Publicado originalmente na terceira edição da
revista Tá na Cara!, de novembro de 2009.
revista Tá na Cara!, de novembro de 2009.
Houve um cara que disse que fazemos parte de uma geração criada por mulheres. E lançou o questionamento: será de uma outra mulher que precisamos?
Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.
Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.
Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.
Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.
Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.
Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.
Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.
Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.
Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?
Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.
Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?
Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.
E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.
E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.
No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.
Eles nunca as procuravam.
Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.
Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.
Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.
Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.
Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.
Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.
Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.
Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.
Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?
Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.
Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?
Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.
E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.
E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.
No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.
Eles nunca as procuravam.
19 comentários:
Ham-ham, eu tenho essa edição aí e já li original no papel. Foi mal aê. AHHAHAHA
:)
;*
"Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia."
Pesado. Me dá ideias.
Beijos
Sabe, o ser humano VIVE CRIANDO problemas.
Teus contos são de leitura rápida; gosto tanto.
E olha, não precisa se desculpar pelo sumiço, pois, sempre que tu apareces por meu blog, comentas gentilmente. Obrigada, inclusive.
Beijo.
Adorei. Não gosto de mulher que vive se lamentando por causa de homem. Deve ser por isso que não tenho amigas. Não aguento ouvir chororô de quem procura o cara perfeito. Isso não existe! E a mulher tem que se dar valor, tem que mostrar que merece respeito, se não vira zona.
Ah, e nunca, nunca, por mais que esteja apaixonada, a mulher deve demonstrar mais do que o homem. Mas nenhuma consegue seguir essa regrinha básica, então... paciência. Eu aviso e não vou ficar ouvindo reclamação depois!
Bjs :D
Leon, voltei a ativa :D
Feliz 2010, atrasado haha.
Eu nunca gostei muito de carência, na verdade sou meio fechada pra sentimentalismo e sofrimento exagerado, e gosto de independencia emocional.
Aprendi com as mulheres da minha familia, que passaram por crises no casamento, firmes e fortes, e me ensinaram que não precisamos de um homem a tira colo pra ser feliz...
É por isso que tenho pena de quem sofre por amor, é tão triste, né?
Beijos, até mais :)
Me identifiquei com você, meu velho. Eu costumava dizer (para minha menina, obviamente) que o problema das amigas dela era falta de pinto. Mas só fui descobrir que tava errado quando percebi que as que mais sofriam eram as que mais davam.
Vai entender as mulheres.
Olá! Eu nunca vivenciei isso. Nunca tive mágoa dos homens.
Conheço mulheres que sonham até hoje que seu amado retorne. No meu trabalho las se reunem em grupo e ficam dizendo mesmo que homem é tudo igual.
Acredito que isso faça parte da natureza delas em não saber conquistar.
Por outro lado, tem um colega meu que vive a reclamar das mulheres, que mulheres não são para casar...
Acho que uma mulher carente não encontrou outro homem carente para se completarem mutuamente.
Os carentes são pessoas que tem uma ideia deturpada de relacionamento e por isso não dão certo com ninguém
Beijos!
Eu gostaria de ter nascido homem só para usar da frase " Eu acho que eles poderiam comer melhor".
Se eu falar, sendo mulher, já viu né. A Ala feminina-feminista me crucificaria.
Política que sou, me limito a dizer que mulher não sabe dirigir, apenas.
O pior é que eu tenho carteirinha de estudante, mas eles não aceitam :x
Gostei do post, a maioria das mulheres realmente criam e aumentam seus próprios problemas pra depois ter uma razão maior pra culpar os homens, o problema é que isso sempre os afasta...
" Eu acho que eles poderiam comer melhor" O.O' Nouss
Um comentário pro comentário aí de cima, aproximadamente 30% dos acidentes de trânsito são causados por nós, mulheres, e os outros 70%?
Té mais
:D
;*
Gosto do jeito que vc escreve.
E este texto me fez pensar. Às vezes eu também não entendo as mulheres. rs Mas outraz vezes acho mais difícil entender os homens.
As mulheres sofrem, sim. Mas a maioria delas possui motivos, concorda? Outras nem tanto...
Ah, vai entender.
Carência faz com que tomemos decisões precipitadas.
Não devemos nunca achar que somos pequenos! O valor é essencial!
^^
Bom ler teus textos!!!
Sempre muito bom!
Desculpa o meu sumiço...=/
Tinha tantos probleminhas nessa cabecinha! rsrs!
Mas estou de volta!!!
=)
Um grande beijo e bom feriado!!!
Fato é que a solidão apavora a maioria das pessoas de um modo geral. Que acabam se submetendo a relacionamentos conturbados e sendo escravizados por eles. E depois vem a chuva de queixas! Vejo isso dia após da! Mas os homens são mais práticos, estou tentando pegar um pouco dessa praticidade a adicioná-la à minha vida, risos!
Conheça meu novo blog! ^^ Cantinho Misantópico, Ridiculous Thoughts e Enigmas Intrínsecos não existem mais, mas nesse novo terá de tudo, inclusive poemas, hehe! Passa lá! ^^
Beijos!
Eu também me pergunto frequentemente o que leva algumas mulheres a insistirem em homens que elas tanto criticam e então eu lembro o medo que costumamos ter dos vazios.
Elas só tapam buracos que vão abrir de novo e reclamam que não ficaram bem tapados sem lembrar que o serviço foi feito por elas.
Aaaaaaa, essa foi boa! Esse texto ficou muito bom ;)
Quantas mulheres já não se humilharam por homens? Quantas vezes eu já não devo ter feito isso?
Hoje em dia, se eu me separar do noivo, eu não to nem ai. Prefiro ficar só, muito mais fácil para me dedicar a carreira, que é bem mais importante ;)
Porra, esse ficou ótimo!
Eu tenho a revista em mãaaos lero lero ;P aehuaeh
sorry por desaparecer.. enfim, como sempre eu posso tardar mas não falhar ;] to de vorta
Enfim, como posso dizer.. as mulheres foram acostumadas a procurar metades da laranja, cara metades, complemento de vida, mas nunca ensinadas a serem felizes por si só, e o pior: os homens sabem disso. As mais volúveis, não podem controlar o desejo de serem amadas, por mais q todos sabem q o cara desejado é o fim da picada, nós sempre pensamos, com a gente vai ser diferente *-*
Bulhufaas.. maaas, no meu conselho pessoal, eu posso até lhe implorar q não desista de tentar, ou mesmo não se feche no seu mundo para evitar as mulheres q o endeusam hoje e crucificam amanhã, o amor é pra ser vivido (e sofrido), o excesso de amor faz mal ao coração, mas a falta dele também, tudo se vive bem quando se vive em equilíbrio...
um bom texto aqui.. pra voltar? aeuaheuah
BeijO
Leon, eu também não puxo assunto com ninguém em ônibus ou em qualquer lugar assim, por ser tímida e esperar sempre que venham falar comigo, rs.
Ah, muito obrigada por me linkar.
Um abraço. ;)
Muito bom!
Mulheres, mulheres. Somos mulher durante os primeiros dias de gravedez.
fico feliz por sua publicação e tbem pela produção que vejo no L.V.
Abraço meu caro.
Marcelo Cajui
Bom demais meu amigo! Bom demais!
E é de se estranhar que a maioria dos comentários aqui seja de mulheres? E acima de tudo, não se defendendo? Acho que não né! haha
Voltarei mais vezes por aqui, com certeza...
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