Há duas semanas comecei a dar aulas de Geografia, ganhando os trocados míseros que o Governo do Estado pode oferecer. Ao menos neste trabalho, devo me manter por um bom tempo, já que pela primeira vez fiz um contrato. Nos outros dez que colecionei desde os 17 anos nunca cheguei perto disso, e mais distante ainda estive de uma carteira assinada. O único patrão que se dispôs a fechar contrato assinando minha Carteira de Trabalho desistiu quando a viu vazia; eu lhe havia dito na entrevista que sim, já tivera experiência em carteira antes. Na verdade, a mentira foi apenas um artifício de passatempo, já que o papo tava bom porém eu sabia de antemão que não conseguiria o emprego. Um emprego precioso, aliás: acho que eu ia adorar carregar sacos de peixe nas costas o dia todo.
Nos ofícios que tive, nunca fiquei mais de três meses - na maioria, passei menos de uma semana. Em alguns, um dia somente. Caso semelhante ao do camarada Chantinon, como ele mesmo disse num comentário ao meu post Carta de Demissão (linkado no menu lateral). Essa rotatividade é algo que não me traz orgulho nem vergonha, mas é uma demonstração, principalmente para mim mesmo, que, por mais que eu tente, continuo sendo o mesmo moleque ranzinza, que acha tudo chato, sem-graça, sem futuro. A minha mãe, quando eu era criança, vivia a aconselhar: "cuidado, quando chegar a hora, não corra atrás de trabalho, e sim de emprego". Parece que um de nós dois errou muito nesse meio tempo.
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Bom, eu abro essa nota aqui só para notificar que a Samilla, do blog Esse meu ovo mesquinho e fechado, cuja escrita é de inquestionável qualidade, com estilo, tinha oferecido um selo ao Literatura Vil, que nem lembro mais qual é, para somar aos que estão expostos em link no menu à direita. Eu abri mão de re-enviar para outros blogs porque: 1-não gosto de correntes; 2- não gosto de selos; 3-não sou chegado a seleções, além de não conhecer assim tantos blogs, o que me faria oferecer selo apenas para o limitado conjunto de blogs que freqüento; convenhamos, reconheço a qualidade de todos eles, e raras vezes me vejo sem opção de leitura quando vejo minha lista de blogs degustáveis. Se alguém quiser uma seleção, pois, basta olhar a referida lista e se deliciar.
No mais, agradecimentos à Samilla. É o quinto selo que oferecem a este blog; por mais que eu confesse não gostar desse recurso, é sempre uma honra receber qualquer menção positiva - ou até uma negativa também, mas esta é rara de acontecer no mundo sarcástico, dissimulado e colorido da blogosfera...
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Elegia Sobre o Sorriso
Sorriso galante, nervoso, maroto.
Sorriso amarelo, tão ou mais escroto.
Diz-se comumente
que se deve sorrir sempre
para alegrar o ambiente
em demasia.
Mas também não compreendo
a razão de se disseminar
tanta alegria...
E os outros notáveis sentimentos que tomamos?
Serão apenas descartáveis alentos dos humanos?
Não trago conclusões algumas sobre isso,
mas penso que sorrir é só mais um ato submisso.
Não sei a quê, nem sei a quem
– isso é o que menos importa, porém...
E não tenho pressa pra tentar descobrir,
mas saio dessa e um dia
– quando descer pelo ralo a minha hipocrisia –
deixo definitivamente de sorrir.
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"... fui para a praia passar a noite sobre a areia com meus cobertores, entrei areia adentro e parei ao sopé de um rochedo, onde os guardas não poderiam me ver nem me mandar embora. Cozinhei salsichas espetadas em galhos recém-cortados sobre o carvão de uma grande fogueira, e esquentei a lata de macarrão com molho de queijo nos espaço ardentes entre brasas, e bebi o vinho que acabara de comprar, e exultei em uma das noites mais agradáveis da minha vida. Entrei na água até os joelhos e me agachei um pouco e fiquei lá olhando para o céu noturno e esplendoroso, o universo de escuridão e de diamantes (...) Feiz, só com meu calção de banho, descalço, com os cabelos desgrenhados, na escuridão avermelhada pelo fogo, cantando, bebendo vinho, cuspindo, correndo, pulando - isso sim é que é viver (Completamente sozinho e livre na areia macia da praia com o suspiro do mar bem ali, as estrelas virgens calorosas e falopianas refletindo nas embarrigadas águas fluidas do canal externo)..."
Jack Kerouac, em Os Vagabundos Iluminados