Aqui faz silêncio e ainda é Natal. A família se reuniu ontem, toda ela, na noite do dia 24. Estavam todos aqui em casa, disseram que era o melhor ponto de encontro. Minha mãe e minhas tias prepararam uns bolos e perus. Parentes e amigos dos familiares vieram, com lembretes, com ânsia de comer, com ânsia de beber. Para mim, isso tudo não significa muita coisa. De tanto não significar, passou rapidamente (ainda bem). Na manhã de hoje, 25, todos já tinham ido embora. Minha mãe e uma ou outra tia ficou para arrumar tudo aqui. Pela tarde, foram, elas tambêm, para suas respectivas casas. Fiquei eu aqui, sozinho, no quintal, atento a suas feituras, seu muro esburacado, observando as formigas caminhando, vindo lá de dentro da casa - provavelmente levando restos de bolo ou qualquer coisa assim para seus lares subterrâneos. Enquanto olho para elas, eu me lembro de outras formigas. Quando olho ao redor, é outro quintal que se ocupa de minha memória. Quando me dou conta de que dia é hoje - 25 de dezembro -, é uma outra data especial que me marca, para além do Natal.
O 25 de dezembro me faz lembrar um aniversário, para o qual eu me aprontava ano a ano, e era o único que me mobilizava a comprar algum presente por aí. Não que presente algum fosse necessário; não era. Era apenas um acessório a mais, mas naquela ocasião, fazia sentido.
O melhor de tudo, contudo, é quando eu me dirigia àquele quintal, que não é este em que me encontro agora. Ali sim era onde eu realmente me sentia aconchegado, por alguma oculta razão. Onde as melhores palavras estavam sempre no ar, mas não foram nunca pronunciadas. Fico me lembrando daquele quintal, do orvalho que havia ali, do cecém ali no canto da parede, no pouco espaço que restava ao gramado, das formigas no chão, que pareciam completamente donas do espaço.
Pensando agora, fica para mim a impressão de que, naquela época, era sempre de manhã.
Outra coisa que me lembro daquele quintal era aquela mesinha que o centralizava, sob um guarda-sol permanentemente aberto - e provavelmente achado no lixo, sei lá, mas que combinava de algum modo com o local - e com as quatro cadeiras que a cercavam (mas somente duas ficavam ocupadas, as outras ficavam livres). Não me lembro de vozes enquanto estava sentado ali; lembro-me apenas de respiração. As vozes existiam, eu as sentia, mas não as ouvia: a comunicação que existia naquele quintal era anterior à comunicação tradicional, falada. Mas era tudo muito claro e direto: naquele olhar que parecia feito ali naquele quintal, as palavras que não eram ditas pareciam visíveis como manchas negras sobre folhas de papel em branco.
Puxando na memória, agora, fico matutando aqui se ali passava o tempo. No período que frequentei aquele local de rara harmonia, tudo parecia estático como retrato. A dialética da natureza se percebia nas minúcias; o macro permanecia inalterado a olhos desavisados.
A dúvida não é à toa. E não é que faltassem ponteiros ou coisas assim. Elas estavam lá, nas paredes, girando incessantemente, feito os relógios comuns de braço, ou aqueles do alto das catedrais. É só que o tempo suplanta ponteiros e calendários, e só hoje sei disso: o tempo, eu diria, parece-se menos com o maquinário dependurado e mais com a parede lascada que o sustenta.
O tempo não cabe em maios nem em catedrais. Não cabe em fotos de calendários de farmácias (essas fotos, aliás, mostram o contrário: que os dias são todos iguais). Esse tempo de que falo está acima dos retratos de tempos dos quais talvez a minha companhia naquele quintal talvez já nem se lembre mais. É o mesmo tempo que enfrentamos todos, que dá poder a impérios ocultos, que dissolve as nossas manhãs, todas elas, uma a uma; só nos daremos conta disso no futuro, quando formos sujeitos velhos e amargurados.
Entre algumas últimas lembranças daquele quintal, fico pensando nos ingredientes que o montavam, entre insetos pequenos e clorofila, onde eu depositava as manhãs de um tempo estranho, que já era muito depois da infância, e naquela fase difícil de minha vida, aqueles ingredientes amorteciam-me das piores dores que pode viver um homem sem quaisquer perspectivas maiores, como eu estava naquele momento.
Aquele quintal, para mim, está agora misturado entre lamentos silenciosos, que devem estar pretendendo mudar sua feição, o seu caráter imutável, onde as laranjas não caiam do pé e as lagartas nunca se tornavam borboletas. Hoje posso dizer que ali o presente é apenas uma lembrança de como os gafanhotos solitários timidamente nos davam um alô enquanto assistíamos à dança das formigas bêbadas, perambulando pelo muro, e de como os cachorros também nunca dormiam à sombra daqueles cinamomos, e onde, perto dos arbustos, as flores ficavam abertas a vida inteira, por séculos adentro, quem sabe (eu não duvido).
Naquele recinto, será sempre de manhã. O sol sempre se portará imóvel, em um conforto inabalável; tão inabalável que eu fico feliz só de pensar que esse quintal por tanto tempo foi propriedade de uma pessoa só, uma pessoa que hoje não presenteio mais...
Fico, portanto, somente com essas lembranças daquele lugar no qual, eu sei, nunca haverá morte. Enquanto perdurar o silêncio que, até hoje, ali deve existir, todas as memórias hão de permanecer assim: imperturbáveis.
O 25 de dezembro me faz lembrar um aniversário, para o qual eu me aprontava ano a ano, e era o único que me mobilizava a comprar algum presente por aí. Não que presente algum fosse necessário; não era. Era apenas um acessório a mais, mas naquela ocasião, fazia sentido.
O melhor de tudo, contudo, é quando eu me dirigia àquele quintal, que não é este em que me encontro agora. Ali sim era onde eu realmente me sentia aconchegado, por alguma oculta razão. Onde as melhores palavras estavam sempre no ar, mas não foram nunca pronunciadas. Fico me lembrando daquele quintal, do orvalho que havia ali, do cecém ali no canto da parede, no pouco espaço que restava ao gramado, das formigas no chão, que pareciam completamente donas do espaço.
Pensando agora, fica para mim a impressão de que, naquela época, era sempre de manhã.
Outra coisa que me lembro daquele quintal era aquela mesinha que o centralizava, sob um guarda-sol permanentemente aberto - e provavelmente achado no lixo, sei lá, mas que combinava de algum modo com o local - e com as quatro cadeiras que a cercavam (mas somente duas ficavam ocupadas, as outras ficavam livres). Não me lembro de vozes enquanto estava sentado ali; lembro-me apenas de respiração. As vozes existiam, eu as sentia, mas não as ouvia: a comunicação que existia naquele quintal era anterior à comunicação tradicional, falada. Mas era tudo muito claro e direto: naquele olhar que parecia feito ali naquele quintal, as palavras que não eram ditas pareciam visíveis como manchas negras sobre folhas de papel em branco.
Puxando na memória, agora, fico matutando aqui se ali passava o tempo. No período que frequentei aquele local de rara harmonia, tudo parecia estático como retrato. A dialética da natureza se percebia nas minúcias; o macro permanecia inalterado a olhos desavisados.
A dúvida não é à toa. E não é que faltassem ponteiros ou coisas assim. Elas estavam lá, nas paredes, girando incessantemente, feito os relógios comuns de braço, ou aqueles do alto das catedrais. É só que o tempo suplanta ponteiros e calendários, e só hoje sei disso: o tempo, eu diria, parece-se menos com o maquinário dependurado e mais com a parede lascada que o sustenta.
O tempo não cabe em maios nem em catedrais. Não cabe em fotos de calendários de farmácias (essas fotos, aliás, mostram o contrário: que os dias são todos iguais). Esse tempo de que falo está acima dos retratos de tempos dos quais talvez a minha companhia naquele quintal talvez já nem se lembre mais. É o mesmo tempo que enfrentamos todos, que dá poder a impérios ocultos, que dissolve as nossas manhãs, todas elas, uma a uma; só nos daremos conta disso no futuro, quando formos sujeitos velhos e amargurados.
Entre algumas últimas lembranças daquele quintal, fico pensando nos ingredientes que o montavam, entre insetos pequenos e clorofila, onde eu depositava as manhãs de um tempo estranho, que já era muito depois da infância, e naquela fase difícil de minha vida, aqueles ingredientes amorteciam-me das piores dores que pode viver um homem sem quaisquer perspectivas maiores, como eu estava naquele momento.
Aquele quintal, para mim, está agora misturado entre lamentos silenciosos, que devem estar pretendendo mudar sua feição, o seu caráter imutável, onde as laranjas não caiam do pé e as lagartas nunca se tornavam borboletas. Hoje posso dizer que ali o presente é apenas uma lembrança de como os gafanhotos solitários timidamente nos davam um alô enquanto assistíamos à dança das formigas bêbadas, perambulando pelo muro, e de como os cachorros também nunca dormiam à sombra daqueles cinamomos, e onde, perto dos arbustos, as flores ficavam abertas a vida inteira, por séculos adentro, quem sabe (eu não duvido).
Naquele recinto, será sempre de manhã. O sol sempre se portará imóvel, em um conforto inabalável; tão inabalável que eu fico feliz só de pensar que esse quintal por tanto tempo foi propriedade de uma pessoa só, uma pessoa que hoje não presenteio mais...
Fico, portanto, somente com essas lembranças daquele lugar no qual, eu sei, nunca haverá morte. Enquanto perdurar o silêncio que, até hoje, ali deve existir, todas as memórias hão de permanecer assim: imperturbáveis.