quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Subproduto do esquecimento

Foi quando me olhei no espelho que percebi o quanto estava apreensivo. Eu conseguia ver embaçada minha imagem refletida mesmo estando o vidro total e perfeitamente polido. Eu estava na sala, estava sozinho no cômodo, lá na cozinha havia uma mulher, a cantar alto, freqüentemente me convidando para acompanhá-la no rito, sem sucesso.

Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezenove anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida, talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.

Eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tenha beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente que todas, para mim, eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.

"Você que é um cara de sorte", disse-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.

Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado, não de propósito, para que ela visse em mim não um moleque vazio, mas um garoto com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.

- Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai - foi o que ela me disse ao me ver observando a foto do rebento.

Ela me ofereceu um vinho e eu traguei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences dele que só pegava quando, de repente, sentia falta.

- Essa semana ele veio pra pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.

Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.

Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Cinthias, as Claras, Priscilas, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e rostos que ainda povoam minha cabeça. Com elas, compartilhei alguns bons momentos, mas nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saía a vagar sozinho pela madrugada.

Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como todas as mulheres solteiras em sua idade, muito carente. Seu jeito maternal, porém, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria. E jamais voltaria a vê-la.

Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim, corro o risco de ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeava calado pela noite escura.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Continue a Brilhar, Richard

Eu sou jovem. Tenho 22 anos. Sou de uma das gerações mais violentadas da História. Digo isso, porque eu sei que há algo que todo jovem tem, e teve, fosse na época dos faraós egípcios, na educação feroz dos bárbaros, na disciplina rígida das distancias chinesas, no altar de liberdade norte-americano ou em alguns conturbados anos passados no Brasil.

Os jovens tinham ídolos.

Mas minha geração não teve esse direito.

Há pouco tempo atrás, para cada arte, para cada campo do conhecimento, existiam ícones. Existiam referências. Marx era uma referência na Filosofia. Dali era uma referência na arte. Brizola era uma referência na política. Cada um cometia suas cagadas; mas estava-lhes reservado um lugar, uma cadeira simbólica, que os taxava de incontestáveis para gerações.

Eu sempre digo que sou um jovem velho; sou um jovem muito século XX. Digo isso, talvez, com uma inconsciente amargura. Talvez por saber que eu, que sempre pensei ter princípios, não tinha a sustentação ideológica que tinham os jovens antes de mim.

Quem tem minha idade não viveu grandes movimentos literários, nem grandes mobilizações políticas, não participou de festivais de rock revolucionários, quem tem minha idade não viveu nada que desse a impressão de que estávamos, através disso ou daquilo, mudando o mundo.

Eu penso, todos os dias, em mudar o mundo. Mas mudar o mundo, pra mim, é, antes de tudo, pensar que posso mudá-lo. Antes, a juventude pensava que podia mudar e pensava que estava mudando. Hoje, eu penso que posso. Mas sei que isso não tem futuro, o mundo não pode ser mudado. Penso algo com a consciência de que estou dando à minha existência um sentido que não existe. Esse dilema persiste na minha cabeça, e vai persistir até o dia da minha morte.

Como eu disse que era um jovem muito século XX, um subproduto do passado, eu me detive, talvez num ato (novamente) inconsciente, a tomar como referência os ícones do passado. Assim o foi com o próprio Marx, com Buñuel, com Huxley, com John Lennon, com Jack Kerouac. Chegou um tempo em que eu percebi que nada do que eu lia, via ou escutava era produzido por gente viva. Senti-me deslocado. Senti-me culpado, por não prezar por aquilo que a minha geração produz - logo eu, que sempre defendi tanto a minha geração. Ora, eu sei que a minha geração não é pior que as anteriores, não é mais burra, não é mais alienada que qualquer outra.

Mas o problema não está na minha geração. O problema está no mundo que nos é oferecido. Um mundo insosso, cruel, deprimente. Sinto uma tristeza só de pensar na condição humana. Pobre ser homem, ser solitário e carente de ídolos, de deuses, de tudo. Pobre de mim, de nós. Pobre de todos nós, porque somos humanos, e o ser humano é, antes de tudo, um ser carente.

Já matutei muito sobre todas essas questões. Mas não dá; minha cabeça permanece lá atrás. Permaneço roubando ídolos de outrem. Na minha cabeça, efervescem os sonhos dos moleques dos anos 1960, 70, 80. E hoje sei que, como eles, eu também estou cada vez mais carente de ídolos.

Tudo isso é só pra dizer o quanto me doeu ler hoje as notas sobre o falecimento de Richard Wright, o Rick, tecladista do Pink Floyd, banda que durante um bom tempo fez a minha cabeça, deliberou o que eu pensava e defendia, não só na música, mas na arte em geral, na política, no comportamento. Pink Floyd foi a banda que me abriu a cabeça depois de 15 anos perdidos. Eu, um moleque punk, que passei a vislumbrar um mundo de possibilidades quando descobri os teclados do Rick. Um teclado é um mundo de imaginações mil para quem vem da escola punk. Hoje tenho um teclado, aprendi uns truques nele, algumas coisas; mas, claro, nada que se compare ao que Rick faria dormindo. Mesmo assim, já é grande coisa.

Richard Wright era, na briga de egos do Pink Floyd, o cara que dava a alma na música e que menos exigia os holofotes. Amava tanto sua banda que, mesmo quando foi injustamente demitido dela, continuou sendo seu tecladista, sem receber os grandes lucros a que os outros membros tinham direito.

O Pink Floyd, quando surgiu, trazia uma autenticidade e originalidade tão veementes que causou impacto em todo o meio musical. Autenticidade e originalidade são virtudes bastante relegadas a segundo plano a quem faz arte hoje. No teatro, o que vale é o humor vazio. No cinema, o que dá a nota são os efeitos especiais. Na música, o hiato é ainda maior. Procuro e só vejo qualidade em bandas de metal - e mesmo assim, a qualidade técnica é imensa, mas a criatividade é quase zero. Falta perceberem que a beleza das coisas não está na técnica, não está no "fazer certo"; está, sim, no feeling, no subjetivo, no conceito.

Ao contrário dos camaradas mais velhos, não tive a oportunidade de ver o Pink Floyd juntos, nem, muito menos, de acompanhar a obra desta banda em momento presente. Para mim, tudo que conheço deles, assim como tudo que vejo agora na minha estante de livros, filmes e discos é passado. Hoje, se tornou ainda mais passado.



"E eu não estou com medo de morrer,
a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo.
Porque estaria com medo de morrer?
Não há razão para isso,
você tem que ir algum dia."

"Eu nunca disse que estava com medo de morrer."

"Se você pode ouvir este sussurro, então você está morrendo..."

The Great Gig on The Sky (Richard Wrhight)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Pausa para a Literatura

Hoje é 11 de setembro. Neste dia, devemos nos lembrar de outros dias chocantes. Um deles foi aquele 11 de setembro de 2001; uma data, aliás, que poucos e muitos esquecem. Muitos lembram-se dos 3.000 e tantos mortos no WTC. Mas se esquecem de outros tantos, muito mais que 3.000. São as vítimas da fome.

Segue algo mais preciso.

Em 11 de setembro, morreram 35.615 crianças de fome. FOME.

Lugar: países pobres.

Artigos na imprensa: zero.

Edições especiais na TV: zero.

Mensagens de presidentes de repúblicas: zero.

Convocatória de uma unidade de crise: zero.

Manifestações de solidariedade: zero.

Minutos de silêncio: zero.

Manifestações pelas vítimas: zero.

Fóruns sociais organizados: zero.

Mensagens do Papa: zero.

Nível de alerta: zero.

Mobilização do Exército: zero.

Hipóteses sobre a identidade dos inimigos: zero.

Prováveis autores dos crimes: países ricos.





O 11 de setembro também serve de lição em solo latino-americano. Há 35 anos, morria - era assassinado - no Chile, um líder chamado Salvador Allende. Um líder de muita hombridade, que abriu mão da própria vida pela lealdade de se colocar do lado do povo. Salvador Allende era o presidente do Chile, e foi obrigado a renunciar, porque em seu governo, não havia lugar para "aritocratismo". Vinculava seu governo à inclusão dos miseráveis, estes miseráveis latinos, eternos explorados do Império - do Império norte-americano, vale frisar.

Há quem diga que os latino-americanos têm mania de perdedor. Dizem, esses tais, que nós, latino-americanos, nós, latino-americanos de esquerda, creditamos, comodamente, os nossos prejuízos à gula dos ricos, como se fosse fácil e cômodo ficar sentado e reclamando da exploração advinda do norte, como de fato é.

Mas isso tem sido mudado. Afinal, governos no nosso continente estão buscando alternativas. Estão buscando caminhos que fogem ao pensamento único neoliberal. Nesse sentido, governos latinos estão criando fundos próprios, políticas próprias, estão formulando as próprias prioridades, e não mais atendendo às prioridades do Banco Mundial e FMI.

Mas eles - eles, os países ricos - não gostam.

E eles promovem, direta ou indiretamente, violência e instabilidade em nossos países. Pregam a desunião. Pregam a agitação política de direita. Financiam o terrorismo. Foi assim no passado; aqui no Brasil, tivemos claros exemplos nos anos 1950 e 1960. Na Argentina, igualmente. No Chile, o exemplo já foi citado.

Mas, Marx dizia, a História se repete. Na primeira vez, ela acontece como tragédia. Na segunda, acontece como farsa.

O golpe de 1964 no Brasil foi uma tragédia. Como o foram os golpes em países irmãos. Foram 30 anos de submissão total e inconteste aos States. Hoje, o filme se repete, não por falta aviso. Já foi neste século que os EUA financiaram novo golpe, contra as forças chavistas na Venezuela. Hoje, vemos outra onda de violência e caos. Agora, ocorrente na Bolívia, com o aval e a conivência acrítica de toda a imprensa do continente, como já nos acostumamos a ver.

Essa postagem é para lembrarmo-nos sempre da condição a que nos impõem os eternos donos do poder. Devemos ser sempre lacaios dos euro-americanos. Devemos sempre baixar a cabeça para aqueles que nos colonizaram. Mas isso tem começado a mudar. Tem começado a mudar na Venezuela, na Bolívia, na Argentina. No Brasil, isso está ainda bastante incipiente, em grande parte pela nossa esquerda academicista e cor-de-rosa, afeita aos radicalismos de PSTU da vida.

Será que vamos esperar novos golpes para organizarmos novas manifestações na clandestinidade?