segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Solução para concluir um roteiro

Por que eu não consigo escrever nada?

Comecei a trabalhar em mais um roteiro, solicitado por um amigo, um estudante de Cinema, um diretor amador, em troca de algumas notas. Tava tudo pronto, até comecei a escrever uma boa história de início, era para um média-metragem, onde eu explorava o comportamento masculino depois de uma noite de amores quentes com mulheres conhecidas ou desconhecidas. Escrevi o primeiro caso, um homem que se divorciava e, após oito meses sem contato com o mundo feminino, cuidando para adquirir novos hábitos, deixou de fumar, de beber, ele então encontra a ex-mulher num metrô e, nessa primeira noite, ele volta para sua antiga casa. Todo o serviço sexual é completo, os dois transam como felinos irritados durante toda a madrugada, até que, num dado momento, naturalmente, ele cansa. E se vê deitado na cama com sua ex-mulher, figura feminina que ele passou a odiar com o passar dos anos. Ele bem sabia que o que sustentara seu casamento durante oito anos foi justo a bebida, o cigarro, um baseado depois da foda; e agora, ele não tinha nada disso. Foi o pior momento de sua vida.

Parei por aí. Não me lembrava, na verdade, do que havia escrito, e não lembrava se estava bebendo enquanto digitava. Mas quando acordei e notei o computador ligado, percebi isso, que não havia avançado muito na história. É incrível, tudo não passava de duas páginas de texto. Eu só poderia ter sido sacaneado, alguém roubou meus textos.

Fiquei irritado e chamando palavrões pela casa! Como eu não conseguiria ter passado de duas míseras páginas de roteiro? - e, destacando que o roteiro tem uma formatação diferente do usual, então eu sequer havia chegado em duas páginas! Sentei-me para dar continuidade à história puto da vida! Mas... Nada saiu!

Fiquei pensando no que me teria me causado aquela procrastinação. Percebi que há tempos eu não escrevia. Nem roteiros, nem contos, nem absolutamente nada! Não tinha nenhum estímulo. Pensei em beber, mas não tinha dinheiro, e fatalmente no bar da esquina, onde eu havia pego uma briga na noite anterior, eu não seria bem recebido - talvez no dia seguinte. Pensei também em fumar, mas por que fumar? Eu nem fumo! Detesto cigarros... fiquei, então, com esse bloqueio perdurando toda a manhã, com a barriga vazia e as mãos sustentando minha cabeça que tentava se aninhar nos meus braços por uma vergonha própria!

Então começaram a gritar, bater palmas, lá na porta da frente. Já era meio-dia e eu não tinha aberto uma fresta sequer de janela porque não queria ser incomodado, mas é incrível como as pessoas não respeitam uma casa fechada! Abri a porta e, com os olhos quase fechados, ofuscados pelo dia claro e reluzente, vi duas garotas: uma morena clara, muito charmosa, de cabelo curto, acima do pescoço, e uma branca, com um longo cabelo loiro, que não era tão bonita, ficava com a cara fechada todo o tempo. Do outro lado do portão, elas estendiam a mão e me chamavam para oferecer uma pequena papeleta.

- Oi! - disse a morena - Sou Juliana, esta é Lúcia, queríamos convidá-lo para a inauguração da Igreja do Jardim, terá uma festa para a comunidade, que fica ali no...

- Igreja? - Interrompi. - Desculpe, não sou cristão...

- Mas venha, venha sem compromisso, é uma festa, você vai gostar - até agora somente a Juliana havia falado.

- O que é isso, um grupo de jovens? - perguntei, apontando para uma foto que tinha no panfleto, com várias crianças e adolescentes sorridentes.

- Sim, é o nosso grupo - disse a outra - , você também pode participar, eu acho. Quantos anos tem? 25? Olha, então acho que pode participar sim...

Eu respondi que tinha 25 para me livrar do convite, não passo de 22 de fato... mas o plano não deu certo.

- Apareça! É ainda hoje, lá pelas 19h. Esperamos você! - disse a morena, dando uma piscadinha e saindo sem olhar para trás, mas com a certeza - eu aposto - de que sua bela nuca seria seguida atentamente até onde minha vista alcançasse.

Entrei e tranquei tudo novamente. Joguei a papeleta e fui procurar algumas coisas que me fizessem abrir a mente para escrever. Procurei numa estante alguns filmes que ainda não tinha assistido. Saquei um filme alemão, que comprei quando comecei a estudar esse idioma. "Vamos ver o que temos aqui?"

O filme não tinha legendas, e eu já tinha perdido muito da minha habilidade com o alemão. Mas dava para entender perfeitamente o conflito na história. Homens amedrontados e uma bela mulher que tinha uma deficiência física natural - ela tinha dentes na vagina, argh! Na minha inércia, terminei assistindo todo o filme e ficando ainda mais atordoado...

Peguei um livro pra ler, mas o livro não ajudava... estava cansado de ler e reler os mesmos livros. Peguei um do Fante, Pergunte ao Pó... que péssima escolha! Não bastasse eu estar em um tumulto por não conseguir nada escrever, o Arturo Bandini, personagem do livro, estava nitidamente com um interior mais tumultuado do que eu!

Às 19h, eu ainda andava para lá e para cá pela casa, quando reparei no pequeno cartaz de convite para a festa. Estaria meio atrasado se fosse para a inauguração da igrejinha, mas acho que valeria a pena. Fiquei pensando em reencontrar lá a Juliana, ela devia ter o quê?, uns 17, 18 anos talvez, era muito atraente e convidativa. Não poderia perder a oportunidade de reencontrá-la, eu mal saía pelas ruas do bairro, meu trajeto ali era só até o barzinho, não sabia nem se ela morava a um quarteirão de mim ou se era de outro estado. Quando pensei que meu problema para o bloqueio tinha um nome - garotas -, decidi me trocar e ir para a celebração.

Cheguei lá e enfim comi qualquer coisa, uns salgados, bebi algum refrigerante... Não sabia se já tinha ocorrido alguma solenidade, tipo missa ou sei lá o quê, mas estava rodando lá entre as mesas quando encontrei a morena, que já estava me olhando, com um sorriso maroto nos lábios. Eu me aproximei meio sem saber como fazer, mas já que estava ali não deixaria para depois... Conversamos um bocado, coisa de meia hora. Estava exageradamente perfumada. Como eu notasse que ela tinha um olhar de esfomeada quando olhava para meus lábios, decidi chamá-la para sair dali.

- Mora por aqui?

- Não moro não! Tenho até uma tia que mora aqui, mas hoje só vim para ajudar os irmãos na organização, sabe...

- Ah... devia aproveitar a estadia. A gente pode passear um pouco, o bairro tem uma praça bem legal ali...

- Prefiro ir a outro lugar!

- É? Onde? - eu sou mesmo um bocó...

- Sua casa, oras! Está vazia?

- Hmmmmmmmm, então vamos!

Na minha casa, ainda conversamos mais outro bocado. Ela estranhou chegar e ver o pc ligado, a música de Brahms a soar alto, papéis de texto impresso jogados no chão e livros na cama... Fomos pro sofá, era o jeito.

- Por que seu computador fica ligado?

- Porque se eu tiver uma idéia para escrever algo, não vou perder meu tempo ligando-o para digitar.

- E tá escrevendo algo?

- Sim, um roteiro sobre o comportamento masculino depois do sexo.

Ela ficou um pouco embaraçada, mas ficou curiosa:

- Qual é seu comportamento depois do sexo? - Perguntou.

- Eu pago a conta e vou embora.

Ela riu.

- Hoje não será preciso - disse, terminando o papo com esse cochicho, e subindo em meu colo, e me beijando, e tirando minha camisa. Quando tirei sua blusa e abri a fivela de seu sutiã, senti-me eufórico, logo me surgiram ótimas idéias, he!he!

A noite de transas e volúpias se estenderia por umas três horas, e terminou repentinamente quando, logo após chegarmos ao segundo clímax, ela recebeu um telefonema da tutora e no início da madrugada eu, ainda ensopado pelo nosso suor, precisei acompanhá-la até a Igreja, onde ela estava hospedada junto com parte do grupo. Voltei pra casa, ainda com idéias muito efervescentes na cabeça, dei uma relaxada na poltrona, fiquei a olhar para o teto uns instantes e depois me levantei, fui para computador e terminei o roteiro rapidamente - só o que me faltava mesmo era desopilar. Já totalmente saciado, fui tomar um banho, ainda estava com o corpo umedecido, e, enquanto me ensaboava tomado por uma agradável sensação de bem-estar, me veio uma dúvida, eu fiquei pensando quantos anos demoraria até que eu tivesse novo contato com uma garota. Foi o suficiente para fazer toda minha euforia descer pelo ralo junto com o suor e o perfume da Juliana.





quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Manuscritos

Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar.

- A dança guatemalteca é assim, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?

Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormeci durante a cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, sobretudo quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.

Fiquei bastante pensativo, porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Comigo é sempre assim, quando convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Mas ela não queria. Só sairia se fosse para algum evento, e depois voltar, necessariamente. Foi quando surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.

Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe disse que também havia adorado. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.

Tive que me contentar com um bar novo por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas elas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.

- Deseja mais alguma coisa?

- Não, obrigado...

- OK, muito obrigado e volte sempre - e virou as costas com um sorriso forçado.

Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.

Fui numa conveniência, comprei uma pequena garrafa de cachaça e fui para uma praça, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las, ou minha sensação de posse sobre ex-namoradas. Na verdade, com essas idéias eu apenas me distanciava delas cada vez mais.

Bebia mais algumas doses e me lembrava de outras coisas, coisas tão gerais, como economia, como política. No mesmo dia eu houvera estado numa reunião de partido, na qual fizemos mais uma avaliação negativa das eleições, conforme fazemos a cada dois anos. As eleições são um hiato na nossa história, nós, de um partido de pouca expressão local, recheado de pessoas que, como eu, se acham intelectuais, se acham militantes e se acham formadores de opiniões. A cada dois anos, mais alguns de nós "acordam" para a realidade e saem dessas tão desgastadas trincheiras de luta.

Novas doses e decidi que não daria a mínima para mais nada. Eu não era parte disso. "mal consigo diferenciar um Corsa de um Palio", disse-me certa vez um amigo, em forma de versos. Ele não era o único.

Senti vontade de chorar. Mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.

Recebi uma mensagem no celular, um bip a quebrar o silêncio da nascente madrugada. Uma mensagem alegre, animada, alto-astral... era da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco.

Não me entristeciam nem me enraiveciam tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não ficava triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas estou cansado disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado das pessoas que se acham interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Enfrentando a onda onde muita gente naufragou

Vi há pouco no blog da minha parceira Iza que estava marcado pra hoje uma "blogagem coletiva em defesa do voto consciente". Eu acho meio estranho essa coisa do voto consciente, porque parece ser uma proposta no escuro. O que é votar consciente? Não há resposta pra isso. É como aquela velho movimento: Basta, Eu quero paz!, tão disseminado pela classe média branca na orla carioca. Pra quem é esse "basta"? Ninguém sabe. Mas alguns se contentam com o discurso "politizado".

Não farei desta postagem parte desse movimento coletivo de blogs, mas aproveito a deixa para postar uma entrevista que três estudantes do 3º ano na escola onde dou aula (Atheneu Norte-Riograndense) fizeram a este que vos escreve. A entrevista, naturalmente, é sobre eleições.

Estou pondo o questionário pelo fato de estarmos no clima da política... Mas em dias devo estar postando um conto novo e jogando essa postagem lá atrás nos arquivos... Quanto à entrevista, ela foi um pouco mais extensa do que está aqui, mas eu cortei algumas perguntas menos relevantes. Ei-la:

Pergunta - Primeira pergunta: o que você acha mais importante nas propostas de um candidato? A defesa da educação?

Resposta - De modo algum! Meu primeiro critério é analisar o vínculo do cara com os movimentos sociais... Desde a primeira vez que votei. Aliás, o discurso da educação como mecanismo de mudança, como "único meio para salvar o Brasil" é uma farsa, devo dizer, muito bem cooptada pelo sistema. A educação não muda nada. Porque o problema da educação é, antes de tudo, parte de um problema político e econômico. Então, sou eternamente desconfiado quando vejo discursos ignorando os fatores político-econômicos e defendendo a prioridade do olhar gestor sobre a educação. Geralmente, é pura bravata, demagogia. Em outros casos, prefiro acreditar que é má-fé mesmo.

P - E no caso de Cristóvão Buarque?

R - O que você acha? O cara era Ministro da Educação. Depois se candidatou à Presidência com um discurso voltado novamente para a Educação... O que ele faria como presidente que não fez como ministro? Era muito mais fácil para ele fazer um bom trabalho na educação tendo o Lula, seu velho companheiro de partido, como presidente do que sozinho. Mas não; preferiu o caminho mais fácil e cômodo: a oposição. Hoje tá aí, voltou a votar com o PT em tudo que é matéria no Congresso, mas nem de longe tem a oportunidade que tinha antes.

P - Você não acha que a educação é importante?

R - Acho, mas acho que há questões mais importantes que a educação, porque a educação ruim não é a causa do problema, é a conseqüência.

P - Você não acha que os governantes precisam de pessoas analfabetas e sem qualificação para que eles continuem no poder manipulando-as?

R - Não existe isso. Desde quando boa formação acadêmica denota esclarecimento político? As teses mais conservadoras de nosso país existem justamente no seio das pessoas esclarecidas, na classe média alta, nos ricos. É risível esse tipo de coisa: "o governo quer todo mundo analfabeto para continuar controlando o povo". Ué, o povo é quem é menos controlável... Vê aí, os maiores movimentos que esse país já viu foram organizados pelas ralés... Hoje em dia, a classe média não organiza um movimento de futuro... Não consegue reunir nem 30 pessoas para gritar "Fora Lula". Onde estão esses críticos? A educação forma milhares de médicos, advogados, professores e engenheiros anualmente, mas esse pessoal é todo cooptado, é todo parte do sistema, o senso crítico deles também é zero, tão ou mais nulo quanto o do povo que chamam de analfabeto.

P - O que você acha de o presidente do país ter apenas ensino médio enquanto várias profissões exigem curso superior?

R - Acho uma bobagem se questionar isso. O cargo de presidente é um cargo público, o mais público do país, portanto qualquer um pode ter livre acesso. Além do mais, o que é o curso superior? Uma farsa, igual à educação... Vocês podem achar que é irresponsabilidade, mas praticamente 90% do conteúdo que dou nas salas de aula eu já sabia antes de entrar no curso de Geografia... A faculdade torna aquele nerd um analista de sistemas... A faculdade torna um cara como eu, com vivência de movimento estudantil, discussão política, um professor de Geografia... Ou seja, a faculdade só dá seu título e nada mais. Eu sempre digo para todos, inclusive meus alunos: não se preocupem com a faculdade enquanto não ingressarem nela, e depois que ingressarem, preocupem-se menos ainda!

P - Então você acha normal ter professores dando aula sem curso superior?

R - Não foi o que eu falei... A pergunta havia sido sobre a cadeira de presidente... Quanto às outras questões, a universidade, como disse, dá a titulação... A solução, portanto, não é acabar com a universidade, mas melhorá-la. Hoje, a universidade permanece com o mesmo propósito de antes: excluir os miseráveis.

P - Vamos falar um pouco sobre essa vivência de movimentos que você disse...

R - Eu fui, durante uns anos, do Grêmio e do DCE do CEFET... Organizamos grandes movimentos... Hoje, sou presidente do CA de Geografia... Não atuo mais tanto quanto antes, mas não me abstenho de debates importantes, que ocorrem lá ou em âmbito geral.

P - Por que você não atua mais como antes? Falta de tempo?

R - Em tese... Falta de tempo não é desculpa. Na verdade, mesmo tendo poucos anos de estrada, eu lembro que, na época em que comecei, as discussões no movimento estudantil ainda tinham origem partidária, aprendemos a discutir não somente propostas pra melhorar a escola, mas programas para o país... Mas depois, nesses últimos anos, surgiu uma mania, uma modinha de se fazer movimento apartidário, ou seja, movimento sem (na verdade, contra) os partidos, né? Quer dizer, o cara atuar politicamente sem partido sempre houve, mas movimentos pretensamente organizados fora do âmbito dos partidos ainda era algo relativamente novo aqui no estado... E aí quando veio isso, essa tendência, que coloca todos os partidos no mesmo balaio de gatos, não só eu me desestimulei a participar como todo o movimento estudantil morreu nesse estado.

P - Por que você não combateu?

R - Porque estava num momento de enfraquecimento dentro de meu partido. Então, com a casa desarrumada, não dava para tentar ajeitar as coisas do lado de fora... Mesmo assim, diante do que fizemos no movimento universitário, as organizações apartidárias não se sustentaram, hoje elas praticamente inexistem... Mas o estrago que causaram continua aí: uma descrença infinita...

P - Qual era o seu partido?

R - PCdoB.

P - Ainda é?

R - Não, eu saí do Partido Comunista depois de cinco anos lá dentro... A direção estadual do partido capitulou, virou institucional demais, ficaram todos engravatados... Então eles colocaram aqueles que tinham mais elo com os movimentos na geladeira... Fiquei, junto com uns camaradas, incapaz de organizar qualquer coisa em nome de meu próprio partido... A solução foi sair.

SPL - E pensa em entrar em algum outro partido?

R - Eu saí do PCdoB e passei seis meses sem partido. Até que, naquela onda de crise do PT, pensei algo como "putz, seria massa entrar agora no PT, bem no meio da crise, pra tentar mudar, melhorar tudo o que tá aí"... E foi o que fiz. Entrei no PT junto a alguns camaradas, menos de dez. Criamos uma corrente e já somos a terceira mais influente do partido em nossa capital.

P - Vai votar em Fátima (PT) para prefeita?

L - Obviamente.

P - O que acha das pessoas que dizem que não ligam pra política?

R -
Tem uma canção de um gaúcho que diz: "eu sigo enfrentando a onda onde muita gente naufragou". Acho que é por aí; não acredito que a via eleitoral proporcione alterações muito grandes, estruturais. Mas elas permitem haver um certo avanço. Enquanto não existem outros caminhos, eu sigo nessa onda, virando sempre à esquerda.

P - E o que acha daquelas que não têm partido?

R - É uma opção... Não vejo problema em a pessoa não ter partido, ou mesmo em discutir política sem ter partido... Mas a partir do momento em que a pessoa busca fazer política sem partido, acho isso uma irresponsabilidade que não é pequena... Política se faz coletivamente. Todas as minhas concepções foram levadas a debates internos, e ou venci ou fui vencido. Não acredito em política feita individualmente. Não formulo minhas idéias num quarto fechado. Formulo no calor da discussão. Quem faz política solitário está cometendo, pra mim, um grave equívoco. Eu não acredito nisso. Ainda que eu esteja ocasionalmente errado. Quando acerto, o partido acerta. Quando erro, o partido erra e aprendemos com isso. Quando se está sozinho, não se tem esse parâmetro e esse senso de coletividade. Suas "conquistas" só servem a si mesmo, a seu ego. Prefiro errar com o partido do que acertar sozinho.

P - Onde estão os caras que fazia movimento contra seu partido?

R - Um deles, líder do PSB, é candidato a vereador, temos boa relação. Outros continuam participando, em maior ou menor intensidade, no PT, PSTU, PV ou PCdoB... Os que faziam movimento sem partido, porém, hoje estão mais preocupados com a prova que terão no final do período em suas faculdades ou com o estágio não-remunerado em algum escritório de advocacia que os fazem pensar que estão fazendo algo importante.

P - Você acha que eles eram radicais?

R - Acho que eles eram uns bostas.

P - Mas eles respeitavam a decisão de vocês de ter partido?

R - Não sei, mas isso não é importante... Não quero que o cara respeite minha opinião. Respeito é um negócio inerente, presente em tudo, está no ar, como as borboletas. Não preciso vir dizer pra você que respeito a sua opinião, afinal nosso senso de coletivo, de animal social, prenuncia isso. Agora, se eu tenho uma opinião, coloco em debate, lanço minhas idéias dentro de uma entidade, de um movimento, e o cara vem dizer que respeita minha opinião mas ele tem a dele, só pode estar tirando onda com a minha cara... Eu dizia: não quero que você respeite minha opinião, quero que você venha descontruí-la, venha dizer onde estou errado, exatamente como estou fazendo com você, que está errado nisso e naquilo. Mas, hoje em dia, criticar uma opinião, uma idéia, virou crime. Todo mundo se esconde, fica blindado, na velha frase: "respeite minha opinião que eu respeito a sua". Pô, por que um cara desses ainda sai de casa? Por que um cara desses ainda tem opinião?

P - Em quem vão votar os professores daqui do Atheneu?

R - Os mais inteligentes votarão em Fátima.