Eu gosto das pessoas. Gosto de observá-las. Só não sei interagir, e também não gosto. Em geral, as formas de interação são tão pueris que nossa melhor companhia de repente pode perder toda a graça. Mas é por gostar apenas da companhia das pessoas e não da interação que me dou bem em lugares como estádio de futebol, fila de banco, ônibus, trem. Imagino-me pegando um trem lotado - há tempos não faço isso -, e dando de frente com todo aquele povo estranho. Cada um no seu lugar, uns sentados, muitos de pé, crianças chorando, mulheres com saco de compra, homens oferecendo lugares a idosos e grávidas e eu lá, no meu silêncio, observando tudo, sem que ninguém precise me falar - e esperar que eu fale de volta - nada.
É por isso que o lugar que mais gosto é o último banco do ônibus. Quando me sento ali, tenho uma visão panorâmica de todo o interior da condução, posso observar a todos, ainda que com as limitações daquele ângulo de vista, e sou também observado por aqueles que vão descer, mesmo que por lapsos de menos de um segundo. Todas as vezes que preciso me recolher em um lugar, o lugar que escolho é sempre nesse último banco.
Quando vou para algum jogo de futebol acompanhar o meu time, o ABC, não é diferente: gosto de ir de ônibus. Gosto da expectativa da vitória dentro de campo aliado ao prazer de ir observando as outras pessoas que estão no ônibus. Gosto de curtir o bom resultado ou amenizar a dor da derrota bisbilhotando os hábitos alheios, no retorno de casa.
Mas na semana passada, chovia muito e era noite; se eu quisesse ir para o amistoso internacional do ABC contra o River Plate, não poderia ser de ônibus, pois não tem mais ônibus depois das 23h00.
Saquei então a minha moto e me dirigi ao Frasqueirão. A chuva era intensa, muito mais do que eu esperava. Somente quando deixei a moto no estacionamento é que ela se elevou a tal ponto que eu mal conseguia me movimentar. Oh chuva para causar desgraças, será que não me permitirá nem chegar nas arquibancadas?!
Com muito esforço alcancei a arquibancada e lá assisti, mesmo debaixo da tempestade, uma partida meio sem graça. A chamada do evento engrandecia o que ele era de fato. Mas nunca se pode esperar um grande jogo da primeira partida do ano. O estádio parecia apenas metade cheio. As outras milhares de pessoas estavam se acotovelando debaixo das arquibancadas para se proteger da chuva. O primeiro tempo terminou sem gols. No segundo eu já estava trêmulo, apesar de a chuva ter diminuído. Mas quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o primeiro. Quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o segundo. Quando pensei, o River já estava marcando o terceiro.
Não gosto de ir embora antes do jogo acabar, mas essa soma de fatores foi determinante para me fazer tomar rápido o caminho de casa...
Só que no estacionamento a moto não queria pegar. Não adiantou eu tentar por dezenas de vezes. Não pegou. Saí empurrando, mesmo debaixo da chuva. Queria ver se fazia ela pegar no tranco, correndo. Só que ainda chovia, a pista estava cheia de água e havia muitos carros estacionados e outros saindo do local do jogo. não tinha condições de pegar no tranco. Pensei que podia ser a gasolina em falta. Levei no posto que fica em frente ao estádio e abasteci. Nada. Um amigo chegou e viu meu problema.
Será o cachimbo? Vela encharcada? Liga o afogador, de repente pegue, disse ele.
Fui tentando dando uma sacada em cada ítem, mas não resolvia. E não tinha mecânico para levar, sequer eu tinha como sair debaixo daquele pé d'água.
Nesse momento, ouvi uma gritaria da torcida no estádio. O ABC havia marcado o primeiro, eu sei. Mas nem comemorei. Apenas sentei e lá fiquei como se a solução dos problemas me fosse cair do céu.
Quando me dei conta, já havia bem menos gente pelas redondezas. O jogo já havia terminado há tempos. Deixei a moto ali mesmo, no posto, ciente de que no dia seguinte ligaria para o meu tio e lhe repassaria uns trocados com a mais límpida convicção de que ele iria fazê-la funcionar e descrever acertadamente o problema para que nunca mais venha a se repetir. Sendo assim, não havia mais nada a fazer. Iria caminhando para casa, até talvez aparecer um táxi. E apareceu.
Vai pra onde?, perguntou o taxista com o carro em lento movimento, seguindo minha caminhada.
Parque Industrial.
Onde fica?
Perto do aeroporto.
Tem quanto aí?
15, 20... sei lá.
Não tem mais?
Mais quanto?
Sei lá, bem mais. O aeroporto é longe.
Talvez.
Entra, se tiver mais.
Entrei.
Dentro do carro, pude ver o teor da chuva. Todo o trajeto usual que eu fazia estava completamente alagado, e a BR 101 havia simplesmente desmoronado por quase toda a via. Essas circunstâncias fizeram o taxista dar muitos arrodeios a mais para chegar ao meu destino. A conta deu exatos 53 reais. Eu não tinha tudo isso no bolso. Quando cheguei em casa, fui no quarto e catei umas últimas notas pra fechar a conta. Repassei a grana, ele sorriu e se foi.
Agora a chuva já era parca e rala, suficiente apenas para que se pudesse ouvi-la caindo sobre os telhados, a pavimentação e as poças. Estava escuro, e na rua somente os postes me faziam reverência em seu silêncio estático, luminoso, molhado demais. Eu fiquei ali parado até o táxi virar a esquina, e ainda continuei alguns segundos a mais, inerte, pensando nos impropérios daquele dia.
E dessa vez eu nem tive o último banco do ônibus para me recolher.
É por isso que o lugar que mais gosto é o último banco do ônibus. Quando me sento ali, tenho uma visão panorâmica de todo o interior da condução, posso observar a todos, ainda que com as limitações daquele ângulo de vista, e sou também observado por aqueles que vão descer, mesmo que por lapsos de menos de um segundo. Todas as vezes que preciso me recolher em um lugar, o lugar que escolho é sempre nesse último banco.
Quando vou para algum jogo de futebol acompanhar o meu time, o ABC, não é diferente: gosto de ir de ônibus. Gosto da expectativa da vitória dentro de campo aliado ao prazer de ir observando as outras pessoas que estão no ônibus. Gosto de curtir o bom resultado ou amenizar a dor da derrota bisbilhotando os hábitos alheios, no retorno de casa.
Mas na semana passada, chovia muito e era noite; se eu quisesse ir para o amistoso internacional do ABC contra o River Plate, não poderia ser de ônibus, pois não tem mais ônibus depois das 23h00.
Saquei então a minha moto e me dirigi ao Frasqueirão. A chuva era intensa, muito mais do que eu esperava. Somente quando deixei a moto no estacionamento é que ela se elevou a tal ponto que eu mal conseguia me movimentar. Oh chuva para causar desgraças, será que não me permitirá nem chegar nas arquibancadas?!
Com muito esforço alcancei a arquibancada e lá assisti, mesmo debaixo da tempestade, uma partida meio sem graça. A chamada do evento engrandecia o que ele era de fato. Mas nunca se pode esperar um grande jogo da primeira partida do ano. O estádio parecia apenas metade cheio. As outras milhares de pessoas estavam se acotovelando debaixo das arquibancadas para se proteger da chuva. O primeiro tempo terminou sem gols. No segundo eu já estava trêmulo, apesar de a chuva ter diminuído. Mas quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o primeiro. Quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o segundo. Quando pensei, o River já estava marcando o terceiro.
Não gosto de ir embora antes do jogo acabar, mas essa soma de fatores foi determinante para me fazer tomar rápido o caminho de casa...
Só que no estacionamento a moto não queria pegar. Não adiantou eu tentar por dezenas de vezes. Não pegou. Saí empurrando, mesmo debaixo da chuva. Queria ver se fazia ela pegar no tranco, correndo. Só que ainda chovia, a pista estava cheia de água e havia muitos carros estacionados e outros saindo do local do jogo. não tinha condições de pegar no tranco. Pensei que podia ser a gasolina em falta. Levei no posto que fica em frente ao estádio e abasteci. Nada. Um amigo chegou e viu meu problema.
Será o cachimbo? Vela encharcada? Liga o afogador, de repente pegue, disse ele.
Fui tentando dando uma sacada em cada ítem, mas não resolvia. E não tinha mecânico para levar, sequer eu tinha como sair debaixo daquele pé d'água.
Nesse momento, ouvi uma gritaria da torcida no estádio. O ABC havia marcado o primeiro, eu sei. Mas nem comemorei. Apenas sentei e lá fiquei como se a solução dos problemas me fosse cair do céu.
Quando me dei conta, já havia bem menos gente pelas redondezas. O jogo já havia terminado há tempos. Deixei a moto ali mesmo, no posto, ciente de que no dia seguinte ligaria para o meu tio e lhe repassaria uns trocados com a mais límpida convicção de que ele iria fazê-la funcionar e descrever acertadamente o problema para que nunca mais venha a se repetir. Sendo assim, não havia mais nada a fazer. Iria caminhando para casa, até talvez aparecer um táxi. E apareceu.
Vai pra onde?, perguntou o taxista com o carro em lento movimento, seguindo minha caminhada.
Parque Industrial.
Onde fica?
Perto do aeroporto.
Tem quanto aí?
15, 20... sei lá.
Não tem mais?
Mais quanto?
Sei lá, bem mais. O aeroporto é longe.
Talvez.
Entra, se tiver mais.
Entrei.
Dentro do carro, pude ver o teor da chuva. Todo o trajeto usual que eu fazia estava completamente alagado, e a BR 101 havia simplesmente desmoronado por quase toda a via. Essas circunstâncias fizeram o taxista dar muitos arrodeios a mais para chegar ao meu destino. A conta deu exatos 53 reais. Eu não tinha tudo isso no bolso. Quando cheguei em casa, fui no quarto e catei umas últimas notas pra fechar a conta. Repassei a grana, ele sorriu e se foi.
Agora a chuva já era parca e rala, suficiente apenas para que se pudesse ouvi-la caindo sobre os telhados, a pavimentação e as poças. Estava escuro, e na rua somente os postes me faziam reverência em seu silêncio estático, luminoso, molhado demais. Eu fiquei ali parado até o táxi virar a esquina, e ainda continuei alguns segundos a mais, inerte, pensando nos impropérios daquele dia.
E dessa vez eu nem tive o último banco do ônibus para me recolher.