domingo, 6 de dezembro de 2009

O céu e o sertão

O céu noturno mais estrelado que já vi foi no meio do sertão, lá pelo médio oeste do Rio Grande do Norte, quando eu viajava de moto - não lembro para onde, mas no trajeto eu pretendia parar na cidade de Frutuoso Gomes porque o sol já estava se pondo e eu encontraria lá um abrigo para passar a noite - até que, após enfrentar uma área onde a rodovia estava destruída, além de recheada de pedregulhos junto a muitos objetos na estrada - alguns possivelmente cortantes - talvez derrubados de um caminhão, eu percebi que a moto perdeu força e começou a deslizar, o que logo me fez levantar a suspeita (confirmada logo depois) de que o pneu dianteiro havia sido furado, o que me irritou no primeiro instante e me frustrou no segundo, porque eu sabia que não teria condições de conseguir consertá-lo ainda naquele dia, só que ainda tentei tirar o pneu para levá-lo à cidade mais próxima, que eu acreditava ser Janduís, mas percebi então que não houvera levado ferramentas necessárias, de maneira que decidi encostar a moto atrás de uma árvore - não muito grande, devia ter no máximo uns três metros, mas cercada de arbustos secos, como é comum naquela área - e sair caminhando pelo chão carregado de pequenas pedras que o tornavam bastante escorregadio, fatores que me fizeram repensar a ideia de sair à procura de algum mecânico, coisa que, eu sabia, só me traria aborrecimento naquele dia (dificilmente algum mecânico ou borracheiro sairia à noite para fazer o remendo no pneu) e voltar para onde estava a moto; levou esse tempo de mais ou menos meia hora para que me caísse a ficha de que teria que ficar ali mesmo, ao relento, sem nenhum tipo de mantimento que me permitisse dormir a céu aberto, pois carregava apenas uma mochila com umas roupas, livros, uns e outros acessórios, entre eles um lençol, que abri ao chão, o que apenas amenizaria, ainda assim parcimoniosamente, o desconforto de sentar no solo pedregoso.

Logo a noite cairia - nenhum carro houvera passado ou passaria por ali nos momentos em que lá estive, embora eu não estivesse esperando -, tornando-se o local muito escuro e estranho, com sons de animais típicos ouvidos por trás das colinas baixas e das matas áridas, elementos que me deixariam apreensivo por me sentir em um ambiente adverso, mas para o qual tentei me tranquilizar e para isso só me restava fazer algo para passar o tempo, como ficar revezando a leitura de livros, iluminado pela lanterna da moto, lendo-os em voz alta, interpretando seus personagens, ou deixar os livros de lado e ficar falando besteira, comigo mesmo, ou então levantar para ficar caminhando em círculos, porque estava ficando frio, além do que meu corpo estava muito incômodo por motivos que desconheço - estava coçando demais as pernas e os braços -, então decidi desligar o farol e ao apagá-lo percebi que o breu repentino gradativamente se iluminaria com a quantidade de estrelas no céu que pareciam surgir do nada pois quanto mais eu olhava mais eu via surgir novas estrelas, e isso de algum modo me deixou mais calmo porque eu teria agora um ótimo passatempo (o meu passatempo predileto na infância que estava esquecido) que seria ficar apontando, contando e desenhando as constelações, deitando rapidamente e identificando de imediato a de Escorpião - era agosto -, sempre a minha primeira referência, e embora eu houvesse esquecido a maioria delas ainda conseguiria reconhecer umas vinte na medida em que o tempo passava e novas estrelas se me apresentavam, e eu, meio embriagado pela brisa noturna (que não era nada gostosa de sentir porque era uma brisa muito seca causando uma sede que eu não teria como suprir, porque eu havia bebido rápido demais o pote de água que carregava), ficava lá discutindo comigo mesmo, chegando a gritar às vezes, como se estivesse dentro de meu próprio quarto, e a última constelação que vi surgir antes de adormecer foi a da Lebre, o que denota que passei pelo menos umas cinco horas naquele exercício estranho...

Ao acordar, sentindo a alta temperatura do solo rompendo a camada relativamente fina de tecido do lençol, meus olhos ficaram por vários segundos ofuscados pelo ardente sol matinal, que se erguia solitário na imensidão do céu azul sem estar acompanhado de uma nuvem sequer, e pela extensa camada de terra que minha vista alcançava só se percebia o visual semidesértico, esbranquiçado e claro como é usual à vegetação seca e ao solo sertanejos, de modo que nem quis perder tempo e levantei rapidamente guardando as trouxas na mochila para sair em seguida em busca da ajuda que só encontraria depois de caminhar cerca de trinta quilômetros cercado por aquele ambiente de feitio monótono e carregado de uma vida estranha - sem encontrar uma casa sequer no decorrer da pernada -, havendo ainda o agravante de que o único borracheiro que encontrei só trabalhava com carros, mas topou um remendo de quebragalho no meu pneu que seria suficiente para eu chegar em outra cidade e resolver o problema em definitivo; quando fomos ao local onde estava a moto, havia um guaxinim muito peludo dormindo sobre o banco, e curiosamente o animalzinho nem se assustaria com a nossa chegada, somente saindo de cima da moto quando o mecânico começou a mexer nela, foi quando notei que o guaxinim estava machucado pois ele conseguia andar normalmente mas dava para perceber que estava manquejando em uma das patas e mirei a vista em sua direção de uma forma que, estático, eu o observei indo embora por centenas de metros, como se eu quisesse saber para onde ele iria, vendo-o tornar-se apenas uma pontinha se mexendo na linha do horizonte, sendo esta a minha última lembrança daquele dia, e eu até voltaria para o Sertão depois dessa experiência, como também viveria outros impropérios com a moto; só que esses impropérios já não me incomodavam mais, porque me davam a oportunidade de viver essas emoções tão humanas e viciosas, pensando em alguma coisa - contando constelações, caminhando em círculos, esquecendo até o fato de estar em completo isolamento - só para sentir algo ali, e deixar de sentir o que aqui sinto demais.


6 comentários:

Érica Ferro disse...

Já disse que adoro os seus contos?
São muito bons e gostosos de ler.

Esses impropérios nos acordam para pequenas e singelas coisas, mas que com certeza nos faz um bem sem tamanho.

Um abraço.

Anônimo disse...

Eu nunca soube encontrar constelações. Talvez esteja relacionado com o fato de que são poucas as estrelas que eu consigo ver aqui em São Paulo. Na infância eu contava estrelas mesmo, modestamente, rs. O céu mais estrelado que eu já vi foi deitada em um ônibus, indo pro interior. E quanto às emoções humanas que você cita, achei nessa expressão uma boa síntese para o que eu enxergo em todos os seus contos. Sensações e emoções humanas. Além de um perfeito domínio da Língua e da linguagem; inegável.
Quanto ao meu blog, ele está bem no começo, rs. Tem dois textos. Qual é o seu e-mail do google pra eu poder liberar? :)

Até mais. :*

Pena disse...

aê leon parabens cara... passando rápido pq estou super preso com a pinoia do ENEM

Deftones disse...

Aimée

A vida urbana tem desses prejuízos sim, comigo acontece o mesmo... Quanto a seu blog, estar no começo não é demérito; pelo contrário.

Meu email é lknunes@gmail.com... agradeço logo ;o)

Rapouso... Tá valendo... brigadão!..


Literatura Vil

Anônimo disse...

Interessante, me lembrou uma viagem que eu fiz em 2007 pro sertão que o céu também era maravilhosamente estrelado, e a primeira constelação que eu reparei também foi a de Escorpião.

Acho que com esse seu relato dá pra fazer um curta legal, que tal investir nisso? hahaha

Enfim, gostei, como sempre né? Eu já disse que seu blog é um dos poucos que se salvam? Ultimamente estou totalmente desleixada com o meu, posto vez em quando só pra dizer que escrevi, e quase não dá comentário, então me prendo aos blogs que gosto, tipo o seu e o Lixo de Textos, que são meus preferidos.


;**

Anônimo disse...

Passando só pra avisar que eu liberei lá. :)