sexta-feira, 25 de abril de 2008

Imaginação no poder! *

Uma de minhas alunas gosta de gravar o áudio de todas as aulas, talvez para dar alguma razão de existir a seu quase invisível mp3. Ela me enviou um pedaço da minha aula, da qual eu transcrevo (levemente adaptado) um trecho onde eu fujo um pouco do assunto (coordenadas geográficas) para tecer alguns comentários pertinentes - ou nem tanto:

Bem, pessoal, eu estava corrigindo as redações de vocês numa dessas madrugadas, ouvindo Joni Mitchell, quando vi este trabalho (exponho uma pesquisa colorida, supercriativa, pintada a spray), que me fez maquinar sobre várias coisas. Eu fiquei pensando que outros professores não aceitariam este trabalho, isso é um fato. Simplesmente porque ele foge a vários padrões elementares na concepção de capa, de desenvolvimento, tudo desenvolvido com um toque muito mais artístico do que sob qualquer outro modo.

Mais do que isso, eu fiquei pensando em como a gente é educado para essa padronização, numa espécie de lavagem, numa espécie de adestramento. Passamos dezoito anos estudando para chegar no vestibular e escrever um artigo bem-dividido em introdução, desenvolvimento e conclusão, num simplismo extremo, que chega a ser aterrorizante, surpreendente. Então a nossa mente emperra, a nossa criatividade fica atrofiada, aleijada. Por que não podemos fugir dessas prisões, essas coisas restritivas, esses paradigmas? Por que eu tenho que começar um texto pela letra maiúscula? Porque tenho que fazer um artigo apresentando a idéia, para depois mostrar meus argumentos e, só no fim, expor minha conclusão? "Você tem que facilitar o entendimento do leitor" (voz fina). Mas por que eu tenho que facilitar o entendimento do leitor? Por que não posso complicar esse entendimento, por que não posso desafiar o leitor a entender o que quero dizer?

Ninguém tem resposta para perguntas assim. Percebia isso no ensino médio e, mais ainda, na faculdade. A vida universitária é um saco, que todos carregam, mas que cheira muito mal. E infelizmente temos que passar por isso. A alternativa é tentar mudar tudo isso. Cada um à sua maneira. Há um livro da Clarice Lispector em que ela começa com uma vírgula e termina com dois pontos, sem nenhuma pretensão de ter sentido. Foi uma critica severa a essas técnicas tolas. A Clarice se foi, faleceu há vários anos, e esses padrões permanecem aí; acho que cabe a nós lutar contra eles também, não é?

O que digo, então, não é que todos devem daqui por diante escrever textos sem sentido, sem organização e sem coerência... se assim fizerem, se darão mal, seja na minha redação, no vestibular, ou em qualquer publicação futura. Pelo contrário: sugiro que vocês conheçam bem esses padrões, aprendam a escrever, a produzir, porque só quando entendemos algo podemos conhecer a sua raiz, e só pela raiz podemos acabar com a opressão que ele cria. As técnicas de escrita são só uma mostra de um mundo totalmente teleguiado que é esse em que vivemos.

Portanto, eu somente digo aquilo que penso sobre esses padrões, pois acho que eles vão na contramão da inteligência humana, e o que afirmo é uma tentativa de romper com essas estruturas... Pois abalar as estruturas, quebrar esses paradigmas, superar limites, mudar a realidade, são a essas coisas que me dedico, e são algumas das poucas coisas pelas quais eu penso que vale a pena viver.

*Slogan dos jovens franceses que organizaram históricos protestos em maio de 1968

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Soneto Marginal

Quando ingeri mais uma pura eu pensei
que não, já não podia voltar pra casa
Que me soltar, libertar, era o que eu devia fazer
Só assim faria jazer minhas emoções em brasa

Mas a brasa as esquenta e, naturalmente, as dilui
Influí ali que estava, então, novamente sem saída
As partes de meu coração precisariam ser reconstruídas
É a conseqüência natural para um marginal que se reclui

E peço mais uma dose, e logo ali alguém entra no bar
Fecho os olhos, me escondo, mas esse papel não quero
Porque já fugi o bastante, agora mais de mim eu espero

Porém recluso em nova pose, recluso em novo esnobar
Viro os olhos e ignoro, volto a meu altar alcóolico
Assim todos os dias fujo, nesse rito melancólico

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Uma noite no xadrez

Eu preferi não pensar em muita coisa quando fui jogado naquela cela que exalava umidade e fedor. Lá dentro, fui ter com outros três caras, todos velhos, cinqüentões aparentando mais de setenta. Eu era o único garoto preso naquela delegacia. Na verdade, havia também outro garoto - meu primo -, mas ele foi para outra cela. Eu estava de temporada numa cidade pequena do interior do Rio Grande do Norte chamada Brejinho, na qual a família tinha um grande sítio, onde eu e meu primo passávamos o dia proseando, tomando sol deitado numa rede, e na noite íamos passear pela cidadezinha, e sentávamos na praça central para sentir melhor a brisa e as garotas oferecidas do povoado. Na época, tínhamos vinte anos. Em várias dessas ocasiões os policiais nos baculejavam, mas só nessa vez eles roubaram a benzina que meu primo em vão tentara esconder, e também somente nesse dia os fardados cumpriram a velha promessa de nos fazer dormir no xadrez.

No fim do corredor das celas, o tímido soar do alarme de um relógio digital, que deveria ser do polícia que fica de plantão, parece que despertava o trio com quem eu dividia a cela. "É meia-noite", disse um deles. "Mais um dia no inferno para o meu currículo". Seu parceiro de beliche lembrou que o inferno decerto era muito pior que aquilo, e que era questão de tempo até experimentarem - todos estavam esperando seus julgamentos. A conversa entre eles se estendia e todos ignoravam a minha presença, o que me incomodava, mas também me tranqüilizava. Enquanto eu estava com pensamentos viajantes, contudo, percebi que em dado instante fez-se um silêncio na cela e, ao que notei, os três me vigiavam.

- Estuprou a namoradinha? - Perguntou-me o cara que estava na parte de cima do meu beliche. Seu bafo estava horroroso, a partir do qual se sabia perfeitamente qual era a dieta que praticava: cachaça, café e feijão-com-arroz. Eu quase gofei e escondi minha careta com as mãos.

- Esse parece com aqueles abobados que fumam maconha na escadaria da Igreja todo dia.

- Eu não fiz nada - falei, enfim, com a impressão de que dissera uma grande idiotice.

- Nenhum de nós fez nada, seu babaca! - Defendeu-se o primeiro, um velho desdentado.

- Está nos chamando de trapaceiros?! Criminosos?! - Desafiou o segundo, um negro alto porém magrelo e preguiçoso.

- Você já deve ter ouvido falar na recepção que se faz na cadeia para os novatos, não é? - Disse o terceiro, tentando me intimidar. Ele tinha sobrancelhas grossas que escondiam os olhos sádicos; era muito peludo e gordo, mas não se mostrava forte. Quando me fez essa pergunta, esfregava as mãos com calma.

- Tente alguma coisa e eu quebro seus três narizes sujos, seus velhotes.

Eu certamente não era nenhum grande lutador, mas não seria tarefa árdua me defender daqueles coroas se necessário fosse, e eles sabiam disso.

- Escutem - falei -, por que vocês não me emprestam um gole dessa breja para baixarmos a poeira por aqui?

Sabe-se lá onde eles arrumavam aquelas garrafas de cachaça, mas percebi o desdentado, que era também baixinho, grisalho e tinha um andar torto, escolhendo um dos três litros dispostos na cabeceira de seu beliche e me passando-o de imediato. Obviamente, não havia copos nem nada que lembrasse a menor higiene. O gargalo estava ensebado por completo, e eu engulhei mais uma vez quando vi onde poria minha boca. Pelo visto, nenhum deles utilizava a piazinha que estava chumbada na parede para a mínima limpeza bucal, mas eu tentei dar uma utilidade para aquele acessório.

- Vá lá, desculpem, mas eu preciso dar uma boa lavada nesse gargalo - disse (como se um passar-água fosse suficiente). Enquanto eu esfregava a garrafa na pia, um deles me perguntou: - Todo mundo na cadeia é preto, pobre ou burro. Você se encaixa em qual destes?

- Sei lá, sou meio preto e meio pobre, como vocês podem ver. Mas burro não sou mesmo! - Disse isso e girei a garrafa. O álcool saiu queimando minha garganta, nunca acostumada a esses mal-tratos, sobretudo por fazer meses que eu não bebia. Mesmo assim, bebi todo o resto do litro. Eles riram com o meu desconforto, mas a risada desta vez era carismática, camarada. A partir daí, senti que ficaria muito mais fácil passar todas aquelas horas por ali, pois o amanhecer estava ainda muito distante, e provavelmente eu não dormiria até lá.

- Sente-se, sua garganta tem a madrugada toda para se adaptar. - Disse o desdentado, que se chamava Tinoco. Dos outros dois, não me recordo o nome.

- Eu comi a filha do prefeito. À força. O pneu do carro dela furou na frente da minha barraquinha, que fica bem depois do Posto. Então aproveitei. Por isso estou aqui. - Disse o negro. E continuou: - Pena que não era nenhuma adolescente. A mulher já tinha lá seus 40.

- Ouvi falar no seu caso. Gerou estardalhaço.

- Pois é, fiquei famoso. - Disse o negro, exalando orgulho e auto-afirmação.

Ao contrário do que fizera este cafajeste, os outros dois não tinham feito nada mais sério. O gordo foi pego, como se imagina, roubando comida. Sanduíche. Em flagrante. No ato, tentou resistir à detenção e ainda causou estragos no trailler que era o ponto de encontro jovem da cidadela. O velho desdentado estava lá porque a pensão estava atrasada. Há seis meses, desde que foi declarado que ele deveria pagá-la.

- Eles podem me manter preso por 1000 anos, porque nunca pagarei essa pensão.

Tinoco dizia que amava a ex-esposa, e pagar a pensão seria assinar embaixo o divórcio e financiar a nova vida dela, barbaridade à qual ele não poderia se submeter. Pelo que contava de seu casamento, parecia ter sido muito devoto e carinhoso, mas nunca se sabe. Tinha uma filha chamada Cinthia.

- Sou apaixonado por uma Cinthia - falei, e levei um soco na cara.

- Seu filho da puta! - gritava e repetia Tinoco, e foi rapidamente detido pelos outros dois.

Seu murro me pegou de surpresa; não cheguei a sangrar, mas minha boca doía muito. Na marca dessa violência, senti que havia não somente o ciúme de um pai por uma filha (sobretudo porque a Cinthia à que me referia não era a filha dele), mas o desespero de um velho que não queria perder as coisas de valor que tinha. Mas ele mesmo constatava que já havia perdido.

Não houve olhar de repreensão nem de minha parte nem da parte dos outros dois parceiros da cela pelo soco que o Tinoco me dera. Não houve nem poderia haver. Todos sabíamos que aquelas noites no xadrez nos obrigava a deixar algo para trás. Eu me mantive jovem depois daquela madrugada. Aquele trio, porém, só levaria para o fim de suas vidas o abatimento - a juventude, as aventuras, a percepção de que algo pode ainda ser mudado, todas essas coisas eram apenas uma tênue e frágil lembrança dum passado muito distante, quando Brejinho não passava de um vilarejo, e talvez nem isso. E eles viam em mim e nos moleques da minha geração apenas a certeza de que o tempo passava, mas certas coisas não mudam. Nunca.