domingo, 14 de junho de 2009

Essa é para Cláudia, que fez as malas e sumiu de vista

Toda vez que acordo com uma garota ao lado na cama, levo as mãos à cabeça. Não sei porque faço isso. Quero sempre distância dos velhos casos - não por causa das garotas, mas porque não quero que eles se repitam, e se tornem mais frequentes, e se tornem compromissos aos quais nunca corresponderei. Eis que ainda me ocorrem dessas coisas. E desta última vez, nem pude levar as mãos à cabeça ao despertar, porque meus braços estavam enroscados no corpo dela, numa espelunca de quarto, que, pelo menos, não era o meu.

A garota em questão chamava-se Cláudia, que sempre foi muito louca, totalmente inconsequente, e tinha sido por mais de uma dúzia de vezes um objeto de prazer na minha adolescência. Era a época em que rolava algo entre nós, que nos conhecemos numa festa de amigos, nessas das quais hoje quero toda distancia. E logo depois de nos conhecermos, ali mesmo ficamos, ali mesmo transamos, ali mesmo nos despedimos, ainda que nos víssemos diversas vezes em lapsos de tempo preenchidos entre meus dezessete e dezenove anos.

Há alguns dias, contudo, eu estava na biblioteca do SESC lendo um livro. Eu não gosto de ler livros em bibliotecas, no máximo cato alguns, sento e folheio um pouco, mas não leio; levo-os pra casa no meu cadastro. Só que em todas as bibliotecas onde tenho cadastro estou suspenso, não posso pegar livros emprestados, porque sempre atraso ou, até mesmo, não os devolvo. Da Biblioteca do SESC, estou com dois livros, de Rubem Fonseca e Ernest Hemingway, há mais de um ano. Sempre esqueço de devolvê-los. Com isso, não me resta outra opção senão pegar umas obras da prateleira e sentar naquelas mesas de leitura com papéis colados e ordens do tipo "faça silêncio", "não fume", "não desarrume os livros" e outras senilidades, ao lado de estudantes bitolados e poetas pobres fugitivos. Por ter de me ater a isso, ficar sentado num ambiente totalmente impessoal lendo um livro, terminei ficando muito vulnerável, e foi lá que a Cláudia, associada do SESC, me encontrou e quis matar saudades. Tanto conversamos que decidimos sair e dar uma volta. Eu estava de moto, mas com apenas um capacete, então saímos caminhando. Ficamos duas horas seguidas de papo e caminhada. Paramos numa lanchonete, comemos um cachorro-quente com um suco, e eu queria que nos despedíssemos, até cheguei a dizer que precisava ir embora, mas Cláudia não, ela queria que passássemos mais tempo juntos, e dali fomos para um motel pequeno no Areial, perto da Praia do Meio.

É meio deprimente um casal entrar num motel a pé, né?, ela perguntou. Eu não respondi. Entramos no quarto e resolvemos não muito rápido a parada. Há muitos meses eu não fazia sexo, e provavelmente o dobro de meses virá até que eu faça novamente, o que me deixa sempre com a sensação de estar vivendo uma experiência nova - e isso não é bom. Cláudia gosta de ficar falando enquanto transa, um hábito que não é só dela, convenhamos. Tá sempre perguntando coisas entre os gemidos, coisas que não tem nada a ver, sobre o que vou pensar no dia seguinte, algo assim. Eu nunca respondo. No final das contas, umas quatro horas depois, enfim dormiríamos, até as sete da manhã, quando despertei.

Do mesmo modo em que estava quando abri os olhos me mantive, durante mais de uma hora, já com vontade de sumir, desaparecer, vaporizar. Sou muito desapegado, e eu sei que a maioria das mulheres não entende isso, e sabia que Cláudia também não entenderia quando acordasse. Chovia muito lá fora, o que era ainda pior, porque me obrigaria a ficar ali por muito mais tempo. Uma sensação estranha se acomete de mim sempre que acordo, e não estar em casa ajuda a me deixar ainda mais desconfortável. Aliviava-me pensar que dali a algumas horas enfim estaria bem longe, mas enquanto isso não acontecia, o pesar era tão grande que eu até simpatizaria com a ideia de resolver a situação com o barulho de um cano de grosso calibre. Uns quarenta minutos de divagações depois, Cláudia acordaria, levantando-se e enfim dando liberdade aos meus braços. Foi ao banheiro e na volta disse:

O banheiro daqui é horrível, fede a bosta.

É um banheiro, respondi. E me levantei, para fazer eu as necessidades.

E realmente era horrível o banheiro, ela estava certa... Mas entrei, e tranquei a porta, e sentei na privada tampada, só pelo sossego. Batia em mim a mesma sensação ruim que sinto quando não estou em casa ao acordar. Queria beber alguma coisa, mas não tinha dinheiro senão para pagar aquele quarto. Fiquei uns dez minutos por lá e saí.

Pega um espelhinho pra mim, por favor, está aí na bolsa, ela pediu.

Abri sua bolsa, e além do espelho vi agendas, canetas, confeitos, batom, pente, uns três papelotes de pó e uma seringa.

Você ainda tá nessa?, perguntei.

Por quê? Vai me dar alguma lição?, ela ria enquanto falava, como se tripudiasse de minha pergunta.

Essa seringa está cega, isso vai foder o seu braço.

O braço é meu, a buceta é minha, eu faço o que quero de meu corpo e minha vida.

Apesar de tudo, ela estava com a razão. Não era eu quem ficaria lhe explicando o problema de ficar enfiando seringas cegas e usadas no braço. Mesmo porque não sou melhor que ela, e também não sou exemplo; nunca fui. Peguei um dos papelotes de sua bolsa, e pus no bolso traseiro da minha calça, que estava na cabideira.

Isso aqui é pra ajudar no pagamento do quarto, falei. Ela nem questionou.

Deitei na cama e ficamos em silêncio. Depois, ela falou de alguns de seus planos. Pensava em tomar rumo para outro lugar, Europa talvez, Portugal em específico. Eu escutava com atenção, embora não acreditasse. Mas somente depois eu saberia que ela tinha viajado mesmo, foi para Lisboa, fazer um curso de fotografia - ou se tornar uma prostituta, nunca se sabe. Nesse dia, ela chegou a perguntar se eu queria ir junto, talvez só pra analisar minha resposta; mas não lembro se respondi à oferta. Durante aquelas horas, recebi dois telefonemas, e ela percebeu que se tratavam de garotas, e começou a ter o comportamento tolo de quem sente ciúmes, por bobo que seja.

Há muitas meninas adolescentes ainda em sua vida? Olha, você tem 25, daqui a pouco terá 30, sai desse mundo.

Não tenho 25, tenho 23.

Mesma merda.

Ela insistia nesse papo enquanto eu me estafava ainda mais em ver que a chuva demoraria muito mais a passar, e estava também começando a me preocupar com a moto, que estava bem longe dali, além de ter passado a noite sozinha no meio da rua - talvez nem estivesse mais lá. Eu prometera uns trocados ao flanelinha que ficaria de olho, mas provavelmente ele, no seu fim de tarde, percebendo que não receberia nem uma prata sequer por ela, deve ter feito alguma merda na moto, do tipo secar pneu ou roubar retrovisores.

Falei pra ela que ia embora. Ela pediu muito para que eu permanecesse - e até permaneci por algum tempo -, mas não podia ficar mais. Depois perguntou se poderíamos nos ver no dia seguinte.

Um filme, uma praia, talvez. Amanhã é sábado. Podemos vir para esse motel novamente, gostei dele, é simpático, ela disse.

Ando com pouco dinheiro, não posso, respondia. E não podia mesmo.

Então eu saí na chuva, com o capacete na mão. Deixei paga a conta na saída do motel e me fui, primeiro correndo, depois, desistindo de tentar fugir da chuva, a passos curtos e regulares. Eu estava a quilômetros do local onde deixara a moto. À medida em que caminhava, e saía do pequeno bairro do Areial para entrar no do Centro, percebia que a cidade mantinha seu cotidiano, os camelôs nas ruas, os engarrafamentos, o comércio aberto, a multidão galopante, mesmo com o temporal e a ventania.

No caminho, eu ainda recebia novos telefonemas de garotas. Ao contrário do que pensava a Cláudia, porém, os telefonemas nunca eram pra mim. Sempre eram pedidos de informação sobre alguns de meus amigos e coisas do tipo.

Não, não sei onde o Diego está, não o vejo há quatro dias, eu falava. E desligavam.

Enfim cheguei à minha moto, ainda no mesmo lugar, e aparentemente sem sofrer nenhum tipo de prejuízo. O flanelinha nem estava lá. Subi, dei partida e fui embora, mesmo naquela chuva torrencial, a cidade toda sob água, a visibilidade baixíssima, o corpo sendo golpeado por pingos que pareciam pedregulhos. Não deu outra: numa das avenidas em que tentei passar, com quase meio metro de água, a moto emburacou-se numa fenda e eu caí.

Quando a levantei e levei para a calçada, notei que havia furado o pneu dianteiro.

Saí empurrando a moto por um bairro residencial da zona sul à procura de um borracheiro para lhe pedir um remendo. Estava muito cansado e desanimado. Depois de algum tempo, eu encontraria uma oficina, mas estava fechada. Como na entrada havia o telefone do responsável, eu liguei e disse que precisava do serviço. Ele me atendeu na hora: morava nos fundos da oficina. Mas saiu nitidamente a contragosto, quando abriu a porteira notei que devia estar comendo algo, porque ainda mastigava e seus dentes estavam sujos, a cara fechada. Era um sujeito de poucas palavras. Enquanto fazia o serviço, eu tentei explicar a situação. Não tinha dinheiro.

Porra, nem um puto sequer?

Fiquei apalpando os bolsos e realmente não tinha nada. A única coisa que saquei do bolso traseiro, o papelote de cocaína, foi o que lhe disse que restava, e ofereci. Ele ficou calado, terminou o serviço da moto e foi lá nos fundos da oficina, onde não sei se morava sozinho ou acompanhado. Percebi que lançava uns gritos, que pareciam se dirigir talvez para um cachorro, talvez para uma criança, talvez para a esposa. Aquilo de algum modo me irritou, mas eu não podia questioná-lo, não estava em condições. Ele voltaria em menos de um minuto.

Me dá o negócio que você tem, foi o que ele disse.

Eu dei e fui embora. Às vezes, precisamos de canalhas desse tipo.



12 comentários:

Mic disse...

uma mulher maluca, uma chuva forte e um borracheiro gente boa...rsrs
a vida tem dessas, histórias para contar, das boas..

e as mulheres, nunca entendem mesmo como um homem consegue ser tão desapegado.. rs

Tatiana Pinheiro disse...

Eu nem me aventuro a dormir fora de casa, sério.

Nem sei, olha, eu nem sei o que poderia acontecer comigo rs

=*

Jordana disse...

Ainda por devolver esses livros? Desista, eles já são seus. Concordo com a Cláudia em relação a entrar a pé no motel. Não é meio deprimente, é deprimente e meio. Já que não estava a fim, por que não disse não a oferta? Teria evitado essa cadeia de transtornos, eu creio... De fato, parece mesmo que foi um dia desanimador.

[]

Anônimo disse...

Suspeitei que o borracheiro fosse aceitar, "canalhas desse tipo" não são de rejeitar esse tipo de coisas. Adorei.

Estou lendo Bukowski e realmente você se inspira nele, e esse ficou bem parecido, a linguagem fácil como a dele, gostei, gostei mesmo.

:D
;**

Anônimo disse...

Certo, o que eu posso dizer? Gostei quando a Claúdia falou que a vida era dela e a boceta também, e não sei por que consigo gostar do seu desapego, não vejo razão para sentimentalismos em transar com alguém, mas nós mulheres somos malucas, culpa dessa criação besta que a gente recebe...
Aposto que ela de fato foi fazer um curso de fotografia!

Ra disse...

primeiro texto longo e pessoal que li até o fim.

Anônimo disse...

Oi Leon, até que enfim achei seu blog novamente. Perdi quando fui trocar meu layout. Ufa!

E vc, como está? Estava com saudades de te ler.

Espero que esteja bem.

Um abraço e até breve!

Katarina disse...

A vida é cheia desses encontros, dessas chuvas fortes, pneus furados e azares sortudos que vez ou outra terminam em inconclusões. Três suspiros de saudade dessas estórias.

Anônimo disse...

Oi Leon.

Não vou comentar o texto porque estou na faculdade e fugida da aula. Ainda não li mas, vim para responder uma antiga pergunta que me fizestes lá no blog.

Somente agora consegui perguntar ao meu vice-diretor como ele havia descoberto que eu tinha blog... ele respondeu que era "segredo de Estado".

Continuo a te acompanhar mesmo não comentando mais como fazia antes.

O texto em que escrevestes sobre a proibição da direção da tua escola de saíres com os alunos me deixou perplexa por causa do conservadorismo que notei nesta proibição.

Beijos, guri!

Mic disse...

vim aqui te dar um alo...bom fds..

well souza disse...

Bela estória... se vê que realmente és um discupulo de Rubem! rsrsr

Ótimo trabalho!

Abraço!

Ind Caroline x) disse...

booom, eu diria que se vc evita algo qdo ainda está no começo é mais fácil de evitar maus bocados... vc teve oportunidade de não ir passear, de não ir ao motel, de sair mais cedo, de não ficar mais tempo, mas graças à uma cocaina, vc foi salvo... quem diria!? aehuaehu
terminei mais um!
;*