segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Tão fugaz

Eu acordei na madrugada com os olhos ardentes, sentado diante do computador... estava escrevendo algo novo, trabalhando um conto, mas fui além dos limites esperados, o texto estava muito extenso, e é sempre assim quando eu escrevo depois de beber em excesso... eu estava com bastantes doses de aguardente no sangue, voltei para essa bebida porque é a mais barata, porém ela tem me deixado com uma dor-de-cabeça enorme logo depois, e foi com essa dor latejante que acordei e notei que sequer havia terminado o conto... não gosto de produzir nada bêbado, não gosto de escrever no piloto automático, então selecionei todo o texto e em um clique deletei tudo...

Levantei meio tonto, acendi as luzes e olhei para a hora... eram 4 da manhã. E o dia era o meu aniversário, um sábado. Eu havia preparado um bolo de ovos na noite anterior para comer quando o sol raiasse, comemorar no café-da-manhã para dormir o resto do dia. Entretanto, preferi não esperar o sol e fui catar uns pedaços. Ainda estava muito tonto e não conseguia partí-lo de forma coesa, ficando muitos farelos jogados pela mesa e pelo chão. Comi um pequeno pedaço e fiz uma careta, porque o bolo estava ruim, as bordas estavam queimadas. Tudo bem, amanhã peço à minha mãe para me trazer, quem sabe, um bolo de verdade, eu pensei. Na geladeira só tinha água e outras amenidades, como vinagre, tomates, presuntos e margarinas, coisas que não uso muito e só compro quando penso em trazer alguma garota pra casa. Como fazia tempo que isso não acontecia, então os produtos ali já não deviam mais estar dentro de seu prazo, e o mal cheiro começava a se apoderar da cozinha. Eu ia juntar tudo e pôr numa sacola e na lixeira, mas retardei o processo para a manhã seguinte. O cacho de bananas preso na parede também já estava apodrecido, chegando até a pingar no chão, como se os fungos nascentes das bananas começassem a pesar, sendo, assim, expelidos, tudo sob a forma de um líquido meio mucoso, que grudava no chão, e eu percebi que parecia um muco quando passei o dedão em cima para dispersar o líquido e tentar diluir um pouco o fedor - sem sucesso.

Sentei-me à janela até o dia amanhecer.

Quando já eram umas 8 horas, o sol forte me batendo na cara, e eu ainda impassível olhando pela janela a rua vazia, ouvi o telefone tocar. Era Mariana, uma amiga doutros tempos querendo saber se eu organizaria algo, se cantaria parabéns. - Não, não vai ter nada disso - eu lhe falei. Como ela quisesse sair, e se importava mais comigo hoje do que se importara nos anos anteriores em que nos conhecíamos, eu topei. Mas o programa terá que acabar cedo, porque eu já havia combinado outro, com outra garota, para mais tarde. Ela aceitou.

Fomos ver uma peça de teatro dos meus alunos, que estavam em temporada, se apresentando toda semana numa casa de cultura da Ribeira. Eu já havia assistido na noite de estréia, e havia achado muito bom. Porém, assistir pela segunda vez não foi tão bom assim. Vários erros, cortes de luzes, falta de sincronia na cenografia, o espetáculo foi um fracasso tão grande que achei que a razão era o fato de ser meu aniversário, eu, um pé-frio dos piores.

Quando comentei a peça depois com a minha amiga, ela disse que não havia notado nada disso. Fiquei pensando se esses erros não foram frutos da minha imaginação. Embora ela discordasse, eu insistia:

- Pois eu vi muitos erros.

- É que sua chatice é potencializada no seu aniversário, seu bobo - disse.

Talvez tivesse razão.

- Estou brincando, viu - disse-me rindo.

Eu sei que ela não estava brincando.

Apesar do meu ar abusado, ainda conversamos algum tempo. Fomos comer uns sanduíches em alguma lanchonete. Ela me contou que dali estava pensando em visitar o namorado e me perguntou o melhor caminho para ir à casa dele. Eu não disse. Proseamos bastante até que chegasse sua hora, e eu agradeci pela companhia. Antes de sair, ressaltoub que ninguém mais aceitaria um convite meu para sair no dia do aniversário, e eu concordei, porque ela dizia mesmo a verdade.

Depois que ela foi embora, fui para um barzinho no meu bairro ver se encontrava lá uma outra garota, essa um pouco mais velha que a Mariana, inclusive mais velha também do que eu. Ela dançava no boteco e eu, cliente velho, talvez ganhasse umas carícias a mais sem precisar pagar, por ser aniversariante.

Como ela não apareceu e um trio de alcóolatras me viu ali sozinho, fui convidado a me sentar com eles. Eu preferia ficar na minha, contudo tanto insistiram que fui lá e troquei uma conversa rápida com o grupo. Eles já sabiam que eu esperava a rapariga do bar. Estava mesmo na cara.

- Pois é garoto, deu azar hoje! - Disse, gritando, o mais velho deles, o que tinha mais mal-hálito.

- Dizem que ela é uma grande chupadora, é verdade?, perguntou-me um outro.

- Ela é uma tagarela, eu falei. Isso faz com que pratique mais a língua que a maioria das mulheres.

Depois de umas risadas, um dos três velhos ainda sentenciou: - é, só que as mulheres que falam muito geralmente pensam pouco.

- Isso também vale para os homens, respondi.

Não fiquei muito tempo no bar. Tomei apenas umas pequenas doses de cachaça e fui embora, comprei uma pequena garrafa da mesma cachaça para continuar a beber sozinho em casa. Quando estava me acomodando, percebi, na cozinha, que haviam duas pizzas lá, e um bilhete. A minha mãe havia passado enquanto eu estava ausente, e como ela tem a chave - não sei como, eu nunca dei -, deixara essa pequena surpresa. Deixei para comer no dia seguinte, peguei um copo e me sentei à mesa, com os dois braços sobre ela, à luz baixa do abajur. Sorvia o álcool em doses homeopáticas e silenciosas. Lamentava cada gota que tragava, ao ver a bebida sumindo e sumindo e sumindo. Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive. Depois de um momento impassível, passei a beber num ritmo cavalar, desfocando minha atenção de todas as outras coisas do mundo, ignorando meus sentidos que começavam a perder forças, mas sentindo um prazer inebriante e incomparável. Até que só me restassem, no fim, o copo vazio e a solidão.

18 comentários:

Naty disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Laluia disse...

A Naty falou bem: "é tão polido"!

não vou comentar mais!

Mariane Lobo disse...

Escreves bem, gostei bastante :] Continue! :D
http://mariane-lobo.zip.net

Katarina disse...

Como pode sentir tudo e ao mesmo tempo nada? Quando cada detalhe significa muito e fingimos nao significar nada... apenas flutuamos...fingindo existir.

Palavrador disse...

Fala jovem,

Primeiramente, felicitações pelo aniversário. Não sei muito o que dizer. Não sou um grande comentador. Uma passagem me intrigou: ¨Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive.¨ Achei bonita, e de certa forma traduz uma impressão que eu tb tenho, apesar das minhas garotas terem acontecido em menos quantidades do que as minhas bebedeiras. A merda foi que nunca aceitei que as perdia, nem as doses nem as garotas.

Até a próxima visita e uísque servido!!

Mariana. disse...

'Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive.'

Bastante coerente a comparação,acho que é assim mesmo...amores (pelo menos os meus,e os seus) são exatamente assim...quanto mais os possuímos,mais os perdemos.

Feliz aniversário!

abraços

Anônimo disse...

=orly

Katarina disse...

Ah, é verdade... perdoe minha falta de sensibilidade, nao desejei feliz aniversário porque nao consegui precisar o tempo nesse post... nao sei, talvez nao seja de agora, mas se for: Feliz aniversário!!!

Anônimo disse...

ótimo texto

www.barataobama.com

Anônimo disse...

Puxa Leon, que saudade de passar por aqui.

Desculpa pela ausência. Nem tive como mandar um recado no dia do seu aniversário. Correria de fim de ano, até o blog foi abandonado por um período. Mas agora estou de volta. Já passou muito da hora, mas, parabéns! Queria muito ter deixado alguma mensagem decente.

Coisas da vida.

Espero que esteja bem.

Abraço e até breve!

Girotto disse...

Cara,

se eu tivesse tomando anti depressivos nem passava aqui, hehe. Aniversário, quando foi - se é que foi - essa porra? Texto excelente!

Até

Isa Dora disse...

Texto muito bom. Demais mesmo, curti às pampas! =)

Seu blog é todo muito bom. To viajando e me deliciando por aqui... Nunca mais tinha lido blogs com esse tipo de texto. Denso, coeso... Muito bom.
Abraços!

Anônimo disse...

hehuehuehueuhehue

nem li!

quarentão escrevendo igual a 50 anos atras, pra pagar uma de intelectual. lolz!

fui e nem volto! xD

Deftones disse...

Naty
Levando em conta que é professora, acho que posso concordar com a qualidade do texto...

Arlequina
Fez falta...

Mariane
Disse tudo.

Katarina
Como pode...?

João Silva
Quase me vejo em seu comentário.

Mariana
Não deixa de ser algo deprimente, né?

Katarina
Não é de agora mesmo, mas sem problema... obrigado..

Camilla
Você voltou, é o mais importante...

Angelo Girotto
Você sabe quando foi, até me chamou para beber, e eu não fui.

Isa Dora
Obrigado pelos comentários, é bom ver gente nova gostando do negócio... Abs!

Anônimo
Não volte... não fará falta. Por isso que é anônimo.


Aos que me desejaram parabéns: não fiz aniversário na ocasião da postagem, e sim uns dez dias antes. Mas obrigado, assim mesmo.

Literatura Vil

Anônimo disse...

A solidão toma conta de cada ser, é incrível como a deixamos nos possuir.
Mesmo tendo tudo, parece que não temos nada.. Não sei ao bem explicar tudo isso mas, é o que sinto, e me acho um lixo por isso, haha.

Feliz aniversário atrasado :)

Dinkin disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Heloísa Vilela disse...

Gostei mto do blog... Vi um comentário seu em uma postagem minha muito, muito, muito antiga e resolvi te visitar...
Adoro o jeito com o qual vc escreve, prende a gente na tela do pc. Parabéns!

Fábio Rocha disse...

Mariana Foi Pro Mar.