terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Nostalgia na sala-de-estar

Estou sentado numa poltrona, a mesma que outrora já considerei de algum conforto, e que agora não passa de madeira coberta por uma penugem vagabunda, definhando aceleradamente. Seu tecido vermelho-borrado está nitidamente mofado pelo tempo. Como a poltrona, a sala ao meu redor se mostra miserável. Tento me ver nesse ambiente, aqui onde vivi tantos anos, mas ainda me sinto um estranho. Um enjôo angustiante apodera-se de mim cada vez com mais violência, sempre que giro minha cabeça em direções distintas, enquanto observo o abatimento do cômodo, sob a luz baixa do abajur. Ora... não me reconheço naquela mesa de centro, ou no carpete empoeirado e nem no resto da sala - tudo pretensamente limpo e arrumado, mas de uma decadência entristecedora. Quem se sente confortável em tal situação? Eu admito que não fui mais do que isso. Pelo contrário. Nunca neguei minha origem putrefata, inesperançosa. Agora, no entanto, mantenho minha insinceridade vivendo uma falsa vida, uma vida que não é minha... sinto-me lúcido, entretanto, ao mesmo tempo, não consigo controlar o temor que começa a se apossar de mim... e sentado aqui, estático, de ombros encolhidos, olhos marejados de lágrimas que fazem aparecerem tremidas as minhas visões, boca curvada e acaretada como a de uma criança chorona, eu só queria poder sair...

Mas não posso.

Não posso porque há algo a me prender. E esse algo, de pele alva e cabelos castanhos, é uma mulher a quem eu, aparentemente, já nada ofereço, e por quem nada sinto... contudo, ainda a respeito. Uma mulher que conheci num beco escuro, num buraco de lama, numa fetidez quase semelhante à minha... conhecemo-nos trocando muitos goles de álcool, e nosso primeiro beijo não seria consumado se eu não estivesse mais interessado no gosto de conhaque de alcatrão que sua boca continha. Ela era diferente de mim... e muito! Era uma sonhadora! Para ela, o mundo estava apenas um passo adiante... brincava com a vida como quem é dono de toda a sorte que existe. E foi desse modo que ela fez o que pôde para livrar a si própria e a mim daquele dito submundo. Ela era assim, dividia a antiqualidade de uma alcóolatra desorientada com a astúcia de quem sabe que pode tudo - mas eu não! Não tenho ambições, não tenho desejos de grandeza. Não queria sair de onde vivia... era lá meu lugar! Ela me tirou, de qualquer jeito. Não sei reagir a isso. Eu não devia não ser canalha. Devia agradecer pelo que fez.

De lá para cá, passaram-se anos... mas olho para nossos retratos de parcos sorrisos e nem de longe parece a mulher que conheci e que me encantara por despertar em mim sentimentos bem distintos do que qualquer outra já o fizera... ela não me despertava apenas desejo pelo desejo, atrações e tremedeiras. Mas mistos de sentimentos positivos e negativos, que em outra ocasião vos contarei, caros leitores... fossem como fossem, o que interessava a mim era a oportunidade de experimentá-los... numa vida de emoções capitaneadas pelo álcool e pelos comprimidos, talvez a dependência que passei a ter dessa mulher fosse a única saudável... É o que eu pensava.

Eu, que agora passo todos os dias de minha vida sentado nesta poltrona. Todas as tardes... o Sol desce e eu permaneço submerso em divagações, desta vez iluminado apenas pelo abajur. Sequer percebo quando a mulher entra na sala. E ela já não diz nada. Quando dirigiu a voz a mim, certa vez, foi para reclamar do peixe que se deixara morrer no aquário. Por minha vez, também já não a conseguia ouvir direito, mas, numa esperança de vê-la tentando recuperar o que perdemos, e que já não sei mais o que é, pergunto, fazendo, talvez, o maior esforço de minha vida:

- O que houve conosco?

Talvez seja difícil para ela responder. Ou talvez ela nem queira, mesmo... ingrata como é, já deve ter se esquecido de onde veio. Certamente, não imagino o quão aterrorizante a resposta dela pode ser... porém, dessa mulher, eu já não espero nada. Com rara razão.

- Um de nós dois ficou sóbrio - ela disse, apenas.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Sobre quando senti saudades

Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea".

Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autosustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.

O desejo de ser um militar de carreira se foi. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.

Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, afinal. Assim lhe diziam os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. Para aquele jovem acidentado, no entanto, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É fato que suas habilidades básicas lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.

Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em concentrar-se. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".

Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância. Mas rapidamente tornou-se mais que isso; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Eu, que só o via por meio de meu antigo colega de escola, passei a, eventualmente, visitá-lo. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado (dava vontade de chorar quando eu o via sem sequer conseguir se levantar após umas poucas doses). Mas ele ainda bebia às escondidas. Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.

O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A ele obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom amigo.

Então, senti saudades.

Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa - o meu espanto, meu arrepio, meu sobressalto, e o retorno daquela vontade de chorar - quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...

Esse cara estragou a sua vida, pensei, ao desligar mecanicamente o telefone. Mas isso era besteira. Era julgamento. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Ele apenas estragou á sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a minha avó - minha avó não, avó da minha irmã... uma senhora de setenta que literalmente negou até a morte qualquer possibilidade de eu ser sangue de seu sangue. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. Mais uma vez, segureia as lágrimas por ele. Bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar, pobre homem. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, como a senhora minha mãe, que vive por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.

E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.

Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.

Mais uma vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.


Com o pensamento em Adelmário de Souza Matos

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A Primeira Noite

Já eram 23h e tantos e ele ainda não sabia para onde ir aquela noite. O Centro da Cidade estava esvaziado, e só se fazia presente a incômoda fetidez de mijo e cerveja que toma conta do lugar à noite. Embora a hora denotasse que já estava ficando tarde, parecia-lhe que muita coisa ainda aconteceria nos instantes seguintes. Mas ele não queria passar aquela noite na rua. Quisesse ou não, ela tinha algo de emblemático, de simbólico.

Depois de vaguear ante as pequenas lojinhas das ruas-beco que se acotovelam entre as principais vias da Cidade Alta, encontrou um hotel asqueroso, mas que oferecia a comodidade pela qual poderia pagar. "Ao menos uma TV ou um radinho deve ter", imaginou, consolando a si mesmo. O salão do hotel, com um balconista e outros quatro caras ao redor de uma mesa jogando cartas, era uma ebriedade só, e lhe trazia à sua memória os filmes vagabundos aos quais costumava assistir na infância - aquele lado escuro da vida, que nunca pensou em experimentar de fato. No entanto, o tempo corria e ele não estava chegado a reflexões. Pegou a primeira chave que o estonteado atendente lhe oferecera e foi ter com o primeiro quarto desconhecido que o acolheria. Lá, nada de radinho ou TV. Apenas uns beliches sujos, quase nenhum com estofado. Da janela, que ficava a dois andares do chão, o que dava uns dez metros de altura, contemplava a decadência dos muitos mendigos, entorpecidos nas calçadas pequenas daquelas ruelas. A maioria das pessoas agradeceria por ter uma cama para dormir, ele pensou. "Sou um ingrato filho-da-puta".

Durante toda a vida, esperou por aquela noite. Contudo, não imaginava que passaria como um mundano, num hotel nojento qualquer. Não chegou a chorar; e se o fizesse não seria por saudades nem por desesperança. Aconchegou-se da forma que pôde, e, pela noite, leu um livro de Cassady, mais um jovem inconseqüente doutros tempos que o ensinara a desprezar a boa-vida que recebera até ali. Não agüentava o tormento daquelas horas e retirou da mochila uma garrafa de vinho pela metade, que o ajudaria a se aquecer e divagar o restante da madrugada, bem percebendo que estava longe de sentir sono. A certo instante, somente quando precisou do toalete, foi que ele entendeu que não estava num suíte - não havia suítes ali, afinal. Caminhou até o fundo do corredor, mas o pouco de dignidade que guardava (que frescura, ó céus!) o impedia de usar o banheiro coletivo repugnante que era dividido entre todos os hóspedes do andar, composto de bêbados, prostitutas e, ocasionalmente, um ou outro adolescente fugidio, "igual a você", conforme lhe dissera um dos embriagados que conhecera na entrada.

Tudo se passou num misto de alegria e tristeza - mas uma tristeza jubilosa, quase uma constatação de que estava vivendo um lado mais sincero e honesto da vida, tal como ela deveria ser de verdade no seu imaginário. Estava, no fim das contas, satisfeito. Nos vinte anos anteriores, fora sempre tido como um sujeito esquisito e ermo, mas os adjetivos inglórios até então recebidos pouco significavam agora. Já não pensava mais em nada depois de alguns tragos de vinho, quando reparou num crucifixo que ornamentava, solitário, uma das paredes do quarto, entre rabiscos de caneta outrora traçados por hóspedes canalhas e metidos a poetas. "Deus, aprendi com você a ser um errante", foi o que disse. Ou parece que disse, não tinha certeza.

Sua paz acabou quando bateram na porta, às 4h e tantas, enquanto filetes de luz matinal já começavam a iluminar o ordinário ambiente. Embora ele estivesse acordado, estava absorto demais para ter consciência disso. Estava drogado, diriam, como sempre disseram, os lugares-comuns que povoaram sua vida. Mas enfim percebeu que havia mesmo alguém forçando a porta no corredor. Quem seria? Ele não imaginava. Bem poderia se tratar de apenas um beberrão tentando entrar no quarto errado, ou até um serviço de quarto, mas isto ele sabia que não havia naquele antro. Talvez alguém que, após alguma procura, descobrira o seu paradeiro. Tentou não dar muita atenção, entretanto as batidas não cessaram. Até que, num dado momento, sem entender muito bem o porquê e sem que se preocupasse com motivos ou razões, desceu-lhe uma minúscula lágrima pelo rosto, e um sorriso indolente desestatuou seus lábios. Pegou uma caneta que tinha no bolso para pôr uma sentença na parede, como tantas outras que já estavam ali expostas. Ele se viu quase completamente sem o controle dos próprios nervos, e, com muito esforço, escreveu: É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida. Dito isto, não tinha muito mais a fazer. Então se dirigiu à janela. É bem verdade que dez metros nem sempre chegam a ser fatais, mas ele estava decidido a pular de cabeça para baixo, para não ter muitas chances. "Nunca tive segundas chances", pensou, no fim. "Seria muita ironia se tivesse agora".