terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Da carência feminina

Publicado originalmente na terceira edição da
revista
Tá na Cara!, de novembro de 2009.

Houve um cara que disse que fazemos parte de uma geração criada por mulheres. E lançou o questionamento: será de uma outra mulher que precisamos?

Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.

Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.

Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.

Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.

Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.

Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.

Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.

Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.

Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?

Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.

Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?

Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.

E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.

E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.

No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.

Eles nunca as procuravam.