sábado, 28 de julho de 2007

Apenas mais um teórico do caos

Estava organizando uma papelada antiga no meu quarto e encontrei um texto que havia guardado ainda quando fazia o ensino médio, que se chama Mude, da Clarice Lispector. Textinho bem conhecido, por sinal. E que busca, à sua maneira, encorajar o leitor a tentar ares novos, no início com certa sutileza (... procure andar do outro lado da rua...) para depois partir para mudanças mais profundas, e fiquei divagando sobre o quanto estamos presos à macro-estrutura, ao caminho mais fácil. A simples idéia de passarmos anos de nossas vidas fazendo a mesma coisa, seja trabalhando num determinado turno diariamente, estudando num modelo educacional fracassado e ineficiente, votando periodicamente no político mais honesto, etc. parece claramente absurda; porém ninguém pára para pensar nela. Poucos param e analisam o que estão a fazer de sua vida. Alguns mais raros buscam fugir às convenções a que estamos acorrentados... estes, porém, não são levadas a sério.

Obviamente que buscar quebrar os paradigmas mais latentes de nossa sociedade não é tarefa fácil. Quem buscou, à sua maneira, ver um mundo novo - sejam hippies, esquerdistas, artistas, punks - voltou sempre ao ponto de partida, fazendo apenas número no suntuoso livro de excêntricos da história da Humanidade. Produz-se por aí a idéia de que a juventude anos 60 foi a última realmente militante, seja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, em qualquer lugar. Realmente, parece tão claro... afinal hoje não há hippies vivendo em comunidades tribais buscando alternativas ao mundo moderno, nem jovens franceses com cartazes exigindo Imaginação no Poder. Distribuem essa idéia numa masturbação mental os que viveram àquela época e nós que viemos depois, sem receber nada em troca, fazemos questão de disseminá-la - que há nessa popularização do jovem sessentista como militante e do jovem contemporâneo como conformado senão a pretensão de se degolar pela raiz qualquer possibilidade de ruptura às estruturas ideais dessa sociedade decadente? Eu não sei em que a geração 1960 era mais atuante que a de hoje, não percebo quais reações eles sofreram que não soframos outra pior - fala-se tanto em ditaduras, em guerras daquela época, mas ninguém esquece que o inimigo hoje é muito mais difícil de combater, pois ele é cor-de-rosa, disfarça-se de formador de opinião e idéias, nos exilam deletando-nos da mídia - estão escondidos em programas de TV tão distintos quanto Xuxa e Jornal Nacional, estão escondidos em livros didáticos que chamam os portugueses de 1500 de "conquistadores", estão escondidos no rosto da garota mais bonita da escola - que às vezes nem é a mais bonita, mas sabe-se lá o que faz alguém ser considerado mais bonito que os outros (e é justamente a isso que me refiro).

Que vivemos num mundo degenerado, não há dúvida; que a maioria se satisfaz em assistir documentários libertadores, em vestir-se de branco no reveillon num fetiche pacifista ou em tentar mudar o mundo via denúncias de pedófilos e racistas orkut também é de conhecimento de todos. Pensar em mudar o mundo na mão, hoje, é conversa de boteco, e até frases historicamente de impactos, como eu tenho direitos!, ganham teor humorístico. Este meu texto não é apenas mais um que tenta se tornar à parte aos que vivem esse cansaço dos dias de hoje, porque eu não estou criticando as pessoas conformistas (já tem gente demais fazendo isso), e sim a idéia de conformismo - sem muita profundidade, aliás, já que neste momento nem tento analisar quem estaria por trás disso. Enfim, trata-se aqui tão-somente de um comentário de quem tenta entender a falta de perspectivas - e sobre essas perspectivas não me refiro ao fim da fome, do desemprego, do capitalismo, de nada disso. Políticos corruptos, pessoas conformadas, serviços públicos mal-prestados... essas coisas são terrenas demais. Refiro-me, sim, a algo que vá além do que conhecemos conscientemente. Algo que não sei o que é. E que talvez só gerações muito adiantes à nossa consigam ter este insight.

Assim como o sapiens sacou, bem lá atrás, nos momentos de sufoco que a imaginação era muito mais importante que a força para vencer os Neandertais, é preciso que o homem futuro também acorde à mesma maneira - só que desta vez, se chegarmos a um sufoco maior do que o presente, provavelmente não haverá mais o que se reconstruir.


2 comentários:

Anônimo disse...

tem gente que acha que entendeu tudo depois que assistiu cidade de deus...

Anônimo disse...

Poxa. Que tapa! Cara, não lembro de ter lido qualquer outro texto que me falasse tanto como esse seu... absolutamente o mais maduro de todos.