Quando abro os olhos, despertando vagarosamente de um sono curto, postado de maneira bastante desconfortável no sofá, meio sentado, meio deitado de lado, vários travesseiros amontoados entre minhas pernas, na minha barriga, junto à minha cabeça, um calor latente que faz o suor descer testa abaixo, um maldito gosto de saliva acumulada na boca e fora dela, um filme pornográfico na televisão, as luzes acesas, o computador ligado, fito a janela sem sequer mexer qualquer outra parte do corpo, e por uma pequena fresta posso perceber que há um luz solar tentando a entrar na sala, denunciando que o dia está apenas começando e na mesma hora eu lamentei, pois decidira para mim mesmo que dormiria por oito horas, quinze horas, vinte e quatro horas se preciso fosse - era só o que eu queria, afinal: dormir -, mas não, aquele filete de sol nascente, o relógio de parede logo acima da janela e o cansaço do meu corpo deixam claro que não passaram sequer duas horas desde a hora que adormecido até agora, mas como pode?, eu me pergunto, por que também não tenho direito ao sono?, fico matutando, como se alguém pudesse me dar alguma resposta sobre isso, e pior, como se logo eu pudesse ter a resposta desses questionamentos; tanto não a tenho como fico pensando, na verdade, que isso é consequência de equívocos que eu mesmo cometi muito tempos antes, afinal, claro, não foi sempre que eu tive problemas com o sono, embora nem me lembre de quando eu tenha começado a tê-los, mas a minha relação com o dormir é estranha mesmo, porque durante muito tempo eu busquei estímulos para a minha vida, e no entanto, esses estímulos não faziam parte do meu cotidiano, de maneira que eu passei a buscá-los, veja só, nos sonhos; então num primeiro momento eu me vi levado a dormir por muito mais tempo que o usual, dormia bastante, inclusive se me fosse dada a escolha creio que eu teria preferido passar a maior parte do tempo dormindo a passá-la acordado - no entanto houve um momento, não sei precisar qual, em que vi essa minha virtude escapar pelas mãos, meus sonhos já não eram mais os subterfúrgios de que eu precisava, eu costumava acordar trêmulo, desesperado, e isso potencializou a minha asma, levando-me a sofrer crises respiratórias constantes caso passasse muito tempo dormindo, então achei que deveria dormir menos, que dormir estava sendo o meu grande problema, passei a fazer de tudo nessas horas - conversava na internet, lia, ouvia música, bebia, dançava, analisava a situação do meu time, tecia comentários solitários sobre as notícias da política e do cotidiano -, tornando a minha madrugada um horário de extrema mobilidade, e quando o dia amanhecia e o barulho externo começava a invadir a casa, eu enfim deitava, embora naturalmente por pouco tempo, duas ou três horas no máximo, em parte pelo próprio relógio biológico desregulado do meu corpo e em parte pelos compromissos que eu tinha mundo afora, e que os cumpria de maneira cada vez menos eficiente, uma vez que estava sempre muito estafado, acometido de reflexos bastante lentos, incapaz de acompanhar o ritmo dinâmico que meu trabalho num escritório e a minha faculdade exigiam: fui demitido e jubilado, passando a viver, após esse momento, pelo menos seis meses parado, e nesses seis meses a coisa somente pioraria, porque depois de me ver com necessidades que vão além da falta de sono eu sabia que precisava me organizar, a começar arrumando um novo trabalho, um bico, um estágio qualquer se não quisesse morar debaixo de uma ponte nos meses seguintes, obrigando a mim mesmo a tentar recuperar a minha relação saudável com o corpo, dando-lhe o descanso merecido, tentando me deitar cedo para acordar cedo, praticar algum esporte talvez, aceitaando convites de amigos para dormir na casa deles. De qualquer modo, nada disso me ajudaria no meu propósito... eu só percebi isso quando seguia de moto pela Avenida Rio Branco, no Centro da Cidade, e tive um microssono de 4 segundos que me levou a bater em cheio na traseira de um Fiat 174 que estava estacionado. Talvez isso tenha agravado o impacto, pois levei vários pontos no braço, e, enquanto a enfermeira bonita os colocava delicadamente, eu pensava que não havia motivos para aquela minha reação súbita, já que sequer era noite para eu adormecer enquanto pilotava a moto - por sinal, precisei vendê-la depois do acidente -, e só então percebi que eu necessitava na verdade era de um médico, apesar de que nunca gostei de médicos, sempre me distanciei deles, nunca vi neles qualquer perspectiva de melhora nas minhas piores situações, mas tentei engolir meus preconceitos desta vez; porém, este médico em específico também não me ajudaria muito nisso, chegou até a dizer que eu estava com propensão a narcolepsia, uma doença pouco comum que faz as pessoas adormecerem de maneira totalmente repentina, e me recomendou um tratamento que, se eu quisesse pôr pra frente, teria que sacar uma boa grana para pagar novas consultas e comprar os estimulantes que ele recomendara, mas essa grana eu não tinha, e assim terminou mais uma de minhas relações com médicos - como sempre, encerrando-se justo quando o assunto entra na parte financeira. Resolvi aceitar a minha condição e tentar conviver com esse problema - se é que ainda é um problema meu, pois nunca mais voltou a ocorrer -, e atualmente voltei à rotina que mantinha anos atrás, de ocupar as minhas madrugadas com tantas coisas, fico bebericando um conhaque enquanto ouço música no escuro ou fico lendo artigos e artigos da minha área, ou então fico corrigindo provas de alunos, e são sempre muitas provas e trabalhos, outras vezes converso com alguém que se dispõe a virar a noite na internet, o que quase não acontece, mas quando acontece é muito bom pois supre o meu problema de carência agravado por tantas noites solitário, no entanto às vezes eu queria dormir, apenas dormir, por bastante tempo, mas enquanto me vejo neste instante, quedado, ainda suado, ainda mal-posto no sofá e ainda a observar a fresta de luz nascente na janela, eu percebo que não é desta vez que terei esse direito. Decido então me levantar do sofá, meio cambaleante e contorcido por causa das muitas dores na coluna, sentar ao computador e escrever até o sono chegar; nunca se sabe quando.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Alegoria de um narcisista
Eu não me lembro de quando comprei meu primeiro relógio. Não me lembro de quando comprei a TV. Não me lembro da primeira assinatura de revista ou jornal que fiz. Também vejo meus livros, discos, filmes, e não me lembro da circunstância em que adquiri a maioria deles. Mas duma coisa eu me lembro: de quando comprei o meu primeiro espelho.
Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando no Alecrim, no meio daquele amontoado de camelôs e lojas puxando-nos pelo braço, seguia para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu o vi - ou me vi, não sei bem. Meu olhar fora preso de batepronto. O fato que estava colocado é que eu não poderia deixar ali aquela magnífica obra: um belo espelho! Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura, ainda que não fosse carregada de imponência, tinha uma feição hodierna, disposta numa madeira recheada de mesclas douradas e escuras, o que lhe dava muito estilo. A superfície da lâmina de vidro, eficientemente revestida de estanho, suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: peguei o dinheiro que tinha e comprei no mesmo instante.
Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho, talvez por isso não reagi ao impulso de adquiri-lo. O último que tive, quebrei, propositalmente. No dia em que uma garota havia terminado comigo, eu, sentindo-me culpado, não suportando ver minha face horrenda refletida naquele adorno estúpido, descontei justo nele, dando-lhe um murro apenas: toda a vidraça se espatifaria como castelo de cartas. Ainda hoje carrego pequenas cicatrizes na mão direita. Marcas de um passado taciturno que, eu tinha certeza, ficariam para trás com a presença deste novo elemento no meu cotidiano. Depois de comprado o novo espelho, eu nunca mais me interessaria por outro. Para mim, já bastava um no quarto, porque ter qualquer outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis nas sarjetas e por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos - os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, os que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.
Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.
Enfim, apliquei-o na parede adjascente à porta de entrada do quarto, ao lado direito, e ficou bem situado também à direita da cama. Esteticamente não era um bom lugar para colocá-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para aquele lado que sempre me levanto, ao acordar. Tal rito passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante uns quinze, vinte minutos, às vezes mais.
Depois buscaria um café, um pão, qualquer coisa assim, e voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho, dando sequência à minha liturgia matinal. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem! Não compreendia o que me atava a ele. Não era beleza o que eu via, pois não sou bonito, também não era pose nem grandiosidade, não tenho nada disso, era alguma outra coisa, muito mais subjetiva, que, depois dos primeiros lapsos de curiosidade, desisti de pensar no que poderia ser. Eu nunca adquiriria respostas.
A despeito de todos os questionamentos, esse hábito passou a fazer parte de todos os meus dias, invariavelmente.
O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matava ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério.
Mas eu atentei para outras coisas além disso. Afinal, foi graças ao espelho que percebi, a partir da própria imagem que eu captava do meu quarto através de sua superfície polida, que as coisas precisavam ser mudadas. Então me situei: estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança, e não na inércia, na imobilidade. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava, de algum modo, uma segunda e última chance de tentar colocar a vida nos trilhos.
Hoje, já se passaram vários anos desde que adquiri esse entendimento, no entanto por mais que esteja empoeirada em quase toda a armação e sua estrutura notoriamente caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.
Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando no Alecrim, no meio daquele amontoado de camelôs e lojas puxando-nos pelo braço, seguia para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu o vi - ou me vi, não sei bem. Meu olhar fora preso de batepronto. O fato que estava colocado é que eu não poderia deixar ali aquela magnífica obra: um belo espelho! Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura, ainda que não fosse carregada de imponência, tinha uma feição hodierna, disposta numa madeira recheada de mesclas douradas e escuras, o que lhe dava muito estilo. A superfície da lâmina de vidro, eficientemente revestida de estanho, suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: peguei o dinheiro que tinha e comprei no mesmo instante.
Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho, talvez por isso não reagi ao impulso de adquiri-lo. O último que tive, quebrei, propositalmente. No dia em que uma garota havia terminado comigo, eu, sentindo-me culpado, não suportando ver minha face horrenda refletida naquele adorno estúpido, descontei justo nele, dando-lhe um murro apenas: toda a vidraça se espatifaria como castelo de cartas. Ainda hoje carrego pequenas cicatrizes na mão direita. Marcas de um passado taciturno que, eu tinha certeza, ficariam para trás com a presença deste novo elemento no meu cotidiano. Depois de comprado o novo espelho, eu nunca mais me interessaria por outro. Para mim, já bastava um no quarto, porque ter qualquer outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis nas sarjetas e por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos - os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, os que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.
Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.
Enfim, apliquei-o na parede adjascente à porta de entrada do quarto, ao lado direito, e ficou bem situado também à direita da cama. Esteticamente não era um bom lugar para colocá-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para aquele lado que sempre me levanto, ao acordar. Tal rito passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante uns quinze, vinte minutos, às vezes mais.
Depois buscaria um café, um pão, qualquer coisa assim, e voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho, dando sequência à minha liturgia matinal. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem! Não compreendia o que me atava a ele. Não era beleza o que eu via, pois não sou bonito, também não era pose
A despeito de todos os questionamentos, esse hábito passou a fazer parte de todos os meus dias, invariavelmente.
O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matava ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério.
Mas eu atentei para outras coisas além disso. Afinal, foi graças ao espelho que percebi, a partir da própria imagem que eu captava do meu quarto através de sua superfície polida, que as coisas precisavam ser mudadas. Então me situei: estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança, e não na inércia, na imobilidade. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava, de algum modo, uma segunda e última chance de tentar colocar a vida nos trilhos.
Hoje, já se passaram vários anos desde que adquiri esse entendimento, no entanto por mais que esteja empoeirada em quase toda a armação e sua estrutura notoriamente caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Fragmento
Estava nos arredores da Rodoviária Velha e procurei um bar em qualquer dos becos adjacentes, escolhi o único aberto, bastante movimentado, sentei e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, até mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Muitos caras altos e bonitos, de barbas ralas e cabelos caindo pelo rosto, que só olhavam meio de lado e estavam sempre de meios-sorrisos, com camisetas de etiquetas pequeninas porém situadas em pontos estratégicos, muitos carros estacionados que se prolongavam pela rua, alguns populares dividindo espaço com outros mais elitizados e eu ali no bar sozinho em uma mesa, na espera de apenas alguns copos de cerveja, incapaz, pela própria ignorância, de distinguir um Corsa de um Palio entre veículos que vejo diariamente pelo trânsito. Era curioso que um bairro antigo e boêmio tivesse virado rota de atração dessa classe média alta, vinda lá do outro lado da cidade, mas era compreensível, sobretudo porque há de fato uma escassez de programas noturnos em todas as zonas, e os que existem, já estão saturados, como este, que se mantinha lotado, cada vez mais.As conversas eram prolongadas, pessoas de mesas diferentes se interagiam como se estivessem em perfeita comunhão, as garotas vez ou outra se atinham a desfilar pelo ambiente, dirigindo-se a algum canto pra cochicharem qualquer coisa, sempre atraindo vários olhares atrevidos, menos o meu. No máximo, eu olhava apenas para as garçonetes, todas mulheres. Mas elas não davam muita atenção. Quando uma veio me atender, perguntei o que me sugeriria, no entanto ela apenas passou o cardápio, numa tentativa de ser simpática e impessoal. Não demorou e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair sem terminar de beber toda a cerveja e pedi a conta.
Deseja mais alguma coisa?
Fiz que não lentamente com a cabeça.
OK, muito obrigado e volte sempre, disse, apressadamente, mal oferecendo um sorriso e dando as costas.
Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.
Deseja mais alguma coisa?
Fiz que não lentamente com a cabeça.
OK, muito obrigado e volte sempre, disse, apressadamente, mal oferecendo um sorriso e dando as costas.
Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.
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