terça-feira, 25 de novembro de 2008

Fim do expediente

Hoje eu vi um velho feio, cabeludo e desdentado, e me lembrei de um outro velho, igualmente cabeludo e desdentado, mas bastante mais feio, o Seu Dinei, um funcionário público aposentado que conheci há uns anos. Eu trabalhava, na ocasião, em um balcão de empréstimo pessoal. Na verdade, isso foi no meu primeiro dia de trabalho. Durante algum tempo, meu lugar era na rua, distribuindo panfletos de uma firma que trabalhava nesse esquema, até ganhar a oportunidade de trabalhar lá dentro, fazendo os negócios, um relativo avanço, trabalharia sentado, no ar condicionado. O Seu Dinei, o meu primeiro cliente, por assim dizer, estava perdido na vida, atolado de dívidas e pensões. Até que ele entrou no salão onde eu trabalhava e se dirigiu à minha pequena cabina.

Eu me lembro de quando cheguei no primeiro dia e sentei na cadeira que seria minha a partir dali, no computador que seria meu, no balcão onde eu passaria a maior parte das horas do meu dia. Umas sete, oito, nove, ou mais, dependendo das horas extras. Ainda estava em fase de testes. Passaria umas duas semanas nessa. Poderiam me tirar a qualquer momento se lhes desagradasse. Mas, estava decidido a tentar. Enquanto não começava o serviço, ficava na internet, onde o histórico das navegações e as pastas salvas ainda denunciava parte da personalidade da garota que ocupava o lugar até o dia anterior, a Fabiana. Sites de perfumes, loções e fofocas, episódios de novelas gravados, música de araque. Até o banco ainda me parecia quente. Não pensei mais nela depois disso. A dita cuja havia sido demitida acusando o patrão - um galante de 1,90m chamado Vasconcelos, um nome de velho, mas ele era bem jovem, devia ter menos de trinta, talvez uns três anos a mais que eu - de assédio sexual e sendo ridicularizada pelas que outrora se auto-afirmavam as melhores amigas da "Bibi".

Aproveitei e dei uma personalizada na mesa, tinha um porta-retrato vazio e eu coloquei nele uma foto, uma 3x4, era a única que tinha... e fiquei lá navegando por sites de literatura e notícias. Ainda não estava acostumado à idéia de trabalhar com essas negociações, mas era uma oportunidade qualquer e eu tava lá tentando tascá-la. Enquanto lia bobagens no computador, ouvi uma voz fanha vindo de cima pra baixo, a me dizer bom dia.

Quero dinheiro, prosseguiu, e quero agora. Era o Seu Dinei, a quem depois conheceria melhor. Parecia nervoso, mas mantinha o estilo coronel, me fazia lembrar um velho tio, que vivia no sítio. Aguarde um pouco, basta passarmos por alguns procedimentos, eu falei. Eu estava empolgado em conseguir fácil fácil a minha primeira comissão. Mas depois de consultar a vida financeira do velho, percebi que não havia margem para muita coisa. Mas é por estar fudido que eu venho pedir dinheiro emprestado!, ele falava, meio cochichado, mas quase elevando a voz. A minha única alternativa foi oferecer-lhe um plano onde ele receberia menos dinheiro, mas concordaria em pagar mais parcelas e juros mais elevados. Era um plano muito desvantajoso - como todos os outros - para o pobre coitado, mas absurdamente mais proveitoso para mim, que não lhe ofereci na primeira oportunidade por não sentir ainda a devida confiança em manobrar a baixa auto-estima alheia. Mas ele não concordou e foi embora, levando apenas um panfleto da firma e meu cartão com a oferta anotada.

Instantes depois, viriam outras pessoas, entre professores, assistentes administrativos, militares, ex-professores, ex-assistentes administrativos e ex-militares, alguns fazendo planos, alguns não. Percebi que o negócio se encaixava para mim perfeitamente. Faria sucesso trabalhando com empréstimos. Depois do almoço, quando voltei para a minha cadeira de um azul fubento, o velho reapareceu. Pensei muito, ele gritou ainda da porta do salão e continuava a falar enquanto se aproximava do balcão. Acho que vou aceitar a oferta sim, dizia. Vai se dar muito bem, senhor!, menti, na maior sem-cerimônia. Ele era rápido na assinatura de papéis, e à medida em que assinava os vários formulários, eu sentia em paralelo o mesmo que senti com os outros, um êxtase profundo, uma sensação de conquista! Depois que ele se foi, eu não quis atender mais ninguém. Até veio uma loura deficiente física, tinha uma escoliose acentuada, andava curvada em quase 30 graus, algum absurdo assim. Mas eu já tinha me decidido não atender mais uma pessoa sequer. Danielle, pega essa aqui, pedi, apontando para a cliente. Já estava dado por satisfeito fazendo hora lá quando o Seu Dinei apareceu mais uma vez na porta, e disse, se dirigindo até mim, você é um bom garoto, venha beber algo em minha casa quando terminar o expediente, moro aqui perto, e falou o endereço.

Eu, claro, aceitei o convite e fui visitá-lo. No endereço especificado, não tinha quase nada. Só tinha resto. Resto de um casebre. Nem se compara aos casarões daquela rua, a Rua Princesa Isabel, uma rua muito antiga do Centro. Foi o que me restou, a mulher me fudeu, lembra que eu falei que estava fudido?, apressou-se em dizer, me convidando para entrar. Lá, me ofereceu um conhaque, nunca fui lá muito chegado a conhaque, no entanto esse era até bom - aliás, muito bom -, um tal V. Brandy, mas depois que eu conheci o Macieira através de um amigo, não alterei mais a preferência. Enquanto o Brandy descia oleoso pela garganta, o pobre Dinei falava de sua coleção de fracassos. Estávamos sentados na sala, eu no sofá, meio perplexo com alguma coisa, segurando a caneca um pouco inclinada e olhando fixamente para a bebida, como se tivesse algum receio surreal de que ela desapareceria dali, e ele na sua poltrona rasgada largado. O ambiente era hostil, as paredes estavam todas rachadas e o lodo verde vinha subindo pelo lado que recebia água da chuva. Faltava até reboco em algumas partes, a infiltração era absurda. Seu Dinei era professor universitário, mas foi escanteado e expulso da Universidade por cometer algumas contravenções, e estava aposentado por lecionar nas modestas escolas públicas do município. A ex-mulher e o filho lhe comem, com a pensão e outros pormenores, 80% de sua renda. Seu Dinei nunca poderia pagar a dívida do empréstimo. Provavelmente, já nem lembrava onde estava algumas poucas centenas de reais que lhe ofereci astutamente. Cheguei a lhe oferecer o cancelamento do contrato; ele não deu atenção. Continuou em seu delírio particular. De seu passado, só restava um cachorro pulguento lambendo-lhe os pés. Seu Dinei dizia ser feliz. Quando chegar o fim, darei os olhos, os cabelos e o sangue para quem precisar, falava.

Eu não acreditava nessa dita felicidade. E não fui trabalhar no dia seguinte, nem nos demais.


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Com um nó no estômago

Acordei no sofá, com as costas doendo, como sempre. Era o prenúncio de um mau dia, como são todos os outros dias. A TV estava ligada, e eu vi o viaduto por onde passo todo dia em direção aos trabalhos, faculdades e outros tormentos. O viaduto estava em segundo plano, em primeiro estava uma repórter bonita mas totalmente sem sal dizendo que o tempo estava nublado, mas que não choveria. Eu me levantei com muito esforço, sendo meu sofá bem rústico e duro, é péssimo para dormir... todo o corpo estava em cacos... peguei um copo de água e fui para a janela ver as pessoas passando na rua... fico olhando a rua em frente, os estudantes, os operários, as mães com suas crianças, todos seguindo em direção a algum lugar, seguindo até o fim da rua, seguindo até sumirem no horizonte, e eu quase morri nesse tédio.

Tomei um banho rápido e enquanto me vestia silenciosamente, o telefone tocou. O telefone residencial. Nunca havia passado o número para ninguém e ele agora estava tocando. Levei um susto, fiquei meio paralisado por segundos. Depois, ignorei. Continuei a vestir-me. Não queria atender. Não tinha nada a dizer, não queria ouvir nada, também não queria sair de casa. Por que era obrigado a atender essas exigências bobas? Tentei pôr mais pressa enquanto me arrumava, pois o telefone não parava de tocar e eu já estava incomodado. Mas antes que eu saísse de casa, ouvi o ônibus passando à frente. Foi-se rapidamente, e eu teria que esperar o próximo. O próximo, eu sabia, não passaria nos 40 minutos seguintes. Sentei-me no sofá com as mãos tapando o rosto... estava puto! Perdi a hora justo quando não devia... tinha uns exames de sangue para fazer. Tive que ligar para a moça do consultório.

- O que deseja?

- Quero remarcar o meu exame de sangue para amanhã.

- Para amanhã não será possível, pois...

- Então - interrompi -, quero remarcar para depois-de-amanhã.

- Também não será possível, senhor.

- Tudo bem, quando há uma data disponível?

- Infelizmente, não há mais datas disponíveis. O doutor fará exames até sexta e entrará em licença até o ano que vem. Você pode tentar...

- Não, não vou tentar mais nada, obrigado.

Eu estava agora com uma pilha de exames incompletos, e para tê-los todos teria que esperar até o ano que vem... horas e horas marcando consultas e fazendo exames de raios X para terminar nisso... desisti. Como já estava com a necessidade de sair de casa para compromissos outros, como dar aulas, e precisaria me deslocar mesmo assim até o Centro, decidi ficar vestido como estava, mesmo que só fosse sair depois do meio-dia, portanto dali a umas quatro horas. Cochilei no sofá enquanto isso e pus o despertador para alarmar exatamente ao meio dia.

Nesse dia, só duas aulas. Daria cinco, mas só dei duas, o restante das turmas saíram, foram participar de alguma atividade interativa da escola, e eu fiquei livre mais cedo. Ao menos algo para agradar o meu dia. Saí de lá e fui para a parada de ônibus. Mas estava havendo uma passeata de uns servidores públicos, funcionários da Saúde, e estavam fechando a avenida pela qual os carros vinham. Como o trânsito estava desregulado, precisei pegar a condução em outro lugar. Escolhi uma outra parada, mas não tinha certeza de que o ônibus passava lá. Esperei dez minutos e saí. Fui para uma outra parada, onde esperei mais dez minutos e nada. Cheguei na Avenida Rio Branco, onde tem mais quase quinze paradas de ônibus, e eu tinha que adivinhar em qual delas o meu ônibus parava... Como vi que seria difícil, decidi aproveitar o tempo que estava no Centro para fazer algo. Fui à biblioteca do Sesc, ali por perto.

Apresentei minha carteira de sócio na entrada e fui procurar uns livros. Procurei, procurei e nada encontrei. Decidi ir para a mesa de revistas. Enquanto folheava lá algo sobre a rodada do Campeonato Brasileiro no fim-de-semana anterior, uma funcionária veio ao meu encontro:

- Com licença, este é você? - perguntou, mostrando-me um formulário que continha meu nome, foto, dados e uma listagem de dois livros que eu tomara emprestado meses antes.

- Sim, sou eu. Apresentei minha carteira de sócio ao entrar.

- Claro, senhor. É que há dois livros da biblioteca que estão emprestados a você, e estão atrasados.

- É mesmo?

- É sim, um do Rubem Fonseca e um do... deixe-me ver, Ernesto...

- Ernest. Ernest Hemingway.

- Pois é isso mesmo.

- Olha, eu mandei um email recentemente para saber a quantas andava a minha situação aqui.

- E não obteve resposta? - ela parecia intrigada.

- Claro que não... Ninguém responde nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir, e dizem o que querem dizer. Ninguém mais sabe perguntar nada, assim como ninguém responde nada também.

- Mas, veja bem, os livros não são seus e...

- Ué, claro que são! Sou eu naquelas histórias! Hemingway me roubou, roubou a minha história e a minha personalidade para fazer aqueles contos! Acredite, boa moça, se ama mesmo a Literatura, aqueles livros estão melhores comigo do que aqui esquecidos nessa biblioteca decadente.

- Você tem dez dias para trazê-los, não digo mais nada - e me deixou em paz.

Depois que li todos os comentários sobre o economia e o futebol contemporâneos, saí, meio indisposto de continuar vagando, fui para uma parada de ônibus na qual sabia que meu ônibus pararia; para tanto tive que andar muito, cerca de meia hora. Peguei o ônibus e cheguei em casa, cochilei, bebi mais água, abri uns emails, li emails antigos, e percebi que havia muito mais emails ainda para trás... emails que nunca deletei em quatro ou cinco anos de uso ininterrupto de internet.

Comecei a ler e a deletar, e deletar, e deletar. Enquanto deletava ainda relembrava muitos, ainda via neles boas e más lembranças, sentia que estava estourando bolas de encher, preenchidas de emoção. Enquanto deletava, imaginava isso como uma versão moderna da coisa de queimar cartas, lê-las e jogá-las na lareira enquanto o rosto expõe faces de alegrias e decepções. Passei coisa de seis ou sete horas nesse rito, do fim da tarde ao início da madrugada, e já me sentia muito pesado por tanta carga emocional reavivada nesse momento - uma carga pesadíssima, registrada em doses homeopáticas, agora rememorada em escala industrial. Desisti de deletar os emails, só sobraram alguns poucos do passado. Estava querendo dormir, e fiquei com isso na cabeça. Reconhecia o meu rosto íntimo, dissimulado, de quem sai para a rua disfarçado com o próprio corpo. Pensei em refazer coisas, mas era impossível, a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo. Eu pensei nisso depois que li um deles, que escrevi há bastante tempo não lembro para quem e nem cheguei a enviar, ainda que fosse um email-resposta. Estava lá salvo na caixa de rascunhos do servidor. Em letras mal-formatadas, eu só adormeci depois de pensar bastante após reler tais palavras:

eu estava vendo e aprendendo algo sobre o escorpião, sobre a tendência regenerativa desse ser que se manifesta num impulso destrutivo, para reconstruir a vida permanentemente, e fiquei pensando nisso que você falou, que a vida é sempre um andar para a frente,mesmo que trôpego e cambaleante, e já não dá retorno possível para o passado. fica tudo se acumulando no altar do esquecimento. eu que só queria acordar sem esse nó no estômago. queria qualquer coisa doce, já que ando cada dia mais azedo. qualquer coisa que fosse como um deslumbramento ou um abraço. mas nada disso virá, a gente sabe. tudo se vai.

que merda.

até amanhã... quanto a depois, logo se vê.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

30 dias na escuridão

Eu bebia muita água quando acordava. Não tinha mais nada na geladeira. Além disso, a água era quente; toda noite eu passva no escuro, pois constantemente faltava energia no meu quarteirão, numa freqüência diária rigorosíssima. Isso se deu durante um mês. A energia acabava no início da noite e voltava pouco antes do amanhecer. Não era tempo, portanto, de a água da geladeira sequer ficar gelada.

Nessa época, eu trabalhava numa peixaria. Descarregava caminhões levando sacolas e sacolas enormes de peixes nas costas para um galpão na Rua Rio Madeira. Não me restava nada além. Não tinha outro emprego, não estudava, tinha saído de casa e não me restavam alternativas. Dentro daquelas condições, aquele emprego me parecia precioso. Fui cínico às alturas na primeira conversa que tive com o tal do Correia, Senhor Correia, que comandava o negócio ao lado de sua mulher.

- Qual sua experiência? - Perguntou-me.

- Toda.

- Já tem experiência nisso, em transporte e guarda de carga?

- Claro. Mas aqui não se trata de carga, e sim de peixe.

- É a mesma coisa, garoto.

Parou, deu uma telefonada, e uma mulher baixinha e formosa - sua esposa - entrou, forneceu-lhe uma cartela de cigarros, e, sempre olhando de soslaio para mim, saiu. O chefe chegou a me oferecer, ao que recusei, e acendeu um para si, dando uns cinco tragos antes de voltar à conversa.

- Você não me parece um cara forte - disse, com cabeça virada para o teto e os olhos voltados para mim.

- É verdade, mas dou conta.

- Não aceitamos aventureiros de primeira viagem. Você já tem experiência em carteira assinada antes?

- Tenho sim.

- OK, entraremos em contato.

Fui embora com a certeza de que não entrariam em contato, e que essa entrevista seria somente uma a mais na minha lista. Mas ao acordar no dia seguinte, às 9 horas, percebi que havia acabado de receber uma mensagem de celular:

VOCÊ FOI ACEITO PRO CARGO, TERA UM MES DE ESPERIENCIA E DEPOIS ASSINAMOS SUA CARTEIRA. COMPARESSA AS 8H DESTA QUARTAFEIRA NA CASA DO PEIXE, RUA RIO MADEIRA, 481.

A mensagem havia chegado de madrugada. Fiquei me perguntando porque aquela convocação tão impessoal. Poderiam ter mandado carta, ou telefonado, ou qualquer outra coisa. Uma mensagem de celular, com todos aqueles erros gramaticais? Sem falar que, à hora que li, já estava atrasado em uma hora. Só fiz beber água e fui, não escovei os dentes nem tomei banho, apenas lavei o rosto e me dirigi ao galpão onde trabalharia.

- Está uma hora e meia atrasado - disse-me o Sr. Correia, na porta do galpão.

- Desculpe, só recebi a mensagem agora há pouco... sabe como é essa tecnologia...

- Você só me verá novamente no dia da assinatura de contrato. Minha esposa cuidará de tudo que precisar. Ao trabalho.

- Responda-me uma coisa, por favor: por que me mandou a mensagem de madrugada?

- Porque foi à madrugada que decidi contratá-lo.

Ainda me questionei o que o houvera feito decidir, à madrugada, pela minha contratação, ele que deveria ter recebido pelo menos uns vinte perdedores no dia anterior. Fui ao trabalho, pesadíssimo demais, hei de considerar. Os outros rapazes não compreendiam bem a minha presença ali. Eram praticamente todos másculos, velhos, casados e banguelas. Eu não era nada disso. Era pequeno, truncado, notava-se pelas minhas mãos que nunca havia pego no pesado. No início me ignoravam. Diziam, soube depois, que achavam que eu era algum funcionário do patronato, uma espécie de espião. Passaram a ser mais rigorosos comigo, só pela maldade. Quando chegou a primeira camionete com peixes, fui ao estacionamento descarregar. Só tinha três caras pra fazer isso aquela hora.

- Espera o caminhão que vai trazer os cantilados, é dele que você vai descarregar - disse-me um dos outros dois.

Fiquei sentado e em menos de dez minutos viria um caminhão com novo carregamento. Mas se tratava de carregamento mais pesado - era por "cantilado" que chamavam. Sofria para carregar os sacolões nas costas, enquanto escutava pequenas risadas dos demais, risadas que passaram a ser altas e propositalmente constrangedoras com o passar dos dias.

Os funcionários reclamavam que eu era lento e não acompanhava o serviço deles. E realmente era impossível para mim. Fui, então, chamado à administração, já no terceiro dia.

- Estou fazendo um ótimo serviço - falei.

- Tenho certeza - falou a mulher do outro lado do balcão, a Sra. Correia - "mas pode me chamar de Marta, ou Martinha!". Ficou parada me analisando e depois fui dispensado.

Nos dias seguintes, tentei ser mais veloz no trabalho, mas ainda sentia muito o peso do peixe. Além do que, também me alimentava muito mal. Bebia água de manhã, trabalhava nove horas por dia, sem almoçar, pois não tinha dinheiro suficiente até receber pelo primeiro mês e aproveitava a hora do almoço pra tirar um cochilo. No fim do expediente, ia tomar um café em algum bar, comprava uns biscoitos e comia em casa, no sofá, enquanto vislumbrava a sala escura, praticamente todos os dias, pois nunca houve luz à noite nesse período.

Fui chamado outras duas vezes à administração. A segunda delas, no 28° dia. Até que eu tinha suportado demais.

- Eu gosto de você. Mas você precisa colaborar - disse-me, com ar de compreensão, a Marta, ou Martinha. Eu não sabia que ela gostava de mim, mas ela devia gostar de todos os outros caras que trabalhavam no galpão, imaginei.

- Olha, não gosto de nenhum dos outros, só de você. Esses coroas musculosos, nojentos e mal-educados também não trabalham direito, apenas reclamam de alguns bobos como você, e eu preciso chamá-lo para dar a entender que estou dando bronca. Mas eu não estou dando bronca, entende?

- Entendo.

- Mas eu percebo que você tem alguma classe, você não fala com esses brutamontes - disse, e sorria enquanto falava. Eu estava impassível.

- Escute - prosseguiu - foi graças a mim que você entrou aqui, eu quem pedi para meu marido.

Enquanto dizia isso, Martinha se levantou da sua cadeira. Tinha abandonado o ar maternal e agora estava mais cortejadora.

- Não quer sair comigo na próxima sexta, no fim do expediente? Podemos ir a algum bar, e depois lhe dou uma carona até sua casa.

Tava muito claro que a Martinha estava se oferecendo pra mim, mas eu não queria. Não gosto de mulheres mais velhas, e ela era bem mais velha, tinha uns 48, conforme bisbilhotei no primeiro dia numa ficha que tinha na mesa de seu marido, contendo dados dos dois. Esqueci tudo, menos a idade deles: ela tinha 48, e ele também. Ainda que no caso dela parecesse menos, bem menos.

Eu não queria recusar o convite da Martinha, pois sabia que fatalmente perderia a minha vaga se o fizesse. Topei, então, de maneira bastante convicta e efusiva, como quem sabe que a noite iria além de uma carona. Ela ficou empolgada.

Mas a sexta seria meu 30° dia na empresa e o Sr. Correia apareceu e mandou me chamar. Eu estava com documentos em punho, e até esperava que o lobby da Martinha ajudasse algo na minha contratação. Mas eu sabia que seria difícil.

- Espera aí, cadê sua experiência? Sua carteira de trabalho está em branco!

- Bom, na verdade não tenho experiência alguma.

- Como assim? E mentiu pra mim? E minha mulher falando tão bem de você...

- É uma boa mulher.

O Sr. Correia provavelmente não gostou do meu comentário e me mandou embora. Finalizou a conversa com uma indelicada despedida, não sem antes oferecer um cigarro, novamente recusado.

- Pegue um cheque com o pagamento desse mês e saia daqui, suma, não volte nunca mais.

Fui embora sem sequer terminar o expediente. A Martinha devia ter me procurado um bocado no galpão, sem sucesso. Fugi dela, literalmente. Não tava pra romances clandestinos. Recebi muitas mensagens de celular e alguns telefonemas, todos ignorados. Pouco depois dos 30 dias que passei na peixaria, curiosamente o problema da energia elétrica no meu quarteirão seria definitivamente resolvido. Isso me leva a pensar que essa foi uma fase bem negra e obscura da minha vida. Com toda razão.

domingo, 2 de novembro de 2008

Tá na Cara!, uma ode à Literatura

Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que ocorrera. Já eu, eu sou homem e, como tal, jamais afirmarei para a garota que a esquecerei. Contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.


O recorte acima foi retirado do conto inédito "Acompanhados e Sozinhos", exposto na revista Tá na Cara!, cuja segunda edição foi lançada essa semana com louvor. Nosso projeto (meu, de Ângelo Girotto, de Maíra Mendonça e outros amigos e aprochegados) de criar uma mídia própria que apresente um jornalismo experimental, uma revista de arte, de Literatura, um meio de comunicação artesanal e respeitoso para com a inteligência do leitor, tem avançado a passos largos.

Em questão de meses depois de publicada nossa primeira edição (a revista é trimestral), a Tá na Cara! já foi protagonista de matérias televisivas locais (na TV Cultura e na TV Assembléia) e já mereceu uma palestra na UFRN, onde o conhecido e carismático "professor Bira", um dos ícones do curso de Comunicação Social, destacou nosso trabalho como a "principal revista de jornalismo literário do estado".

Essa revista traz ainda novos colaboradores, como a ilustradora Ana Luísa "Analoo" Medeiros, estudante de Arquitetura, e o Pablo Capistrano, professor de Filosofia do Direito e Ética da FARN (Faculdade para o Desenvolvimento do RN) autor de alguns destacados livros, sendo o principal Pequenas Catástrofes, re-editado pela Editora Rocco.

Nesta edição, produzo, entre matérias e contos:


Natal, a Cidade do Sol e dos Supermercados
- artigo sobre a invasão das lojas de departamentos, nacionais e estrangeiras, nas incautas terras papa-jerimuns.

As Antigas Faces de Natal - Matéria onde falo de bairros e lugares malditos da cidade (Ribeira, Rocas, Cidade Alta, Rua Chile, Beco da Lama...), escrita numa seqüência de dias onde me fiz presente no cotidiano de tais pontos gradativamente esquecidos, em longas conversas com bebuns e donas de bares.

Acompanhados e Sozinhos - Conto inédito publicado em minha coluna fixa, que, por falta de imaginação ou por qualquer outra coisa, leva o nome deste blog.

Aos natalenses que freqüentam este blog, a revista custa 5 reais e tá presente nas principais bancas da cidade, bem como nas livrarias Potylivros e Siciliano. Aos não-natalenses, infelizmente não temos ainda um sistema eficiente para envio das revistas, por isso não trabalhamos além da Região Metropolitana de Natal e Mossoró por ora. Qualquer coisa, no entanto, se houver alguém que tenha interesse ainda assim, podem entrar em contato (leonknunes@yahoo.com.br) que discutiremos uma forma de pagamento e o envio.



PS: a matéria de capa (Operação Impacto - nossa grande vergonha municipal), escrita por Ângelo Girotto, trata do escândalo municipal protagonizado pelos vereadores (13 dos 21 foram comprados pelas construtoras no ano passado e estão sendo investigados pelo Ministério Público na chamada Operação Impacto. 6 deles foram reeleitos).