quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nem todas as luzes brilham na noite de Natal

O clima do Natal é melancólico, dizem alguns. É inspirador, dizem outros poucos. Eu, em tese, estou no primeiro grupo, à medida que poderia estar em um terceiro. Todo clima pra mim é melancólico. Futebol pra mim é melancólico. Estudar, então, nem se fala. Abandonei dois ou três cursos por puro cansaço de não fazer nada. Dar aulas também é, mas parece divertido, é um trabalho que gosto mais de fazer do que todos os outros, porque faz parecer que há quem me escute. Freqüentemente me perguntam como é ser professor e, dependendo do caso, posso dar respostas positivas ou negativas. Os professores mais antigos dão somente respostas negativas, por motivos óbvios. Eu sou jovem, metido a aventureiro, carrego, dizem eles, as ilusões de um ensino transformador. Mas isso não é verdade. Sei que não mudarei nada dando aulas. Se comemoro quando um aluno se sobressai numa aula, na aula seguinte me decepciono porque esse mesmo aluno não resiste às bobagens que as demais tribos oferecem. Podia contar pelo menos uns cinqüenta dos 500 alunos que tive este ano que sabiam muito mais do que eu sabia na idade deles, e que sequer passaram de série.

Eles me lembram eu mesmo. Percebo, então, que o ensino médio não forma a pessoa - ele apenas revela a pessoa já formada. Dou aula em turmas do 1° ano. E foi no mesmo 1° ano que eu mesmo desandei, que eu me converti niilista, que meus últimos sonhos adolescentes se despedaçaram. Agora já não carrego nenhum deles. Certa vez, disse para uma garota, quando fazia o ensino médio, que "professor de Geografia é o último estágio da pessoa civilizada, a partir da qual só restaria mesmo o caminho do crime, da contravenção, das negligências... é o caminho de ladrões de bicicleta, estupradores de crianças e mendigos profissionais". E agora estou aqui, dando aulas de Geografia... é engraçado. Mas na prática, não mudou. Eu percebo que, sendo professor dessa disciplina, não sou levado a sério senão por poucos. Os caras acham-me um completo loser. As garotas acham retardado, mesmo. No mínimo, termino sendo lá meio folclórico, não só onde dou aula, mas em qualquer lugar de algum convívio social. Na faculdade, sou muito sério, mas há outras coisas que amenizam a minha imagem ríspida. Sou um tagarela, um ranzinza, para cada letra A que o professor fala, eu intervenho com uma letra B, sou impertinente, um completo pé no saco. Mas toda sala tem seu chato, e eu sou o chato da sala, ninguém me leva a sério por isso, ninguém ouve o que falo quando levanto o braço para intervir no que o professor diz. Sou baixinho, escondido lá no canto... não faço trabalhos com mais do que três almas pacientes, uma das quais está indo embora, vai desistir do curso porque não a apetece... e eu ficarei sem minha parceira. Acho que parceria é um negócio interessante e avançado. Parceria nem sempre chega a ser amizade ou algo assim, mas mesmo assim é algo do que precisamos. Eu não vou me vitimizar dizendo que não tenho amigos. Mas parceiro, de fato, não tive nos últimos tempos. Somente tive depois que entrei nesse curso e conheci essa garota, com quem discutia e batia boca, de quem discordava aqui e ali e a relação continuava muito boa. Uma pessoa que não tinha medo da sinceridade, não tinha medo de me criticar. Com ela, dava gosto discutir os trabalhos, os assuntos estudados e conversar na hora do intervalo e no fim da aula - embora ela talvez não sentisse o mesmo. De qualquer maneira, ela se vai e embora façamos alguns votos de que nos encontraremos no futuro, sei que nunca mais a verei, como daqui a cinco anos não verei mais ninguém que faça parte de meu círculo atual. E lamento porque, com isso, a disciplina que criei para tocar esse meu curso será agora deliberadamente reduzida, mas insuficiente, pelo menos, para me fazer desistir. Então levarei até o fim, é o que resta, mesmo sendo um curso de merda de Licenciatura em Geografia, que nunca me ensinou nada, onde os pedagogos tentam inculcar os pensamentos megalômanos de mudança por meio da Educação e onde os geógrafos se derramam em viagens teóricas mas se recusam a dizer em quem votam na eleição municipal, ou qual sua posição política a respeito de Hugo Chávez, Obama, a transposição do Rio São Francisco. Cansei de tanta gente medrosa junto. Mas é o que se colhe quando se faz Geografia; aliás, é o que se colhe quando faz qualquer coisa, sobretudo um curso superior.

Eu já teria abandonado o curso se fosse levar em conta o quanto sou ignorado na sala; ser ignorado, contudo, já é algo com que estou acostumado. Desde o ensino médio eu já era o "sério" (termo que usavam quando queriam ser simpáticos). Depois do ensino médio não conheci mais uma pessoa sequer com quem cultivasse algo que se assemelhasse a uma amizade. Todos aqueles que compartilharam coisas comigo depois dessa época não o fizeram de graça. Nem amigos, nem garotas, nem ninguém. O que não me torna um completo sociopata é o fato de eu ser da geração abençoada pela Internet, então virei um assíduo freqüentador de batepapos e quetais, lugares, para mim, relativamente mais apropriados para conhecer pessoas, um lugar no qual os preconceitos físicos são mais dissimulados, o que é perfeito. Eu nunca precisava dizer que era musculoso, alto e loiro, apesar disso. Apenas conversava, e desconstruía qualquer má imagem que fosse feita de mim sem precisar mentir. Conheci tanta gente na Internet, mas tanta gente, e perdi contato com quase todos. Mas nunca foi um intento meu fazer amizades ou conquistar namoradas. Eu sempre soube que a net é um espaço bastante paliativo e breve. Eu gostava da sensação de ter um amigo agora ou uma garota que dizia estar louca para me conhecer agora. Eu sabia que quando nos conhecêssemos, os amigos já não teriam mais tanto tempo para uma prosa e as garotas já não estariam mais tão oferecidas, senão no primeiro encontro, para os dois casos.

Isso ainda persiste um pouco até hoje, embora já não como antes. Os batepapos ruíram, hoje não existem mais bons chats virtuais. Só se usa o msn, e o msn não tem a menor graça porque batemos sempre com os conhecidos, batemos sempre com pessoas medrosas, pessoas para quem se discordamos de algo, a resposta adequada é um "cada um com sua opinião", pessoas que evitam uma discussão, mesmo aquelas mais bobas, como o diabo evita a cruz, se escondem em termos vazios como "ok" e "ah tá"... que horror! Que fracasso! Fico catando comunidades no orkut onde se fale sério, onde se discuta sério e onde se xingue sério, mas isso não existe. Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda, mas que até tem dado certo, talvez porque muita gente não saiba o que significa vil ou não acredite que aqui tenha, de fato, uma literatura vil. No final das contas, essa auto-ironia termina sendo a maior constante deste blog e da minha vida, porque a auto-ironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Tão fugaz

Eu acordei na madrugada com os olhos ardentes, sentado diante do computador... estava escrevendo algo novo, trabalhando um conto, mas fui além dos limites esperados, o texto estava muito extenso, e é sempre assim quando eu escrevo depois de beber em excesso... eu estava com bastantes doses de aguardente no sangue, voltei para essa bebida porque é a mais barata, porém ela tem me deixado com uma dor-de-cabeça enorme logo depois, e foi com essa dor latejante que acordei e notei que sequer havia terminado o conto... não gosto de produzir nada bêbado, não gosto de escrever no piloto automático, então selecionei todo o texto e em um clique deletei tudo...

Levantei meio tonto, acendi as luzes e olhei para a hora... eram 4 da manhã. E o dia era o meu aniversário, um sábado. Eu havia preparado um bolo de ovos na noite anterior para comer quando o sol raiasse, comemorar no café-da-manhã para dormir o resto do dia. Entretanto, preferi não esperar o sol e fui catar uns pedaços. Ainda estava muito tonto e não conseguia partí-lo de forma coesa, ficando muitos farelos jogados pela mesa e pelo chão. Comi um pequeno pedaço e fiz uma careta, porque o bolo estava ruim, as bordas estavam queimadas. Tudo bem, amanhã peço à minha mãe para me trazer, quem sabe, um bolo de verdade, eu pensei. Na geladeira só tinha água e outras amenidades, como vinagre, tomates, presuntos e margarinas, coisas que não uso muito e só compro quando penso em trazer alguma garota pra casa. Como fazia tempo que isso não acontecia, então os produtos ali já não deviam mais estar dentro de seu prazo, e o mal cheiro começava a se apoderar da cozinha. Eu ia juntar tudo e pôr numa sacola e na lixeira, mas retardei o processo para a manhã seguinte. O cacho de bananas preso na parede também já estava apodrecido, chegando até a pingar no chão, como se os fungos nascentes das bananas começassem a pesar, sendo, assim, expelidos, tudo sob a forma de um líquido meio mucoso, que grudava no chão, e eu percebi que parecia um muco quando passei o dedão em cima para dispersar o líquido e tentar diluir um pouco o fedor - sem sucesso.

Sentei-me à janela até o dia amanhecer.

Quando já eram umas 8 horas, o sol forte me batendo na cara, e eu ainda impassível olhando pela janela a rua vazia, ouvi o telefone tocar. Era Mariana, uma amiga doutros tempos querendo saber se eu organizaria algo, se cantaria parabéns. - Não, não vai ter nada disso - eu lhe falei. Como ela quisesse sair, e se importava mais comigo hoje do que se importara nos anos anteriores em que nos conhecíamos, eu topei. Mas o programa terá que acabar cedo, porque eu já havia combinado outro, com outra garota, para mais tarde. Ela aceitou.

Fomos ver uma peça de teatro dos meus alunos, que estavam em temporada, se apresentando toda semana numa casa de cultura da Ribeira. Eu já havia assistido na noite de estréia, e havia achado muito bom. Porém, assistir pela segunda vez não foi tão bom assim. Vários erros, cortes de luzes, falta de sincronia na cenografia, o espetáculo foi um fracasso tão grande que achei que a razão era o fato de ser meu aniversário, eu, um pé-frio dos piores.

Quando comentei a peça depois com a minha amiga, ela disse que não havia notado nada disso. Fiquei pensando se esses erros não foram frutos da minha imaginação. Embora ela discordasse, eu insistia:

- Pois eu vi muitos erros.

- É que sua chatice é potencializada no seu aniversário, seu bobo - disse.

Talvez tivesse razão.

- Estou brincando, viu - disse-me rindo.

Eu sei que ela não estava brincando.

Apesar do meu ar abusado, ainda conversamos algum tempo. Fomos comer uns sanduíches em alguma lanchonete. Ela me contou que dali estava pensando em visitar o namorado e me perguntou o melhor caminho para ir à casa dele. Eu não disse. Proseamos bastante até que chegasse sua hora, e eu agradeci pela companhia. Antes de sair, ressaltoub que ninguém mais aceitaria um convite meu para sair no dia do aniversário, e eu concordei, porque ela dizia mesmo a verdade.

Depois que ela foi embora, fui para um barzinho no meu bairro ver se encontrava lá uma outra garota, essa um pouco mais velha que a Mariana, inclusive mais velha também do que eu. Ela dançava no boteco e eu, cliente velho, talvez ganhasse umas carícias a mais sem precisar pagar, por ser aniversariante.

Como ela não apareceu e um trio de alcóolatras me viu ali sozinho, fui convidado a me sentar com eles. Eu preferia ficar na minha, contudo tanto insistiram que fui lá e troquei uma conversa rápida com o grupo. Eles já sabiam que eu esperava a rapariga do bar. Estava mesmo na cara.

- Pois é garoto, deu azar hoje! - Disse, gritando, o mais velho deles, o que tinha mais mal-hálito.

- Dizem que ela é uma grande chupadora, é verdade?, perguntou-me um outro.

- Ela é uma tagarela, eu falei. Isso faz com que pratique mais a língua que a maioria das mulheres.

Depois de umas risadas, um dos três velhos ainda sentenciou: - é, só que as mulheres que falam muito geralmente pensam pouco.

- Isso também vale para os homens, respondi.

Não fiquei muito tempo no bar. Tomei apenas umas pequenas doses de cachaça e fui embora, comprei uma pequena garrafa da mesma cachaça para continuar a beber sozinho em casa. Quando estava me acomodando, percebi, na cozinha, que haviam duas pizzas lá, e um bilhete. A minha mãe havia passado enquanto eu estava ausente, e como ela tem a chave - não sei como, eu nunca dei -, deixara essa pequena surpresa. Deixei para comer no dia seguinte, peguei um copo e me sentei à mesa, com os dois braços sobre ela, à luz baixa do abajur. Sorvia o álcool em doses homeopáticas e silenciosas. Lamentava cada gota que tragava, ao ver a bebida sumindo e sumindo e sumindo. Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive. Depois de um momento impassível, passei a beber num ritmo cavalar, desfocando minha atenção de todas as outras coisas do mundo, ignorando meus sentidos que começavam a perder forças, mas sentindo um prazer inebriante e incomparável. Até que só me restassem, no fim, o copo vazio e a solidão.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Outsider post

Bem, enquanto não vem um novo conto no Literatura Vil (estou trabalhando nos textos inéditos para a revista que produzo, fase em que fico mais negligente no blog), postarei uma brincadeira que me foi enviada pela Ingrid Caroline, uma doce companhia virtual, além de dona do blog Enjoy of Silence (aprecie o silêncio), apontado logo ali no menu lateral.

A brincadeira consiste em responder um pequeno questionário... friso que, como não costumo distribuir selos, desafios ou afins aqui no blog, darei fim a esta corrente, ignorando a última regra, que pedia para distribuir para outros dois blogueiros.

Ademais, eis os temas:

I. colocar uma foto individual nossa;

II. escolher uma banda/artista;

III. responder às questões somente com títulos de canções da banda/artista escolhido;


I - A foto
É verdade que nunca postei uma foto minha aqui, à exceção daquela que fica exposta no perfil... contudo, não tenho mesmo muitas fotos... mas já que a idéia é fazer um momento de descontração e quebrar o clima rabugento do blog, vai uma foto fofa e sorridente:


II - escolher uma banda/artista
Não tem segredo... a minha banda favorita são os Engenheiros do Hawaii (ênfase para a formação clássica, 1987-94)...

III - as respostas (com nomes de músicas, lembrando)

3.1- Es Homem ou Mulher? Humano Demais

3.2- Se Descreva: Nau à Deriva

3.3- O que as pessoas acham de vc? Nuvem Passageira

3.4- Onde queria estar agora? Longe Demais das Capitais

3.5- Uma frase: Somos quem Podemos Ser

3.6- Como é a sua vida? Cinza

3.7- Namorando, Casado ou Solteiro? Ando só

3.8- O que pedirias se tivesse só um desejo? Luz.