domingo, 25 de julho de 2010

Antes de estourar os miolos

É muito fácil parecer moderno,
enquanto se é, na verdade, o maior idiota jamais nascido
.
Charles Bukowski


Como um sujeito bem Século XX, eu me prostei diante da TV ao modo de quem espera que ela ofereça respostas, feito uma divindade moderna e literalmente antenada com os novos tempos. Na tela plana, o meu programa de entrevistas favorito - Provocações - aproximava-se do fim, e, como marca desse momento de clímax, perguntou o entrevistador a mais um intrépido convidado:

- Que é a vida?

A resposta não se deu imediatamente... fez-se um silêncio; jogou-se um sorrisinho discreto, o olhar se perde no alto. Como se não houvesse nada melhor a dizer, eis a resposta, que veio pausada e reticentemente:

- Até hoje estou tentando entender...

Eu decidi desligar a TV, e com isso perdi o poema que fecha o programa. Mas de que servia o poema? O momento mais importante da entrevista, aquele que poderia oferecer a chave da questão - o que é a vida? -, passou, e, na minha cabeça, foi novamente decepcionante. Mais uma vez, para mim que tanto penso no que é a vida, não tive nenhuma ajuda na resposta desses personagens que semanalmente fogem da mesma pergunta com palavreados vazios travestidos com um ar intelectualizado, experimentado.

Que hão de responder sobre a vida, afinal, aqueles que perdem o tempo apenas a vivê-la, sem nem questioná-la? Acho que por nunca se perguntarem é que nunca têm a resposta. Todas as vezes em que assisto ao programa e vejo a pergunta sendo feita, respondo, espontaneamente, e sempre uma resposta diferente, como se a inquirição tivesse sido feita para mim. Mas não é. Na verdade, ando tão desacostumado a responder perguntas, coisa que somente faço nas salas de aulas para os alunos - que me perguntam repetidamente de quantos pontos estão precisando para passar -, que até demoro a responder quando a moça da padaria ou o garçom do botequim perguntam se desejo algo mais; eu sempre penso em dizer que sim, que desejo bastantes coisas mais!, mas certamente as tais coisas não se encontrariam nas prateleiras nem nos cardápios.

Como não conseguia dormir desde a hora do programa até essa alta madrugada de frio e de chuva forte, decidi sentar e dissertar mil coisas a respeito da vida, mas na medida em que pensava, o ritmo da escrita diminuía numa constante gradação. Os poetas chinfrins gostam de dizer que a vida não pode ser explicada, e não talvez não seja possível mesmo. Não posso, nesse quarto, tecer respostas sobre ela quando noutros tantos quartos escuros muitos ainda mais vividos que eu não conseguiram encontrá-la, como Hemingway, que talvez só a tenha obtido no nanossegundo imediatamente anterior àquele em que sua bala estourava seus próprios miolos, ou como o Fante, que de tanto viver num quarto escuro, passou a ver escura toda a vida quando a cegueira o engoliu.

Lembro-me de quando trabalhei numa peixaria, carregando nas costas pesados pacotes cheios, sempre ansioso por ver terminar aquele expediente maldito, que parecia eterno. Não bastasse o desconforto do peso que carregava, tinha ainda que aturar as ladainhas da rapaziada que trabalhava comigo. Homens másculos e falantes demais, todos sempre com um sorriso despojado enquanto o cigarro pende no canto da boca, sempre xingando a uns e a outros - eu sempre na lista de alvos primordiais - e eu sempre na minha, com ódio de todos eles, da minha família, de Deus e do mundo. Uma vez, um desses sujeitos, o Alverga, disse para mim:

- Você não vai com a nossa cara, seu merdinha. Mas foda-se. A vida é assim, e você terá que suportá-la.

Não durei nem um mês completo na peixaria. Mas o temor daquela vida de merda ainda me acompanhou durante muito tempo - na verdade, ainda está por aí.

Eu sempre achei tão vagas essas percepções que se costuma ter da vida, essas coisas que sempre vêm à mente quando pensamos nos colegas ou parentes que se foram por acidentes diversos ou por inconsequências babacas, nos aperreios acumulados na vida escolar, familiar, nas caminhadas noturnas pela Cidade Alta, completamente vazia e tomada por vagabundos andarilhos, nas noites passadas em banheiros trancados, ainda ouvindo do outro lado da porta a soturna música do The Cure, que hoje já não me significa muito; essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo. Para fugir, por ora, dessa atmosfera nada positiva que me persegue, só mesmo tentando dormir, e mais uma vez retardar a reflexão que me levará àquela resposta definitiva...



13 comentários:

Alessandra Santos disse...

O que é a vida? Não sei. Fala-se tanto dela, reclama-se tanto e confesso não saber. Certa vez vi num filme (bem menininha de 15 anos) chamado "Doce Novembro" uma cena que não saiu mais da minha cabeça. Sentados num lugar tranquilo os personagens principais olhavam de longe toda a movimentação da cidade. A moça mostra ao rapaz tudo aquilo e diz que aquilo é vida. Aquilo que está lá fora e que é alheio a você mesmo. Que passa sem querer saber se você a acompanha ou não. Se você a vive como deveria ou se apenas sobrevive a ela.

Não gosto de respostas muito rápidas, sobretudo quando se trata de algo tão abstrato e subjetivo, mas apesar de refletir durante um certo tempo ainda não sou capaz de responder a essa inquietante pergunta.

Estava lendo um livro de crônicas da Rachel de Queiroz e numa delas a autora diz que "Esta vida também nos fica cada vez mais incompreensivel".

O resto eu ainda não sei dizer

Adriana Hanna disse...

"Antes de estourar os miolos", tédio.
É isso, definitivamente.

Grande abraço, meu blogueiro favorito!

Alessandra Santos disse...

Relendo a crônica, sobre a qual falei anteriormente, encontrei o início do fragmento que acho que cabe perfeitamente aqui.

"Ah, o pior é que, além de tão duríssima para nós todos, esta vida também nos fica cada vez mais incompreensível"

(Rachel de Queiroz - A Imponderável Aflição de Estar Vivo )

PS: Só pra variar errei a digitação, excluí o comentário anterior e te darei o trabalho de consertar isso.

:)

R. S. Diniz disse...

Vida é informação.

Um sábio hindu, ao explicar o sentido da existência, disse que a Divindade, não satisfeita em contemplar a existência, decidiu viver nela.

Cada tipo de ser humano, por mais medíocre ou mais sublime que seja, funciona como uma espécie de neurônio. Esmague uma formiga, pense em todos os livros que você nunca leu, todas as mulheres que você nunca conheceu, as decisões que você tomou na sua vida e nos diferentes rumos que ela tomou; pense em todas as estrelas que nascem e explodem ao longo das eras.

Tudo é informação.

Letícia disse...

Nossa... são 6 da manhã, acabei de acordar e a primeira coisa com a qual tive contato hoje foi o teu texto. Fiquei até um pouco insegura de comentar... Teu jeito de escrever é simplesmente incrível. Parabéns pelo blog.

Filippe F. Cosenza disse...

As vezes me pergunto se esse questionamento da vida é algo de agora, da nossa geração ou se meus pais, avós, bizavós, enfim, passaram por isso também? O que eu sei é que hoje é mais comum ouvir ou ler pessoas pensando sobre isso.. talvez por conta da internet, que difundiu tantos novos pensadores. Vai saber. Pra mim, a vida parece uma grande ressaca. As vezes a dor de cabeça até parece que passou, mas quando vê, lá esta ela de novo. E a gente continua vivendo...

Ind Caroline x) disse...

Ninguém sabe explicar o que é a vida, por aquele célebre pensamento: Algumas coisas não são para ser explicadas, são para ser sentidas bláblá!
Mas isso não nos impede de pensar, refletir sobre essa coisa!
A vida é tudo que você aprendeu e o que ainda não aprendeu, a vida são as pessoas que você conhece/conheceu e todas aquelas que não teve oportunidade de conhecer, é tudo aquilo que você quer e o que não quer...
É o que fez, o que não conseguiu realizar e o que ainda intenta fazer!
Enfim, culpa sua de fazer uns textos filosóficos é ter que ficar lendo uns devaneios que todo mundo comenta.. asehuahseuhaes
Beijos (e eu me lembro da peixaria asheuhuaseh)

Bruno Costa disse...

A vida não tem qualquer sentido; motivo nenhum; nada de finalidades. É obra do acaso, e deu certo. Assim como por acaso morremos em qualquer lugar. Cabe-nos inventar um sentido que não seja o de sempre...

Rafael Rosa disse...

"1- Oi, tudo bem?
2 - Tudo bem, fora o tédio que me consone todas 24 horas do dia, fora decepção de ontem a decepção de hoje e a desesperança crônica do amanhã...."

Muito bom seus textos...ja tinha dado uma lida em O universo reprimido.

=)
Favoritado

http://pensesequizer.blogspot.com

Mari ♥ disse...

Por mais que não existam respostas prontas e muito menos definitivas, reduzir o significado da vida a tão pouco ou a nada é como negar-se, ou negar o próprio valor. Se me perguntasse isso nesse extao instante, eu responderia: um desafio constante. Mesmo que em momentos de inércia ela se torna um desafio, por ficar ressaltada minha eterna insatisfação: quando no caos do atribulado dia-a-dia, me queixo. Quando paro, quando não tenho muito o que fazer ou deixo que o ócio leve a melhor, me queixo também. Nunca estou satisfeita e espero sempre mais da vida, de mim mesma, das pessoas, me esforço por esse 'mais' que quero, mas quando se trata das pessoas é mais dificultoso por não ser só a minha vontade em jogo. O como conseguir esse 'mais' é um desafio. Colocar o que aprendi em prática é um desafio. Notar possibilidades de aprendizado é um desafio. Seguir a mesma rotina de segunda a sexta é um desafio. Lidar com as pessoas é um desafio. Compreender tudo que acontece, seus por quês, já que estou sempre refletindo sobre tudo, é um desafio. Enfim, minha inconclusão é um desafio, estar viva e lidar com tudo isso é um desafio, porque por mais que eu pense que sei o que fazer, sempre chego num ponto em que não há respostas e aquelas que obtive- construindo-as, refletindo, por meio de vivências- acabam não servindo mais, se tornam insuficientes. Isso tudo só para citar o que se passa comigo, estou falando só do meu umbigo. Sem contar o compreendimento de tudo que se passa no mundo ao meu redor, no que concerne às desigualdades diversas, injustiças, violênca, corrupção, negligência e tantas outras doenças do mundo e do modo como me afetam e de qual é a minha parte de ligação/culpa/ reponsabilidade quanto a tudo isso.
A articulação passado-presente-futro-eu-e-o-mundo- Um desafio. É a palavra que se sobressai na minha cabeça, agora. Enfim: a vida é algo muito grandioso e complexo pra que, nem ao menos se 'queira', se 'tente' entendê-la, ainda que nunca se chegue a uma conclusão. Não consigo ser tão acomodada diante de tal questionamento. É justamente esse desafio que me faz ter cada vez mais vontade de viver, inclusive-e principalmente- quando as coisas não vão bem. Porque eu penso:'é desaforo! Eu tenho que superar isso'. E continuo.

Mari ♥ disse...

Por mais que não existam respostas prontas e muito menos definitivas, reduzir o significado da vida a tão pouco ou a nada é como negar-se, ou negar o próprio valor. Se me perguntasse isso nesse extao instante, eu responderia: um desafio constante. Mesmo que em momentos de inércia ela se torna um desafio, por ficar ressaltada minha eterna insatisfação: quando no caos do atribulado dia-a-dia, me queixo. Quando paro, quando não tenho muito o que fazer ou deixo que o ócio leve a melhor, me queixo também. Nunca estou satisfeita e espero sempre mais da vida, de mim mesma, das pessoas, me esforço por esse 'mais' que quero, mas quando se trata das pessoas é mais dificultoso por não ser só a minha vontade em jogo. O como conseguir esse 'mais' é um desafio. Colocar o que aprendi em prática é um desafio. Notar possibilidades de aprendizado é um desafio. Seguir a mesma rotina de segunda a sexta é um desafio. Lidar com as pessoas é um desafio. Compreender tudo que acontece, seus por quês, já que estou sempre refletindo sobre tudo, é um desafio. Enfim, minha inconclusão é um desafio, estar viva e lidar com tudo isso é um desafio, porque por mais que eu pense que sei o que fazer, sempre chego num ponto em que não há respostas e aquelas que obtive- construindo-as, refletindo, por meio de vivências- acabam não servindo mais, se tornam insuficientes. Isso tudo só para citar o que se passa comigo, estou falando só do meu umbigo. Sem contar o compreendimento de tudo que se passa no mundo ao meu redor, no que concerne às desigualdades diversas, injustiças, violênca, corrupção, negligência e tantas outras doenças do mundo e do modo como me afetam e de qual é a minha parte de ligação/culpa/ reponsabilidade quanto a tudo isso.
A articulação passado-presente-futro-eu-e-o-mundo- Um desafio. É a palavra que se sobressai na minha cabeça, agora. Enfim: a vida é algo muito grandioso e complexo pra que, nem ao menos se 'queira', se 'tente' entendê-la, ainda que nunca se chegue a uma conclusão. Não consigo ser tão acomodada diante de tal questionamento. É justamente esse desafio que me faz ter cada vez mais vontade de viver, inclusive-e principalmente- quando as coisas não vão bem. Porque eu penso:'é desaforo! Eu tenho que superar isso'. E continuo.

Anônimo disse...

Pelo título pensei; Credo! Que está acontecendo?

Muitas vezes passamos por isso. Seria crise existencial? Eu estou em uma dessas crises.

Hoje estou na escola. Vim para deixar um abraço!

Aos vinte e poucos anos, tentas saber o que é a vida. aos quarenta e poucos anos eu ainda não sei.

Livros disse...

Não sei se você conhece, mas eu recomendo a leitura de um livro chamado O Livro de Urântia. Ele pode ser comprado em livrarias ou baixado de graça na Internet, já que ele é livre de direitos autorais.

Neste livro você encontrará colocações muito intrigantes a respeito da vida. No mínimo vale uma reflexão.

Você pode ver mais sobre o livro e baixa-lo em:
http://www.elivros-gratis.net/livro-de-urantia.asp