sábado, 24 de maio de 2014

O mesmo filme antigo

Eu não sabia o que a caixa me reservava quando fui morar lá. A "caixa" é como eu chamava um quarto de pensão onde me recolhi por algumas semanas. O apelido advinha do fato de que nesse quartinho nada havia além da saída que apontava direto para os degraus da escada; sequer havia um corredor no recinto. Não havia janelas. O único canal com o mundo externo era a fresta por baixo da porta.

A única pessoa que me visitava na época era uma amiga, que havia me sugerido o local - era o único que eu podia pagar com alguns bicos que fazia. Eu andava meio pra baixo porque tinha problemas no trabalho, estava começando uma faculdade e isso me cansava, e ainda vinha sendo perseguido por uma mulher histérica, da qual não me lembro mais o nome. Mas há sempre uma mulher para salvar você de outra. Era a função que cumpria essa minha amiga, que me acolheu e me ofereceu certo suporte. O problema era que, ao me sugerir alugar este local, as visitas frequentes deixavam claro que ela, por alguma razão, se sentia não apenas uma amiga, mas uma figura íntima, mais presente do que eu gostaria e do que eu precisava, o que passou a me incomodar.

- Vim ver como você está - ela dizia, sempre que chegava. E então me oferecia algum pão com presunto que trazia num pote com alguma bebida, fazia massagem, e eu logo dizia que queria dormir, o que ela entendia perfeitamente como uma deixa para que fosse embora (eu só dormiria horas depois).

Numa certa ocasião, eu não estava no quarto. Naquela mesma rua, havia alguns bares. Aproveitei e dei um giro para conhecê-los, até fincar pé em um deles. Após muitas doses viradas, voltei para o quartinho e encontrei a fechadura do apartamento frouxa, como se tivesse sido danificada. Pensei que algum delinquente da região havia tentado arrombar, e fiz denúncia no dia seguinte no posto policial do bairro.

Nesse mesmo dia, a garota apareceu à noite no apartamento.

- Onde estava?, perguntou.

- Como?

- Onde estava ontem?

- Não me lembro, deixa eu pensar (eu realmente havia esquecido)...

- Me diz logo onde você estava! - ela parecia alterada.

- Acho que estava no Caixão, eu falei - Caixão era o nome de um bar das redondezas.

- Você não estava lá - disse ela.

- Estava sim.

- Não, não estava! Eu fui lá!!!

Com a insistência dela, lembrei que de fato eu não estava no Bar do Caixão.

- Ahhh... na verdade, eu estava no Pernil do Zé Roberto - outro bar, numa rua adjacente.

- Por que está mentindo pra mim??

- Não estou mentindo, é sério.

- Eu quero ajudar você! Por que mente pra mim?!

Não adiantava eu repetir que não estava mentindo e que apenas havia me enganado. Ela estava perdendo o controle. Foi fácil deduzir que ela é quem tinha tentado arrombar o quarto na noite anterior.

- Hoje vou dormir aqui! Tenho que ficar com você!

- Como assim? Não sou criança, vá pra sua casa.

- Vem, vamos dormir.

Pensar numa garota dormindo comigo, ainda mais depois dos últimos problemas que havia tido com mulheres, não era algo que eu precisava para enfrentar meu já estressante cotidiano. No entanto, não consegui demovê-la dessa ideia, e aceitei que ficasse ali. Como a cama era miúda, deitei no chão, sob constantes pedidos para que dormíssemos juntos. Como percebi que não pararia com a insistência, fui para a cama. Apesar de tudo, nada aconteceu. E assim que ela adormeceu, eu me levantei, e sentei na única cadeira que tinha no quarto. Não dormi mais a madrugada inteira.

No dia seguinte, saí cedo pra trabalhar, antes que ela acordasse. Nessa época, eu era fiscal de empresa de ônibus, e minha função era verificar se os motoristas estavam saindo e chegando no terminal na hora certa. Era uma espécie de capanga, dedo-duro. Não durei muito nesse trabalho, afinal, eu, moleque, passei a ser logo hostilizado pelos motoristas cinquentões. Certa vez o Almeida, o motorista mais velho, me disse:

- Nunca tivemos problemas com a central. Se de repente aparecer motorista dedurado aqui, você corre o risco de perder uns dentes por aí. Se ligue, garoto.

Apesar da ameaça, os motoristas eram disciplinados e eu nunca precisei fichar ninguém. O que não agradou a chefia, que queria que eu inventasse denúncias caso não as tivesse, e eu fui embora em menos de trinta dias. Mas isso é uma outra história.

Quando voltei para o apartamento, a garota não estava, mas deixara um bilhete.

VOLTO MAIS TARDE, VOU TRASER BISCOITOS E REFRESCOS.
VC PRECISA DE COISAS SALDÁVEIS. TE AMO

Não gostei do que li. Pensei em mil alternativas para fugir da situação. A primeira foi entrar em contato com o senhorio, acertar a entrega do quarto e fugir da vida dessa louca. Mas o senhorio não morava por perto e eu estava sem telefone na ocasião. Outra alternativa era simplesmente sair correndo. Mas fatalmente eu precisaria voltar, e seria muito provável que ela ainda estivesse lá. Então tomei a decisão mais prática. Tranquei a porta e apaguei todas as luzes. Sentei na cama, e bebi alguns goles do conhaque barato que ela tinha me comprado dias antes.

Era 23h00 e eu estava quase adormecendo quando começaram a bater na porta. Apesar de levemente embriagado, de imediato me coloquei em posição de alerta. As batidas começaram leves, depois tornaram-se mais insistentes. Permaneci em silêncio todo o tempo, até que a agressividade começava a se tornar fator de espanto. Eu não conseguia entender bem o que acontecia. Ela já não apenas batia na porta com a mão, mas simultaneamente dava um chute ou uma joelhada. Quando a porta tava começando a ceder, ela parou com as tentativas. Aparentemente, havia cansado de bater. Curiosamente, só nesse momento ela falou algo:

- Seu filho da puta - disse, até com uma certa suavidade.

Depois disso, não ouvi mais nada. Nem passos, nem batidas na porta, nem vozes. Não sabia se ela havia ido embora. Toda essa indefinição me deixava muito angustiado. Naquele quarto sem janelas onde até a respiração era difícil, eu não precisava de tormentos emocionais para completar o pacote. Sentia-me muito desolado. Bebi um pouco, mas mesmo aqueles tragos já não me aliviavam como noutros tempos. Não queria beber. Não queria comer ninguém. Não queria longas madrugadas nas ruas. Não queria dormir em muquifos, acordar em sarjetas, vomitar na beira do mar, com o sol nascendo e sem que eu o percebesse. No sufoco daquelas paredes e daquele quarto sem luz, eu pensava que nada daquilo me representava, eu não era aquilo, eu não devia estar ali. Todas essas coisas eram o mesmo filme antigo que se repetia diariamente. Eu podia pensar em algumas maneiras de me matar, mas meu conflito na ocasião não era com a existência; era, isso sim, com o que eu havia feito dela. Talvez conversar com alguém me ajudasse, mas eu não tinha com quem compartilhar isso, e essa pobre garota que agora me perseguia, por mais que quisesse ajudar, certamente me encaminharia para uma nova desgraça.

Durante muitas horas, permaneci sentado na cama, olhando pro chão, e com o copo na mão, sem levantá-lo para beber um gole sequer. Estava em transe. Ouvia algumas coisas, mas tanto podia ser lá fora como podia ser na minha cabeça. Somente às 10h00 bateram novamente à porta, tão rispidamente que eu despertei. Desta vez se identificaram: era o dono do apartamento.

- Me disseram que uma garota dormiu aqui essa noite. Não aceitamos esse tipo de coisa.

- Aqui no apartamento? - neguei de imediato.

- Não, aqui na escada.

Eu não tinha nada a dizer. A garota de fato havia ficado ali na porta por horas. Decidi apenas aproveitar a ocasião para me acertar com o sujeito, e dizer que não pretendia mais continuar ali.

- Que seja - ele disse, apenas.

Aquilo me pareceu uma indicação de que uma etapa da minha vida estava se despedindo de mim. Uma etapa que talvez pouco tenha me preenchido. "Que seja", foi assim que ela terminou. Tanto faz como tanto fez.

De um telefone público, liguei a cobrar para minha mãe. Ela parecia contente em me ouvir. Fazia algum tempo que não nos falávamos. Para mim, pouco tempo. Para ela, bastante.

- Ei minha senhora, vou dormir aí hoje, pode ser?

Quando cheguei, à noite, ela me preparou umas pizzas e outras bobagens desse tipo. Comi um pouco, assisti uma TV e fui para o quarto. Tudo permanecia do mesmo jeito. Sentei-me à cama. Estava exausto. Já há mais de 40 horas não dormia efetivamente. No entanto, como na noite anterior, assim fiquei por horas. Estático. Muita coisa passava em minha cabeça. Foi assim até ver o dia amanhecendo, pelas frestas no telhado. Fiquei admirando aqueles filetes de luz, que pouco a pouco tomavam o recinto. Abri a janela. Todo o quarto se iluminou de imediato. Senti-me confortável, e não lembrava quando tinha sido a última vez que sentira a mesma coisa, mas sabia que já fazia alguns anos. Foi uma longa noite, eu pensei. Minutos depois, finalmente adormeci.