terça-feira, 10 de junho de 2008

Recado para a namorada que não tive

Eu ainda era um pré-adolescente, tinha apenas uma vaga idéia do que ela já simbolizava para mim. Até então, cresci sem muitos amigos, e nessa fase não fazia muito de minha apática vida senão ficar em casa sozinho enquanto minha mãe trabalhava. Passava dias lendo os livros e as revistas dela; daí eu conheci Manuel Bandeira, William Shakespeare, Antoine de Saint-Exupéry, Claudia e Nova Cosmopolitan. Com a bagagem de alguns poetas e revistas femininas, eu achava que já conhecia sobremodo a cabeça das mulheres. Tolices de um púbere! Mas minhas primeiras experiências de beijos et ceteras vieram por aí, doze, treze anos. Mas foi com uma mundana qualquer, e não com aquela que se tornaria minha fiel companheira – embora esta eu já conhecesse, e bem. Claro que, na época, eu ainda não entendia adequadamente sua importância. E via nas garotas fáceis a verdadeira chave do sucesso e do entrosamento.

Caí, então, naquela que seria a fase mais sem-graça de minha efêmera vida, mas que eu adorava. O rock, o movimento estudantil, o centro das atenções. A adolescência era um altar de prazeres. Desse período, acumulei algumas fotografias de viagens, alguns vícios desagradáveis e uma ou outra doença venérea, rapidamente tratada. Quando batia uma crise de existência, eu, claro, só tinha uma companhia. Mas não a valorizava. Nunca a valorizei. Quando surgia a oportunidade, lá estava eu renegando-a; era totalmente convicto de minhas posturas, afinal. Que bobagem! Aliás, nisso eu evoluí, enquanto outros consideram retrocesso o mesmo trajeto: a idéia de jovem é a de uma pessoa sem nenhuma segurança, e que só vai adquirindo-a com o correr dos anos. O meu caso é inverso. De um garoto idiota, soberbo e pretensamente convicto do que pensava, fui me tornando mais inseguro e angustiado nesse meio tempo. Essa insegurança adquirida que me fazia valorizar ainda mais aquela que realmente merecia.

Depois desses anos de ensaios viciosos, escatológicos e amorosos, vou terminando e recomeçando etapas da vida cada vez com menos certeza das coisas, e menos esperança de alcançá-la. No entanto, sigo a passos firmes, na companhia da solidão, somente – eis a minha companheira fiel, essa solidão... Solidão que se impõe na vida de muitos a contragosto, mas que vence, no final das contas, ainda que pelo cansaço. A solidão é a pena dos desgraçados, disse-me um amigo certa vez. Ele considerava, então, que a solidão levava à morte. Eu não considero. O medo da solidão é latente na maioria das pessoas, mas o convívio com ela é permanente, gostemos ou não. Assim, faço poemas e contos que falam, entre várias coisas, das garotas, de meu passado, e, sobretudo, da solidão; porque só assim posso aprender mais também sobre ela. Somos, todos, afinal, apenas um peso, um fardo nocivo e molesto para nós mesmos... E pensamos que não sabemos! A única coisa que merecemos é o fundo escuro de um porão. Quanto aos solitários, não são eles os fugitivos dessa dura realidade.


* * * * *

Digno de nota: não faz mais que uma semana, foi lançada, com direito a show da banda setentista Os Grogs, a revista Tá na Cara!, uma produção de alta pretensão e qualidade em níveis ainda mais elevados! A Tá na Cara! é um projeto esboçado pelo meu amigo e camarada Ângelo Girotto, estudante de Jornalismo, ao que dei uma força e, felizmente, conseguimos concretizar esse desejo antigo de ver uma obra nossa sendo publicada. A revista arrecadará fundos para um projeto pessoal maior, que é o de fundar uma editora, aberta à publicação tanto de outros periódicos como de livros e discos.

Aos que estão lendo isso e, por ventura, morem em Natal, fiquem atentos: gravamos entrevista hoje na TV Assembléia, e brevemente estaremos na TV Universitária; as revistas estão à venda, por ora, nas livrarias Siciliano e na PotyLivros, mas já estão em fase de distribuição às demais livrarias. A Tá na Cara! é trimestral.

Eu faço parte do conselho editorial e escrevo matérias, além de uma seção onde exponho contos inéditos. Brevemente lançaremos campanha para assinatura da revista e um web-site.

Quem quiser conhecer o Ângelo Girotto, editor, diagramador, repórter e cronista, basta procurar no menu de links o seu blog, cujo nome foi gentilmente cedido à nossa revista. Sem mais, saudações aos navegantes!


4 comentários:

Anônimo disse...

Muitas vezes em nossa vida renegamos as pessoas que mais nos querem bem, demoramos uma eternidade para dar a elas o valor merecido e, um dia, quando percebemos o real significado da mesma, é tarde demais para trazê-la para perto de nós.

Anônimo disse...

Faz algum tempo que li o que escreveste, só não comentei antes.
...
Parabéns pelo novo projeto com a revista.
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Enquanto falas na namorada que não tiveste, lembro que se não fosse eu a convidar meu marido para o namoro, nunca teríamos casado. Ele era profundamente tímido.
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Tens razão, estando como estivermos a solidão será sempre nossa companheira, infelizmente.
...
Gostei do blog do seu amigo.
...
Beijos!

Anônimo disse...

apesar, da grafia e do que os gramáticos chamam de pleonasmo etmológico (... e et ceteras...)et coetera que em latim quer dizer: e o resto, meus parabéns pela produção do texto cujas as nuances intrínsecas a ele, chega a verdadeiramente tocar no âmago dos leitores.

Anônimo disse...

Juro que inicialmente pensei que estivesse falando de Kaká, hehehehe.
Já estava com um sorriso "eu sabia!" na cara, mas... boa surpresa.
Parabéns de novo pela Tá na Cara!
Valeu!