É muito fácil parecer moderno,
enquanto se é, na verdade, o maior idiota jamais nascido.
Charles Bukowski
enquanto se é, na verdade, o maior idiota jamais nascido.
Charles Bukowski
Como um sujeito bem Século XX, eu me prostei diante da TV ao modo de quem espera que ela ofereça respostas, feito uma divindade moderna e literalmente antenada com os novos tempos. Na tela plana, o meu programa de entrevistas favorito - Provocações - aproximava-se do fim, e, como marca desse momento de clímax, perguntou o entrevistador a mais um intrépido convidado:
- Que é a vida?
A resposta não se deu imediatamente... fez-se um silêncio; jogou-se um sorrisinho discreto, o olhar se perde no alto. Como se não houvesse nada melhor a dizer, eis a resposta, que veio pausada e reticentemente:
- Até hoje estou tentando entender...
Eu decidi desligar a TV, e com isso perdi o poema que fecha o programa. Mas de que servia o poema? O momento mais importante da entrevista, aquele que poderia oferecer a chave da questão - o que é a vida? -, passou, e, na minha cabeça, foi novamente decepcionante. Mais uma vez, para mim que tanto penso no que é a vida, não tive nenhuma ajuda na resposta desses personagens que semanalmente fogem da mesma pergunta com palavreados vazios travestidos com um ar intelectualizado, experimentado.
Que hão de responder sobre a vida, afinal, aqueles que perdem o tempo apenas a vivê-la, sem nem questioná-la? Acho que por nunca se perguntarem é que nunca têm a resposta. Todas as vezes em que assisto ao programa e vejo a pergunta sendo feita, respondo, espontaneamente, e sempre uma resposta diferente, como se a inquirição tivesse sido feita para mim. Mas não é. Na verdade, ando tão desacostumado a responder perguntas, coisa que somente faço nas salas de aulas para os alunos - que me perguntam repetidamente de quantos pontos estão precisando para passar -, que até demoro a responder quando a moça da padaria ou o garçom do botequim perguntam se desejo algo mais; eu sempre penso em dizer que sim, que desejo bastantes coisas mais!, mas certamente as tais coisas não se encontrariam nas prateleiras nem nos cardápios.
Como não conseguia dormir desde a hora do programa até essa alta madrugada de frio e de chuva forte, decidi sentar e dissertar mil coisas a respeito da vida, mas na medida em que pensava, o ritmo da escrita diminuía numa constante gradação. Os poetas chinfrins gostam de dizer que a vida não pode ser explicada, e não talvez não seja possível mesmo. Não posso, nesse quarto, tecer respostas sobre ela quando noutros tantos quartos escuros muitos ainda mais vividos que eu não conseguiram encontrá-la, como Hemingway, que talvez só a tenha obtido no nanossegundo imediatamente anterior àquele em que sua bala estourava seus próprios miolos, ou como o Fante, que de tanto viver num quarto escuro, passou a ver escura toda a vida quando a cegueira o engoliu.
Lembro-me de quando trabalhei numa peixaria, carregando nas costas pesados pacotes cheios, sempre ansioso por ver terminar aquele expediente maldito, que parecia eterno. Não bastasse o desconforto do peso que carregava, tinha ainda que aturar as ladainhas da rapaziada que trabalhava comigo. Homens másculos e falantes demais, todos sempre com um sorriso despojado enquanto o cigarro pende no canto da boca, sempre xingando a uns e a outros - eu sempre na lista de alvos primordiais - e eu sempre na minha, com ódio de todos eles, da minha família, de Deus e do mundo. Uma vez, um desses sujeitos, o Alverga, disse para mim:
- Você não vai com a nossa cara, seu merdinha. Mas foda-se. A vida é assim, e você terá que suportá-la.
Não durei nem um mês completo na peixaria. Mas o temor daquela vida de merda ainda me acompanhou durante muito tempo - na verdade, ainda está por aí.
Eu sempre achei tão vagas essas percepções que se costuma ter da vida, essas coisas que sempre vêm à mente quando pensamos nos colegas ou parentes que se foram por acidentes diversos ou por inconsequências babacas, nos aperreios acumulados na vida escolar, familiar, nas caminhadas noturnas pela Cidade Alta, completamente vazia e tomada por vagabundos andarilhos, nas noites passadas em banheiros trancados, ainda ouvindo do outro lado da porta a soturna música do The Cure, que hoje já não me significa muito; essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo. Para fugir, por ora, dessa atmosfera nada positiva que me persegue, só mesmo tentando dormir, e mais uma vez retardar a reflexão que me levará àquela resposta definitiva...