segunda-feira, 30 de março de 2009

Passeio pelo lado selvagem

Estava passando de moto em frente a uma borracharia que tem na Rua Auris Coelho, logo em frente a uma grande praça, meio descuidada mas até agradável, e decidi dar uma parada. Sentei-me num dos bancos, ao lado de uma banca de revista fechada, e fiquei fitando a borracharia. Próximo à praça, havia um Batalhão do Exército, também o observei um pouco, a sua arquitetura rígida militar, o sentinela que ficava na portaria de armas em punho fixamente, durante horas e horas. Atrás de mim, no parquinho infantil que havia na praça, ouvia vozes de meninas de sete anos que brincavam no escorrego.

Lembrei-me de outra vez que estive sentado naquele mesmo banco, só que a lembrança não era tão bucólica quanto o momento que eu agora vivia. Ocorreu numa madrugada distante. Estava bêbado nessa madrugada, vinha de uma festa pilotando uma moto, carregado de muito uísque na cabeça, alucinado, completamente louco, sem a menor carga de noção e em altíssima velocidade. Não sentia vento no corpo, não sentia frio nem cansaço, só sentia o desejo de correr, na minha pouca lucidez. Já sofri vários acidentes de moto, a maioria deles acidentes bobos, mas sem dúvida o momento em que estive mais suscetível a um acidente fatal foi nesse dia, que se deu alguns anos atrás, não muitos. Meu desvario completo ia passando na medida em que eu perseguia o nada a bordo de duas rodas a mais de 100 por hora numa via urbana, rompendo sinais vermelhos, pensando que a cidade era minha às quatro da madrugada, cantando, gritando.

Eu não tenho saudades dessa época, eu barbarizava, mas não sinto saudades, porque eu sabia que não ia me dar bem, bastava lembrar dos caras com quem dividia as aventuras, e eu me lembro de dois em especial, dois cocainômanos inveterados: um deles era o negrinho Josias que morava no bairro de Mãe Luiza, uma vez levou um tiro quando foi comprar uma sacolinha de pó no bairro de Petrópolis e não sabia o código, existia um código pra poder comprar o papelote, se você não soubesse estava condenado, mesmo que fosse uma cara conhecida. E ele era sim, uma cara muito conhecida. Josias era o cara que trazia todas as merdas ilícitas para maníacos covardes como eu, que gostavam e precisavam disso, mas nunca iam ao comércio negro, só em último caso. Josias sobreviveu, mas não sei mais por onde anda. Lembro-me também do Eric, um mauricinho que era amigo dos caras do morro, com quem eu me encontrava pra falar merda e fazer música, chegamos a montar uma banda que durou vários meses, mas ele foi mandado embora pro Rio Grande do Sul pelos pais, pra livrar-se de nossas más influências, antes que virasse mais um nas estatísticas de drogas e morte. Antes disso, porém, ele sofreria um acidente de carro, e por muito pouco não perderia a voz. Nenhum de nós, porém, ascendeu para além do que esperava, e nunca nos ligamos mesmo muito nisso. De que serviria? Não lembro quem foi que escreveu que, no nosso século, o "grande homem" pode, ao mesmo tempo, ser uma boa besta. Por que se importar muito então? Assim, ficávamos nessas aventuras malditas, pensando que éramos personagens das canções marginais de Lou Reed, envolvidos em viagens depressivas que em nada lembravam os paraísos artificiais baudelaireanos, sempre cheirando e sempre bebendo, e isso é foda, lembro-me de um velho amigo, que já esteve à beira de uma overdose, que dizia que cocaína e álcool são realmente o casal perfeito, duas drogas que se merecem.

Mas eu agora estava sozinho, não tinha mais amigos nesse meio, mas continuava fazendo merda, conheci depois uns malucos no movimento estudantil, mas eles eram uns tolos que fumavam maconha pra ficar estereotipado, nunca me senti bem nessa coisa de colocar na testa "sou drogado", além do que nunca usava drogas em grupo, no máximo na companhia do Josias e do Eric, e então gradativamente fui abandonando tudo, embora vez ou outra ainda enchesse a cara e cometesse loucuras como essa de voar pela cidade no meio da madrugada me achando dono do mundo. Nesse meu delírio a mais de 100 por hora, meus sentidos logo começariam a adormecer, então eu dei um pequeno cochilo, coisa de três segundos apenas, mas quando dei por mim já estava derrapando na estrada, com os dois pneus furados; eu provavelmente havia invadido algum meio-fio por um instante, ou passado por cima de várias tartarugas, aqueles troços fincados no chão que servem de divisória de uma rua para outra, e mesmo no aperreio do deslize e na lentidão de meus reflexos, tentei recuperar o controle da moto, sem sucesso, até que, depois de vários metros deslizando, enfim caí, com a sorte de que já havia perdido bastante velocidade e não me restaram nada mais que alguns arranhões e um deslocamento no braço, além do que, como não havia mais ninguém na estrada, não havia maiores riscos em levar uma relativamente pequena queda naquele chão frio da BR 101, vez que não passaria outro veículo pelo menos nos cinco minutos seguintes...

Eu me lembrei dessa ocasião porque isso ocorreu justo perto da borracharia a que me referia, e foi até ela que empurrei a moto com o sangue quase gelado descendo por dentro da calça suja, e aguardei até que o estabelecimento abrisse, e demorou muito para abrir. Quando me sentei no banco da praça, o céu ainda começava a ver seus primeiros filetes de luz, então logo adormeci. Eu acordaria às 10 da manhã, bem encardido, e foi justo quando a borracharia estava abrindo. Depois que os pneus foram remendados me mandei pra casa, eu permanecia bêbado, porém estava bastante mais precavido, senti-me muito mal o dia todo, vomitei pra caramba na privada, e lá mesmo no banheiro eu fiquei por um bom tempo, não comi nada nesse dia nem nos três seguintes, fiquei muito fraco, porque estava com medo, ainda que eu suspeitasse que meu fim se daria assim mesmo, estatelado numa autoestrada, provavelmente com partes do meu corpo jogadas de lado a lado da avenida.

De qualquer modo, depois dessa ocasião relevei mais certas coisas, nunca mais saí para festas afins, e em raras vezes eu bebo qualquer coisa fora de casa, aliás, tenho passado mais tempo em minha casa que em qualquer outro lugar, coisa que não me ocorria há pelo menos dez anos, e isso tem sido muito bom, tenho gostado de passar menos tempo correndo atrás de outras coisas. Os vícios do passado não se foram, não fiz maiores autocríticas porque nunca mudei efetivamente a visão que eu tinha do mundo, hoje meus hábitos são mais caseiros, mas meus gostos são os mesmos de anos atrás.

E todos esses pensamentos se misturavam na minha cabeça enquanto eu ainda estava sentado no banco da praça, ao lado da revistaria que permanecia fechada, tomado de um sentimento de comiseração comigo mesmo. A essa altura, as meninas de sete anos ainda brincavam no parquinho, o sentinela permanecia fixo no seu lugar. Apesar de ainda ser cedo, umas três da tarde de domingo, comecei a sentir um pouco de dormência, decidi que tiraria uma soneca por ali mesmo, e eu continuava pensando, a vida não é tão boa assim, mas acho que ainda não é o momento de ir embora. Pela segunda vez, adormeci no mesmo lugar.



segunda-feira, 16 de março de 2009

Sem gosto de despedida

Já estava no fim da tarde, e eu estava deitado no sofá dividindo minha atenção entre o cochilo e a TV ligada no modo silencioso, quando escutei alguém me chamando lá fora, uma voz feminina, e me espantei porque raramente alguém me procura aqui, essa casa só tem algum tipo de movimento quando a minha mãe aparece, e isso ocorre com mais frequência nos domingos. Eu olhei pela janela do quarto e vi que era Cinthia, uma ex-namorada, e disse que poderia entrar, que o portão estava aberto.

Não, não está aberto, foi o que ela disse.

Que merda, pensei.

Eu estava encardido, não havia tomado banho ainda e vestia a mesma roupa do dia anterior, porque nesses tempos eu não faço nada, estou de férias das escolas onde dou aula e da faculdade, passo o dia bebericando, escrevendo, e comendo pão ou biscoito recheado, no máximo peço alguma comida pelo telefone.

Esperaí, falei, e lhe joguei a chave pela janela. Abre aí e entra, disse num grito, eu vou tomar um banho rápido.

Quando saí do banho, a Cinthia estava no sofá, lendo umas cartas que estavam jogadas na mesinha de centro. Eu recebo muitas cartas, porque nas últimas semanas estava participando de um grupo informal de trocas de correspondências, e não chegava a ser exatamente divertido, a maioria dos correspondentes eram mulheres carentes de meia-idade que tentavam nos enganar e se enganar dizendo que queriam apenas amizade, mas era bacana se corresponder, de modo que eu passava o dia lendo e escrevendo cartas, escrevia em média catorze nos últimos dias. Expliquei essas coisas a Cinthia e ela achou tudo isso uma grande bobagem.

A razão de sua visita era para fazer um pedido. Ela estava terminando o curso de Turismo, estava no relatório final, dissertação, TCC, ou algo assim, e me pediu para ajudá-la. Faltavam apenas três semanas e ela só tinha esboços do que queria fazer, e – como nos seus primeiros anos de curso, quando nos conhecemos – pediu que eu a ajudasse de alguma maneira.

Cinthia era uma ex-namorada por quem eu mantinha não somente uma grande consideração, mas um respeito pleno. Ela sempre fora a minha meta inalcançável. O meu ponto fraco. Por ela, eu não era apenas apaixonado, era obcecado, era viciado. Talvez isso, de lado a lado, gerasse o clima de turbulência que era constante entre nós. A vitalidade e a personalidade forte que eu via nela e que se mesclava com sua meiguice, nunca vi jamais em qualquer outra garota, quase todas com quem estive se reduzia a paparicações, passividade e voz extremamente aguda e recatada, e eu pensava nisso mesmo agora, depois dois anos que passamos distantes, e que eu sequer a beijava, pois ela já estava em outra, com outras metas, agora era uma moça evangélica, microempresária, e já próxima de noivar. Mesmo com tudo isso, ela ainda era presença constante em meus pensamentos, de maneira que eu continuava a sentir seu corpo, seus lábios, seu calor em qualquer outra garota com quem eu estivesse depois dela. Isso, no início, era um grande tormento para mim, mas depois de algum tempo já me faria estar conformado: eu estaria sempre acompanhado do fantasma dessa garota, marcado pelo seu estigma. E pra ser sincero, não achava uma má idéia.

Então passei a ajudá-la na pesquisa nesse dia, em que ela ficou umas quatro horas, e no dia seguinte, quando ela voltou. A Cinthia tinha meu endereço há anos, mas nunca me havia visitado, o que me surpreendeu bastante. E eu nunca tive muito em casa para oferecer, e estavam o quarto e a cozinha bagunçados e empoeirados. Era engraçado eu tentando arrumar rapidamente alguma coisa da maneira que desse. Ia comprar um refrigerante e preparar uma comida, talvez um macarrão, pra ser simpático, porque eu só tinha água e conhaque em casa, talvez uns camarões empanados, pré-prontos, mas ela disse que não precisava.

O projeto que ela elaborara previa também uma viagem, da qual ela havia aberto mão, por não lhe ser viável, mas eu ofereci a idéia de irmos juntos, afinal eu tinha na época uma pequena moto, era uma Biz, bem modesta, mas certamente a levaria aos lugares que são seu objeto de estudo: algumas cidades parcamente visitadas do interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Ela aceitou a ideia e dentro em uma semana, saímos para passar dois dias viajando pelos quinhões sertanejos que ficam aqui do lado. E enquanto viajávamos, visitávamos os locais e ela fazia o seu estudo, e eu apenas permanecia contemplativo, só quebrando o galho em alguns momentos, e redescobri dois prazeres, que eram a companhia da Cinthia e o deleite de uma viagem de moto, sentindo o vento no corpo, ver a estrada e as paisagens e tudo o mais que houver ficando para trás.

Passamos duas noites na mesma pousada. Na primeira, ainda como viagem de ida, conversamos bastante, relembramos fatos de nosso passado, e as coisas que vivemos quando já estávamos distantes um do outro.

Você não mudou nada, era o que mais se ouvia dos dois lados.

Apesar de estarmos nos dando bem nessa viagem, a cada momento ela dava um jeito de lembrar que não havia mais possibilidade para nós dois. Ela gostava agora de se dedicar a algumas coisas de sua igreja, já estava se estabilizando e contava várias coisas da loja de roupas que havia montado, que eu simpaticamente disse que conheceria no futuro, e de seu namorado, um detetive particular. Eu lhe contava que agora dava aulas, tinha uma revista, mas ela não se interessou muito, lembrou que quando namorávamos eu já escrevia mal e porcamente. Talvez não estivesse errada - relendo algumas coisas da época, eu mesmo concordo -, mas ela também nunca fora eficiente nos seus projetos; a loja não era o primeiro.

Na mesma pousada, no dia seguinte, quando já fazíamos trajeto de volta, não conversamos muito. Ela foi dormir rápido, se dizia cansada, mas bem. Eu até pensei que ela talvez quisesse romancear um pouco tudo aquilo. Que tal se aproveitássemos essa noite?, lhe perguntei. Ela deu um sorrisinho irônico e foi se deitar sem responder, e isso me lembrou a época em que namorávamos. Ela sempre teve uma personalidade muito forte, e eu também sempre fui de convivência difícil, e, como foi dito, frequentemente nosso relacionamento era acompanhado de momentos de tensão. Cada um tentava se impor sobre o outro, não era uma relação com mandante. De qualquer modo, na nossa rivalidade existia uma parceria involuntária, uma cumplicidade, um duobanditismo. Agora, muitos meses depois, éramos os mesmos, mas ninguém tomava postura sobre o outro, estávamos cada um na sua, mais assépticos, mais vazios, menos personalistas - nossa cumplicidade hoje se resumia a troca de gentilezas, transformamo-nos naquilo de que sempre tínhamos medo de nos tornar. Isso me deixou meio puto na hora, mas eu relevei, porque não sou do tipo que tenta deixar as coisas pra trás, que tenta esquecer o passado achando ser a melhor solução. Gosto demais da minha vida, em todos os seus impropérios, pra tentar apagar um minuto que seja da memória. Eu sabia que esses momentos seriam os últimos que passaríamos juntos - e era melhor que fossem mesmo -, mas mesmo assim eu o notava mais como reencontro que como despedida. Foi acompanhado dessas divagações que, enquanto ela se dirigia à cama em silêncio, eu ia dar uma volta pelas ruas escuras, até comprar umas cervejas em lata no posto de gasolina mais próximo e bebê-las solitário num ponto de ônibus com a boca franzida feito um bebê chorão.





Depois desse dia, só tive chance de revê-la na sua apresentação, que foi aprovada com louvor. E eu raramente fico orgulhoso por alguém, mas fiquei muito por ela. A Cinthia havia me marcado tanto, e mesmo que estudássemos no mesmo lugar já não nos víamos mais, porque ela estudava pela manhã e eu à noite. E quando eu pensava nela antes da sua visita-surpresa, a única coisa que eu desejava era poder participar de sua vida uma última vez, participar de algo que lhe fosse importante. E eu consegui, mesmo não tendo oportunidade para algo como um novo último beijo, mas ainda assim me senti contemplado.

Dias depois, eu comprei uma moto nova, para fazer reviver em mim o desejo de pegar a estrada – mas dessa vez, sem companhia.

Assisti à sua formatura, mas não me demorei muito tempo na cerimônia e saí sem cumprimentá-la. Sabia que era a última vez que a veria e não queria estender tanto aquele martírio, eu já estava bastante desconfortável, suado. Sentia o calor de sempre, o calor dessas ocasiões, porém mesmo esse calor insuportável não abranda o frio da alma. Fui para o Bar do Caixão, que ficava do outro lado da avenida, e passei ali as quatro horas seguintes enfiando goela abaixo uma cerveja atrás da outra. Eu me mantinha com o olhar fixado na bebida, observando o lúpulo que subia em minúcias e fazia um pequeno borbulhar no topo do copo, enquanto resmungava Cinthia... Cinthia... Cinthia... bem baixo, tão baixo que se houvesse mais alguém na minha mesa não escutaria.



sábado, 7 de março de 2009

Sobre nós e sobre os outros

Eu recebi hoje um email de um conhecido dos tempos de colégio, estava anexado com umas fotos recentes de Rodrigo, um dos caras mais arruaceiros que já conheci, quando nos falamos a primeira vez devíamos ter uns 13 anos, e mantivemos contato pelos três ou quatro seguintes. Depois que nos distanciamos, só tive notícias suas em dois momentos: um foi quando ele passou uma semana preso por estar empossado de umas muambas, que, como se não bastasse, eram roubadas; o outro momento foi agora, através dessas fotos. No corpo da mensagem, o remetente tentava convencer a mim e aos outros três ou quatro destinatários a abrir as imagens.

EI AMIGOS VEJAM O QUE ACONTECEU COM O VENTA
HAHAHAHAHA QUEM SABE ELE APRENDE
SAUDADES

Eu não tinha entendido, só entendi quando vi as fotos. Rodrigo estava acabado, havia sofrido um acidente de carro e era só cacos, com lesões que iam desde pequenos arranhões na bochecha até uma fratura horrível nos metatarsos que o impediria até de colocar o pé no chão por um tempo, mas estava vivo, e chegava até a sorrir em uma das sete fotografias, fazendo um sinal com as mãos.

Eu pensei em responder a mensagem pedindo algum contato do Rodrigo, telefone ou coisa assim, mas deixei pra lá. Ele provavelmente não se lembrava de nenhum de seus colegas do tempo da escola, sabia que no máximo era motivo de chacota para alguns que o chamavam de "venta", e eu nem sabia que ele tinha esse apelido.

Isso tudo na verdade era só algum passatempo na madrugada. Não havia mais nada a fazer, e eu não tinha sono. Não tinha bebida em casa, nem comida. Tomei banho pra passar o tempo, mas isso só me fez pior, porque a água daqui tem muito cloro, e eu sou meio alérgico, sei lá, não sei se é possível ser meio alérgico, mas o fato é que passei vinte e cinco minutos no banho, às três da manhã, e quando saí o meu corpo era só pruridos. Eu demoraria mais no banho - enquanto estou embaixo d'água, nada sinto -, mas escutei o celular apitando, era uma mensagem que havia chegado. Eu pensava quem me escreveria algo a essa hora?, e sabia que havia grande possibilidade de ser uma mensagem automática da operadora lembrando-me de minhas dívidas. Mas não, não era uma mensagem automática, era uma mensagem de um amigo chamado Silas, perdido num apartamento de alguma garota fácil dessa cidade. Ele dizia:

CARA LEMBRA QUANDO VOCE ESTAVA MAL COM AQUELA GAROTA POIS EH AGORA ESTOU ME SENTINDO ASSIM TAMBEM LIGA PRA MIM VAMO CONVERSAR.

Fiquei matutando sobre o porquê de ele fazer a referência a um momento em que eu estava mal, sobretudo com "aquela garota". O que tinha a ver? Será que ele imaginava que eu só lhe daria atenção se houvesse um peso que me obrigasse a isso? De qualquer maneira, de nada adiantaria pensar nessas coisas, porque eu não tinha mesmo condição para lhe telefonar, e fiquei mal por isso. De fato, Silas tinha quebrado um bom galho noutros momentos, e agora eu não poderia retribuir o amparo, que babaca que sou, eu pensava de mim mesmo, mas o que poderia fazer?

Decidi matar o tempo com alguma leitura, embora não estivesse muito a fim. Dei uma olhada na estante e peguei rápido um livro qualquer que fosse, o quarto estava escuro ainda, de maneira que eu não sabia que livro tinha pego. Só depois que acendi, vi que havia sido um do Jack Kerouac. Eu achei que seria bom para adormecer, porque Kerouac é um dos tipos que me ajudam a escrever, quando quero escrever, que me ajudam a dormir, quando quero dormir, e me ajudam a passar o tempo, quando quero apenas passar o tempo, no ônibus, por exemplo.

Ela é uma garota bonita demais. Eu me pergunto o que todos os meus amigos iam dizer... e o que aconteceria em Nola quando você a visse... sob o sol quente, ela de óculos escuros e um andar preguiçoso... Ela fala de um jeito parecido com minha velha tia franco-canadense lá de Lawrence. "Não quero su moa-ny, o que quero é yur loave." Loave, amor. "És yur lawv." Lawv, lei. Acontece a mesma coisa com Tristessa, que tá o tempo todo tão doidona, passando mal. Ela se aplica 10g de morfina sempre, e sai cambaleando pelas ruas da cidade tão bela, e seus olhos reluzem e seu rosto está úmido com o sereno...

Essa Tristessa é muito louca, muito intensa, eu pensei, e censurei a mim mesmo por ter pensado isso, porque é o que faço todas as vezes, penso demais enquanto leio esse livro, que leva o nome de sua protagonista, Tristessa, e é por meditar tanto nele que não consigo nunca lê-lo todo, mesmo sendo bem pequeno, nem pode ser chamado de livro, é um livreto que não custa nem 6 reais e fica jogado nessas seções de livros que só olha mesmo quem não tem dinheiro para comprar os best-sellers das outras estantes que custam dez vezes mais, embora seus conteúdos valham dez vezes menos. Fico aborrecido porque a leitura de Kerouac deveria ser feita como a escrita, de uma só vez, como o fiz em suas outras obras a que tive acesso. Em se tratando desta, porém, deve haver algo de errado, ou com ela ou comigo. Só sei que sempre que a tomo em mãos, eu parto da primeira linha, e precisaria de um dia inteiro para chegar ao fim. Talvez seja uma forma inconsciente de eu não aceitar que essa história termine tão rápido, como fatalmente seria se fosse lida dum só lance. Decidi deixá-la de lado por uns instantes, fiquei a olhar para o nada e só então achei engraçado o fato de ter pego justo esse livro na estante, porque eu o comprei exatamente com uns trocados emprestados do Silas, que agora me pedia refúgio. Lembro que na ocasião da compra, estávamos num hipermercado, de bobeira, nem recordo o que estávamos buscando e vi esse livreto. O pior é que não tinha nem 6 reais no bolso, eu devia ter 4 reais ou menos, e lhe pedi o restante.

Não tenho, mas peraí, disse o Silas, e saiu, enquanto fiquei folheando outros livros, e em menos de dez minutos ele voltava com a parcela que faltava, em umas dez moedas de 25 centavos.

O que você fez?, perguntei.

O que você acha que fiz? Eu saí pedindo, é claro, foi o que me disse. Vai aceitar ou não?

Aceitei.

Era curioso que ele agora estivesse nessa situação, porque no dia anterior estávamos conversando, eu, ele e mais três amigos, num barzinho pequeno, próximo à escola onde dou aulas, e tanto o Silas como os outros falavam alto sobre as garotas que comeram neste último carnaval, mas o papo não fazia muito sentido pra mim, porque não participei dessa farra licensiosa do carnaval, embora já tenha usufruído dela noutros tempos. É só que agora não tenho mais interesse porque nem meu ânimo é o mesmo, hoje acho que não tenho sequer condições para transar mais de uma vez por semestre, e olhe lá, sem repetições.

Você fala como um velho impotente, disse-me uma garota dia desses.

Você é uma decepção, disse outra, menos de 48 horas depois.

Para as duas eu apenas sorri e mudei de assunto.



terça-feira, 3 de março de 2009

O Literatura Vil ocasionalmente recebe selos de blogs amigos que reconhecem a qualidade do trabalho aqui exposto, composto de acordo com a minha capacidade, porém abaixo da minha infinita pretensão.

O blog não tem restrições quanto a selos - como a recusa automática a expô-los, por exemplo -, porém, como eu mesmo já comentei a algumas pessoas que mos ofertaram, sou um blogueiro ali dos tempos distantes, fiz meu primeiro blog há cinco anos, era um período em que a blogosfera estava em refluxo (os blogueiros mais antigos hão de concordar), ou seja, era uma fase em que escrever em blogs era o suprassumo da marginalidade cibernética - realidade que mudaria de 2007 em diante, quando tivemos uma nova guinada, e hoje temos um novo e produtivo cenário (uma mostra disso podem conferir nos blogs linkados no menu).

Desse modo, ainda que seja saboroso o hábito de visitar e comentar postagens de outros blogs, o processo de interação que tenho para com eles (e para com o mundo dos blogs em geral) é quase zero: não participo de sites de blogs, nem de muitas campanhas existentes, não troco joguinhos, etc, senão muito ocasionalmente... Isso se dá porque, após anos postando em páginas solitárias e distante dessas atividades conjuntas, mantenho certa hesitação em me envolver nesses editos por não saber ainda lidar com eles. Portanto, selos, memes, brincadeiras e afins nunca me atraíram necessariamente. Sou um blogueiro amador, solitário e inquieto. Sempre fui.

Mas apesar disso tudo, não sou ingrato, agradeço a todos que me enviaram selos e os exporei abaixo. Apenas lamento o fato de não ter feito imediatamente após exposto pelos blogs que me indicaram. E peço desculpas, mas não postarei regras, nem os indicarei para outrem, porque a minha seleção de blogs é una - é aquela que, conforme já foi dito, está posta na coluna à direita. É isso.

O colega Italo Sena, do blog Quem Matou Osama, enviou-me este selo: "este blog é alegre e criativo: reflete entusiasmo e criatividade". Hmmm... Se ele diz, né, que assim seja. Ademais, acrescento: o blog Quem Matou Osama é um dos raros blogs de humor que conseguem me tirar algumas risadas... só não posto no menu lateral porque, sinceramente, não acho que tem nada a ver com o Literatura Vil... creio que a justificativa é mútua. Sucesso para o Italo!


A Dina, do Acorda Pra Vida, exclama que o Literatura Vil é um blog maneiro... Pois é, eu concordo, tanto que sou o autor e o principal leitor deste recinto! No mais, quem ainda não a conhece, não há porque perder tempo...


A Natalia, ou apenas Naty, do Sou Continente Perfeito, indicou o selo Literatura é Arte para este blog, motivo de orgulho para este que vos escreve. A Naty, que, obviamente, já havia sido indicada a receber este selo, sabe que seu reconhecimento também é merecido.

Recebi do blog O Instável Mundo da Juh o selo Meu Blog é um Encanto. Não dá nem margem pra comentário, só posso agradecer... o blog da Juh eu conheci dia desses, e, vá lá, é interessante. É um blog que tem um astral interessante, é reflexivo mas é algo bem pra cima... vale a visita.

A Mari Vilani, do Cantinho Misantrópico, enviou-me o selo Esse Blog me Faz Sorrir (a Juh também me enviou). Demorei para relembrar essa indicação, assim como as outras, mas sso não diz nada; gostei da indicação como gosto do blog da Mari; digo mais, Cantinho Misantrópico bem que poderia ser nome do Literatura Vil... acho que escolhi mal. Mas ela foi mais esperta e o catou primeiro.


Além destes selos, a Michele do blog Perscrutarei também me houvera enviando um meme (brincadeira) onde eu deveria listar seis coisas sobre mim. A Michele - e, salvo engano, a Naty também - é mineira, conterrânea de vários dos blogueiros e blogueiras que estão linkados pelo Literatura Vil (além de outros que visito). Terra boa é essa...

Eis as coisas sobre mim:

- Às vezes tenho preguiça de assistir aos jogos do meu time;
- Pelo menos metade dos blogs que visito não estão linkados aqui, nem por isso me são menos importantes;
- Meus textos são muito, mas muito influenciados pelos meus escritores favoritos;
- Eu não me importaria em ser limpador de vidraças no futuro se tivesse meu tempo livre para escrever;
- Tenho dois desejos: trocar uma prosa com Zé Ramalho e com Rubem Fonseca;
- Uma das coisas mais prazerosas que existe, a despeito do pensamento corrente, é dar aulas.

É isto. Agradeço a todos!


* * * * *

Fragmento

Achando a festa meio maçante, eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que olhava para a multidão, e voltava-me para o balcão. De repente, ao meu lado, senta-se uma menina e me causa um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa!, uma boneca!, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, manteve o olhar fixo em mim por míseros dois segundos, mas eu rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa longa história juntos, abri de modo bastante original a conversa:

Oi?

Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.