Ainda me recordo de quando, jubilado da faculdade e procurando trabalho, cogitei sair de casa a primeira vez.
- Não, não, não e não!
Era sempre uma negativa aos colegas que, recém-ingressados na Universidade, queriam alguém pra dividir quarto, apartamento, ou o que lá fosse. Mas eu não queria. Estava saindo de casa não por uma incompatibilidade de interesses somente com a minha mãe, e sim por uma impossibilidade de permanecer dividindo vida com alguém. Não conseguia, e não consigo, me sentir confortável sabendo que chegarei em casa e lá haverá outra alma atormentada que, de alguma maneira, roubará a minha paz, a minha solidão - sem oferecer verdadeiramente companhia.
Sendo assim, a única opção que me restava era procurar outros lugares, tipo hotéis ou pensões. O primeiro que experimentei foi um hotel barato, infiltrado numa movimentada rua da Cidade Alta, mas tão decadente que poucos já lhe deram atenção ao passar por ali. Não trazia consigo nenhum charme daqueles de filmes, nenhum letreiro de neon piscante. O nome do recinto - Hotel Nordeste - estava mal pintado na parede, bem como toda sua tabela de preços. Uma noite custava 10 ou 12 reais; um mês, 200 reais. Dormi lá só uma noite. Mas é horrível dormir em hotel barato; ao menos, se considerar que todos os hotéis baratos são como esse. Em primeiro lugar, o quarto já não me oferecia muito. Havia dois beliches, um deles sem qualquer cobertor, e uma parede descascada, rachada e rabiscada até o último centímetro. Mas isso não era o pior. O pior era não ter o banheiro no quarto. O assistente me houvera acompanhado até o segundo andar, onde eu ficaria hospedado, e me apontara o no fim do corredor. Esperei que ele descesse para poder ver como era o interior, e notei que aquele lugar poderia servir para tudo, e tudo mesmo, considerando que ali deve ser também ponto de atuação de boa parte das meretrizes da Cidade Alta, menos para a higiene ou qualquer coisa que o valha. O banheiro é muito importante. Às vezes, quando a própria residência nos representa um peso, o banheiro é o único lugar que pode servir de refúgio. Nesse hotel, entretanto, eu não teria esse refúgio.
Num hotel desses, fatalmente aparecerá um bêbado mexendo no trinco da porta pela madrugada. Foi o que de fato aconteceu; no final da madrugada, desperto e ouço uma voz rangente e uma insistente luta para abrir a fechadura. Sem sucesso, é lógico. Nem o bêbado nem eu, que decidi procurar outro lugar.
Quando, depois, fui procurar um kit-net nos fundos de uma casa, num bairro nobre, a coisa só pioraria. Ainda me lembro de entrar no quarto, um entre quatro, sem nada lá dentro senão um guarda-roupa, uma cama e um criado-mudo, enquanto eu só carregava umas roupas e livros na mochila e um violão; mas este eu nem sei porque carregava, fazia mais de um ano que não o tocava, hoje faz muito mais. Também não sei mais por onde ele anda, emprestei a alguém que precisava de um violão de papelão e cordas de nylon pra aprender uns abjetos acordes e nunca mais pedi de volta.
Como foi dito, o kit-net ficava nos fundos da casa de um casal de senhores, que eu pensei que facilmente dobraria, só que não foi bem assim. Eu era iniciante na coisa de garimpar noites em quartos estranhos, era mais fácil dormir na rua - e foi o que realmente me ocorreu nessa época, por uma ou duas vezes. Por outro lado, o coroa parecia já ser bem esperto a ponto de enrolar sua clientela. Nos dias em que lá estive, em todos ele vinha me encher o saco, dizendo o que poderia ou não fazer, reclamando de todas as coisas, não importava se eu fechasse a porta (ele mandava uns bilhetes por baixo dando orientações disso e daquilo). Eram um casal de pentelhos coroas, só então entendi por que ninguém dos outros quartos estava lá a maior parte do tempo. Maldito velho, senti vontade de matá-lo quando estava na terceira noite, mas desisti e fui apenas embora, deixando pra trás a solidão de uma cama desfeita, uma cueca suja e o aluguel de um mês pago adiantado... aquele dinheiro não faria falta se eu encontrasse o sossego em qualquer outro lugar, nem que fosse num banco de praça.
Talvez as piores experiências fossem com mulheres, a maior parte delas com uns anos a mais do que eu. Eu lembro que recorri a algumas nos momentos mais difíceis. Era sempre bem-recebido, não só como visita. Elas sempre queriam que ficasse mais. E mais. Devia haver algo que as afligia, porque eu notei que era comum que tais mulheres, depois de uma certa idade, sei lá, vinte e cinco, vinte e seis anos, não conseguissem mais suportar a idéia de serem sós, de viverem sós. A carência era absurdamente grande, e para elas era plenamente natural que eu lhes oferecesse amor em troca de um teto. Mas para mim não era, porque nunca supri carência de ninguém. Ainda mais de pessoas nesta situação... para elas, estar com alguém ia muito além da necessidade natural e animal que todos temos, era uma necessidade doentia, viciosa, sobre a qual elas não tinham nenhum controle.
Era difícil ir embora, porque a despedida nunca era algo cortês e sempre ficava a sensação de que ela cortaria a garganta assim que eu dobrasse a esquina - certamente nenhuma delas faria isso, mas só a sensação me cortava por dentro.
Mais de uma vez, aceitei convites de colegas para dormir na casa deles. Acho que dormir na casa de conhecidos me faria diminuir essa zanha misantrópica que carrego. E era bom, conversávamos muito. Mas como eu nunca via o meu hospedeiro ao dia - eu havia conseguido um trabalho, saía cedo e voltava no início da noite, nas quatro ou cinco vezes que dormi por aí de favor - nunca conversávamos muito. Quando o fazíamos, a conversa era sempre contida por necessidades outras.
- Vou dormir, boa noite - diziam, e se iam.
Eu nunca compreendi como dormir poderia ser um ato tão burocrático para as pessoas. Dava uma certa hora e diziam "vou dormir" para si e para quem mais fosse necessário, e se acomodavam, houvesse ou não compromissos na manhã do dia seguinte para justificar seu ato. Para mim, dormir era difícil. A menos que eu já estivesse tomado de sono a ponto de apagar assim que me deitasse, geralmente o que me ocorria eram perturbações sempre que eu me deitava. É por isso que fujo da cama, fujo porque ela me traz pesadelos enquanto ainda estou desperto. Não me deito nela de bobeira, esperando pegar no sono. Prefiro ler livros na poltrona e adormecer, ver TV no sofá e adormecer, ficar na internet e adormecer. Não consigo dizer nem pensar "vou dormir". Apenas adormeço, quando o corpo assim exige, sendo mais forte do que eu.
Essas e outras experiências se intercalaram com retornos turbulentos à casa de minha família por cerca de um ano. É demais, para qualquer um. Delas, ficaram alguns traumas meio difíceis de sanar, e uma necessidade potencializada de ficar distante das pessoas nas horas mais importantes - aquelas, perdidas no meio da madrugada. Assim, vou levando. Vez ou outra, ainda recebo telefonemas de velhas - e novas - garotas querendo conversar. Eu gosto, as conversas são revigorantes. Quem dera uma relação a dois se compusesse apenas de conversa. Também continuo a receber convites de amigos desejosos de dividir apartamentos. Permaneço recusando a todos.
Por outro lado, já não recebo visitas, senão de algumas baratas quando esqueço o ralo aberto, porque ninguém sabe onde moro. E ao menos isso já é garantia de que estarei livre de fantasmas estranhos quando me dirijo pra casa. Já basta o meu próprio.
- Não, não, não e não!
Era sempre uma negativa aos colegas que, recém-ingressados na Universidade, queriam alguém pra dividir quarto, apartamento, ou o que lá fosse. Mas eu não queria. Estava saindo de casa não por uma incompatibilidade de interesses somente com a minha mãe, e sim por uma impossibilidade de permanecer dividindo vida com alguém. Não conseguia, e não consigo, me sentir confortável sabendo que chegarei em casa e lá haverá outra alma atormentada que, de alguma maneira, roubará a minha paz, a minha solidão - sem oferecer verdadeiramente companhia.
Sendo assim, a única opção que me restava era procurar outros lugares, tipo hotéis ou pensões. O primeiro que experimentei foi um hotel barato, infiltrado numa movimentada rua da Cidade Alta, mas tão decadente que poucos já lhe deram atenção ao passar por ali. Não trazia consigo nenhum charme daqueles de filmes, nenhum letreiro de neon piscante. O nome do recinto - Hotel Nordeste - estava mal pintado na parede, bem como toda sua tabela de preços. Uma noite custava 10 ou 12 reais; um mês, 200 reais. Dormi lá só uma noite. Mas é horrível dormir em hotel barato; ao menos, se considerar que todos os hotéis baratos são como esse. Em primeiro lugar, o quarto já não me oferecia muito. Havia dois beliches, um deles sem qualquer cobertor, e uma parede descascada, rachada e rabiscada até o último centímetro. Mas isso não era o pior. O pior era não ter o banheiro no quarto. O assistente me houvera acompanhado até o segundo andar, onde eu ficaria hospedado, e me apontara o no fim do corredor. Esperei que ele descesse para poder ver como era o interior, e notei que aquele lugar poderia servir para tudo, e tudo mesmo, considerando que ali deve ser também ponto de atuação de boa parte das meretrizes da Cidade Alta, menos para a higiene ou qualquer coisa que o valha. O banheiro é muito importante. Às vezes, quando a própria residência nos representa um peso, o banheiro é o único lugar que pode servir de refúgio. Nesse hotel, entretanto, eu não teria esse refúgio.
Num hotel desses, fatalmente aparecerá um bêbado mexendo no trinco da porta pela madrugada. Foi o que de fato aconteceu; no final da madrugada, desperto e ouço uma voz rangente e uma insistente luta para abrir a fechadura. Sem sucesso, é lógico. Nem o bêbado nem eu, que decidi procurar outro lugar.
Quando, depois, fui procurar um kit-net nos fundos de uma casa, num bairro nobre, a coisa só pioraria. Ainda me lembro de entrar no quarto, um entre quatro, sem nada lá dentro senão um guarda-roupa, uma cama e um criado-mudo, enquanto eu só carregava umas roupas e livros na mochila e um violão; mas este eu nem sei porque carregava, fazia mais de um ano que não o tocava, hoje faz muito mais. Também não sei mais por onde ele anda, emprestei a alguém que precisava de um violão de papelão e cordas de nylon pra aprender uns abjetos acordes e nunca mais pedi de volta.
Como foi dito, o kit-net ficava nos fundos da casa de um casal de senhores, que eu pensei que facilmente dobraria, só que não foi bem assim. Eu era iniciante na coisa de garimpar noites em quartos estranhos, era mais fácil dormir na rua - e foi o que realmente me ocorreu nessa época, por uma ou duas vezes. Por outro lado, o coroa parecia já ser bem esperto a ponto de enrolar sua clientela. Nos dias em que lá estive, em todos ele vinha me encher o saco, dizendo o que poderia ou não fazer, reclamando de todas as coisas, não importava se eu fechasse a porta (ele mandava uns bilhetes por baixo dando orientações disso e daquilo). Eram um casal de pentelhos coroas, só então entendi por que ninguém dos outros quartos estava lá a maior parte do tempo. Maldito velho, senti vontade de matá-lo quando estava na terceira noite, mas desisti e fui apenas embora, deixando pra trás a solidão de uma cama desfeita, uma cueca suja e o aluguel de um mês pago adiantado... aquele dinheiro não faria falta se eu encontrasse o sossego em qualquer outro lugar, nem que fosse num banco de praça.
Talvez as piores experiências fossem com mulheres, a maior parte delas com uns anos a mais do que eu. Eu lembro que recorri a algumas nos momentos mais difíceis. Era sempre bem-recebido, não só como visita. Elas sempre queriam que ficasse mais. E mais. Devia haver algo que as afligia, porque eu notei que era comum que tais mulheres, depois de uma certa idade, sei lá, vinte e cinco, vinte e seis anos, não conseguissem mais suportar a idéia de serem sós, de viverem sós. A carência era absurdamente grande, e para elas era plenamente natural que eu lhes oferecesse amor em troca de um teto. Mas para mim não era, porque nunca supri carência de ninguém. Ainda mais de pessoas nesta situação... para elas, estar com alguém ia muito além da necessidade natural e animal que todos temos, era uma necessidade doentia, viciosa, sobre a qual elas não tinham nenhum controle.
Era difícil ir embora, porque a despedida nunca era algo cortês e sempre ficava a sensação de que ela cortaria a garganta assim que eu dobrasse a esquina - certamente nenhuma delas faria isso, mas só a sensação me cortava por dentro.
Mais de uma vez, aceitei convites de colegas para dormir na casa deles. Acho que dormir na casa de conhecidos me faria diminuir essa zanha misantrópica que carrego. E era bom, conversávamos muito. Mas como eu nunca via o meu hospedeiro ao dia - eu havia conseguido um trabalho, saía cedo e voltava no início da noite, nas quatro ou cinco vezes que dormi por aí de favor - nunca conversávamos muito. Quando o fazíamos, a conversa era sempre contida por necessidades outras.
- Vou dormir, boa noite - diziam, e se iam.
Eu nunca compreendi como dormir poderia ser um ato tão burocrático para as pessoas. Dava uma certa hora e diziam "vou dormir" para si e para quem mais fosse necessário, e se acomodavam, houvesse ou não compromissos na manhã do dia seguinte para justificar seu ato. Para mim, dormir era difícil. A menos que eu já estivesse tomado de sono a ponto de apagar assim que me deitasse, geralmente o que me ocorria eram perturbações sempre que eu me deitava. É por isso que fujo da cama, fujo porque ela me traz pesadelos enquanto ainda estou desperto. Não me deito nela de bobeira, esperando pegar no sono. Prefiro ler livros na poltrona e adormecer, ver TV no sofá e adormecer, ficar na internet e adormecer. Não consigo dizer nem pensar "vou dormir". Apenas adormeço, quando o corpo assim exige, sendo mais forte do que eu.
Essas e outras experiências se intercalaram com retornos turbulentos à casa de minha família por cerca de um ano. É demais, para qualquer um. Delas, ficaram alguns traumas meio difíceis de sanar, e uma necessidade potencializada de ficar distante das pessoas nas horas mais importantes - aquelas, perdidas no meio da madrugada. Assim, vou levando. Vez ou outra, ainda recebo telefonemas de velhas - e novas - garotas querendo conversar. Eu gosto, as conversas são revigorantes. Quem dera uma relação a dois se compusesse apenas de conversa. Também continuo a receber convites de amigos desejosos de dividir apartamentos. Permaneço recusando a todos.
Por outro lado, já não recebo visitas, senão de algumas baratas quando esqueço o ralo aberto, porque ninguém sabe onde moro. E ao menos isso já é garantia de que estarei livre de fantasmas estranhos quando me dirijo pra casa. Já basta o meu próprio.