terça-feira, 25 de março de 2008

Notas avulsas 2

Há duas semanas comecei a dar aulas de Geografia, ganhando os trocados míseros que o Governo do Estado pode oferecer. Ao menos neste trabalho, devo me manter por um bom tempo, já que pela primeira vez fiz um contrato. Nos outros dez que colecionei desde os 17 anos nunca cheguei perto disso, e mais distante ainda estive de uma carteira assinada. O único patrão que se dispôs a fechar contrato assinando minha Carteira de Trabalho desistiu quando a viu vazia; eu lhe havia dito na entrevista que sim, já tivera experiência em carteira antes. Na verdade, a mentira foi apenas um artifício de passatempo, já que o papo tava bom porém eu sabia de antemão que não conseguiria o emprego. Um emprego precioso, aliás: acho que eu ia adorar carregar sacos de peixe nas costas o dia todo.

Nos ofícios que tive, nunca fiquei mais de três meses - na maioria, passei menos de uma semana. Em alguns, um dia somente. Caso semelhante ao do camarada Chantinon, como ele mesmo disse num comentário ao meu post Carta de Demissão (linkado no menu lateral). Essa rotatividade é algo que não me traz orgulho nem vergonha, mas é uma demonstração, principalmente para mim mesmo, que, por mais que eu tente, continuo sendo o mesmo moleque ranzinza, que acha tudo chato, sem-graça, sem futuro. A minha mãe, quando eu era criança, vivia a aconselhar: "cuidado, quando chegar a hora, não corra atrás de trabalho, e sim de emprego". Parece que um de nós dois errou muito nesse meio tempo.

***

Bom, eu abro essa nota aqui só para notificar que a Samilla, do blog Esse meu ovo mesquinho e fechado, cuja escrita é de inquestionável qualidade, com estilo, tinha oferecido um selo ao Literatura Vil, que nem lembro mais qual é, para somar aos que estão expostos em link no menu à direita. Eu abri mão de re-enviar para outros blogs porque: 1-não gosto de correntes; 2- não gosto de selos; 3-não sou chegado a seleções, além de não conhecer assim tantos blogs, o que me faria oferecer selo apenas para o limitado conjunto de blogs que freqüento; convenhamos, reconheço a qualidade de todos eles, e raras vezes me vejo sem opção de leitura quando vejo minha lista de blogs degustáveis. Se alguém quiser uma seleção, pois, basta olhar a referida lista e se deliciar.

No mais, agradecimentos à Samilla. É o quinto selo que oferecem a este blog; por mais que eu confesse não gostar desse recurso, é sempre uma honra receber qualquer menção positiva - ou até uma negativa também, mas esta é rara de acontecer no mundo sarcástico, dissimulado e colorido da blogosfera...

***

Elegia Sobre o Sorriso

Sorriso galante, nervoso, maroto.
Sorriso amarelo, tão ou mais escroto.

Diz-se comumente
que se deve sorrir sempre
para alegrar o ambiente
em demasia.
Mas também não compreendo
a razão de se disseminar
tanta alegria...

E os outros notáveis sentimentos que tomamos?
Serão apenas descartáveis alentos dos humanos?

Não trago conclusões algumas sobre isso,
mas penso que sorrir é só mais um ato submisso.
Não sei a quê, nem sei a quem
– isso é o que menos importa, porém...

E não tenho pressa pra tentar descobrir,
mas saio dessa e um dia
– quando descer pelo ralo a minha hipocrisia –
deixo definitivamente de sorrir.

***

"... fui para a praia passar a noite sobre a areia com meus cobertores, entrei areia adentro e parei ao sopé de um rochedo, onde os guardas não poderiam me ver nem me mandar embora. Cozinhei salsichas espetadas em galhos recém-cortados sobre o carvão de uma grande fogueira, e esquentei a lata de macarrão com molho de queijo nos espaço ardentes entre brasas, e bebi o vinho que acabara de comprar, e exultei em uma das noites mais agradáveis da minha vida. Entrei na água até os joelhos e me agachei um pouco e fiquei lá olhando para o céu noturno e esplendoroso, o universo de escuridão e de diamantes (...) Feiz, só com meu calção de banho, descalço, com os cabelos desgrenhados, na escuridão avermelhada pelo fogo, cantando, bebendo vinho, cuspindo, correndo, pulando - isso sim é que é viver (Completamente sozinho e livre na areia macia da praia com o suspiro do mar bem ali, as estrelas virgens calorosas e falopianas refletindo nas embarrigadas águas fluidas do canal externo)..."

Jack Kerouac, em Os Vagabundos Iluminados

segunda-feira, 17 de março de 2008

Madrugada fácil e sem-graça

Quando terminei de me aprontar e vi que eram 23h, senti logo um arrependimento por ter topado o convite. É verdade que meu colega Daniel muito insistira para que eu lhe desse uma carona e o acompanhasse àquela festa e eu estava devendo mesmo esses favores, mas, que droga, o que eu vou fazer numa festa universitária?! Sobretudo quando o perfil dos presentes não foge muito ao estilo de playboys e patricinhas?... Sequer tinha roupa para ir - estava usando uma botina como calçado. Finalmente, só aceitei porque a bebida seria livre, embora minha resposta tenha sido travestida, para meu camarada, de "só topei porque vai ter muita mulher"; convenhamos, as garotas que ali veria seriam as coisas de menor valor do local...

E foi exatamente como pensei. Eram todas lindas, maravilhosas, perfeitas, mas não conseguiam sustentar a própria beleza. Senti-me completamente deslocado, ainda que meu amigo tentasse me entrosar na sua roda de conversas inúteis. A festa era de universitários do curso de Biologia (também chamado de BioloRgia), e eu e o Daniel sabíamos que nossa presença por ali seria interrompida assim que ele encontrasse, para passar o resto da noite, a sua cocota, como gostava de dizer..

Eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que via a multidão. Quando, ao meu lado, apareceu uma menina, senti um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa, uma boneca, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, talvez por manter fixo olhar em mim por mais de dois segundos, rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa história, abri de modo bastante original a conversa:

- Oi?

Ela me ignorou, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem, desta vez, expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.

Do outro lado, Daniel corria em minha direção, até dizer, ofegante, apontando para duas garotas tão bonitas quanto sem-graça:

- Bicho, você não sabe o que encontrei! Tem duas garotas ali disponíveis, estão chamando a gente até o apê delas. S'embora cara, vamos nessa!

- Vá lá, irmão. Vou ficar por aqui.

- Como é?! Você é louco?! Vamos lá, rapaz! Uma noite com uma garota dessas não se esquece!

- Garota, o que é isso mesmo? Esqueci...

- Puts cara, e você que pegava geral no tempo do médio...

Tive que topar o convite, a fim de que ele parasse de falar tanta besteira.

Uma das garotas estava com o carro do pai, e fomos de carona com elas, num papo bastante animado entre a motorista e meu parceiro Daniel nos bancos da frente. No de trás, eu estava acompanhado pela Dina, que morava no apê com a amiga. Eu lhe disse que não era chegado a apelidos e lhe perguntei seu nome, mas ela se recusou a dizê-lo.

- Cuidado com o meu amigo estranho - disse Daniel -, ele não deve transar há dez anos, é mais chegado em árvores e ovos crus - essa piadinha, como outras, fez sucesso no carro, e as meninas riram.

No apê, que era ali no badalado bairro de Ponta Negra, e era um senhor apê, maior do que minha casa, meu amigo tratou de agarrar sua garota e levar lá pra dentro. Logo ouvimos gritos e gemidos. A Dina também não estava muito para papo e veio em cima de mim, tirando meu cinto enquanto nos beijávamos. Sua boca tinha um maldito gosto de cigarro, e eu sempre odiei cigarro, desde a primeira vez que vi minha mãe fumando, desde que um médico me recomendara ficar a dezenas de metros de um cigarro, desde que beijei a primeira garota, tudo isso ali há muito tempo atrás. Quase escarrei na boca da pobre da Dina, mas me contive e a afastei lentamente, ainda que com certa brusquidão.

- Pare - falei. - Que tal se você escovasse sua...? - ela me deu um tapa antes que eu terminasse a frase.

- Quem você pensa que é, seu idiota, imprestável?

- Quer parar de falar assim?

- Qual o seu problema? Você é um veadinho ou o quê?

- Chega, vou embora daqui - ela me deu um novo tapa, e tentou dar uma seqüência deles, mas eu a pus à força no sofá, ordenei que ficasse ali, e saí batendo a porta.

Era madrugada e eu decidi que iria a pé pra casa, já que a moto eu havia deixado lá no estacionamento disponibilizado para a festa, e só voltaria lá em 24 ou 48 horas para pegá-la. Nesse momento, contudo, eu só queria ir para casa. Caminhava desolado e cansado pela Roberto Freire, avenida famosa pela grande incidência de travestis se oferecendo para motoristas e andarilhos insones sedentos de sexo, e um deles chegou a me interromper, oferecendo uma noite maravilhosa. Como não tinha interesse, disse-lhe apenas que não tinha dinheiro.

- Então não rola, conheço seu tipo.... vive sem dinheiro e só se consegue coisas fáceis... mas quem busca facilidade não encontra qualidade nem substância. Lembre disso, querido.

No fim de tudo, fui obrigado a concordar.

sábado, 8 de março de 2008

Enquanto os sinos dobram

- Cara, você parece um velho, um personagem de livro, um sei lá o quê... impossível rolar algo sério entre a gente!

Eu ainda me lembro de quando levei esse fora, embora já tenha uns anos para trás... Depois disso, a garota me derramaria tantos elogios que eu fui para casa com o ego mais inflado do que se tivesse voltado com o peso simbólico de um namoro nos ombros, mesmo sabendo que eram, todos eles, da boca pra fora. Fiquei pensando um pouco no que ela havia falado. "Um velho, um personagem de livro, um sei lá o quê"... o que seria esse sei-lá-o-quê? A que personagem de livro será que ela se referia? É verdade que ela já havia me dito que eu o parecia antes dessa ocasião, mas eu nunca me adiantei a perguntar, por alguma boba razão impossível de entender.

Mas quando ela disse que eu parecia um velho - ela não seria a única pessoa a dizê-lo - a mim não foi novidade nenhuma; desde bem moleque já ouvia adjetivos do tipo, e mais ainda nos últimos anos. Eu passei um dia desses dos vinte outonos, mas percebo que meu corpo anda se deteriorando há tempos. O que é natural, para quem tem uma média de quatro horas de sono por noite como eu.

Dia desses, estava bebendo e conversando com uns amigos numa praia, quando fui com vontade demais ao gargalo...

- Argh! Ugh! Cof cof cof...

- O que foi, cara?! Tá engasgado?

(Cuspi.)

- Nossa, quase morro... O que é isso?

- Sei lá, meu... tem muito sangue... mas parece um... um dente! É isso, é um dente!

- Nossa senhora! - digo, mexendo no maxilar como se o estivesse pondo no lugar, procuro o retrovisor de um carro e como, através de um sorriso forçado, percebo que todos os dentes frontais se mantinham ali, não dei mais muita atenção ao acontecido.

- Meu, caiu um dente da sua boca... isso só acontece até os doze anos de idade ou depois dos setenta, cuidado cara!

- Nunca gostei do gargalo dessas garrafas de cachaça.

Só muitas horas depois, quando eu já estava em casa, lúcido, e fui escovar os dentes, percebi que realmente um dente me havia caído, um lá de trás, cuja classificação não faço idéia. Fiquei pensando como poderia ter caído logo um dente super-escondido, bem guardado nas trincheiras bucais, mas não me ative mais do que isso. O lado bom nessa história toda foi que a dor de dente que eu sentia já há cinco dias, enfim, se foi... o problema que me abateria a partir desse instante tragicômico seria uma intragável dor de ouvido!

Com tais dores, vinham zumbidos, sons de motores de avião e sinos dobrando dentro da minha cabeça. Sempre os ouvi, mas agora estavam em níveis elevadíssimos. O que, pelo menos no caso dos sinos, me apavorava: quando criança, sempre tive medo do som que eles emitiam... era um prenúncio de tudo o que há de ruim, eu pensava. Por quem esses sinos dobram? Pelos que vão ou pelos que ficam?

Essa agonia dentro de minha cabeça só poderia ser combatida se eu mantivesse minha audição ocupada. Tratei então de maltratá-la como eu bem sei, voltando a escutar música nas alturas até estourar, literalmente, as potentes caixas de som que tinha no quarto... outra alternativa era voltar a freqüentar os shows de rock nos bares do Centro e utilizar de modo incessante o fone de ouvido, que passou a me acompanhar quase diariamente onde quer que eu fosse.

- Ei, você... o que está achando da música?

- Oi? Como, professor? - pergunto afobado, lembrando que estava numa aula ao ver que o professor me apontava o dedo e retirando rapidamente o fone de ouvido... - Perguntou algo?

- Perguntei o-que-está-achando-da-música? - ele tinha a voz pausada e em tom elevado, tipicamente irritado.

- Ah não, professor, não é música... é o jogo do ABC na fm...

- Fora.



Durante essas férias que ainda não acabaram, no momento em que eu estava novamente ouvindo um jogo via fm com o fone de ouvido, notei que de repente um dos fones tinha estourado... comprei outro fone mas percebi que ele também não funcionava, o que achei estranho. No entanto, pouco depois, eu constataria que não foram os fones que queimaram - meu tímpano direito é que foi pro espaço...

- ... Ou isso pode representar o que chamamos de "perda progressiva da audição" - disse-me o otorrino com cara de peixe morto (cara de médico.)

- O.K., como reverto isso?

- Bom, se for esse o caso, e você só saberá após uma audiometria, não há como reverter.

- Hã? Repita essa última parte...

- Eu disse, garoto, que não-há-como-reverter! - agora estava com o mesmo tom pausado e elevado do professor.

- Peraí... a Medicina vive falando em transplantar coração, clonar organismos, e não consegue resolver uma mediocridade dessas?!

(silêncio)

- Que frustante devem ser as pesquisas da área de vocês, não? - tentei provocar.

(silêncio)

Na hora, pensei: "é por mim que os sinos dobram, e eu não sabia"...

- Tudo bem, mas não pretendo fazer audiometria, não gosto dessas bobagens... O que o senhor me recomenda como alternativa?

- Procure um psicólogo, já não posso fazer mais nada.

Sabe aquela velha história de pimenta nos olhos dos outros? Foi assim que percebi a situação.

E as pragas continuarão... para sempre.