Como eu poderia te pagar?
Me vê o relógio, os óculos escuros e as botas, ele ordenou, já apontando.
Eu conhecia o Salustino só do botequim, mas já sabia de variadas histórias sobre sua figura, o suficiente para saber que tais ordens bem poderiam ser brincadeiras, bem poderiam ter sido ditas com a mais eminente seriedade. Mesmo assim tive coragem pra questionar.
Sem essa, não darei tudo isso por uma merda de conhaque. Nem consumindo todo o o bar inteiro eu pagaria com todas essas coisas.
Esse é o seu conhaque favorito, patife.
Deixo só o relógio, mas como garantia de que volto amanhã pra pagar e você me devolve.
Assim seja.
Passei meu relógio pro canalha.
Parece feminino, ele falou. E resmungou baixinho, talvez ironizando: Technos...
Osborne, disse eu, também baixinho...
Cadê seu relógio?, perguntou-me Cibele, uma garota com quem eu estava comendo um bauru no trailler de seu irmão - assim não precisaríamos pagar a conta - situado em algum lugar da Bernardo Vieira, horas depois do episódio no bar.
Lá se foi o disco voador, brinquei.
Não entendi, ela disse.
Bom, perdi.
Como se perde um relógio?
Apostei.
E você agora é apostador? Não tinha nada mais deprimente pra ser na vida?
Pra ser sincero, acho que não.
É a pessoa mais decadente que já conheci, ela disse, enquanto uma gota de maionese enfeitava a ponta direita da sua boca, balançando aos movimentos de sua face.
Claro. Mas é comigo que você está, comendo sanduíche no meio da rua, às onze da noite.
E o que que tem?, perguntou.
Nada.
Você é tão deprimente – ela continuou – que tava no cinema sozinho hoje.
Não somente hoje, eu falei.
E ainda admite, ela disse.
Estou aproveitando minhas férias. Hoje é o primeiro dia.
Grandes férias, ela ironizou.
Limpe esse troço na sua bochecha.
Ela de repente se calou e pegou um espelhinho, tirando com o dedo mínimo a gotícula de maionese no rosto. Depois, colocou tudo na bolsa e como se eu a tivesse xingado, disse:
Quer saber? Vou embora.
Fique aí, eu a deixo em casa.
Não, vou embora, tchau, e se levantou.
Como vai pra casa?
Ela não respondeu e se foi.
Não comi o bauru inteiro. A visão da maionese suspensa na bochecha dela foi me tirando o apetite, mas enquanto conversávamos eu me distraía e continuava comendo.
Depois desse dia, levei muito tempo até voltar a comer sanduíches. Fui pra casa dormir, e tanto dormi que não lembrei mais de voltar no bar para pagar a conta e recuperar o relógio.