de-semana, com mais uma banda fantoche pra dizer que há alguma renovação, e o dono do bar lucra e os caras das bandas se acham os sujeitos mais pops do estado, e eu pinto de idiota, de néscio, porque sou o único por ali que não está acompanhado. Sou o único que está ali só pela música, só pela arte, porque queria ouvir algo, e fiquei meio triste e meio puto porque essas coisas sempre acontecem comigo. Antes, eu me aborrecia muito por estar sempre desacompanhado nessas horas, porém há algum tempo me dei conta de que é melhor assim, pois basta apenas eu me enfiar nessas aventurinhas grotescas. Antes um a dois tolos.  &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Eu nem me demoro muito a sair desse bar – que não é um bar, é uma pequena casa de shows – e ir para um bar autêntico, por assim dizer, só para beber, e hoje, como saí de casa sem moto, eu iria beber bastante, e foi isso que fiz, bebi até ficar meio tonto como há tempos não fazia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;TEM QUANTOS QUISER, RAPÁ, é o que me diz o garçom, e ri para os amigos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Outros ainda continuam me enchendo o saco.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;POR QUE TÁ BEBENDO, BICHO?, pergunta um cara na mesa ao lado pendendo a cabeça na minha direção, mas sem me olhar. GAROTAS? TRABALHO?&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;ESQUECE... ELE NÃO DEVE TER NEM UMA COISA NEM OUTRA, diz seu companheiro de mesa, e começa a rir, sendo logo acompanhado pelos colegas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Eu ignorei todos os que me torravam a paciência e bebi até agora há pouco, só parei quando vi que já era meia-noite e pensei que não teria mais condução para o meu bairro. Quando paguei a conta e me levantei, eu ainda tropecei sem querer e caí na pavimentação, caí sobre o joelho e o braço direito. Tentei me levantar logo mas não me sentia totalmente forte, fiquei lá de quatro ouvindo a risada dos caras e com vergonha de mim mesmo, a diverti-los como se fosse um palhaço. Então, levantei-me e ainda lhes lancei um olhar astuto, e saí andando altivamente, como se eu, bêbado e sozinho, tivesse mais poder que dez mil deuses juntos, todavia enquanto caminhava eu ainda escutava risadas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;E agora aqui estou nesta Rodoviária, e poucos minutos depois da minha chegada começam a cair alguns pingos do céu, um chuvisco que gradativamente vai tomando força. Eu ainda me mantenho protegido, afinal essa parada de ônibus é a parada-modelo que a Prefeitura lançou não tem nem dois anos, de um metálico até bonito, colorido, além de ser coberta. Só que o teto é muito alto e a chuva muito intensa, e logo começa uma ventania, daquelas que fazem a chuva vir de lado. Não demora e estou ensopado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;O tempo passa e agora começo a ficar enfadado, porque ainda não vislumbro nenhum ônibus, mas que ônibus?, eu sei que não passa mais ônibus algum a essa hora. Minha única opção vai ser pegar algum tipo de transporte alternativo, qualquer um que tome outro rumo, qualquer intermunicipal, e descerei na BR 101, lá perto do Aeroporto Internacional Augusto Severo para caminhar a pé sob muita chuva e sobre muita lama durante uns dois ou três quilômetros pra chegar em casa. Isso me faz rememorar os primeiros dias em que fui morar naquele bairro, que tem o lindo nome de PARQUE INDUSTRIAL. E isso é engraçado, porque Natal não tem indústria nenhuma, o Rio Grande do Norte também não tem. Porra, se nem o Brasil tem indústrias direito, como é que esse estado se põe na prerrogativa de batizar assim um de seus bairros mais pobres e encardidos? Mas pois é, é isso que os caras fazem, e esse bairro até que mudou desde que fui morar nele, eu tinha coisa de dez ou onze anos, e isso me vem à mente agora porque naquela época não havia ônibus pra lá, e a situação me fez lembrar das minhas longas caminhadas na infância. Na verdade, não havia quase nada, para ser franco. Sequer água e luz tivemos durante os dois primeiros meses. A única coisa que não mudou é o fato de ainda não ter nenhuma indústria lá. Até puseram uma pedreira, uma marmoraria aqui, uma serralharia ali, para se unirem aos galpões antigos e abandonados e dar razão de existir ao pomposo nome de PARQUE INDUSTRIAL.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Pensar nessas coisas é ao mesmo tempo trágico e engraçado, contudo eu não tenho nada mais a fazer, fico pensando nisso até que venha o transporte, e, claro, que seja clandestino, pois estes são os mais baratos e têm aos montes.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Depois de algumas divagações, eis que me aparece um, é uma Besta, uma dessas vans bem pequenas, e como a chuva desse uma pequena trégua, eu até penso que o dia não foi tão mal devido a essas alegrias momentâneas. Entro meio cambaleante na Besta e balbucio ao garoto de camisa do Flamengo, FICAREI NA BR!, porque o garoto, que devia ter seus quinze, com a camisa do Flamengo é o cobrador, embora não seja cobrador de fato, e sim apenas filho do motorista; está ali, àquela hora da noite, porque o pai o obriga a trabalhar, e como não tem fiscalização que cate nenhum dos dois, o pai persiste explorando o próprio filho. É nessas horas que eu me felicito por não ter pai.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Eu chego a adormecer um pouco durante a viagem, lapsos de sono, cochilos. Ainda estou muito tonto pela bebida. Fico naquele estágio de microssonos até que bato a cabeça na janela e redesperto. Percebo que a chuva voltou; aliás, a chuva não voltou, nós é que fomos em sua direção, porque as nuvens seguem para oeste, e todo nosso trajeto parece que foi correndo atrás daquela nuvem carregada, e assim que nos pusemos bem no meio, no coração dessa nuvem, é justamente quando vejo um cartaz imenso, muito maior que um out-door, anunciando que o aeroporto está a apenas algumas centenas de metros, ou seja, já de meu destino, e eu grito lá do fundo:&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;DESCE NO CAFÉ!&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;CAFÉ?, o garoto fica sem entender.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Sua confusão é compreensível porque fazem anos que não pego nenhum transporte alternativo, e na última ocasião em que o fiz o ponto de referência da minha parada ainda era um tal de Café, que na verdade nem sei o que era de fato, apenas concluí a mim mesmo ser Café porque assim que nos mudamos, eu e minha mãe, naquele longínquo 1997, ela me disse:&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;QUANDO VOLTAR DA ESCOLA, PEÇA SEMPRE PRA DESCER NO CAFÉ!&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Então, foi esse Café o ponto de referência pra mim, mas agora o Café, fosse lá o que fosse, não existe mais, e eu não posso fazer nada, e pior, não sei de outro ponto de referência, eu poderia dizer PARA AÍ PERTO DO AEROPORTO, no entanto perto do aeroporto é uma afirmação muito vaga, perdida, sem sentido, perto do aeroporto pode ser em qualquer lugar na BR-101 entre Natal e Parnamirim, e como a visualização estava ruim pela janela, devido à forte chuva, de maneira que eu não sabia onde estava, eu canso e resolvo o problema:&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;PARA AGORA MESMO ESSA MERDA, AQUI, LOGO!&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Quando ele pára eu dou a grana necessária e mostro minha carteira de estudante.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;CADÊ O SELO?, pergunta-me o garoto.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;MAS QUE SELO?&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;O SELO QUE AUTORIZA O USO DA CARTEIRINHA, PÔ.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;A questão é que eu não sei do que ele fala, selo?, por que raios a minha carteirinha precisa de selo?, afinal eu sou estudante, paguei pela porra da carteirinha, esperei dias pra receber, sempre uso no cinema, sempre uso no teatro, sempre uso nos jogos de futebol, e até no ônibus eu já usei, e não posso usar nesse maldito transporte clandestino, e sendo clandestino nem regularizado é, por quê?&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;É A LEI!&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;HA!HA!HA!, rio cinicamente, só que não sei ser cínico, na verdade eu apenas banco novamente o palhaço, porque é isso que sou, um palhaço.&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;Não faço resistência alguma, aceito pagar a passagem inteira, e assim que desço, debaixo de uma chuva fortíssima, a Besta arranca. Eu poderia logo partir para minha nova peregrinação, pois terei que caminhar mais uns quinze minutos além dos trinta que já era previsto porque noto que estou pelo menos um quilômetro antes da minha parada. Será mais um fardo que terei de suportar até chegar em casa todo molhado para talvez tomar um banho rápido e dar uma requentada no café que deixei sobrar hoje pela manhã, e tudo isso para depois enfim desabar na cama. Porém, não é o que faço. Desço do alternativo e fico aqui, na beira da avenida, apreciando eles tomarem distância. Somente quando a Besta começa a se perder da minha vista na autoestrada, escondida pela neblina e pelo temporal, é que eu lhe mostro o dedo médio, achando que estou provocando alguém, mas não estou, estou apenas provando pra mim e para qualquer um que até aqui tenha duvidado, que eu sou mesmo um estúpido.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;No dia seguinte, acordei enjoado, resfriado e com fortes dores no joelho direito.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7825040018028555855?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7825040018028555855/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7825040018028555855&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7825040018028555855'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7825040018028555855'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/02/da-estupidez.html' title='Da estupidez'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-309223312061892274</id><published>2009-02-13T15:21:00.008-03:00</published><updated>2009-02-13T17:06:57.297-03:00</updated><title type='text'>Sobre Quando Senti Saudades</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Perdi alguns amigos, mas não muitos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Alguns chegados já se foram, devido a facadas, tiros ou acidentes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas poucos me deixaram boas lembranças como o saudoso Adelmário,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;um velho que deixou sequelas permanentes em todos, a despeito das confusões que causou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Republico essa postagem em sua memória... um ano depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea". Adelmário era seu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autossustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desejo de ser um militar de carreira se foi como num estalar de dedos. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, diziam-lhe os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. No entanto, para aquele jovem acidentado, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É verdade que suas habilidades básicas até lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;noir&lt;/span&gt; do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em se concentrar. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que já era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância que me convidava nas sextas para sua casa, e eu ia, quase empurrado pela minha mãe. Como conversávamos bastante, nós três, passei-me a aproximar-me mais dele. Com o tempo, tornou-se mais que apenas o tio de meu amigo; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Então passei a, eventualmente, visitá-lo. Era um ótimo parceiro pra conversar sobre minhas vivências de adolescente. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que ele já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado. A primeira vez que o vi beber e cair no chão sem conseguir se levantar, senti uma vontade brutal de chorar. Apesar da condição física deteriorada, ele ainda bebia às escondidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A esse tempo obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom e velho amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, senti saudades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acreditei. Não me situei no princípio. Apenas parei e me lembrei dele. Lembrei de seu sorriso trôpego, já sem a maior parte dos dentes. Das piadas e dos xingamentos. Das peladas que batíamos, embora ele não tivesse fôlego nem pra correr cinco passos. Pensei o que ocorre a todo mundo que perde seus entes; eu não o veria mais. Fiquei acometido de um arrepiamento, um calafrio. E do retorno daquela vontade de chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse cara estragou a sua vida, foi o que pensei na hora. Mas isso era besteira. Era um julgamento indevido de minha parte.  Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Mesmo quem acredita estar cuidando refinadamente da sua. Ele apenas estragou à sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a avó da minha irmã, que, segundo minha mãe, também era minha avó. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. E novamente eu segurei as lágrimas por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui à casa de meu velho amigo da escola no dia da missa. Entre nós, parecia já não haver mais nenhuma intimidade - nós que, não muitos anos antes, havíamos feito juras de amizade. Não me demorei na sua casa. Trocamos poucas palavras. "Ele estava muito magro... você não ia querer ver...", foi uma das poucas coisas que me disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adelmário bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, aqueles que vivem simplesmente por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, desde aqueles do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava lá - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela última vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-309223312061892274?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/309223312061892274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=309223312061892274&amp;isPopup=true' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/309223312061892274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/309223312061892274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/02/sobre-quando-senti-saudades.html' title='Sobre Quando Senti Saudades'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1613610514808521904</id><published>2009-02-06T21:20:00.007-03:00</published><updated>2009-02-08T15:26:34.154-03:00</updated><title type='text'>Olhando para trás</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Não havia nada a ser invejado na minha infância. Eu não viajava; não visitava parques aquáticos; não brincava na rua. Tudo isso devido à disciplina com a qual minha mãe tentava me fazer habituar, embora ela mesma nunca fosse disciplinada. Mas, em outra parte, pelo meu próprio desinteresse em participar de tais frivolidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até os quatro anos de idade, eu não tinha nome. Ou poderia dizer que tinha vários. Certa vez, há muito tempo atrás, vi uma foto minha num campo aberto, parecia um deserto, e no verso dizia “hoje é 6 de dezembro de 1986, Carlos Alberto fez um ano”, acompanhado de algumas declarações de felicidade, da benção de ser mãe, entre outras anotações. Através dessa e de outras fotos antigas, além do que ela já me contou, soube com o tempo que já me chamei Juan, Ricardo, Roberto, Raoni, Pablo, Leonardo e Leonel, até que se decidisse por Leon. Todos esses nomes acompanhado de Carlos. Claro que eu não era registrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, para facilitar as coisas, os parentes me chamavam apenas de Ninho. Era mais fácil. Assim foi até que chegou a idade de eu entrar na escola, e ela enfim fez a minha certidão, decidindo de uma vez por todas qual seria o meu nome: Leon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha pobre mãe tinha suas vicissitudes, que a faziam me valorizar. Ela era a mais nova entre sete irmãos, a garota-prodígio, se saía bem nos cursos de inglês, tirava notas bastante elevadas na escola, entrou facilmente na universidade, tinha um caminho aparentemente traçado com linhas coloridas e brilhantes. Mas, aos dezoito anos, esteve grávida, o que não era recomendável em sua situação: devido a um atropelamento sofrido aos nove anos, os órgãos componentes de seu útero tinham dificuldade em se desenvolver, de maneira que o embrião atrofiou-se logo no princípio de sua formação, e ela veio a abortar. Esse trauma, ao que consta, foi gigantesco. No mesmo ano, engravidou novamente, e abortou novamente. Deixou curso de idiomas e faculdade. Foi viver com o namorado. Engravidou pela terceira vez. E por algum milagre, conseguiu ver nascer seu primeiro filho. Na verdade, uma garota. Kaline, minha irmã. Eu nasceria dois anos depois, e entre nós haveria um terceiro aborto. Um dia depois que eu vim ao mundo, minha mãe fugiu do hospital. Não tinha pra onde ir, não sabia o que fazer. Só sabia que não queria levar a vida que tinha até ali. Vivia na casa dos sogros há cinco anos, e mesmo assim todos eles diziam que meu pai era outro. Quando foi encontrada, o médico – de confiança da família – disse que ela sofreria sérios abalos psicológicos se tivesse um novo filho, e ligou suas trompas, ao que ela somente soube na manhã seguinte.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Minha mãe deixou a casa onde vivia e voltou a morar com sua mãe, sem dinheiro, sem trabalho, sem estudo e com um filho no braço – a filha ficara na casa dos sogros, por insistência deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cresci, então, com a mãe sempre me lembrando que as pessoas são máquinas incompreensíveis, difíceis de entender e indignos de confiança até que provem o contrário. A despeito do nome que eu não tinha e de outros detalhes menos interessantes, ela me ensinou a ler, a falar inglês, a calcular, tudo antes de ir para a escola. Queria fazer de mim a pessoa importante que não se tornara, talvez. Mas a compreensão de importante, para minha mãe, se reproduzia em termos monetários. Desde cedo, eu lia os livros que depois ocupariam a lista de mais vendidos; aprendia sobre as leis da autoestima, sobre o poder do pensamento positivo, lia os manuais e as biografias dos milionários. Achava que Napoleon Hill era meu ídolo. Tios e avós me davam tapinha nas costas, sempre aclamando o futuro "doutor da família". Esse tipo de pensamento povoou meu imaginário durante uns dez anos. Olhava para os vizinhos de minha idade jogando bola, xingando-se e esbofeteando-se, e lamentava pela crescente pequenez de suas mentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de tudo, eu ainda tentava criar alguma amizade. Quando era convidado a jogar futebol, eu ia junto. Ainda que não suportasse a gritaria, as ordens. No final, quando perdíamos, era a mim que todos cercavam. Diziam que eu devia ir embora, que se arrependeram por terem me chamado. E eu ia embora, esperando que eles chamassem de volta e dissessem "escuta bicho, desculpa pela grosseria". No entanto, nunca chamavam. Às vezes, me jogavam pedra pra que eu saísse correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas e outras coisas, vindas com o tempo, me tornou diferente. Chegou um momento que eu percebi que as coisas não eram assim tão simples quando supunha. Nessa época, eu já ia sozinho para a escola, transportava-me de ônibus, pegava dois deles, um para atravessar a ponte, outro para chegar aonde estudava. Viajava de um lado da cidade até o outro. E por essa época eu já sofria assaltos, já via a mendicância a dormir nas ruas, já tomava sopapo dos moleques da escola, já levava foras de garotas. Eu não estava preparado para tudo isso. E então tentava fugir. Decidi não ir mais para a escola. Aliás, mais do que isso, convenci-me de que vivia uma vida errada, aquilo que aprendia e pensava não tinha conexão com as coisas reais. Pegava um ônibus e, enquanto a escola ficava numa direção, eu me dirigia à outra. Ia para a praia, e ficava lá o dia todo. Ou para um bosque, ou simplesmente ia para o centro da cidade e me punha sentado numa parada de ônibus durante quatro ou cinco horas. Até que caísse a noite e chegasse a hora de eu ir pra casa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Minha mãe descobriria meses depois. E seria um novo trauma pra ela, que, aliado a outras decepções que teria comigo, que já não era mais uma criança, buscaria seus próprios subterfúgios. Passaria a beber excessivamente. Eu seria colocado numa escola pública periférica. Ela decidira que não mais pagaria estudos pra mim. Nunca mais me perguntou como estavam minhas notas. Nunca mais perguntou por onde eu andava ou com quem estava saindo. Nunca mais me deu livros ou me ensinou nada. Seu passatempo favorito era sair e conhecer caras que no mês seguinte viriam morar conosco e três meses depois iriam embora depois de brigas e brigas, e tantos socos e palavrões trocados entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu passei a me confinar ainda mais no meu quarto. Decidi que o tempo que ficaria em casa seria o mínimo possível. Conhecia alguns amigos, entre malandros aqui e bem-intencionados ali. Fiz uma banda de garagem e nos apresentamos algumas vezes. Havia uns sempre de prontidão a nos presentear com benzina para que cheirássemos a madrugada toda. Existia também um bocado de garotas que ofereciam seu corpo como se não fosse nada – uma maneira boba de sair da rotina, talvez. Ainda havia o movimento estudantil, que, à parte das garotas e drogas fáceis que também proporcionava, me ajudou a observar  o mundo com outros olhos, a perceber que estamos todos num permanente conflito, numa tensão inacabável, para além daqueles dilemas existenciais. Para desfrutar essas aventuras, eu tinha uns trocados; minha mãe não conversava mais comigo como antes, mas tentava comprar minha amizade dando computador, violão, mesada e coisas assim. E eu aproveitava para tentar fazer uso disso da maneira que eu achasse mais escrota.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, garotas, drogas, malandragem, banda de rock, foi tudo passageiro. Como todas as coisas que já fizeram parte de minha vida, logo cansei delas. Tive menos garotas a cada ano, já não tocava mais rock, ainda que assistisse algumas apresentações e também não andava mais acompanhado de substâncias estranhas, apesar de ainda continuar a beber depois dessa fase.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;Em casa, quando era madrugada, eu notava pela luz que vinha por baixo da porta que a sala estava iluminada pelo abajur. Era a minha pobre e solitária mãe, escrevendo em sua agenda e bebendo cerveja, ouvindo música bem baixinho. Ocasionalmente, eu saía do quarto, ela parava de escrever, eu ia beber uma água ou comer alguma coisa, e depois sentava e conversávamos um pouco. Nessas horas, ela era mais boa companhia que em qualquer outro momento, antes ou depois dessa fase. Depois, eu voltaria para o quarto e ela voltaria a escrever e a beber, um ritual quase diário. Ela talvez confidenciasse a si mesma que havia cometido muitos erros comigo, erros que não poderiam ser mudados, e teria de viver com isso para sempre.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E eu roubei esse hábito dela. Quando é noite, eu tento ver TV ou, como é mais frequente, fico conversando na internet. Às vezes, recebo um telefonema dela, que agora está noiva e pelo menos desta vez não é um cara problemático, tanto que estão juntos há sete ou oito anos. A conversa com ela é sempre breve. Na TV, a programação vazia de conteúdo logo nos convida a desligá-la. E as companhias virtuais, o último escape que resta, também não se demoram a ir embora. É um momento em que não sobra mais nada, senão pegar algo para beber e colocar uma música para soar, só que bem baixo, quase inaudivelmente. E pensar nos tantos erros que cometi – e cometeria de novo se preciso fosse –, mas principalmente nos erros que cometeram ela e todos os outros que já esperaram algo de mim.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1613610514808521904?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1613610514808521904/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1613610514808521904&amp;isPopup=true' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1613610514808521904'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1613610514808521904'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/02/olhando-para-tras.html' title='Olhando para trás'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6288817312088315432</id><published>2009-01-22T23:57:00.006-03:00</published><updated>2009-01-26T10:34:51.875-03:00</updated><title type='text'>Camas desfeitas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ainda me recordo de quando, jubilado da faculdade e procurando trabalho, cogitei sair de casa a primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não, não e não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sempre uma negativa aos colegas que, recém-ingressados na Universidade, queriam alguém pra dividir quarto, apartamento, ou o que lá fosse. Mas eu não queria. Estava saindo de casa não por uma incompatibilidade de interesses somente com a minha mãe, e sim por uma impossibilidade de permanecer dividindo vida com alguém. Não conseguia, e não consigo, me sentir confortável sabendo que chegarei em casa e lá haverá outra alma atormentada que, de alguma maneira, roubará a minha paz, a minha solidão - sem oferecer verdadeiramente companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, a única opção que me restava era procurar outros lugares, tipo hotéis ou pensões. O primeiro que experimentei foi um hotel barato, infiltrado numa movimentada rua da Cidade Alta, mas tão decadente que poucos já lhe deram atenção ao passar por ali. Não trazia consigo nenhum charme daqueles de filmes, nenhum letreiro de neon piscante. O nome do recinto - Hotel Nordeste - estava mal pintado na parede, bem como toda sua tabela de preços. Uma noite custava 10 ou 12 reais; um mês, 200 reais. Dormi lá só uma noite. Mas é horrível dormir em hotel barato; ao menos, se considerar que todos os hotéis baratos são como esse. Em primeiro lugar, o quarto já não me oferecia muito. Havia dois beliches, um deles sem qualquer cobertor, e uma parede descascada, rachada e rabiscada até o último centímetro. Mas isso não era o pior. O pior era não ter o banheiro no quarto. O assistente me houvera acompanhado até o segundo andar, onde eu ficaria hospedado, e me apontara o no fim do corredor. Esperei que ele descesse para poder ver como era o interior, e notei que aquele lugar poderia servir para tudo, e tudo mesmo, considerando que ali deve ser também ponto de atuação de boa parte das meretrizes da Cidade Alta, menos para a higiene ou qualquer coisa que o valha. O banheiro é muito importante. Às vezes, quando a própria residência nos representa um peso, o banheiro é o único lugar que pode servir de refúgio. Nesse hotel, entretanto, eu não teria esse refúgio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num hotel desses, fatalmente aparecerá um bêbado mexendo no trinco da porta pela madrugada. Foi o que de fato aconteceu; no final da madrugada, desperto e ouço uma voz rangente e uma insistente luta para abrir a fechadura. Sem sucesso, é lógico. Nem o bêbado nem eu, que decidi procurar outro lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, depois, fui procurar um kit-net nos fundos de uma casa, num bairro nobre, a coisa só pioraria. Ainda me lembro de entrar no quarto, um entre quatro, sem nada lá dentro senão um guarda-roupa, uma cama e um criado-mudo, enquanto eu só carregava umas roupas e livros na mochila e um violão; mas este eu nem sei porque carregava, fazia mais de um ano que não o tocava, hoje faz muito mais. Também não sei mais por onde ele anda, emprestei a alguém que precisava de um violão de papelão e cordas de nylon pra aprender uns abjetos acordes e nunca mais pedi de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como foi dito, o kit-net ficava nos fundos da casa de um casal de senhores, que eu pensei que facilmente dobraria, só que não foi bem assim. Eu era iniciante na coisa de garimpar noites em quartos estranhos, era mais fácil dormir na rua - e foi o que realmente me ocorreu nessa época, por uma ou duas vezes. Por outro lado, o coroa parecia já ser bem esperto a ponto de enrolar sua clientela. Nos dias em que lá estive, em todos ele vinha me encher o saco, dizendo o que poderia ou não fazer, reclamando de todas as coisas, não importava se eu fechasse a porta (ele mandava uns bilhetes por baixo dando orientações disso e daquilo). Eram um casal de pentelhos coroas, só então entendi por que ninguém dos outros quartos estava lá a maior parte do tempo. Maldito velho, senti vontade de matá-lo quando estava na terceira noite, mas desisti e fui apenas embora, deixando pra trás a solidão de uma cama desfeita, uma cueca suja e o aluguel de um mês pago adiantado... aquele dinheiro não faria falta se eu encontrasse o sossego em qualquer outro lugar, nem que fosse num banco de praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez as piores experiências fossem com mulheres, a maior parte delas com uns anos a mais do que eu. Eu lembro que recorri a algumas nos momentos mais difíceis. Era sempre bem-recebido, não só como visita. Elas sempre queriam que ficasse mais. E mais. Devia haver algo que as afligia, porque eu notei que era comum que tais mulheres, depois de uma certa idade, sei lá, vinte e cinco, vinte e seis anos, não conseguissem mais suportar a idéia de serem sós, de viverem sós. A carência era absurdamente grande, e para elas era plenamente natural que eu lhes oferecesse amor em troca de um teto. Mas para mim não era, porque nunca supri carência de ninguém. Ainda mais de pessoas nesta situação... para elas, estar com alguém ia muito além da necessidade natural e animal que todos temos, era uma necessidade doentia, viciosa, sobre a qual elas não tinham nenhum controle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era difícil ir embora, porque a despedida nunca era algo cortês e sempre ficava a sensação de que ela cortaria a garganta assim que eu dobrasse a esquina - certamente nenhuma delas faria isso, mas só a sensação me cortava por dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de uma vez, aceitei convites de colegas para dormir na casa deles. Acho que dormir na casa de conhecidos me faria diminuir essa zanha misantrópica que carrego. E era bom, conversávamos muito. Mas como eu nunca via o meu hospedeiro ao dia - eu havia conseguido um trabalho, saía cedo e voltava no início da noite, nas quatro ou cinco vezes que dormi por aí de favor - nunca conversávamos muito. Quando o fazíamos, a conversa era sempre contida por necessidades outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou dormir, boa noite - diziam, e se iam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca compreendi como dormir poderia ser um ato tão burocrático para as pessoas. Dava uma certa hora e diziam "vou dormir" para si e para quem mais fosse necessário, e se acomodavam, houvesse ou não compromissos na manhã do dia seguinte para justificar seu ato. Para mim, dormir era difícil. A menos que eu já estivesse tomado de sono a ponto de apagar assim que me deitasse, geralmente o que me ocorria eram perturbações sempre que eu me deitava. É por isso que fujo da cama, fujo porque ela me traz pesadelos enquanto ainda estou desperto. Não me deito nela de bobeira, esperando pegar no sono. Prefiro ler livros na poltrona e adormecer, ver TV no sofá e adormecer, ficar na internet e adormecer. Não consigo dizer nem pensar "vou dormir". Apenas adormeço, quando o corpo assim exige, sendo mais forte do que eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas e outras experiências se intercalaram com retornos turbulentos à casa de minha família por cerca de um ano. É demais, para qualquer um. Delas, ficaram alguns traumas meio difíceis de sanar, e uma necessidade potencializada de ficar distante das pessoas nas horas mais importantes - aquelas, perdidas no meio da madrugada. Assim, vou levando. Vez ou outra, ainda recebo telefonemas de velhas - e novas - garotas querendo conversar. Eu gosto, as conversas são revigorantes. Quem dera uma relação a dois se compusesse apenas de conversa. Também continuo a receber convites de amigos desejosos de dividir apartamentos. Permaneço recusando a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, já não recebo visitas, senão de algumas baratas quando esqueço o ralo aberto,  porque ninguém sabe onde moro. E ao menos isso já é garantia de que estarei livre de fantasmas estranhos quando me dirijo pra casa. Já basta o meu próprio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6288817312088315432?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6288817312088315432/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6288817312088315432&amp;isPopup=true' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6288817312088315432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6288817312088315432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/01/na-solido-de-uma-cama-desfeita.html' title='Camas desfeitas'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-5427572474313092287</id><published>2009-01-18T00:15:00.009-03:00</published><updated>2009-01-18T12:48:40.218-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nesses próximos dias, devo postar um conto novo. De fato, estive relativamente distante da tal "blogosfera", ative-me mais a emails e recados ultimamente. Nem escrevia neste blog nem comentava nos blogs amigos, mas lia todos - sobretudo o Literatura Vil, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de qualquer coisa, lembro que meu maior fator de ausência se deu em virtude de eu estar em campanha à presidência do DCE do CEFET-RN (agora Instituto Federal de Tecnologia). Contudo, perdemos por algumas dezenas entre centenas de votos, mas enfim... tropeços iguais são vicissitudes comuns a todos. Mas que o resultado final foi lamentável... foi sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dina, do blog &lt;a href="http://acordapravidah.blogspot.com/"&gt;Acorda pra Vida&lt;/a&gt;, ofereceu gentilmente um selo para este blog, cuja menção está colocada no link de selos, do menu lateral... infelizmente, eu a imagem do selo não apareceu lá, não sei porque, acho que desaprendi, sério mesmo... de qualquer maneira, ajeitarei depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como disse, em alguns dias postarei um conto novo... Por ora, deixo um poema, pedindo desde já desculpas, afinal nunca tive lá muito jeito com versos, e confesso que nem gosto muito deles. Mas como experimentalismo nunca é mau, segue...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;O Emoldurador&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;&lt;br /&gt;Para Cinthia, com amor&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto estávamos sempre assim, sem que ninguém soubesse&lt;br /&gt;Sob a aura colorida de uma luz que te obedece&lt;br /&gt;Eu era tão fogo ao te ver, mesmo que pouco tempo tivesse&lt;br /&gt;E agora já é tudo passado, mas a lembrança ainda floresce&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... como num campo tão cultivado, num conto bem escrito&lt;br /&gt;Num rio muito mergulhado e vivo&lt;br /&gt;Num ambiente tão vivido, pelo mundo em que habito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tudo tão bonito mas agora é tão duro, mesmo quando posso te ver&lt;br /&gt;Pois pelos teus olhos escuros, hoje é como se visse um muro&lt;br /&gt;Não deixar os pés distantes do chão já é um dever&lt;br /&gt;Mas, tão vago e violável, desobedeço-o&lt;br /&gt;e, no ponto mais alto,&lt;br /&gt;te emolduro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim eternizo teu brilho, tua cor, teus traços, teu valor&lt;br /&gt;E finalizo meus anseios, pois de mais que isso não sou merecedor.&lt;br /&gt;Fico somente a admirar-te, como diante de um altar suntuoso&lt;br /&gt;E agora este meu coração conflituoso&lt;br /&gt;para sempre abrigará uma dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-5427572474313092287?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/5427572474313092287/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=5427572474313092287&amp;isPopup=true' title='21 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5427572474313092287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/5427572474313092287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/01/nesses-prximos-dias-devo-postar-um.html' title=''/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>21</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-3664926151153859812</id><published>2009-01-08T16:48:00.010-03:00</published><updated>2009-01-13T00:26:16.818-03:00</updated><title type='text'>Acompanhados e sozinhos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ofereci mais de mil vezes o meu sorriso, notadamente cada vez que era questionado sobre como estava meu humor naquela roda de conversa. À mesa frívola de uma praça de alimentação, meia dúzia de amigos, todos bastante risonhos e afáveis, acompanhando-me numa embriaguez pequeno-burguesa de pizza e refrigerante. Em geral, todos conhecidos meus há pelo menos um lustro. Três casais. Falávamos alto, como todo mundo por ali. Eu ficava, entre uma alocução e outra, olhando para o céu, observando a boca da noite a eliminar um a um os elementos do dia corrido, já sentindo um pouco o cansaço de estar ali e sendo comiserativo comigo mesmo, pois parece que não é fácil se manter sozinho depois que se passa dos vinte e poucos anos. Um dueto entre os que compõem a mesa, afinal, já é casado; outro já se namora há anos e o terceiro tem uma relação menos estável que os restantes, ainda que haja uma insistente paciência entre ele e ela, de modo que os dois se mantêm juntos assim e assim parece que irão permanecer por algum tempo. De minha parte, apenas imagino como deve ser penosa e confusa a vida a dois, compartilhando cada momento. No meu caso, sujeito de amores impetuosos e faltos, nunca compartilhei nada com ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos últimos momentos de intimidade que tive com uma garota se esmiuçou por completo quando ela acordou e percebeu pasmada que estava nua e seu banheiro todo vomitado - vômito dela, naturalmente. Havíamos bebido um pouco, mas isso lhe fizera mal. Eu lembro que permaneci desperto durante toda a madrugada, quase sem mexer um milímetro do meu corpo, e a observei pegando no sono, como também a notei acordando algum tempo depois, após um intervalo de três ou quatro horas. Era como se uma pessoa adormecesse a meu lado e outra pessoa acordasse. Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que tivemos e solicitava que eu fizesse o mesmo. Eu sou homem, e nunca afirmarei para uma garota que tentarei esquecê-la - contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram memórias tumultuadas como essa que me vinham à mente quando eu fitava meus amigos e suas fiéis companheiras a se beijarem romanticamente a cada espaço vazio no colóquio; espaços parcos, aliás, pois na pauta estão acaloradas e orgulhosas discussões, com histórias heróicas de conquistas pessoais, análises políticas, bisbilhotices, dinheiro. Por essência, assuntos igualmente discutidos em ambientes quaisquer, seja naquele em que nos situávamos, seja numa mesa de boteco de alguma megalópole ou até mesmo numa sala de bate-papo na internet. Delongas que não levariam a lugar algum, portanto. Todavia, nós, justificando nossa postura salvadora e presunçosa, demarcávamos nosso espaço. E eu não ficava para trás, embora, ao contrário de meus camaradas, eu não tivesse uma pequena para aplaudir meu discurso na confraria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando é chegada a hora de partir, todos optam por ir à casa de um deles, para prolongar a noite e a madrugada num passatempo qualquer. Por mais que eu expressasse desinteresse, a minha presença pelo restante da noite, claro, foi requisitada, com muita piedade e compaixão. Sendo o primo pobre do grupo, sou permanentemente acolhido pelos bons samaritanos, sempre dispostos a oferecer dinheiro e abrigo nas horas complicadas, além de serem, cada qual na sua individualidade, agradáveis companhias. Como não tenho nada para lhes retribuir, não faria, logo, mais essa desfeita, e aceito acompanhá-los. Entretanto, a essa altura o convite já não se sustentava mais - alguém lembrara que estaria ocupado no dia seguinte. "Preciso resolver aquela bronca, senão blá-blá-blá". Repentinamente, parece que surge do nada uma competição para ver quem está mais atarefado: "é mesmo, também preciso fazer aquele blá-blá-blá", diz mais um. "E eu preciso fazer aquilo", diz uma terceira voz. Nem adiantou que um entre nós lembrasse que o dia seguinte seria sábado. Todos já haviam se convencidos de que deveriam estar ocupados no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, feita a despedida, voltei para casa sozinho, quieto e pouco pensativo. Todos eles também se foram, preocupados e confusos em suas vidas de gente grande, cheias de preocupações conjugais, profissionais, universitárias e monetárias. Meros subterfúgios para a fadiga existencial que se acomete sobre nós, enquanto tentamos fingir que não sofremos disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right; font-style: italic;"&gt;Conto originalmente publicado na segunda&lt;br /&gt;edição da revista Tá na Cara!, lançada em novembro,&lt;br /&gt;e que permanecia inédito no blog.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-3664926151153859812?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/3664926151153859812/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=3664926151153859812&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3664926151153859812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3664926151153859812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/01/ofereci-mais-de-mil-vezes-o-meu-sorriso.html' title='Acompanhados e sozinhos'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-7840669495620324821</id><published>2009-01-03T11:38:00.011-03:00</published><updated>2009-01-03T13:20:21.935-03:00</updated><title type='text'>Quando até os iogurtes fazem falta</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pegue um lápis e marque um ponto&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;no centro de uma folha&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;a solidão é tudo o que está em volta&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Alice Sant'Anna&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitada ao meu lado, ela ainda insistia em conversar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você parece até que não gostou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei uma risadinha e não respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Li uma vez - prosseguiu - um texto seu em que você dizia que gostava de mulheres que transavam bem e que tinham um bom papo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei pra ela e a corrigi: - não, eu dizia que gostava de mulheres que tinham apenas um bom papo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E saber transar bem não é importante pra você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque também não transo bem e nem gosto disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por quê? Você é fresco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorei o comentário e percebi que o melhor que eu fazia era cair no sono Virei para o outro lado e fechei os olhos enquanto ela foi tomar banho, no entanto ela logo voltaria  sem que eu conseguisse adormecer, e como ela bebesse ainda bastantes tragos de vinho - bebia sozinha, pois eu detesto vinho -, suas delongas não pararam. Eu preferi beber um iogurte pra ver se me distraía... sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho um bom papo - insistiu -, por que não conversa comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não tem um bom papo, você apenas transa bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas você disse que mulher que transa bem não faz o seu tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E não faz mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ha!Ha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu, ainda que tenha detestado o comentário. Sentou na cama, entoando uma enrolação atrás da outra. Eu demorei mas enfim percebi que fora um erro ir pra casa dela, que fora um erro ter pego aquele ônibus no qual a reencontrei; que fora um erro ter bebido conhaque depois do expediente com um amigo, o que me levou a pegar aquele ônibus; que fora um erro ir trabalhar naquele dia, o que me levou a encontrar esse amigo; que fora um erro acordar, o que me levou a ir trabalhar. Tudo no dia foi um erro, notei que me sentia muito melhor horas antes, mesmo estando há oito meses sem deitar com uma garota, do que nesse momento pós-êxtase, sendo obrigado a ouvir tamanhas tagarelices sem possibilidade de pagar a conta e ir embora. Eu pus as duas mãos na cabeça, esperando um apagar repentino que não vinha, enquanto ainda ouvia sua voz rinitente a me roubar a paz e a serenidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você deve ter um amor recalcado por mim, só pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não... - disse-lhe - O meu amor recalcado passou hoje no vestibular da Universidade Federal, e nunca mais a verei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque ela vai se enfurnar naquela universidade, e eu tenho asco daquele lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estava, uma hora e meia depois, pegando outro ônibus, um corujão, à madrugada, voltando à minha rota normal, indo para casa, ainda pensava nos erros. No erro de ter vendido a moto, o que me faz andar de ônibus. No erro de ter amores recalcados, o que me faz suscetível a boas ofertas como a dessa ex-vizinha que encontrei na condução e me ofereceu uma noite de prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando em recalques, então, terminei por ficar travado por vários dias depois desse sem conseguir escrever - lamentavelmente. Meu editor aguardava os meus textos, meu blog aguardava outros textos, meu espírito também os aguardava, tudo ansiava por novas manifestações que não vinham, e até o iogurte agora me fazia falta. Estava tudo ao meu redor tão abafado, eu tentava de todas as formas me estimular, convencia-me de que Hemingway, Bukowski e Dostoievski também deviam se sentir igualmente abafados em seus quartos sem mulheres, comida ou esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhava para as flores de plástico penduradas na janela, que minha irmã deixou quando veio aqui há três semanas, e as tirei, porque imaginei que elas é quem me estavam sufocando, de alguma maneira. De fato, tirá-las de lá me fez melhor, percebi que o ar voltou a fluir, que voltei a escrever, escrever bem. Quanto às flores, deixei-as no chão, num canto do quarto, bastante visível para mim quando estou escrevendo no computador, e cada vez que as vejo sinto um respingo de expectativa, por um email, uma carta, ou qualquer coisa que diga "estou aqui, gosto de você", porque às vezes parece que a necessidade disso é tamanha, e as conseqüências tão úmidas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi devolver as flores para minha irmã, porque ninguém quer ser julgado pelo que guarda no peito, e eu também fujo disso. Sem querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-7840669495620324821?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/7840669495620324821/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=7840669495620324821&amp;isPopup=true' title='30 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7840669495620324821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/7840669495620324821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2009/01/quando-at-os-iogurtes-fazem-falta.html' title='Quando até os iogurtes fazem falta'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-6729484840449988355</id><published>2008-12-24T23:09:00.006-03:00</published><updated>2009-01-09T07:33:13.242-03:00</updated><title type='text'>Nem todas as luzes brilham na noite de Natal</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O clima do Natal é melancólico, dizem alguns. É inspirador, dizem outros poucos. Eu, em tese, estou no primeiro grupo, à medida que poderia estar em um terceiro. Todo clima pra mim é melancólico. Futebol pra mim é melancólico. Estudar, então, nem se fala. Abandonei dois ou três cursos por puro cansaço de não fazer nada. Dar aulas também é, mas parece divertido, é um trabalho que gosto mais de fazer do que todos os outros, porque faz parecer que há quem me escute. Freqüentemente me perguntam como é ser professor e, dependendo do caso, posso dar respostas positivas ou negativas. Os professores mais antigos dão somente respostas negativas, por motivos óbvios. Eu sou jovem, metido a aventureiro, carrego, dizem eles, as ilusões de um ensino transformador. Mas isso não é verdade. Sei que não mudarei nada dando aulas. Se comemoro quando um aluno se sobressai numa aula, na aula seguinte me decepciono porque esse mesmo aluno não resiste às bobagens que as demais tribos oferecem. Podia contar pelo menos uns cinqüenta dos 500 alunos que tive este ano que sabiam muito mais do que eu sabia na idade deles, e que sequer passaram de série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles me lembram eu mesmo. Percebo, então, que o ensino médio não forma a pessoa - ele apenas revela a pessoa já formada. Dou aula em turmas do 1° ano. E foi no mesmo 1° ano que eu mesmo desandei, que eu me converti niilista, que meus últimos sonhos adolescentes se despedaçaram. Agora já não carrego nenhum deles. Certa vez, disse para uma garota, quando fazia o ensino médio, que "professor de Geografia é o último estágio da pessoa civilizada, a partir da qual só restaria mesmo o caminho do crime, da contravenção, das negligências... é o caminho de ladrões de bicicleta, estupradores de crianças e mendigos profissionais". E agora estou aqui, dando aulas de Geografia... é engraçado. Mas na prática, não mudou. Eu percebo que, sendo professor dessa disciplina, não sou levado a sério senão por poucos. Os caras acham-me um completo &lt;i&gt;loser.&lt;/i&gt; As garotas acham retardado, mesmo. No mínimo, termino sendo lá meio folclórico, não só onde dou aula, mas em qualquer lugar de algum convívio social. Na faculdade, sou muito sério, mas há outras coisas que amenizam a minha imagem ríspida. Sou um tagarela, um ranzinza, para cada letra A que o professor fala, eu intervenho com uma letra B, sou impertinente, um completo pé no saco. Mas toda sala tem seu chato, e eu sou o chato da sala, ninguém me leva a sério por isso, ninguém ouve o que falo quando levanto o braço para intervir no que o professor diz. Sou baixinho, escondido lá no canto... não faço trabalhos com mais do que três almas pacientes, uma das quais está indo embora, vai desistir do curso porque não a apetece... e eu ficarei sem minha parceira. Acho que parceria é um negócio interessante e avançado. Parceria nem sempre chega a ser amizade ou algo assim, mas mesmo assim é algo do que precisamos. Eu não vou me vitimizar dizendo que não tenho amigos. Mas parceiro, de fato, não tive nos últimos tempos. Somente tive depois que entrei nesse curso e conheci essa garota, com quem discutia e batia boca, de quem discordava aqui e ali e a relação continuava muito boa. Uma pessoa que não tinha medo da sinceridade, não tinha medo de me criticar. Com ela, dava gosto discutir os trabalhos, os assuntos estudados e conversar na hora do intervalo e no fim da aula - embora ela talvez não sentisse o mesmo. De qualquer maneira, ela se vai e embora façamos alguns votos de que nos encontraremos no futuro, sei que nunca mais a verei, como daqui a cinco anos não verei mais ninguém que faça parte de meu círculo atual. E lamento porque, com isso, a disciplina que criei para tocar esse meu curso será  agora deliberadamente reduzida, mas insuficiente, pelo menos, para me fazer desistir. Então levarei até o fim, é o que resta, mesmo sendo um curso de merda de Licenciatura em Geografia, que nunca me ensinou nada, onde os pedagogos tentam inculcar os pensamentos megalômanos de mudança por meio da Educação e onde os geógrafos se derramam em viagens teóricas mas se recusam a dizer em quem votam na eleição municipal, ou qual sua posição política a respeito de Hugo Chávez, Obama, a transposição do Rio São Francisco. Cansei de tanta gente medrosa junto. Mas é o que se colhe quando se faz Geografia; aliás, é o que se colhe quando faz qualquer coisa, sobretudo um curso superior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já teria abandonado o curso se fosse levar em conta o quanto sou ignorado na sala; ser ignorado, contudo, já é algo com que estou acostumado. Desde o ensino médio eu já era o "sério" (termo que usavam quando queriam ser simpáticos). Depois do ensino médio não conheci mais uma pessoa sequer com quem cultivasse algo que se assemelhasse a uma amizade. Todos aqueles que compartilharam coisas comigo depois dessa época não o fizeram de graça. Nem amigos, nem garotas, nem ninguém. O que não me torna um completo sociopata é o fato de eu ser da geração abençoada pela Internet, então virei um assíduo freqüentador de batepapos e quetais, lugares, para mim, relativamente mais apropriados para conhecer pessoas, um lugar no qual os preconceitos físicos são mais dissimulados, o que é perfeito. Eu nunca precisava dizer que era musculoso, alto e loiro, apesar disso. Apenas conversava, e desconstruía qualquer má imagem que fosse feita de mim sem precisar mentir. Conheci tanta gente na Internet, mas tanta gente, e perdi contato com quase todos. Mas nunca foi um intento meu fazer amizades ou conquistar namoradas. Eu sempre soube que a net é um espaço bastante paliativo e breve. Eu gostava da sensação de ter um amigo &lt;i&gt;agora&lt;/i&gt; ou uma garota que dizia estar louca para me conhecer &lt;i&gt;agora&lt;/i&gt;. Eu sabia que quando nos conhecêssemos, os amigos já não teriam mais tanto tempo para uma prosa e as garotas já não estariam mais tão oferecidas, senão no primeiro encontro, para os dois casos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso ainda persiste um pouco até hoje, embora já não como antes. Os batepapos ruíram, hoje não existem mais bons &lt;i&gt;chats&lt;/i&gt; virtuais. Só se usa o msn, e o msn não tem a menor graça porque batemos sempre com os conhecidos, batemos sempre com pessoas medrosas, pessoas para quem se discordamos de algo, a resposta adequada é um "cada um com sua opinião", pessoas que evitam uma discussão, mesmo aquelas mais bobas, como o diabo evita a cruz, se escondem em termos vazios como "ok" e "ah tá"... que horror! Que fracasso! Fico catando comunidades no orkut onde se fale sério, onde se discuta sério e onde se xingue sério, mas isso não existe. Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda, mas que até tem dado certo, talvez porque muita gente não saiba o que significa &lt;span style="font-style: italic;"&gt;vil&lt;/span&gt; ou não acredite que aqui tenha, de fato, uma &lt;span style="font-style: italic;"&gt;literatura vil&lt;/span&gt;. No final das contas, essa auto-ironia termina sendo a maior  constante deste blog e da minha vida, porque a auto-ironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-6729484840449988355?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/6729484840449988355/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=6729484840449988355&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6729484840449988355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/6729484840449988355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2008/12/nem-todas-as-luzes-brilham-na-noite-de.html' title='Nem todas as luzes brilham na noite de Natal'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-1092554518668027924</id><published>2008-12-15T11:08:00.012-03:00</published><updated>2008-12-16T08:07:42.038-03:00</updated><title type='text'>Tão fugaz</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu acordei na madrugada com os olhos ardentes, sentado diante do computador... estava escrevendo algo novo, trabalhando um conto, mas fui além dos limites esperados, o texto estava muito extenso, e é sempre assim quando eu escrevo depois de beber em excesso... eu estava com bastantes doses de aguardente no sangue, voltei para essa bebida porque é a mais barata, porém ela tem me deixado com uma dor-de-cabeça enorme logo depois, e foi com essa dor latejante que acordei e notei que sequer havia terminado o conto... não gosto de produzir nada bêbado, não gosto de escrever no piloto automático, então selecionei todo o texto e em um clique deletei tudo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei meio tonto, acendi as luzes e olhei para a hora... eram 4 da manhã. E o dia era o meu aniversário, um sábado. Eu havia preparado um bolo de ovos na noite anterior para comer quando o sol raiasse, comemorar no café-da-manhã para dormir o resto do dia. Entretanto, preferi não esperar o sol e fui catar uns pedaços. Ainda estava muito tonto e não conseguia partí-lo de forma coesa, ficando muitos farelos jogados pela mesa e pelo chão. Comi um pequeno pedaço e fiz uma careta, porque o bolo estava ruim, as bordas estavam queimadas. Tudo bem, amanhã peço à minha mãe para me trazer, quem sabe, um bolo de verdade, eu pensei. Na geladeira só tinha água e outras amenidades, como vinagre, tomates, presuntos e margarinas, coisas que não uso muito e só compro quando penso em trazer alguma garota pra casa. Como fazia tempo que isso não acontecia, então os produtos ali já não deviam mais estar dentro de seu prazo, e o mal cheiro começava a se apoderar da cozinha. Eu ia juntar tudo e pôr numa sacola e na lixeira, mas retardei o processo para a manhã seguinte. O cacho de bananas preso na parede também já estava apodrecido, chegando até a pingar no chão, como se os fungos nascentes das bananas começassem a pesar, sendo, assim, expelidos, tudo sob a forma de um líquido meio mucoso, que grudava no chão, e eu percebi que parecia um muco quando passei o dedão em cima para dispersar o líquido e tentar diluir um pouco o fedor - sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me à janela até o dia amanhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já eram umas 8 horas, o sol forte me batendo na cara, e eu ainda impassível olhando pela janela a rua vazia, ouvi o telefone tocar. Era Mariana, uma amiga doutros tempos querendo saber se eu organizaria algo, se cantaria parabéns. - Não, não vai ter nada disso  - eu lhe falei. Como ela quisesse sair, e se importava mais comigo hoje do que se importara nos anos anteriores em que nos conhecíamos, eu topei. Mas o programa terá que acabar cedo, porque eu já havia combinado outro, com outra garota, para mais tarde. Ela aceitou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos ver uma peça de teatro dos meus alunos, que estavam em temporada, se apresentando toda semana numa casa de cultura da Ribeira. Eu já havia assistido na noite de estréia, e havia achado muito bom. Porém, assistir pela segunda vez não foi tão bom assim. Vários erros, cortes de luzes, falta de sincronia na cenografia, o espetáculo foi um fracasso tão grande que achei que a razão era o fato de ser meu aniversário, eu, um pé-frio dos piores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comentei a peça depois com a minha amiga, ela disse que não havia notado nada disso. Fiquei pensando se esses erros não foram frutos da minha imaginação. Embora ela discordasse, eu insistia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois eu vi muitos erros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É que sua chatice é potencializada no seu aniversário, seu bobo - disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez tivesse razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou brincando, viu - disse-me rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que ela não estava brincando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do meu ar abusado, ainda conversamos algum tempo. Fomos comer uns sanduíches em alguma lanchonete. Ela me contou que dali estava pensando em visitar o namorado e me perguntou o melhor caminho para ir à casa dele. Eu não disse. Proseamos bastante até que chegasse sua hora, e eu agradeci pela companhia. Antes de sair, ressaltoub que ninguém mais aceitaria um convite meu para sair no dia do aniversário, e eu concordei, porque ela dizia mesmo a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que ela foi embora, fui para um barzinho no meu bairro ver se encontrava lá uma outra garota, essa um pouco mais velha que a Mariana, inclusive mais velha também do que eu. Ela dançava no boteco e eu, cliente velho, talvez ganhasse umas carícias a mais sem precisar pagar, por ser aniversariante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ela não apareceu e um trio de alcóolatras me viu ali sozinho, fui convidado a me sentar com eles. Eu preferia ficar na minha, contudo tanto insistiram que fui lá e troquei uma conversa rápida com o grupo. Eles já sabiam que eu esperava a rapariga do bar. Estava mesmo na cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois é garoto, deu azar hoje! - Disse, gritando, o mais velho deles, o que tinha mais mal-hálito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dizem que ela é uma grande chupadora, é verdade?, perguntou-me um outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela é uma tagarela, eu falei. Isso faz com que pratique mais a língua que a maioria das mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de umas risadas, um dos três velhos ainda sentenciou: - é, só que as mulheres que falam muito geralmente pensam pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso também vale para os homens, respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fiquei muito tempo no bar. Tomei apenas umas pequenas doses de cachaça e fui embora, comprei uma pequena garrafa da mesma cachaça para continuar a beber sozinho em casa. Quando estava me acomodando, percebi, na cozinha, que haviam duas pizzas lá, e um bilhete. A minha mãe havia passado enquanto eu estava ausente, e como ela tem a chave - não sei como, eu nunca dei -, deixara essa pequena surpresa. Deixei para comer no dia seguinte, peguei um copo e me sentei à mesa, com os dois braços sobre ela, à luz baixa do abajur. Sorvia o álcool em doses homeopáticas e silenciosas. Lamentava cada gota que tragava, ao ver a bebida sumindo e sumindo e sumindo. Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive. Depois de um momento impassível, passei a beber num ritmo cavalar, desfocando minha atenção de todas as outras coisas do mundo, ignorando meus sentidos que começavam a perder forças, mas sentindo um prazer inebriante e incomparável. Até que só me restassem, no fim, o copo vazio e a solidão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-1092554518668027924?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/1092554518668027924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=1092554518668027924&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1092554518668027924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/1092554518668027924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2008/12/to-fugaz.html' title='Tão fugaz'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-3256926875860257106</id><published>2008-12-14T23:48:00.004-03:00</published><updated>2008-12-15T18:59:20.603-03:00</updated><title type='text'>Outsider post</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bem, enquanto não vem um novo conto no Literatura Vil (estou trabalhando nos textos inéditos para a revista que produzo, fase em que fico mais negligente no blog), postarei uma brincadeira que me foi enviada pela Ingrid Caroline, uma doce companhia virtual, além de dona do blog Enjoy of Silence (aprecie o silêncio), apontado logo ali no menu lateral.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;A brincadeira consiste em responder um pequeno questionário... friso que, como não costumo distribuir selos, desafios ou afins aqui no blog, darei fim a esta corrente, ignorando a última regra, que pedia para distribuir para outros dois blogueiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ademais, eis os temas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-style: italic;"&gt;&lt;strong&gt;I. colocar uma foto individual nossa;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-style: italic;"&gt;&lt;strong&gt;II. escolher uma banda/artista;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-style: italic;"&gt;&lt;strong&gt;III. responder às questões somente com títulos de canções da banda/artista escolhido;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I - A foto&lt;br /&gt;É verdade que nunca postei uma foto minha aqui, à exceção daquela que fica exposta no perfil... contudo, não tenho mesmo muitas fotos... mas já que a idéia é fazer um momento de descontração e quebrar o clima rabugento do blog, vai uma foto fofa e sorridente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUXInk_UqrI/AAAAAAAAAHk/neehu5hSEHA/s1600-h/Le%C3%A3o.jpeg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 187px; height: 141px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUXInk_UqrI/AAAAAAAAAHk/neehu5hSEHA/s320/Le%C3%A3o.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5279846720431499954" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;II - escolher uma banda/artista&lt;br /&gt;Não tem segredo... a minha banda favorita são os Engenheiros do Hawaii (ênfase para a formação clássica, 1987-94)...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III - as respostas (com nomes de músicas, lembrando)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.1- Es Homem ou Mulher? &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Humano Demais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;3.2- Se Descreva: &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Nau à Deriva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;3.3- O que as pessoas acham de vc? &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Nuvem Passageira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;3.4- Onde queria estar agora? &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Longe Demais das Capitais&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.5- Uma frase: &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Somos quem Podemos Ser&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.6- Como é a sua vida? &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Cinza&lt;/span&gt; &lt;p&gt;3.7- Namorando, Casado ou Solteiro? &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Ando só&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;3.8- O que pedirias se tivesse só um desejo? &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;Luz.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4628292983712340579-3256926875860257106?l=literaturavil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturavil.blogspot.com/feeds/3256926875860257106/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4628292983712340579&amp;postID=3256926875860257106&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3256926875860257106'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4628292983712340579/posts/default/3256926875860257106'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturavil.blogspot.com/2008/12/outsider-post.html' title='Outsider post'/><author><name>Leon K. Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00069978444986279312</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUbu9hJcXXI/AAAAAAAAAH0/Ls599ln-8XU/S220/leao.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_y98gtgz4yyI/SUXInk_UqrI/AAAAAAAAAHk/neehu5hSEHA/s72-c/Le%C3%A3o.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4628292983712340579.post-2304837128437192450</id><published>2008-11-25T10:42:00.003-03:00</published><updated>2008-11-25T13:30:08.448-03:00</updated><title type='text'>Fim do expediente</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje eu vi um velho feio, cabeludo e desdentado, e me lembrei de um outro velho, igualmente cabeludo e desdentado, mas bastante mais feio, o Seu Dinei, um funcionário público aposentado que conheci há uns anos. Eu trabalhava, na ocasião, em um balcão de empréstimo pessoal.  Na verdade, isso foi no meu primeiro dia de trabalho. Durante algum tempo, meu lugar era na rua, distribuindo panfletos de uma firma que trabalhava nesse esquema, até ganhar a oportunidade de trabalhar lá dentro, fazendo os negócios, um relativo avanço, trabalharia sentado, no ar condicionado. O Seu Dinei, o meu primeiro cliente, por assim dizer, estava perdido na vida, atolado de dívidas e pensões. Até que ele entrou no salão onde eu trabalhava e se dirigiu à minha pequena cabina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro de quando cheguei no primeiro dia e sentei na cadeira que seria minha a partir dali, no computador que seria meu, no balcão onde eu passaria a maior parte das horas do meu dia. Umas sete, oito, nove, ou mais, dependendo das horas extras. Ainda estava em fase de testes. Passaria umas duas semanas nessa. Poderiam me tirar a qualquer momento se lhes desagradasse. Mas, estava decidido a tentar. Enquanto não começava o serviço, ficava na internet, onde o histórico das navegações e as pastas salvas ainda denunciava parte da personalidade da garota que ocupava o lugar até o dia anterior, a Fabiana. Sites de perfumes, loções e fofocas, episódios de novelas gravados, música de araque. Até o banco ainda me parecia quente. Não pensei mais nela depois disso. A dita cuja havia sido demitida acusando o patrão - um galante de 1,90m chamado Vasconcelos, um nome de velho, mas ele era bem jovem, devia ter menos de trinta, talvez uns três anos a mais que eu - de assédio sexual e sendo ridicularizada pelas que outrora se auto-afirmavam as melhores amigas da "Bibi".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveitei e dei uma personalizada na mesa, tinha um porta-retrato vazio e eu coloquei nele uma foto, uma 3x4, era a única que tinha... e fiquei lá navegando por sites de literatura e notícias. Ainda não estava acostumado à idéia de trabalhar com essas negociações, mas era uma oportunidade qualquer e eu tava lá tentando tascá-la. Enquan
