quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Da estupidez

É sempre muito tarde quando eu percebo que me meto num programa-de-índio, é justamente esse maldito pensamento que me passa agora. A madrugada ainda está no seu início, acabo de me sentar numa parada de ônibus na Rodoviária Velha, muito bêbado e cansado. Isso tudo porque eu saí de casa horas atrás, ainda era dia, pra vir em um desses bares da Ribeira assistir a uma banda que tem um som meio setentista, meio rock progressivo, umas influências sinfônicas, enfim... Vi o anúncio no jornal, achei bacana, e vim ver, na maior boa vontade. A banda de fato era até legal, entretanto nem teve muito tempo, teve coisa de trinta minutos. No final das contas, o que rolava era apenas um desses festivais de merda onde as mesmas sete ou oito bandas se revezam todos os fins-de-semana, com mais uma banda fantoche pra dizer que há alguma renovação, e o dono do bar lucra e os caras das bandas se acham os sujeitos mais pops do estado, e eu pinto de idiota, de néscio, porque sou o único por ali que não está acompanhado. Sou o único que está ali só pela música, só pela arte, porque queria ouvir algo, e fiquei meio triste e meio puto porque essas coisas sempre acontecem comigo. Antes, eu me aborrecia muito por estar sempre desacompanhado nessas horas, porém há algum tempo me dei conta de que é melhor assim, pois basta apenas eu me enfiar nessas aventurinhas grotescas. Antes um a dois tolos.

Eu nem me demoro muito a sair desse bar – que não é um bar, é uma pequena casa de shows – e ir para um bar autêntico, por assim dizer, só para beber, e hoje, como saí de casa sem moto, eu iria beber bastante, e foi isso que fiz, bebi até ficar meio tonto como há tempos não fazia.

TEM QUANTOS QUISER, RAPÁ, é o que me diz o garçom, e ri para os amigos.

Outros ainda continuam me enchendo o saco.

POR QUE TÁ BEBENDO, BICHO?, pergunta um cara na mesa ao lado pendendo a cabeça na minha direção, mas sem me olhar. GAROTAS? TRABALHO?

ESQUECE... ELE NÃO DEVE TER NEM UMA COISA NEM OUTRA, diz seu companheiro de mesa, e começa a rir, sendo logo acompanhado pelos colegas.

Eu ignorei todos os que me torravam a paciência e bebi até agora há pouco, só parei quando vi que já era meia-noite e pensei que não teria mais condução para o meu bairro. Quando paguei a conta e me levantei, eu ainda tropecei sem querer e caí na pavimentação, caí sobre o joelho e o braço direito. Tentei me levantar logo mas não me sentia totalmente forte, fiquei lá de quatro ouvindo a risada dos caras e com vergonha de mim mesmo, a diverti-los como se fosse um palhaço. Então, levantei-me e ainda lhes lancei um olhar astuto, e saí andando altivamente, como se eu, bêbado e sozinho, tivesse mais poder que dez mil deuses juntos, todavia enquanto caminhava eu ainda escutava risadas.

E agora aqui estou nesta Rodoviária, e poucos minutos depois da minha chegada começam a cair alguns pingos do céu, um chuvisco que gradativamente vai tomando força. Eu ainda me mantenho protegido, afinal essa parada de ônibus é a parada-modelo que a Prefeitura lançou não tem nem dois anos, de um metálico até bonito, colorido, além de ser coberta. Só que o teto é muito alto e a chuva muito intensa, e logo começa uma ventania, daquelas que fazem a chuva vir de lado. Não demora e estou ensopado.

O tempo passa e agora começo a ficar enfadado, porque ainda não vislumbro nenhum ônibus, mas que ônibus?, eu sei que não passa mais ônibus algum a essa hora. Minha única opção vai ser pegar algum tipo de transporte alternativo, qualquer um que tome outro rumo, qualquer intermunicipal, e descerei na BR 101, lá perto do Aeroporto Internacional Augusto Severo para caminhar a pé sob muita chuva e sobre muita lama durante uns dois ou três quilômetros pra chegar em casa. Isso me faz rememorar os primeiros dias em que fui morar naquele bairro, que tem o lindo nome de PARQUE INDUSTRIAL. E isso é engraçado, porque Natal não tem indústria nenhuma, o Rio Grande do Norte também não tem. Porra, se nem o Brasil tem indústrias direito, como é que esse estado se põe na prerrogativa de batizar assim um de seus bairros mais pobres e encardidos? Mas pois é, é isso que os caras fazem, e esse bairro até que mudou desde que fui morar nele, eu tinha coisa de dez ou onze anos, e isso me vem à mente agora porque naquela época não havia ônibus pra lá, e a situação me fez lembrar das minhas longas caminhadas na infância. Na verdade, não havia quase nada, para ser franco. Sequer água e luz tivemos durante os dois primeiros meses. A única coisa que não mudou é o fato de ainda não ter nenhuma indústria lá. Até puseram uma pedreira, uma marmoraria aqui, uma serralharia ali, para se unirem aos galpões antigos e abandonados e dar razão de existir ao pomposo nome de PARQUE INDUSTRIAL.

Pensar nessas coisas é ao mesmo tempo trágico e engraçado, contudo eu não tenho nada mais a fazer, fico pensando nisso até que venha o transporte, e, claro, que seja clandestino, pois estes são os mais baratos e têm aos montes.

Depois de algumas divagações, eis que me aparece um, é uma Besta, uma dessas vans bem pequenas, e como a chuva desse uma pequena trégua, eu até penso que o dia não foi tão mal devido a essas alegrias momentâneas. Entro meio cambaleante na Besta e balbucio ao garoto de camisa do Flamengo, FICAREI NA BR!, porque o garoto, que devia ter seus quinze, com a camisa do Flamengo é o cobrador, embora não seja cobrador de fato, e sim apenas filho do motorista; está ali, àquela hora da noite, porque o pai o obriga a trabalhar, e como não tem fiscalização que cate nenhum dos dois, o pai persiste explorando o próprio filho. É nessas horas que eu me felicito por não ter pai.

Eu chego a adormecer um pouco durante a viagem, lapsos de sono, cochilos. Ainda estou muito tonto pela bebida. Fico naquele estágio de microssonos até que bato a cabeça na janela e redesperto. Percebo que a chuva voltou; aliás, a chuva não voltou, nós é que fomos em sua direção, porque as nuvens seguem para oeste, e todo nosso trajeto parece que foi correndo atrás daquela nuvem carregada, e assim que nos pusemos bem no meio, no coração dessa nuvem, é justamente quando vejo um cartaz imenso, muito maior que um out-door, anunciando que o aeroporto está a apenas algumas centenas de metros, ou seja, já de meu destino, e eu grito lá do fundo:

DESCE NO CAFÉ!

CAFÉ?, o garoto fica sem entender.

Sua confusão é compreensível porque fazem anos que não pego nenhum transporte alternativo, e na última ocasião em que o fiz o ponto de referência da minha parada ainda era um tal de Café, que na verdade nem sei o que era de fato, apenas concluí a mim mesmo ser Café porque assim que nos mudamos, eu e minha mãe, naquele longínquo 1997, ela me disse:

QUANDO VOLTAR DA ESCOLA, PEÇA SEMPRE PRA DESCER NO CAFÉ!

Então, foi esse Café o ponto de referência pra mim, mas agora o Café, fosse lá o que fosse, não existe mais, e eu não posso fazer nada, e pior, não sei de outro ponto de referência, eu poderia dizer PARA AÍ PERTO DO AEROPORTO, no entanto perto do aeroporto é uma afirmação muito vaga, perdida, sem sentido, perto do aeroporto pode ser em qualquer lugar na BR-101 entre Natal e Parnamirim, e como a visualização estava ruim pela janela, devido à forte chuva, de maneira que eu não sabia onde estava, eu canso e resolvo o problema:

PARA AGORA MESMO ESSA MERDA, AQUI, LOGO!

Quando ele pára eu dou a grana necessária e mostro minha carteira de estudante.

CADÊ O SELO?, pergunta-me o garoto.

MAS QUE SELO?

O SELO QUE AUTORIZA O USO DA CARTEIRINHA, PÔ.

A questão é que eu não sei do que ele fala, selo?, por que raios a minha carteirinha precisa de selo?, afinal eu sou estudante, paguei pela porra da carteirinha, esperei dias pra receber, sempre uso no cinema, sempre uso no teatro, sempre uso nos jogos de futebol, e até no ônibus eu já usei, e não posso usar nesse maldito transporte clandestino, e sendo clandestino nem regularizado é, por quê?

É A LEI!

HA!HA!HA!, rio cinicamente, só que não sei ser cínico, na verdade eu apenas banco novamente o palhaço, porque é isso que sou, um palhaço.

Não faço resistência alguma, aceito pagar a passagem inteira, e assim que desço, debaixo de uma chuva fortíssima, a Besta arranca. Eu poderia logo partir para minha nova peregrinação, pois terei que caminhar mais uns quinze minutos além dos trinta que já era previsto porque noto que estou pelo menos um quilômetro antes da minha parada. Será mais um fardo que terei de suportar até chegar em casa todo molhado para talvez tomar um banho rápido e dar uma requentada no café que deixei sobrar hoje pela manhã, e tudo isso para depois enfim desabar na cama. Porém, não é o que faço. Desço do alternativo e fico aqui, na beira da avenida, apreciando eles tomarem distância. Somente quando a Besta começa a se perder da minha vista na autoestrada, escondida pela neblina e pelo temporal, é que eu lhe mostro o dedo médio, achando que estou provocando alguém, mas não estou, estou apenas provando pra mim e para qualquer um que até aqui tenha duvidado, que eu sou mesmo um estúpido.

No dia seguinte, acordei enjoado, resfriado e com fortes dores no joelho direito.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sobre Quando Senti Saudades

Perdi alguns amigos, mas não muitos.
Alguns chegados já se foram, devido a facadas, tiros ou acidentes.
Mas poucos me deixaram boas lembranças como o saudoso Adelmário,
um velho que deixou sequelas permanentes em todos, a despeito das confusões que causou.
Republico essa postagem em sua memória... um ano depois.




Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea". Adelmário era seu nome.

Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autossustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.

O desejo de ser um militar de carreira se foi como num estalar de dedos. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.

Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, diziam-lhe os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. No entanto, para aquele jovem acidentado, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É verdade que suas habilidades básicas até lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.

Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em se concentrar. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que já era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".

Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância que me convidava nas sextas para sua casa, e eu ia, quase empurrado pela minha mãe. Como conversávamos bastante, nós três, passei-me a aproximar-me mais dele. Com o tempo, tornou-se mais que apenas o tio de meu amigo; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Então passei a, eventualmente, visitá-lo. Era um ótimo parceiro pra conversar sobre minhas vivências de adolescente. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que ele já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado. A primeira vez que o vi beber e cair no chão sem conseguir se levantar, senti uma vontade brutal de chorar. Apesar da condição física deteriorada, ele ainda bebia às escondidas.

Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.

O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A esse tempo obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom e velho amigo.

Então, senti saudades.

Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...

Não acreditei. Não me situei no princípio. Apenas parei e me lembrei dele. Lembrei de seu sorriso trôpego, já sem a maior parte dos dentes. Das piadas e dos xingamentos. Das peladas que batíamos, embora ele não tivesse fôlego nem pra correr cinco passos. Pensei o que ocorre a todo mundo que perde seus entes; eu não o veria mais. Fiquei acometido de um arrepiamento, um calafrio. E do retorno daquela vontade de chorar.

Esse cara estragou a sua vida, foi o que pensei na hora. Mas isso era besteira. Era um julgamento indevido de minha parte. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Mesmo quem acredita estar cuidando refinadamente da sua. Ele apenas estragou à sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a avó da minha irmã, que, segundo minha mãe, também era minha avó. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. E novamente eu segurei as lágrimas por ele.

Fui à casa de meu velho amigo da escola no dia da missa. Entre nós, parecia já não haver mais nenhuma intimidade - nós que, não muitos anos antes, havíamos feito juras de amizade. Não me demorei na sua casa. Trocamos poucas palavras. "Ele estava muito magro... você não ia querer ver...", foi uma das poucas coisas que me disse.

Adelmário bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, aqueles que vivem simplesmente por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.

E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.

Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, desde aqueles do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava lá - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.

Pela última vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Olhando para trás

Não havia nada a ser invejado na minha infância. Eu não viajava; não visitava parques aquáticos; não brincava na rua. Tudo isso devido à disciplina com a qual minha mãe tentava me fazer habituar, embora ela mesma nunca fosse disciplinada. Mas, em outra parte, pelo meu próprio desinteresse em participar de tais frivolidades.

Até os quatro anos de idade, eu não tinha nome. Ou poderia dizer que tinha vários. Certa vez, há muito tempo atrás, vi uma foto minha num campo aberto, parecia um deserto, e no verso dizia “hoje é 6 de dezembro de 1986, Carlos Alberto fez um ano”, acompanhado de algumas declarações de felicidade, da benção de ser mãe, entre outras anotações. Através dessa e de outras fotos antigas, além do que ela já me contou, soube com o tempo que já me chamei Juan, Ricardo, Roberto, Raoni, Pablo, Leonardo e Leonel, até que se decidisse por Leon. Todos esses nomes acompanhado de Carlos. Claro que eu não era registrado.

Então, para facilitar as coisas, os parentes me chamavam apenas de Ninho. Era mais fácil. Assim foi até que chegou a idade de eu entrar na escola, e ela enfim fez a minha certidão, decidindo de uma vez por todas qual seria o meu nome: Leon.

A minha pobre mãe tinha suas vicissitudes, que a faziam me valorizar. Ela era a mais nova entre sete irmãos, a garota-prodígio, se saía bem nos cursos de inglês, tirava notas bastante elevadas na escola, entrou facilmente na universidade, tinha um caminho aparentemente traçado com linhas coloridas e brilhantes. Mas, aos dezoito anos, esteve grávida, o que não era recomendável em sua situação: devido a um atropelamento sofrido aos nove anos, os órgãos componentes de seu útero tinham dificuldade em se desenvolver, de maneira que o embrião atrofiou-se logo no princípio de sua formação, e ela veio a abortar. Esse trauma, ao que consta, foi gigantesco. No mesmo ano, engravidou novamente, e abortou novamente. Deixou curso de idiomas e faculdade. Foi viver com o namorado. Engravidou pela terceira vez. E por algum milagre, conseguiu ver nascer seu primeiro filho. Na verdade, uma garota. Kaline, minha irmã. Eu nasceria dois anos depois, e entre nós haveria um terceiro aborto. Um dia depois que eu vim ao mundo, minha mãe fugiu do hospital. Não tinha pra onde ir, não sabia o que fazer. Só sabia que não queria levar a vida que tinha até ali. Vivia na casa dos sogros há cinco anos, e mesmo assim todos eles diziam que meu pai era outro. Quando foi encontrada, o médico – de confiança da família – disse que ela sofreria sérios abalos psicológicos se tivesse um novo filho, e ligou suas trompas, ao que ela somente soube na manhã seguinte.

Minha mãe deixou a casa onde vivia e voltou a morar com sua mãe, sem dinheiro, sem trabalho, sem estudo e com um filho no braço – a filha ficara na casa dos sogros, por insistência deles.

Cresci, então, com a mãe sempre me lembrando que as pessoas são máquinas incompreensíveis, difíceis de entender e indignos de confiança até que provem o contrário. A despeito do nome que eu não tinha e de outros detalhes menos interessantes, ela me ensinou a ler, a falar inglês, a calcular, tudo antes de ir para a escola. Queria fazer de mim a pessoa importante que não se tornara, talvez. Mas a compreensão de importante, para minha mãe, se reproduzia em termos monetários. Desde cedo, eu lia os livros que depois ocupariam a lista de mais vendidos; aprendia sobre as leis da autoestima, sobre o poder do pensamento positivo, lia os manuais e as biografias dos milionários. Achava que Napoleon Hill era meu ídolo. Tios e avós me davam tapinha nas costas, sempre aclamando o futuro "doutor da família". Esse tipo de pensamento povoou meu imaginário durante uns dez anos. Olhava para os vizinhos de minha idade jogando bola, xingando-se e esbofeteando-se, e lamentava pela crescente pequenez de suas mentes.

Apesar de tudo, eu ainda tentava criar alguma amizade. Quando era convidado a jogar futebol, eu ia junto. Ainda que não suportasse a gritaria, as ordens. No final, quando perdíamos, era a mim que todos cercavam. Diziam que eu devia ir embora, que se arrependeram por terem me chamado. E eu ia embora, esperando que eles chamassem de volta e dissessem "escuta bicho, desculpa pela grosseria". No entanto, nunca chamavam. Às vezes, me jogavam pedra pra que eu saísse correndo.

Essas e outras coisas, vindas com o tempo, me tornou diferente. Chegou um momento que eu percebi que as coisas não eram assim tão simples quando supunha. Nessa época, eu já ia sozinho para a escola, transportava-me de ônibus, pegava dois deles, um para atravessar a ponte, outro para chegar aonde estudava. Viajava de um lado da cidade até o outro. E por essa época eu já sofria assaltos, já via a mendicância a dormir nas ruas, já tomava sopapo dos moleques da escola, já levava foras de garotas. Eu não estava preparado para tudo isso. E então tentava fugir. Decidi não ir mais para a escola. Aliás, mais do que isso, convenci-me de que vivia uma vida errada, aquilo que aprendia e pensava não tinha conexão com as coisas reais. Pegava um ônibus e, enquanto a escola ficava numa direção, eu me dirigia à outra. Ia para a praia, e ficava lá o dia todo. Ou para um bosque, ou simplesmente ia para o centro da cidade e me punha sentado numa parada de ônibus durante quatro ou cinco horas. Até que caísse a noite e chegasse a hora de eu ir pra casa.

Minha mãe descobriria meses depois. E seria um novo trauma pra ela, que, aliado a outras decepções que teria comigo, que já não era mais uma criança, buscaria seus próprios subterfúgios. Passaria a beber excessivamente. Eu seria colocado numa escola pública periférica. Ela decidira que não mais pagaria estudos pra mim. Nunca mais me perguntou como estavam minhas notas. Nunca mais perguntou por onde eu andava ou com quem estava saindo. Nunca mais me deu livros ou me ensinou nada. Seu passatempo favorito era sair e conhecer caras que no mês seguinte viriam morar conosco e três meses depois iriam embora depois de brigas e brigas, e tantos socos e palavrões trocados entre eles.

Eu passei a me confinar ainda mais no meu quarto. Decidi que o tempo que ficaria em casa seria o mínimo possível. Conhecia alguns amigos, entre malandros aqui e bem-intencionados ali. Fiz uma banda de garagem e nos apresentamos algumas vezes. Havia uns sempre de prontidão a nos presentear com benzina para que cheirássemos a madrugada toda. Existia também um bocado de garotas que ofereciam seu corpo como se não fosse nada – uma maneira boba de sair da rotina, talvez. Ainda havia o movimento estudantil, que, à parte das garotas e drogas fáceis que também proporcionava, me ajudou a observar o mundo com outros olhos, a perceber que estamos todos num permanente conflito, numa tensão inacabável, para além daqueles dilemas existenciais. Para desfrutar essas aventuras, eu tinha uns trocados; minha mãe não conversava mais comigo como antes, mas tentava comprar minha amizade dando computador, violão, mesada e coisas assim. E eu aproveitava para tentar fazer uso disso da maneira que eu achasse mais escrota.

Entretanto, garotas, drogas, malandragem, banda de rock, foi tudo passageiro. Como todas as coisas que já fizeram parte de minha vida, logo cansei delas. Tive menos garotas a cada ano, já não tocava mais rock, ainda que assistisse algumas apresentações e também não andava mais acompanhado de substâncias estranhas, apesar de ainda continuar a beber depois dessa fase.

Em casa, quando era madrugada, eu notava pela luz que vinha por baixo da porta que a sala estava iluminada pelo abajur. Era a minha pobre e solitária mãe, escrevendo em sua agenda e bebendo cerveja, ouvindo música bem baixinho. Ocasionalmente, eu saía do quarto, ela parava de escrever, eu ia beber uma água ou comer alguma coisa, e depois sentava e conversávamos um pouco. Nessas horas, ela era mais boa companhia que em qualquer outro momento, antes ou depois dessa fase. Depois, eu voltaria para o quarto e ela voltaria a escrever e a beber, um ritual quase diário. Ela talvez confidenciasse a si mesma que havia cometido muitos erros comigo, erros que não poderiam ser mudados, e teria de viver com isso para sempre.

E eu roubei esse hábito dela. Quando é noite, eu tento ver TV ou, como é mais frequente, fico conversando na internet. Às vezes, recebo um telefonema dela, que agora está noiva e pelo menos desta vez não é um cara problemático, tanto que estão juntos há sete ou oito anos. A conversa com ela é sempre breve. Na TV, a programação vazia de conteúdo logo nos convida a desligá-la. E as companhias virtuais, o último escape que resta, também não se demoram a ir embora. É um momento em que não sobra mais nada, senão pegar algo para beber e colocar uma música para soar, só que bem baixo, quase inaudivelmente. E pensar nos tantos erros que cometi – e cometeria de novo se preciso fosse –, mas principalmente nos erros que cometeram ela e todos os outros que já esperaram algo de mim.