quarta-feira, 29 de julho de 2009

Deve ser herança da adolescência

Hoje perdi quase trinta reais no pôquer. Não parece muito, e não é. Vejo alguns sujeitos desajeitados perderem muito mais do que isso no clube em que jogo. No meu caso, aliás, nem cheguei a perder todo o dinheiro no jogo. Perdi vinte reais jogando, gastei mais uns oito reais em cervejas. Não me incomodo. Perderia, e ocorre de até mesmo perder, muito mais que isso gastando com cinema, ou gastando com discos, ou gastando com garotas. Trinta reais, contudo, é um limite diário que gasto, ou costumo gastar. Já gastei mais, já torrei centenas de reais em um dia com qualquer coisa – tão sem importância que de nada me lembro, agora –, mas trinta reais é um limite que minha consciência, quando se dá conta, leva a cabo. Deve ser herança da adolescência, quando minha mãe me dava justo essa quantia, e era tudo.

É tão estranho o clima de meio de ano, porque vejo mais pessoas no clube de pôquer. Várias delas estão de férias, não estariam ali em outros dias, outros meses. Conseguem, sei lá, um mês para não fazer nada e vão perder o dinheiro que têm de sobra com qualquer bobagem. Eu não tenho férias no meio do ano, então pra mim o cotidiano e suas responsabilidades nunca mudam muito. Alguns que jogam comigo comemoram. Hoje o clube tá bombando!, dizem. Eu acho chato demais, e geralmente quando percebo isso vou embora.

Queria procurar um lugar para arejar a cabeça, mas não encontraria. Natal tem poquíssimos pontos que propiciam isso, tão poucos que não lembro de nenhum. Ainda eram três da tarde e, de tão longe de casa, preferi ficar na rua até cair a noite, quando iria pra faculdade fingir que assisto aula, e encheria o saco dos professores com coisas que eles deviam saber e não sabem. Mas demoro muito para pensar, tanto que logo cairia uma chuva pesada e eu fui pego desprevenido. Procurei um meio de não ficar ali na rua, me molhando, ou abrigado sob um posto de gasolina. Como, aliado à chuva, havia o fato de a bebida ter me enebriado um pouco, decidi deixar minha moto onde estava e pegar um ônibus, dar um arrodeio pela cidade. Depois de uma viagem de uma hora acho que já estaria mais sossegado. Gastei duas pratas na passagem, e isso zerou a minha carteira, pois havia saído com trinta reais de casa.

A viagem de ônibus durou exatamente uma hora, a chuva enfim houvera passado - ainda que alguns materiais que eu carregava tivessem se molhado antes que pudesse notar -, e desci na mesma parada em que tinha pego a condução.

Quando saltei, uma pessoa bem conhecida estava na parada e me viu e cumprimentou. Eu não sei o que penso agora, mas na hora achei que era melhor não ter descido ali.

Oi amigo!, tudo bem?

Era uma ex-namorada, que agora fazia questão de me chamar de amigo. Cumprimentei, sorri, perguntei como estava. Ela estava bem.

E você?, perguntou-me, automaticamente.

Conversamos algum tempo, e ela até tentava ser doce e simpática, mas não era esse seu jeito. Geralmente, tentava me deixar nervoso, e eu às vezes terminava fazendo a mesma coisa. Chamei-a para jogar no clube de pôquer. Ela gostava de jogar cartas, pelo menos antes de virar evangélica.

Não gosto de pôquer, nunca gostei.

Eu sei, mas o que custa aprender? Você sempre gostou de jogos de baralho.

Gostei de alguns, não de todos.

A sua voz bonita e carregada de um certo cansaço estava mais próxima daquela que me marcara no passado, de maneira que comecei a ficar mais à vontade – acho que ela também.

Você não tá trabalhando, né?, perguntou-me. Pra ficar jogando pôquer numa tarde de segunda-feira, só estando desocupado...

Na verdade, estou sim, mas sei lá, trabalho quando quero, dia sim, dia não, nunca fui afeito a trabalhos que exigem muita disciplina... expediente não é comigo...

Sei... disse, sarcasticamente, e completou: tenho pena dos seus alunos.

Você é um amor, falei.

Depois disso, ela pegou o primeiro ônibus que passou e se foi, sem dizer tchau e sem dar sequer um aperto de mão. Fiquei vendo-a subir meio apressadamente, e lembrando que no dia anterior eu estava com dois amigos bebendo e cantando no teto de um galpão do Centro de Convenções, sem ninguém por perto num raio de quilômetros, com toda a deslumbrante vista para a praia e para as coleções de luzes artificiais dos prédios e naturais das estrelas e da lua, e com tudo isso, era nessa garota que eu pensava, na vez que estivemos ali, anos atrás. Enquanto o ônibus ainda estava parado, até que ela sumisse completamente de minha vista não levaria nem dez segundos, mas eu ainda lhe dei um aceno e falei, de maneira que pudesse ouvir: vou escrever um conto sobre você!

Ela riu de dentro do ônibus; detestava meus contos, sempre detestou.

Já era fim de tarde e fui para faculdade e lá, no pátio largo, encontrei um amigo, estava chapado e observando os arredores. Sentei com ele e conversamos um pouco, ficamos olhando as garotas passando e alguns senis seguindo-as. Não tivemos muito tempo. Ele foi logo embora e fui para as aulas, que foram uma merda: hoje, perdi todos os debates. Estava com a retórica fragilizada pelo desânimo e toda aquela droga de turma se unira contra mim. Fui embora mais cedo, não fiquei para o último horário.

Antes de ir para casa, porém, passei na praia e fiquei em pé, olhando para o mar. O tempo estava bonito e eu tão sereno quanto. Havia um quiosque próximo, acompanhado de várias mesas, a maior parte delas ocupadas por casais. Observei um pouco, mas não comi nada, sequer sentei. Um dos casais, entretanto, era formado por velhos colegas, havíamos estudado juntos.

Sente-se aqui, venha!

Não, não, obrigado, respondi, depois de cumprimentá-los.

Venha, rapaz!, insistiam. Comecei a me arrepender de ter estado ali.

Uma vez que continuavam a me chamar, como se tivessem algo para dizer - mas não tinham nada, disso eu bem sabia -, precisei fingir que não os ouvia mais para que parassem.

Não durei nem meia hora e me despedi da orla. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi deitar na cama, ainda arrumado, e havia tirado apenas os sapatos. Da cama mesmo, eu ia tirando tudo: relógio, celular, a carteira eu ainda abri uma última vez, para confirmar que de fato não tinha nada. De um dos bolsos da calça, tirei um pendrive e uma caneta, e de outro que pensava não ter nada, puxei alguma quantia em dinheiro. Quinze reais, que eu não sabia que estavam ali. Fiquei um pouco espantado na hora. Espantado e aborrecido. Por um instante, pensei que deveria ter gastado tudo aquilo na mesa de pôquer, mais cedo. Mas fiz bem em não fazê-lo; já bastava de derrotas por hoje.



quinta-feira, 23 de julho de 2009

Na companhia do vazio

Não se preocupe com rejeições, parceiro.
Fumei 25 cigarros esta noite,
e você sabe sobre as cervejas.
O telefone tocou apenas uma vez:
era engano.


Charles Bukowski, O Amor é um Cão dos Diabos


Já fazia quarenta minutos que eu caminhava solicitando carona a todos que passavam protegidos em seus automóveis, mas ninguém me concedia. Era alta madrugada e eu estava um pouco embriagado, mas desejava chegar logo em casa, ou, pelo menos, encontrar algo que me fizesse minimamente confortável. Pouco antes, eu bebia com os colegas de faculdade até que fechasse o bar - na verdade, eu não esperava que fechasse, pois não tinha mais condução que me levasse até em casa, 20 quilômetros distante. Todos se foram, cada qual para seu lado, com as moradias próximas ao boteco, caronas e quetais. Eu poderia usar de minha moto, mas a havia deixado na manhã anterior num borracheiro; estava com o pneu furado e eu teria de suportar o peso de andar a pé e, quando necessário, recorrer ao ônibus - como já disse, porém, não havia mais esta possibilidade na hora em questão.

Vou ligar para alguém, pensei, mas para quem eu ligaria? Fiz uma tentativa.

Porra, é quase uma da manhã, disse meu interlocutor quase sem me deixar começar a falar, deixando claro que eu lhe interrompera o sono e desligou, não sem antes xingar minha mãe.

O meu celular ainda me oferecia uma lista de pelo menos 30 pessoas a quem eu poderia ligar. Mas eu sabia que delas nada conseguiria senão aborrecidas recusas. Conformei-me em vagar na madrugada, já sem pretensões de conseguir carona ou um refúgio qualquer. Foi quando vi uma lan 24h, e entrei. Pelo menos a internet poderia me entreter até que amanhecesse o dia, eu pensei, já que eu passei da fase de achar legal ficar dormindo na rua.

Naveguei um pouco na internet e, dentre os poucos indivíduos disponíveis para conversar àquela hora, me deparei com uma garota insone, uma colega da faculdade que recentemente conhecera. No decorrer do palavreado, ela se queixava de tantas coisas, entre as quais o tédio de estar sozinha em casa naquela madrugada. Então eu pensei, já que estava a não mais que meia hora da casa dela: seria legal se...

Papo vai e papo vem, ela sabia que eu estava por perto e me convidou para ir até sua residência, ao que imediatamente aceitei. Ainda que existisse um certo flerte entre a gente, a verdade é que eu aceitei o convite na melhor das intenções, afinal, só queria um lugar para dormir.

O fato é que, quando já estávamos ambos acomodados em sua casa, ainda conversamos um bocado, e como ela soubesse que eu havia bebido há pouco, por certo bateu-lhe também uma vontade de beber, pois logo me ofereceria algo.

Tem uma vodka ainda aqui, que tal bebermos um pouco?, perguntou-me.

Consenti prontamente.





Duas horas depois, repousávamos nus em sua cama, tínhamos feito de tudo e isso fez mal à garota se mostrava bastante deprimida e desculpava-se repetidas vezes por ter sido tão oferecida justo nessa primeira vez em que nos encontramos assim, sozinhos. Eu terminei me sentindo mal também com tudo aquilo, esperava que ela adormecesse, quem sabe pela manhã estaria melhor?, mas ela ainda não parecia ter sono, dizia estar arrependida e buscando um jeito de fazer com que não perdesse meu respeito, por mais que eu dissesse que isso não aconteceria. Como ela insistisse e eu fosse reincidente, então me pediu que lhe desse uma prova de que a continuaria respeitando pela manhã.

Vá em frente, incitei. Que prova você quer?

Me peça em namoro!, ela disse.

Eu me assustei com a proposta. No entanto, como sabia que ela tinha bebido e sequer se lembraria da conversa depois de um cochilo, cedi.

Tá bom... Namora comigo?

Ela riu e sentenciou: hahaha! Não, seu otário, não gosto de você!

Poucos minutos depois, a garota estaria vomitando todo o banheiro, depois tomaria um banho rápido e voltaria despida para a cama, dormindo em seguida. Ela já nem sabia o que estava fazendo. Eu fiquei acordado, continuava a me sentir mal, não pelo excesso de bebida, mas por aqueles momentos a dois. Não esperava que um abrigo me custasse tão caro, e a noite de sexo realmente não compensou o peso psicológico que foi permanecer ali. Fiquei andando pela casa, sentando no sofá e levantando, até que só quando começava a ver filetes do alvorecer reprimidos pelas brechas da janela eu fui me deitar na cama, a seu lado, adormecendo logo. Não muito tempo depois, o telefone tocava e nós dois despertávamos, ao mesmo tempo.

Você precisa ir embora, ela proferiu calmamente, e explicou o porquê. Fui embora, portanto.





Muitas horas depois, o colega que me houvera recusado um lugar para dormir estava a ligar, chamando para assistir uma apresentação de sua banda num festival de rock. Aceitei o convite, por mais que já não ande com muito saco de acompanhar festivais musicais, e sempre penso que ninguém tem saco também, de maneira que eu nunca convidaria alguém pra ver uma banda minha a tocar num festival, por mais que houvesse uma nova proposta literária ou musical no nosso som, ainda que não houvesse pretensão de nada disso no som da banda de meu amigo. Mesmo assim, fui e acompanhei. Meu bom camarada se divertiu bastante com seu espetáculo, e nossos amigos em comum também eram pura euforia no meio do público.

No final, ficaram todos juntos, bebendo e fumando e tal, eu fui embora logo. Não queria permanecer ali por muito tempo mais. Era relativamente cedo e teria bastante ônibus disponível àquela hora, então não perdi tempo.

Cheguei em casa e uma impressão estranha me acometia. O silêncio parecia mais audível para mim do que nos outros dias. A escuridão era mais visível do que eu percebia normalmente. Li um pouco, ouvi música, fui para o computador. Agia por inércia, sem propósito, sem juízo. Fui logar em um de meus emails, e a resposta que obtive me fez concluir que, por tanto me procurar, enfim eu havia me encontrado: "o usuário não existe mais".



quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cinco anos depois

Eu comecei a frequentar blogs, no longínquo ano de 2002 ou 2003, numa época em que nem se sabia direito o que era isso, e nunca imaginaria que teria um. Então comecei a postar, há exatos cinco anos, e não pensei que fosse gostar, até mesmo precisar, tanto. Ao elaborar posts mais pretensiosos, como artigos, ou contos, nem sonhava que conseguiria escrever tantos deles, vez que nunca conseguia sequer finalizar uma história. A travessia pelos blogs foi tortuosa, fiz quase uns dez por aí, mas estanquei neste há dois anos, e importei para cá algumas destacadas postagens de outros blogs paralelos que tive, dos primeiros aos últimos, dos blogs de opinião aos de poesia, dos textos bem-trabalhados aos mais primários.

Eu penso tudo isso enquanto me quedo numa mesa de biblioteca a ler alguns contos de Dalton Trevisan, com os olhos atentos e a atenção desvinculada da barulheira do ambiente - é meio-dia e há tantos estudantes -, porque é esse tipo de literatura que me atraiu de fato, os contos; tão subestimados, mas tão complexos em si. Acho curioso que, para muitos escritores notórios, seja mais difícil fazer um conto que um romance. Eu não sei, já que não sou romancista, mas posso dizer que me fascina, e que nunca penso pouco quando escrevo um conto, seja quanto relato algo, ou seja quando crie, ainda que isto ocorra em menos escala. Não tenho tanta imaginação assim.

É engraçado que eu receba, enquanto leio e enquanto penso, um convite para encontrar uns amigos num bar, e lá conversamos, entre outras coisas, sobre blogs, além de bebermos algum bocado. Assim como é engraçado o fato de aquele mesmo bar ter sido palco de outras histórias, com outras pessoas, no passado, algumas delas relatadas em texto nesta página.

Também é curioso que para quem escreveu tantas histórias escatológicas, tantos artigos opinativos sobre diversos temas, já recomendou tantos outros blogs e escritores, não tenha muito mais a dizer ness'instante. Deve haver algum grau de autenticidade nisso, no fato de não conseguir nunca escrever texto sob encomenda. Não tenho certeza, e a essa altura não importa. O blog continua vivo porque o longo e tenebroso inverno que o sustentou no princípio ainda se faz latente. Permaneço exercendo a arte da escrita, e enquanto o fizer, é um claro sinal de que ainda não estou em paz. A vida é uma estrada, como se diz, e a ela estamos todos submetidos. Há quem reclame de todas as coisas, há quem as aprecie em sua totalidade, cada um tendo o que tanto merece. Mas a mim, quem me merece? Eu mereço a estrada, e nela sigo em frente, sem muitas pretensões de curveados ou de subidas. A vida é isso. Monotonia da estrada. Como dizia um americano morto, sobra apenas a necessidade de tirar algum drama de nenhum progresso de fato.



O Literatura Vil agradece a todos os que frequentam o blog, lendo
e - especialmente - comentando os posts.
08/07