Eu não consigo nem escutar música enquanto escrevo, não consigo e não quero que a luz da manhã ilumine o quarto, tranco todas as portas e janelas, mas ainda assim o recinto é invadido por feixes luminosos intrusos, acompanhados dos ruídos que aos poucos adentram no ambiente; é manhã de domingo, a pele nem sente o calor do sol (ainda), no entanto, embora o dia esteja começando, para mim isso é apenas o desfecho de um sábado estranho, em que amanheci na casa de amigos, ressacado e triste, três horas antes dos ditos cujos acordarem, e ficando, assim, preso à solidão daquele ambiente - mesmo que a casa abrigasse ainda meia dúzia de gentes, todas adormecidas. Quase sempre vou embora nessas horas, mas desta vez decidi esperar, e esperei, lendo Maupassant para passar o tempo - é só para o que ele serve, hoje eu sei. O tempo enfim passou, despertando os amigos um a um, sendo a Clara a primeira, já de prontidão para preparar o almoço. Ela também estava ressacada, com pressão baixa e tontura: até a tarde estaria em um prontossocorro. Depois acordariam os demais, um a um, e essa movimentação toda no sábado é que o fez se me parecer diferente, estranho (no sábado normalmente não vejo ninguém).
Fui para casa no início da noite, porém mal cheguei e já fui saindo novamente, pois tinha ainda um outro compromisso: iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa. Fôramos convidados pela Inês, uma garota muito jovem, muito bonita, muito louca, que conhecia há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, de maneira que sempre falávamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... No dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse (tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades). Eu vi então algum valor real na Inês, o que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e ela me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada mas com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família; ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado... Não sei, não sou ela para saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais - sentem tudo muito mais intensamente.
Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então ela nos fizera o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos: entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, entre salgados, entre coquetéis, entre uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes (do tipo que são organizadas em clubes e afins), e isso já me bastava sobremaneira, sendo todo o resto por mim contínua e solenemente ignorando, fossem as outras pessoas, a música ou a decoração do local; a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com seus pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava apenas em como estava sendo legal aquilo tudo.
Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos todos - eu, a Inês e os amigos - para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua torpe decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito, proposto ou sequer cogitado. A mãe interrompeu a nossa prosa e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.
Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior: a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos (porque ela mesmo nos dissera) que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.
Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, lançava assuntos, falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo. Eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário: as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa...
Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe disse, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.
Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe havia comentado sobre isso mas ela lê o que escrevo e assim já me conhece bem, e por isso falava de sexo comigo e até se propõs a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas ela sabia que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era uns dez anos atrás, quando eu tinha a sua idade, 15 anos.
Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, no entanto desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão (a essa altura, já está meio desorientada e enjoada), e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e então ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observar a Inês no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade; ela vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, chora, vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. Num dado momento, mesmo sua mãe enfim sucumbiria a si mesma, e fica a perguntar-se o que poderia fazer ou o que teria feito de errado, mas de que importa?, ela não obteria respostas (talvez nunca obtenha)... Somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, a Inês se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.
Agora estou bem melhor, diz.
E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe. Mesmo se dissessem que estava suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa. Uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada. Agora, Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.
Fui para casa no início da noite, porém mal cheguei e já fui saindo novamente, pois tinha ainda um outro compromisso: iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa. Fôramos convidados pela Inês, uma garota muito jovem, muito bonita, muito louca, que conhecia há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, de maneira que sempre falávamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... No dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse (tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades). Eu vi então algum valor real na Inês, o que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e ela me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada mas com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família; ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado... Não sei, não sou ela para saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais - sentem tudo muito mais intensamente.
Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então ela nos fizera o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos: entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, entre salgados, entre coquetéis, entre uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes (do tipo que são organizadas em clubes e afins), e isso já me bastava sobremaneira, sendo todo o resto por mim contínua e solenemente ignorando, fossem as outras pessoas, a música ou a decoração do local; a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com seus pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava apenas em como estava sendo legal aquilo tudo.
Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos todos - eu, a Inês e os amigos - para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua torpe decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito, proposto ou sequer cogitado. A mãe interrompeu a nossa prosa e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.
Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior: a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos (porque ela mesmo nos dissera) que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.
Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, lançava assuntos, falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo. Eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário: as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa...
Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe disse, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.
Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe havia comentado sobre isso mas ela lê o que escrevo e assim já me conhece bem, e por isso falava de sexo comigo e até se propõs a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas ela sabia que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era uns dez anos atrás, quando eu tinha a sua idade, 15 anos.
Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, no entanto desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão (a essa altura, já está meio desorientada e enjoada), e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e então ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observar a Inês no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade; ela vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, chora, vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. Num dado momento, mesmo sua mãe enfim sucumbiria a si mesma, e fica a perguntar-se o que poderia fazer ou o que teria feito de errado, mas de que importa?, ela não obteria respostas (talvez nunca obtenha)... Somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, a Inês se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.
Agora estou bem melhor, diz.
E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe. Mesmo se dissessem que estava suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa. Uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada. Agora, Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.