quinta-feira, 7 de julho de 2011

Salustino e depois Cibele

Como eu poderia te pagar?

Me vê o relógio, os óculos escuros e as botas, ele ordenou, já apontando.

Eu conhecia o Salustino só do botequim, mas já sabia de variadas histórias sobre sua figura, o suficiente para saber que tais ordens bem poderiam ser brincadeiras, bem poderiam ter sido ditas com a mais eminente seriedade. Mesmo assim tive coragem pra questionar.

Sem essa, não darei tudo isso por uma merda de conhaque. Nem consumindo todo o o bar inteiro eu pagaria com todas essas coisas.

Esse é o seu conhaque favorito, patife.

Deixo só o relógio, mas como garantia de que volto amanhã pra pagar e você me devolve.

Assim seja.

Passei meu relógio pro canalha.

Parece feminino, ele falou. E resmungou baixinho, talvez ironizando: Technos...

Osborne, disse eu, também baixinho...




Cadê seu relógio?, perguntou-me Cibele, uma garota com quem eu estava comendo um bauru no trailler de seu irmão - assim não precisaríamos pagar a conta - situado em algum lugar da Bernardo Vieira, horas depois do episódio no bar.

Lá se foi o disco voador, brinquei.

Não entendi, ela disse.

Bom, perdi.

Como se perde um relógio?

Apostei.

E você agora é apostador? Não tinha nada mais deprimente pra ser na vida?

Pra ser sincero, acho que não.

É a pessoa mais decadente que já conheci, ela disse, enquanto uma gota de maionese enfeitava a ponta direita da sua boca, balançando aos movimentos de sua face.

Claro. Mas é comigo que você está, comendo sanduíche no meio da rua, às onze da noite.

E o que que tem?, perguntou.

Nada.

Você é tão deprimente – ela continuou – que tava no cinema sozinho hoje.

Não somente hoje, eu falei.

E ainda admite, ela disse.

Estou aproveitando minhas férias. Hoje é o primeiro dia.

Grandes férias, ela ironizou.

Limpe esse troço na sua bochecha.

Ela de repente se calou e pegou um espelhinho, tirando com o dedo mínimo a gotícula de maionese no rosto. Depois, colocou tudo na bolsa e como se eu a tivesse xingado, disse:

Quer saber? Vou embora.

Fique aí, eu a deixo em casa.

Não, vou embora, tchau, e se levantou.

Como vai pra casa?

Ela não respondeu e se foi.

Não comi o bauru inteiro. A visão da maionese suspensa na bochecha dela foi me tirando o apetite, mas enquanto conversávamos eu me distraía e continuava comendo.

Depois desse dia, levei muito tempo até voltar a comer sanduíches. Fui pra casa dormir, e tanto dormi que não lembrei mais de voltar no bar para pagar a conta e recuperar o relógio.