terça-feira, 31 de agosto de 2010

O quintal

Aqui faz silêncio e ainda é Natal. A família se reuniu ontem, toda ela, na noite do dia 24. Estavam todos aqui em casa, disseram que era o melhor ponto de encontro. Minha mãe e minhas tias prepararam uns bolos e perus. Parentes e amigos dos familiares vieram, com lembretes, com ânsia de comer, com ânsia de beber. Para mim, isso tudo não significa muita coisa. De tanto não significar, passou rapidamente (ainda bem). Na manhã de hoje, 25, todos já tinham ido embora. Minha mãe e uma ou outra tia ficou para arrumar tudo aqui. Pela tarde, foram, elas tambêm, para suas respectivas casas. Fiquei eu aqui, sozinho, no quintal, atento a suas feituras, seu muro esburacado, observando as formigas caminhando, vindo lá de dentro da casa - provavelmente levando restos de bolo ou qualquer coisa assim para seus lares subterrâneos. Enquanto olho para elas, eu me lembro de outras formigas. Quando olho ao redor, é outro quintal que se ocupa de minha memória. Quando me dou conta de que dia é hoje - 25 de dezembro -, é uma outra data especial que me marca, para além do Natal.

O 25 de dezembro me faz lembrar um aniversário, para o qual eu me aprontava ano a ano, e era o único que me mobilizava a comprar algum presente por aí. Não que presente algum fosse necessário; não era. Era apenas um acessório a mais, mas naquela ocasião, fazia sentido.

O melhor de tudo, contudo, é quando eu me dirigia àquele quintal, que não é este em que me encontro agora. Ali sim era onde eu realmente me sentia aconchegado, por alguma oculta razão. Onde as melhores palavras estavam sempre no ar, mas não foram nunca pronunciadas. Fico me lembrando daquele quintal, do orvalho que havia ali, do cecém ali no canto da parede, no pouco espaço que restava ao gramado, das formigas no chão, que pareciam completamente donas do espaço.

Pensando agora, fica para mim a impressão de que, naquela época, era sempre de manhã.

Outra coisa que me lembro daquele quintal era aquela mesinha que o centralizava, sob um guarda-sol permanentemente aberto - e provavelmente achado no lixo, sei lá, mas que combinava de algum modo com o local - e com as quatro cadeiras que a cercavam (mas somente duas ficavam ocupadas, as outras ficavam livres). Não me lembro de vozes enquanto estava sentado ali; lembro-me apenas de respiração. As vozes existiam, eu as sentia, mas não as ouvia: a comunicação que existia naquele quintal era anterior à comunicação tradicional, falada. Mas era tudo muito claro e direto: naquele olhar que parecia feito ali naquele quintal, as palavras que não eram ditas pareciam visíveis como manchas negras sobre folhas de papel em branco.





Puxando na memória, agora, fico matutando aqui se ali passava o tempo. No período que frequentei aquele local de rara harmonia, tudo parecia estático como retrato. A dialética da natureza se percebia nas minúcias; o macro permanecia inalterado a olhos desavisados.

A dúvida não é à toa. E não é que faltassem ponteiros ou coisas assim. Elas estavam lá, nas paredes, girando incessantemente, feito os relógios comuns de braço, ou aqueles do alto das catedrais. É só que o tempo suplanta ponteiros e calendários, e só hoje sei disso: o tempo, eu diria, parece-se menos com o maquinário dependurado e mais com a parede lascada que o sustenta.

O tempo não cabe em maios nem em catedrais. Não cabe em fotos de calendários de farmácias (essas fotos, aliás, mostram o contrário: que os dias são todos iguais). Esse tempo de que falo está acima dos retratos de tempos dos quais talvez a minha companhia naquele quintal talvez já nem se lembre mais. É o mesmo tempo que enfrentamos todos, que dá poder a impérios ocultos, que dissolve as nossas manhãs, todas elas, uma a uma; só nos daremos conta disso no futuro, quando formos sujeitos velhos e amargurados.





Entre algumas últimas lembranças daquele quintal, fico pensando nos ingredientes que o montavam, entre insetos pequenos e clorofila, onde eu depositava as manhãs de um tempo estranho, que já era muito depois da infância, e naquela fase difícil de minha vida, aqueles ingredientes amorteciam-me das piores dores que pode viver um homem sem quaisquer perspectivas maiores, como eu estava naquele momento.

Aquele quintal, para mim, está agora misturado entre lamentos silenciosos, que devem estar pretendendo mudar sua feição, o seu caráter imutável, onde as laranjas não caiam do pé e as lagartas nunca se tornavam borboletas. Hoje posso dizer que ali o presente é apenas uma lembrança de como os gafanhotos solitários timidamente nos davam um alô enquanto assistíamos à dança das formigas bêbadas, perambulando pelo muro, e de como os cachorros também nunca dormiam à sombra daqueles cinamomos, e onde, perto dos arbustos, as flores ficavam abertas a vida inteira, por séculos adentro, quem sabe (eu não duvido).

Naquele recinto, será sempre de manhã. O sol sempre se portará imóvel, em um conforto inabalável; tão inabalável que eu fico feliz só de pensar que esse quintal por tanto tempo foi propriedade de uma pessoa só, uma pessoa que hoje não presenteio mais...

Fico, portanto, somente com essas lembranças daquele lugar no qual, eu sei, nunca haverá morte. Enquanto perdurar o silêncio que, até hoje, ali deve existir, todas as memórias hão de permanecer assim: imperturbáveis.



8 comentários:

Érica Ferro disse...

Ah, Leon...
Me dá uma paz te ler. Não sei, é tão gostoso. Parece até que eu tô conversando contigo e tu tá me contando estórias bonitas, ou nem tanto, mas sempre com uma mensagem, uma reflexão nas tuas palavras.

E o silêncio fala [por mais louco que isso pareça].

Um abraço!

Ind Caroline x) disse...

Leoon... eu tentei e tentei e não descobri de que lugar se trata... provavelmente seja uma terra do nunca..
mas, eu tenho uma pista..
"Enquanto perdurar o silêncio que, até hoje..." Eu axo q esse lugar q vc tava falando é o meu blog.. asehuasehuahse
brincadeira..
Não interessa qual seja esse lugar, contanto q ele exista pra nós! ;]
beijos

Alessandra Santos disse...

Ah, Leon... Faltam palavras pra descrever o que está na minha cabeça. Queria eu ter escrito algo assim... Um texto de uma riqueza incrível, mesmo tendo elementos ocultos dentro dele, tudo parece estar nas entrelinhas. É incômoda a falta de detalhes, de palavras, de denominações, mas, ao mesmo tempo, isso me abre um mundo de possibilidades. O barato é exatamente esse, você permite que eu preencha o espaço do que está oculto, o espaço que você, cuidosamente, deixou aberto. É um convite a entrar no texto e a recriá-lo aqui dentro de mim.

Maluz disse...

me fizesse elmbrar da minha infancia aqui o quintal da casa da minha vô , cara quando eu era menor eu viajava ali visse eu pensava era o sitio do pica pau amarelo de tão imenso que era para mim tinha arvore plnata pa dedeu eu adorava me esconder la e fica la paralizada muito massa são coisas q não voltam , e bom quando se e criança , quando se tem para onde fugir .

maumauOterrive disse...

cara curti o blog, faz tempo que não lia algo bom assim parabens

Laura Ferreira disse...

Ainda bem, que não gostamos das mesmas coisas!

COrdiais cumprimentos

Mariana O. disse...

nossa que paz eu sentir ao ler isso, parabéns muito bo.

Andiara Moraes disse...

Oi, Leon!

Bom te ler de novo nos meus comentários! Fiquei feliz com o retorno. O tempo fica cada vez amis raro ("não cabe em maios nem em catedrais"), mas, ainda assim, se consegue um espaço para mergulhar em si mesmo e escrever...

Um belo conto, o quintal... acho que a Alessandra disse tudo, heheh

Manhãs (felizes) de sol pra ti!
Beijo!