segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Histórias inacabadas

Estava tentando voltar a escrever depois de muito tempo em crise criativa, e, como se fosse um recurso didático, decidi ler o que já havia produzido antes para ver se estimulava. Contos, poemas e devaneios de toda ordem me fizeram viajar pelo passado - que ainda é presente em minha mente -, e enquanto os lia me lembrava das circunstâncias em que os criava, e lembrando dessas circunstâncias me lembrava também das pessoas que comentavam a respeito.

Lembrei-me em particular de algumas delas, notadamente as que conheci (e me conheceram) por meio desses contos e que encontrei por aí em minhas viagens de moto Brasil afora. Era curioso como alguns já tinham um entendimento sobre mim que facilitava esse contato, mas era igualmente curioso o fato de que outros pareciam não ter compreendido bem o que eu quis dizer enquanto escrevia.

Em uma das minhas primeiras viagens fora do estado, fui para bem longe, Aracaju, e lá eu conheci um cara com quem já havia trocado uns e outros leros virtualmente. Nos vemos na entrada da cidade, num ponto alto de onde se podia vê-la de cima, e eu cheguei à noite. Conversamos um pouco por ali, porém nos despedimos e combinamos de nos ver no dia seguinte. Eu estava de moto, e depois desse encontro, procurei uma pousada. A que me hospedei não ficava muito longe dali.

No dia seguinte, dei umas voltas pela cidade pela manhã e tarde. Quando eram umas 18h00, fui a um pequeno bar perto do Palácio Inácio Barbosa e lá o bom sujeito que conhecera apareceu e ficamos de longa conversa. Nesse dia, deixei a moto na pousada e fui de ônibus. Após muitas rodadas de cerveja com meu novo amigo, quatro horas depois, ele sugeriu ir em outro bar. Fomos.

O outro bar, num ponto que desconheço, não era somente bar. Era também um puteiro. Minúsculo. A sensação de claustrofobia era inevitável. As pessoas se acotovelavam por espaço, tanto as prostitutas quanto a clientela. O odor acre misturado de álcool com excesso de tabaco era forte. As mulheres não tinham menos de 40 anos, seguramente.

É o mais barato que me recomendaram, disse o cara.

A ideia é passarmos a noite aqui?, perguntei.

Isso mesmo, vamos mandar brasa!

Ele parecia animado.

Pressupus que ele tinha a impressão de que o nosso encontro significaria uma parceria maldita, de dois sujeitos que, embriagados por muitas mulheres e muita bebida, viveriam suas tantas aventuras na pacata noite aracajuana - tão pacata que nem parecia uma capital. O som do bar com suas músicas imprestáveis mal chegava à rua, onde reinava o silêncio quase absoluto.

Tô escolhendo a minha, anda logo que depois das 23h00 vêm os caras que trabalham nas redondezas e fica difícil achar alguma mulher de futuro, ele disse.

Pode crer, murmurei. Pouco depois, ele falou:

Cara, eu vou lá fazer o serviço com essa galega. Não sei em quanto tempo termino. Talvez eu queira umas duas só hoje. Se não nos vermos mais, amanhã me ligue e nos encontramos lá em casa. Tenho muita bebida e uns baseados pra gente.

Pode crer, repeti.

Ele se foi com a sua prostituta e eu fiquei sozinho, prendendo a respiração por causa da exagerada fumaça de cigarro que prejudicava minha adenoide.Decidi ir embora dali, e como não sabia em que ponto da cidade me encontrava, não havia mais ônibus e além disso ainda estava um pouco bêbado, precisei caminhar muito, tendo diversas vezes a impressão de estar andando em círculos, até aparecer um táxi que me levasse a minha pousada. A conta saiu cara: 80 reais.

Como é que é? 80 reais?!, perguntei.

Cara, essa pousada fica na região metropolitana, você queria o quê?!, alegou o taxista.

Fiquei puto porque Aracaju nem é tão grande assim, mas tive que ceder e pagar os 80 reais a ele. O prejuízo foi que não pude continuar a viagem. De lá eu iria para Salvador, no entanto, quando acordei, além da ressaca, percebi que me restava menos dinheiro do que seria necessário. Decidi voltar de lá mesmo.

Não vi mais o amigo que acabara de conhecer. Nem o liguei nem ele me ligou. Tempos depois, meu conto começou a receber muitas críticas apelativas de um sujeito anônimo. Não desconfio de que seja o breve parceiro de noitada sergipano.

Com exceção dele, só encontrei garotas nessas andanças. Algumas bem legais. Conheci uma em Maceió com quem já tinha muito tempo de papo pela internet, e lá demos continuidade a isso quando nos encontramos e ficamos horas em uma conversa despretensiosa na praia. Acho que ela disse alguma coisa sobre eu ser igual ao personagem de meus contos, ou ser diferente. Não me lembro bem.

Nesse dia, tomamos sorvete, demos uma volta na região, acompanhei-a até seu cursinho e voltamos à praia, sentando num banco qualquer e continuando a conversa, agora em ritmo mais vagaroso. De repente, no entanto, ela precisou ir embora, levantando-se rápido do banco e precisando correr para atravessar a rua e pegar o seu ônibus.

Preciso ir nesse!, sentenciou.

Passei ainda uma semana em Alagoas, só que não nos vemos mais. Mas eu queria.

A que conheci em Recife também precisou ir-se embora de repente. No entanto, foi menos convicta; nitidamente, esperava que eu insistisse para ela ficar mais.

Nesse caso, não nos encontramos na rua nem passeamos pela cidade; ela foi até mim, no pequeno apartamento em que eu estava hospedado. Ofereci uma Coca-Cola, um café e um achocolatado para ela beber, pois tinha chegado há pouco da viagem e era apenas os restos disso que tinha no apartamento.

Apesar de ter vindo me visitar, mantivemos uma certa distância, talvez como cautela, talvez por outras razões ocultas de nosso inconsciente. Ela sentada de um lado da mesa, eu sentado de outro, diversos livros entre nós, que eu tinha levado - como sempre levo - para ler nas horas que estou fora da estrada. Passamos a manhã assim, em uma longa prosa espontânea. Quando ela disse que precisava ir, não insisti muito para que ficasse. Esperava que nos encontrássemos depois. Na minha cabeça, a primeira vez que nos víssemos precisaria ser assim. Desci com ela e a vi pegar um táxi e ir-se embora para sempre.

Ao contrário destas, conheci uma em Fortaleza que era muito mais exagerada nos seus atos e muito mais pegajosa. Quando nos vimos, deu-me um beijo e um forte abraço, enlaçou seu braço no meu e saiu caminhando comigo.

Deixa a moto e vamos andando, a praia fica perto daqui, disse.

Eu não estava muito afim de ir à praia. Tinha acabado de chegar à cidade e ainda estava com a mochila nas costas. Mesmo assim, eu a acompanhei.

Havíamos nos encontrado pela manhã e já eram 17h00 de um longo papo furado. Sua conversa não me entrava. A todo tempo pensava que não viajara 500 quilômetros pra me deter àquilo. Percebi que ela queria, como meu colega sergipano, fazer uma certa cena comigo. Tive certeza quando ela me disse:

Sou sua fã.

Valeu, também sou seu fã, respondi.

Não, eu sou sua fã de verdade, ela falou.

O que significa ser uma fã de verdade?

Significa que eu faria qualquer coisa por você.

Fiquei em silêncio. Ela completou:

E com você.

Como permaneci calado, ela perguntou:

Que tal?

Muito foda, eu disse, porém sem nenhuma empolgação.

Presumo que não fosse bem o que ela queria ouvir. Apesar disso, ela não se importava. Ficou fazendo mais um pouco de cena e me chamou ao seu apartamento. Nessa hora, eu me lembrei de um amigo pernambucano que reclamava porque nunca havia sexo nos meus contos. Tenho a esperança de que você ainda vai comer alguém nessas histórias, eram as palavras dele. Foi por essa lembrança que eu aceitei o convite dela, pensando no sexo e no conto que poderia sair dali.

Quando chegamos na entrada do apartamento dela, o porteiro a chamou. Ela foi até ele. Não ouvi a conversa deles, mas pude distantemente entender ele falou algo do tipo: "não sei não", como se a alertasse.

Ela voltou a mim com um semblante, de certo modo, desolado.

Ei, não vai rolar. Minha irmã mais velha está aqui. Ela quase nunca aparece, mas agora decidiu aparecer.

Numa boa. Vou indo.

Foi mal, ela disse, apesar de eu estar sem nenhum resquício de frustração.

Vou ficar na cidade até domingo. Podemos nos encontrar amanhã.

Pode ser, ela falou.

Na manhã seguinte, antes que amanhecesse, peguei a minha moto e fui embora pra casa.