terça-feira, 17 de junho de 2008

A consagração

Eu prometi ao jornaleiro que passaria poucos minutos abrigado em sua banca; estava chovendo muito na ocasião, chuva que pegou a todos de surpresa, e eu estava com muitos papéis à mão, em geral provas de alunos, já muito molhadas. Corria à procura de qualquer abrigo, quando entrei naquela banca de jornal, cujo espaço era suficiente - se era - para aconchegar coisa de uma pessoa e meia... e olhe lá. Não à toa, o jornaleiro se irritou com o modo repentino como me aproximara, e, principalmente, com o fato de eu estar ensopado, o que rapidamente precisei mediar. Além de ensopado, porém, eu estava confuso e entristecido - pois certamente teria de refazer as avaliações com meus alunos, e, como não tinha tempo para tanto, já imaginava de antemão as dificuldades futuras. Logo estava pensando que essas coisas só acontecem comigo e contabilizando aquele dia como apenas mais um dia de azar em meio a uma vida ingloriosa. Apenas isso, nada mais.

Como o jornaleiro, no entanto, também estava aborrecido - um aborrecimento natural, expresso de forma educada até -, decidi me conter um pouco de minhas preocupações e comprar um jornal para não perder a visita. Visto que há tempos não assistia aos noticiários e raramente entrava em páginas de notícias na internet, então considerei que seria uma boa eu me atualizar diante das novidades correntes pelo mundo. Apanhei, então, um jornal local, o Tribuna do Norte. Embora eu estivesse folheando para comprá-lo em seguida, fiquei tão absorto com a leitura que terminei por ler praticamente tudo de relevante que a edição tinha para oferecer. Não adiantava mais comprar o mesmo jornal. Solicitei outro jornal da cidade, o Diário de Natal; mas as notícias internacionais eram as mesmas e as notícias locais eram somente variações para os paparicos à candidata de oposição à Prefeitura, e, por acaso, proprietária do jornal...

Tendo gostado do passatempo, mesmo depois de passada a chuva fiquei vendo outros jornais. Na seção de periódicos nacionais, folheei vários deles, desde o popularíssimo Estado de São Paulo até o literal Jornal Pequeno, do Maranhão. Mas a surpresa maior tive quando peguei o Correio da Bahia... O Correio da Bahia! Ainda no primeiro caderno, recheado de variedades de política, cultura e informações de interesse geral, qual não foi a minha surpresa quando, ao passar rápido dos olhos, tive a impressão de ler algo parecido com o meu nome. O meu nome! Como havia visto tão repentinamente, perdi na página o local que me chamou subitamente a atenção! Fiquei procurando na página com tamanha afobação que parecia estar procurando agulha no palheiro em meio a um bombardeio aéreo. Mas eis que encontrei novamente. Estava realmente lá: "Leon K. Nunes", com o Karlos abreviado e tudo. Era um conto enviado por mim há muito tempo atrás - na verdade, mandei mais de um conto, inclusive para muitos outros jornais de todo o país. Os meus desejos megalômanos de me tornar um cara lido e admirado por aí afora, sobretudo pelos desconhecidos, de me tornar um escritor cultuado, influenciador de mentes em territórios que eu sequer imaginava existir, impulsionava em mim o hábito de, sempre ao concluir um conto que eu considerasse merecer ser lido pelos demais, enviar, por e-mail ou de forma impressa, para revistas de literatura e jornais diários. É verdade que já tinha um blog, entretanto nada substitui o prazer de se ler algo sob a forma impressa. Em geral, as respostas recebidas enalteciam meus textos com elogios, mas desconsideravam a possibilidade de publicá-los. O próprio Correio já me negou diversos textos anteriormente!

Quando saí da banca, obviamente com o dito jornal embaixo do braço, fui direto a um cyber para entrar na internet e revirar minhas caixas de e-mails que eu tinha cadastrado como contato do jornal. De fato, havia alguns enviados pelo Correio da Bahia que sequer eu tinha aberto, certamente por pensar se tratarem de novas negativas. Quando enfim os li, eles traziam menções a três contos que eu lhes houvera enviado da última vez, ressaltando que descartariam um e publicariam os outros dois. A minha sensação, era natural, foi indescritível... foi como uma boa dose de café, um gozo, um choque de heroína... eu já não era um reles mortal!

Meu olhar ególatra, exagerado e ordinário, forçadamente me convencia de que eu estava em outro patamar. Claro, era apenas um texto num jornal estadual... Mas eu logo estaria presente em diários nacionais, publicando contos que renderiam primorosas coletâneas no futuro, quando eu já estaria consagrado após muitas e singulares publicações literárias! Quer ler meus livros? Oras, vá em qualquer biblioteca, procure meu sobrenome: N de Nunes. Estará lá, bem no lugar que lhe cabe: logo à direita do M de Machado de Assis, o maior de todos! Eis o futuro, amigos, pois assim estarei eu, que mesmo depois de carnalmente moribundo permanecerei influenciando escritores da minha geração e das que vierem posteriormente, e que hão de se tornar menos dementes e mais criativas com a bagagem adquirida através dos grandes escritores da Literatura Brasileira e Universal - e agora o meu nome estava entre eles!

Imponente e detentor de uma sensação de orgulho próprio poucas vezes experimentado, saí do cyber e após parca caminhada fui pego de surpresa por nova chuva que me molhou ainda mais que a anterior, estragando o restante das provas e, além delas, também o jornal. Tive de entrar numa lanchonete vagabunda e, aproveitando que era hora do almoço, solicitei um pequeno risole, desgastado e envelhecido, e um suco de laranja bastante mal-preparado. Para mim, pouco importava. Somente queria me sentar e reler mil vezes o meu conto exposto. Quando vi o jornal, contudo, foi que notei o quão ele havia sido igualmente assolado pela chuva - e meu texto, exposto já na segunda página, estava deveras manchado, quase ilegível. Decerto, aquele jornal já não me valia nada. Joguei-o na lixeira e, com ele, foi-se junto a minha mania de grandeza. Enquanto me esforçava para mastigar o risole, reconhecia a minha condição de escritor amador, afeito às lembranças de experiências vivenciadas que me vêm através do éter e da madrugada, estes meus parceiros na hora de produzir, e bem sabia o quanto estava longe de ser um grande, longe de ser um Imortal - era apenas um contista de algum lugarejo provinciano que sequer chegava a ser uma metrópole. Além disso, não passava de mais um membro dessa geração que é a mais agredida e subestimada de todas, mutilada de idéias e de imaginação, e que, por cinscunstâncias tantas, não produz mais que cópias do passado da Humanidade, isso quando não as destrói.

O risole que eu comia, no correr de minha divagação, perdera seu sabor de risole. E o suco que eu bebia já não me permitia saber de que fruta viera. Assim como a chuva, que já não era mais do que água caindo. Tudo ao meu redor não passava de reles aspectos coadjuvantes de nosso austero cotidiano. Eu, por minha vez, também já não era o grande escritor; não ia além de um ocioso qualquer, por ventura publicado num jornaleco de limitada circulação. Ainda assim, quando bebi o último gole do suco inodoro e pensei em todo o ocorrido, concordei comigo mesmo (com rara satisfação) que, para mim, não poderia ter acontecido coisa melhor.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Recado para a namorada que não tive

Eu ainda era um pré-adolescente, tinha apenas uma vaga idéia do que ela já simbolizava para mim. Até então, cresci sem muitos amigos, e nessa fase não fazia muito de minha apática vida senão ficar em casa sozinho enquanto minha mãe trabalhava. Passava dias lendo os livros e as revistas dela; daí eu conheci Manuel Bandeira, William Shakespeare, Antoine de Saint-Exupéry, Claudia e Nova Cosmopolitan. Com a bagagem de alguns poetas e revistas femininas, eu achava que já conhecia sobremodo a cabeça das mulheres. Tolices de um púbere! Mas minhas primeiras experiências de beijos et ceteras vieram por aí, doze, treze anos. Mas foi com uma mundana qualquer, e não com aquela que se tornaria minha fiel companheira – embora esta eu já conhecesse, e bem. Claro que, na época, eu ainda não entendia adequadamente sua importância. E via nas garotas fáceis a verdadeira chave do sucesso e do entrosamento.

Caí, então, naquela que seria a fase mais sem-graça de minha efêmera vida, mas que eu adorava. O rock, o movimento estudantil, o centro das atenções. A adolescência era um altar de prazeres. Desse período, acumulei algumas fotografias de viagens, alguns vícios desagradáveis e uma ou outra doença venérea, rapidamente tratada. Quando batia uma crise de existência, eu, claro, só tinha uma companhia. Mas não a valorizava. Nunca a valorizei. Quando surgia a oportunidade, lá estava eu renegando-a; era totalmente convicto de minhas posturas, afinal. Que bobagem! Aliás, nisso eu evoluí, enquanto outros consideram retrocesso o mesmo trajeto: a idéia de jovem é a de uma pessoa sem nenhuma segurança, e que só vai adquirindo-a com o correr dos anos. O meu caso é inverso. De um garoto idiota, soberbo e pretensamente convicto do que pensava, fui me tornando mais inseguro e angustiado nesse meio tempo. Essa insegurança adquirida que me fazia valorizar ainda mais aquela que realmente merecia.

Depois desses anos de ensaios viciosos, escatológicos e amorosos, vou terminando e recomeçando etapas da vida cada vez com menos certeza das coisas, e menos esperança de alcançá-la. No entanto, sigo a passos firmes, na companhia da solidão, somente – eis a minha companheira fiel, essa solidão... Solidão que se impõe na vida de muitos a contragosto, mas que vence, no final das contas, ainda que pelo cansaço. A solidão é a pena dos desgraçados, disse-me um amigo certa vez. Ele considerava, então, que a solidão levava à morte. Eu não considero. O medo da solidão é latente na maioria das pessoas, mas o convívio com ela é permanente, gostemos ou não. Assim, faço poemas e contos que falam, entre várias coisas, das garotas, de meu passado, e, sobretudo, da solidão; porque só assim posso aprender mais também sobre ela. Somos, todos, afinal, apenas um peso, um fardo nocivo e molesto para nós mesmos... E pensamos que não sabemos! A única coisa que merecemos é o fundo escuro de um porão. Quanto aos solitários, não são eles os fugitivos dessa dura realidade.


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Digno de nota: não faz mais que uma semana, foi lançada, com direito a show da banda setentista Os Grogs, a revista Tá na Cara!, uma produção de alta pretensão e qualidade em níveis ainda mais elevados! A Tá na Cara! é um projeto esboçado pelo meu amigo e camarada Ângelo Girotto, estudante de Jornalismo, ao que dei uma força e, felizmente, conseguimos concretizar esse desejo antigo de ver uma obra nossa sendo publicada. A revista arrecadará fundos para um projeto pessoal maior, que é o de fundar uma editora, aberta à publicação tanto de outros periódicos como de livros e discos.

Aos que estão lendo isso e, por ventura, morem em Natal, fiquem atentos: gravamos entrevista hoje na TV Assembléia, e brevemente estaremos na TV Universitária; as revistas estão à venda, por ora, nas livrarias Siciliano e na PotyLivros, mas já estão em fase de distribuição às demais livrarias. A Tá na Cara! é trimestral.

Eu faço parte do conselho editorial e escrevo matérias, além de uma seção onde exponho contos inéditos. Brevemente lançaremos campanha para assinatura da revista e um web-site.

Quem quiser conhecer o Ângelo Girotto, editor, diagramador, repórter e cronista, basta procurar no menu de links o seu blog, cujo nome foi gentilmente cedido à nossa revista. Sem mais, saudações aos navegantes!