sábado, 17 de novembro de 2007

Depressão, prantos e alegria contida depois da triste notícia

Quando eu acordei e, ao tentar conectar, percebi que tinham cortado minha net mais uma vez - a equação correta, afinal eu não pagara as duas contas anteriores -, peguei os únicos 5 reais que restavam na minha carteira e decidi tomar duas cervejas no boteco da rua. Eu detestava cerveja de manhã, mas isso não me ocorreu naquele instante... detestava tanta coisa, afinal. Podia dizer que detestava desde vários aspectos de mim mesmo até o fato de a bandeira dos Estados Unidos estar fincada no solo lunar. Não deixava de fazer as coisas por tais frescuragens. Fui bebericar com os trocados que me restava, pois então.

Quando cheguei e me aportei no bar, percebi uma intensa movimentação em torno de uma mesa... ao que os outros bebuns foram se desaglomerando, pude perceber: o Baiano, um conhecido figura do bairro, negro, literalmente baiano, de quase dois metros de altura estava em prantos, uma imagem de dar pena. Nitidamente, tivera sofrido, para ver-se em tal condição, um grande golpe. Não fiz alarde algum; não o conhecia, assim como não conhecia nenhum dos outros assíduos freqüentadores do bar, senão de vista. Eu devia ser o mais jovem a beber por ali, de vez em quando. O lugar só servia mesmo, decentemente, para os funcionários públicos quarentões que por ali moravam. O fato de eu ser um reles adolescente até pouco tempo atrás me tornava um cara totalmente deslocado, tanto no bar quanto fora dele. Percebia isso quando as meninas, os garotos, as mães de minha rua olhavam torto para mim, quando passavam. Decerto a impressão que eu lhes oferecia é a de que sou tão-somente um jovem pinguço, um sem-futuro, um pequeno alcóolatra "que Deus o tenha". Não era eu quem ia negar, embora nunca tenha gostado desses reducionismos. De qualquer modo, me felicitava saber que a molecada do bairro fazia parte da autêntica geração-saúde. A academia era o ponto de encontro no conjunto, e eu devia ser o único que era esnobado até pelas raparigas do fim-da-rua. Enquanto vagueava em pensamentos, no entanto, uma coroa de seus trinta e tantos anos perdidos sentou-se em minha mesa, talvez porque não tinha mais lugar no bar, talvez porque, simplesmente, uma vez na vida, queria falar com uma pessoa diferente.

- Sabe por que o Baiano está chorando? - perguntou-me.

- Não faço idéia - na verdade, pouco me interessava. Choro não é a coisa mais rara de se ver num bar; só perde para palavrões e para ruídos de socos.

- Um amigo dele morreu!

- Ah... um amigo. Que pena, não?

- Você conhecia um cara que... - e começou a dar detalhes sobre um vendedor de muambas piratas. Eu respondi com um grunhido. Na verdade, queria não responder, mas tentei ser minimamente simpático.

- Ele também era vigilante, sabe? - ela continuava fazendo sua descrição.

- Acho que conheço, sim - respondi, já totalmente indiferente à fofoqueira, que estava à minha frente com um copo vazio. Ela parecia um pouco constrangida por eu não ter dado, até então, um sorriso por contido que fosse, nem tampouco oferecido um gole de minha preciosa cerveja. Mas não se deixou abater.

- Pois é, foi ele que morreu!

- Ah...

- Morreu hoje de manhã, Baiano era um velho amigo, soube agora da notícia!

Não pude deixar de notar, no palavreado daquela senhora, uma ponta de sorriso em seus lábios - uma ponta de sorriso! Que bondoso estou sendo!

Seus olhos só faltavam brilhar quando me falava.

- Você já chegou a falar com ele? - tornou a me perguntar, depois de acolher-se num silêncio de uns cinco minutos, por exigência velada de meu pouco entusiasmo.

- Muitas vezes...

- Ele morreu do coração. Andava muito triste, sabe? Comprou um carrinho, um Uno Mille, meu Deus, pouco tempo atrás. O carro foi roubado em dois meses... mas ele ainda tinha mais trinta e quatro prestações pela frente, e pagou todas elas, poxa vida...

Ela se empolgou.

- Sabe o que eu lhe dizia? - continuou - Eu lhe dizia "não desista!" Corra atrás, faça lá seu futuro, mostre pra esses ladrõesinhos que você não se deixa abater. Ele até chegou a comprar um fusquinha, agora há pouco tempo, e eu lhe disse "tá vendo? Tem que começar de baixo." Tentei ajudar o que podia, mas ele tinha ficado pirado depois que perdeu o primeiro carro, oh Deus, passou a beber, a mulher o deixou, pobre dele...

Eu, aos poucos, perdia completamente minha mínima compostura e interrompi a conversa oferecendo-lhe uma cerveja. Queria acabar com a história ali. Já estava abrigado por um grande e incomum sentimento de depressão, não pela internet cortada, nem muito menos pela notícia da morte do rapaz. Mortes eu já vira aos tantos. Já assisti a motoristas alucinados atropelando travestis por esporte, já presenciei cenas de mulheres de quarenta tendo o crânio trespassado por uma bala de 38 pelo próprio marido, já me sujei com o sangue de uma adolescente quando a vi cair do 3º andar do prédio onde eu morava, caindo quase sobre minha cabeça, até. Não, definitivamente a morte daquele rapaz não me incomodava o dia, embora eu reconhecesse que fora um impiedoso fim para um pobre cidadão comum, que só conseguiu o primeiro carro depois de trinta anos de serviço, e ainda assim trabalhando na labuta pelo dia e com serviço alternativo pela madrugada. Isso mais me incomodava que a sua morte, certamente trágica. Porém, o que realmente me derrubava naquela manhã era a atitude daquela estranha mulher, a tentar me tirar o sossego para expelir pela boca mal-cheirosa e pelo olhar pernicioso o seu fetiche com a história de fracasso do malogrado vigilante, agora um cadáver congelado que provavelmente tornar-se-ia, no futuro, mero personagem secundário de suas próprias histórias, um anti-herói, um homem que tanto fez e pouco conquistou, e morreu triste e solitário.

- Beba uma cerveja e cale-se, por favor - Eu lhe disse, já impaciente.

- Ah... desculpe. Você era amigo dele, né?

E ela me acompanharia, respeitosamente de bico fechado, nas duas garrafas. Percebeu o meu estado de completo desânimo. Compreendeu, ainda que tardiamente, o quanto me afetara aquela história, aquela amolação. De fato, o que me incomodava era algo muito além disso. Estava enjoado por ver, na mesma e antitética cena, um brutamontes cair-se aos prantos enquanto uma pequena mulher disfarçava sua alegria e seu gozo pelo mesmo motivo. Aquilo era demais para mim. As lágrimas que corriam em minha face quando cheguei em casa corroíam como ácido a já mal-tratada pele de meu rosto. Definitivamente, evitaria voltar àquele bar. Assim se deu. Nunca mais vi aquela abelhuda, nem nunca mais senti um enjôo tão latente enquanto ouvia de alguém uma história, por triste e tocante que fosse. O impacto que senti dentro de mim mesmo naquela ocasião me deixaria anestesiado para semelhantes situações, no futuro. Sim, estava categoricamente anestesiado. Insensível. Indiferente. Se isso seria bom ou ruim, porém, eu nunca saberia.

sábado, 10 de novembro de 2007

Para o bem de Elizabeth

Eu nunca como nada antes das 14h, mas como eu acordara muito cedo num dado dia, optei por ir a um café me alimentar com algo substancial naquela manhã. Pedi um suco de laranja e um pão com manteiga, mas fui obrigado a comer um outro sanduíche natural, muito sem-graça, que de nada tinha gosto.

Enquanto me abastecia com aquelas migalhas a fazer cócegas na minha boca, cujo sabor, já irrisório como antes dito, estava ainda mais desgastado pela sobreposta dor-de-dente que me incomodava há uns dias, pela vidraça eu notava os preocupados rostos das pessoas que se apressavam a ir à escola, trabalho, faculdade, cursinhos ou que - estes menos preocupados - voltavam da noitada, e isso até me divertia, embora não interferisse em nada na minha sisudez facial.

No café, não tinha quase ninguém aquela manhã. Numa das mesas, um funcionário de repartição de meia-idade comia um bolo com refrigerante meio apressado, enquanto parecia rabiscar um folheto de classificados, e no balcão uma garota vestida de uniforme de lojas de roupa e com uma cara emburrada acompanhava-se de um pires no qual uma gelatina verde tremulava de modo incrivelmente incômodo. Como eu já estivesse há dois dias sem falar com ninguém e receoso com as conseqüências negativas dessa inatividade para minhas cordas vocais, peguei meu suco e meu sanduíche e fui interrompê-la, sentando-me a seu lado.

– Quem é você, o que quer? – ela me perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Seus olhos eram grandes e meio puxados e sua pele de um moreno claro, indeterminando sua origem. Tinha uma vasta e bonita cabeleira negra, embora estivesse bem descuidada aquele dia.

– Quem eu sou não importa, você se esquecerá assim que sair deste boteco.

– Isso não é um boteco. Não freqüento botecos.

– Que seja, ou que não seja, aliás. Mas pela sua cara e seu humor, parece-me que um boteco propriamente dito lhe cairia melhor.

– Eu pareço acabada? – perguntou me passando um olhar de criança manhosa.

– Parece. – respondi, simplesmente. Sua aparência mudou bastante, pelo visto não esperava minha confirmação. Alterou a face com um misto de espanto e reprovação, mas logo daria de ombros e fingiria ignorar.

– Meu namorado me deixou.

– Hahaha!!! Que sorte a minha, hein? Vim-me sentar logo ao lado duma garota desiludida com um namoro...

Ela ficou nitidamente envergonhada, e direcionou a vista à gelatina. Seus olhos úmidos e inquietos pareciam estar tentando acompanhar cada movimento daquela gosma que já estava a cair sobre a mesa do balcão, visto que ela não o comia e somente usava a colher para brincar com aquele experimento que expressava, em seus movimentos repetitivos e enfadonhos, a pequenez de sua existência, posta em crise com um fim de namoro.

– Tudo bem, pra ser sincero, eu não sou essa insensibilidade toda que pareço.

– É sim. Eu sei. São todos iguais, afinal.

– Meu bem, não sou, e essa sua infelicidade, acredite, nada tem a ver com seu namorado.

– Quem é você pra saber?

– Acredite, eu não falaria isso se não tivesse substância para tanto...

– Não entendo você... parece tão... babaca. Mas, ao mesmo tempo, parece tão compreensivo...

Nós nos fitamos complacentes, e damos seguimento à conversa, na qual ela me contou tudo sobre o namoro, sobre o que estudava - fazia uma faculdade aí que dizia ser o seu maior sonho, mas falava do curso como se fosse uma experência torturante. Seu nome, eu saberia, era Elizabeth. Elizabeth Jasmin. Namorava com Saulo há coisa de um ano e pouco. Ele que lhe tinha arrumado o emprego numa dessas lojas de roupas populares. Por sinal, estava atrasada para o trabalho aquele dia - "não importa mais", foi o que me disse. Num determinado momento, perguntou o que eu fazia.

– Estudo também... faço Geografia... o resto do tempo, não faço nada.

– Que massa! – sua resposta não trazia nenhuma empolgação, naturalmente, a despeito da exclamação. No instante seguinte, tornamos a falar de sua vida. Nossa conversa tomaria ainda umas duas horas, que inclusive lhe tinham devolvido a fome.

A fluidez de nosso papo indicava que tínhamos mais coisas em comum do que oposições, na verdade. Seu humor até tinha melhorado, embora pausasse quando falasse do ex-namorado.

– Você é bem legal – foi o que me disse, desinspiradamente. Estava carente e suscetível a comentários do tipo, eu bem sabia. Mas nós realmente nos daríamos bem a maior parte do tempo naquela manhã. Ao final, nossos olhares se fixaram e nos beijamos lenta e carinhosamente. Ela parecia frágil como uma boneca de porcelana, de modo que quase não a toquei enquanto nos beijávamos. Ficamos apreciando um ao outro no fim de tudo.

– Eu gostei de você - foi o que me disse, baixinho. Sorri, apenas. E, imprensando os lábios e já me levantando da cadeira, lhe respondi.

– Também gostei de você... preciso ir. Até algum dia – então me retirei, pagando pelas guloseimas e dando-lhe um novo beijo, mas desta vez a beijei no rosto, com mais paternalismo que sentimento de atração. Ela não pareceu tão surpresa como eu temia que ficasse, embora exprimisse certa desolação aparente nas sombrancelhas parcamente levantadas.

Quando fechei a porta do café, achei que nunca mais a veria, e me conformei com a condição, embora ela fosse simpática e até que uma boa companhia. Mas ainda a reencontrei uma vez, só que desta vez não fui notado. Eu estava sentado num ponto de ônibus quando a reparei vindo abraçada a um rapaz, que, pela camisa, pude perceber se tratar do tal Saulo, já que tinha seu nome bordado. Ela o vigiava fixamente, e seus olhos brilhavam, à medida em que seguiam passeando pela calçada, e sua boca se calava para ouvir a voz dele, e seus braços pequenos sofriam para enroscar-lhe o pescoço. Elizabeth bem demonstrava estar envolvida por Saulo de modo a nunca mais querer que lhe escapasse das mãos. Ela se revelava tão impressionada com ele que seu desejo poderia ser traduzido numa fome incompreensível, numa idolatria, enfim, em qualquer coisa, porém nada que se aproximasse de um sentimento minimamente amoroso e recíproco. Ela estava feliz. Aliás... ela parecia feliz. Nada mais que isso. Pobre Elizabeth.

domingo, 4 de novembro de 2007

Release Post

O blog está parado - mais do que o normal - porque estou sem computador, e esta postagem, que rabisco numa folha de papel, provavelmente será publicada quando eu tiver uns trocados pra gastar em algum cyber ou quando me aproveitar da bondade de algum amigo para ditá-la por telefone. De qualquer modo, tenho pensado naquele lema cuja sentença diz que só pensamos no quão algo ou alguém é importante pra nós quando o perdemos. Eu não perdi ninguém, e a falta de uma conexão à internet não é o que vai me fazer ficar em depressão, contudo só agora - quando me vejo distante do blog - é que me lembro de que ele era um espaço que eu tinha para dizer algo e que a distância é como me fizesse estar sem voz. Logo para mim, que tanto gosto de escrever, e que não sou nem um pouco fã de manuscritos.


Porém eu estive, nas oportunidades que tive, entrando no blog... como visitante, mesmo, já que adoro ler o que produzi. A maioria das coisas que escrevo traz boas doses de sinceridade, e isso me é especialmente interessante, porque sou uma pessoa muito inconstante, e reler o que fiz é sempre algo novo... frequentemente discordo do que postei, ou penso que poderia ter feito de melhor forma. Embora nunca me veja à margem do que escrevi, o que parece óbvio, visto que praticamente tudo é advindo de experiências e opiniões pessoais, mas não o é, exatamente. Dia desses me sugeriram mudar o nome do blog para 'diário de leon', pois eu me atinha predominantemente a detalhar o que vivia e deixava o leitor distante do que se passava, sem nenhum espaço para uma reflexão própria... parece-me não mais que uma análise simplista, expressa principalmente pelo fato de eu escrever em 1a pessoa... se não há espaço para reflexão alguma do leitor no texto sobre o quebra-cabeças ou na alegoria do espelho, então realmente avalio muito mal o que eu mesmo faço...


O que senti, e essa crítica eu mesmo expresso, é que tenho restrito muito o blog, criando contos e tal, e perdendo um pouco a despretensão que esse artifício virtual oferece. E claro que não é de hoje... faz pelo menos dois anos que deixei de lado o prazer maior em ter um blog, que é, simplesmente, postar. Sempre que puder. Claro que a qualidade é importante... não vale postar dizendo 'oi, estou atualizando'. O que é o mais importante, porém, é o processo de postar. É como o velho dilema gessingeriano do tenista, que entra numa competição com outros 63 adversários, da qual só sairá um vencedor. Os demais vão ter que buscar algum outro motivo para fazer valer a pena a participação. E o motivo, tão-somente, é competir. É participar do processo. Nessa cultura pop mastigada onde tudo já deve estar pronto, claro, rotulado, definido, estático, onde tudo tem nome, onde se está alegre ou triste, doente ou sadio, onde se quer ir pro cinema ou ficar em casa, onde se é caseiro ou baladeiro, as pessoas terminam perdendo o foco de que o prazer está no processo de construção, no que tá incompleto. O que já está pronto não tem pra onde mudar. O que é perfeito não pode evoluir. É como terminar um quebra-cabeça... de que vale um quebra-cabeça montado?


Essa necessidade de postar sempre algo bom fazia com que eu me repreendesse bastante antes de publicar algumas coisas, e isso se refletiu, naturalmente, no distanciamento entre os textos expostos, em geral postando somente uma vez por semana. Só agora percebo o quanto isso me desagrada como leitor. Blog não é livro, não preciso me policiar. Afinal, não to querendo ser melhor que ninguém [talvez até esteja, mas isso é - acreditem - algo inconsciente]. No fim das contas, o que a gente tem de interessante é o que a gente tem de errado. Fazer certo, bem-feito, tem um monte de pessoas por aí que faz, e lá atrás na História, tem outros que fizeram ainda melhor. Quer ler contos de altíssima qualidade? Procura um Machado de Assis, tá fazendo o que no meu blog? O que quero dizer, enfim, é que a graça já não tá em tentar fazer sempre a coisa certa... e sim em se permitir errar. Não é questão de ser algo mal-feito, e sim de algo que está inerente a nós, uma particularidade inevitável do nosso tempo, onde todo mundo tá sempre tentando ser perfeito em tudo. Eu demorei pra sacar essa estranha idéia, entretanto agora percebo que, se todos tentam seguir pela rodovia principal, ela termina ficando congestionada, e a melhor opção passa a ser a ciclovia. É por este caminho que eu seguirei daqui por diante.