sexta-feira, 21 de outubro de 2011

As lembranças marcadas na mão direita

Eu estava pensando nos amigos que morreram este ano, em particular uma garota chamada Marta, que faleceu em fevereiro com a minha idade, 25, ou talvez tivesse um ano a mais. Não eram exatamente boas as lembranças que eu trazia dela; mas ainda assim as tinha.

Você é o cara mais sujo que eu já conheci, Deftones. Esta é uma sentença entre as muitas que me recordo terem sido emitidas pela Marta no tempo em que éramos mais próximos, sobretudo durante a adolescência, até uns cinco anos atrás, quando ela passou uns dias na minha casa e foram estas as últimas ocasiões que a vi. Deftones era meu apelido na época, e o que eu chamo de casa era, na verdade, um pequeno kit-net com dois vãos mal divididos e que se situava na subida da José Bernardo, perto do Viaduto do Baldo. Seria legal ter a paisagem daquele caquético viaduto pela janela, no entanto meu kit-net não tinha nenhuma abertura para o mundo lá fora. Era tapado, havia nele apenas a porta de saída e um acesso para o banheiro, este sem porta, minúsculo, tão minúsculo que tudo que eu lá fazia saltava pra fora: a urina, a água do banho e, sobretudo, o mal cheiro.

Quando penso na Marta, a imagem que me vem é de ficarmos umas horas deitados na cama - na verdade, ela deitada na cama, eu deitado no chão embebedado -, e enquanto proseávamos lentamente (não tínhamos pressa, não cumpríamos horário, não trabalhávamos nem estudávamos, não tínhamos famílias ou amigos no campo de vista), ela fazia rabiscos no meu livro Almoço Nu, aliás, fez tantos rabiscos que eu não quis mais o livro, disse que quando ela fosse poderia levar aquela droga, mas ela nunca levou. Como nos rabiscos tinha uma data, a data que ela veio a primeira vez, nunca mais esqueci. Essa memória de estar deitado no chão ao lado da cama permanece vívida na minha cabela, e se tornou uma das imagens mais presentes na minha vida. Aquela fase de modo geral é algo de que nunca me esqueci, dada a excrescência da situação, de modo que sempre que estava diante de dificuldades procuro me lembrar dessa época, para entender que já estive em situação pior. Isso porque aquele kit-net foi o pior lugar em que morei, abafado e asqueroso, não tendo nada que o procurasse embelezar; nele só havia uma cama de farrapos e um birô de quatro ou cinco gavetas, e o que eu chamara de tapete era, na verdade, um de meus lençóis que eu carregava na mochila para onde ia, na qual continha também um caderno, roupas, vários livros e alguns CDs quebrados, soltos e uns parcos bem guardados. O aluguel eu pagava com os trocados que recebia em certos bicos, distribuindo panfletos no meio da rua ou ajudando os camelôs da Cidade Alta a fazer o carregamento de seus produtos no fim da tarde.

Esse foi, repito, o pior lugar em que já morei. Pior que o kit-net da Rua Neópolis, onde faltou luz por um mês, pior que a prisão de Brejinho em que passei a noite com dois ou três velhos nojentos, deploráveis, pior até que o Hotel Nordeste, que nem toalete tinha no recinto e cujo ambiente claustrofóbico convidava os hóspedes a se atirar da janela rumo ao suicídio.

Quando não estava nos bicos, estava sentado no chão do kit-net, encostado na cama, tomando qualquer coisa num vidrinho ou ficava deitado no chão, dormindo, estático, pensativo, enquanto Marta, por sua vez, quando estava lá ficava na cama, mas nunca parada; ora estava deitada de bruços, ora sentada, ora mexendo nos meus livros, ora bebendo cerveja quente, ora se esforçando com a mão direita e os dentes para amarrar um pedaço de pano no braço esquerdo para prender a circulação e começar a picotar a si mesma.

Vai um também?, ela me perguntava, oferecendo a seringa.

Não gosto de agulhas, eu falei.

Então me ajuda aqui, seu viado.

Se vira.

Seu viado, se eu não estivesse dopada matava você.

Marta era uma viciada que não tinha rumo, nós estudamos juntos no distante ensino fundamental e nos encontrávamos vez ou outra nos círculos marginais da Cidade Alta. Neste dia, ela me viu num show de rock de quinta categoria que rolava na Rua João Pessoa e ficamos conversando. Pentelha como ela era, não saiu da minha cola nem quando tentei me despedir. Ela pediu pra dormir na minha casa só essa noite e eu não queria, mas decidi aceitar, ciente comigo mesmo de que se passasse 24 horas eu colocava pra fora sem qualquer receio, da maneira que fosse.

Vamos fazer amor?, ela perguntou assim que entramos no kit-net.

Fazer o quê?!, perguntei.

Fazer amor.

Dá um tempo, Marta. Olha pra você, eu falei. Ela realmente não era atraente. Não estava cheirando mal, mas não parecia exatamente limpa.

Mas é um viado mermo, disse.

Eu desconsiderei as palavras dela, não ia me aborrecer por tão pouca coisa. Mas Marta não ficou somente 24 horas lá comigo. Passou sete ou oito dias. Para mim era conveniente: ela saía e trazia comida não sei de onde, provavelmente conseguia com alguns caras sedentos de sexo com qualquer trapo feminino. Eu achava ótimo, pra ser sincero; só assim para eu comer três vezes ao dia naqueles tempos difíceis.

Certa vez, porém, eu estava deitado na cama, num fim de tarde, e ouvi Marta chegando. Só que ela não estava sozinha. Trazia consigo um outro cara, que eu tinha a impressão de conhecê-lo, mas nada que fosse além dessa vaga impressão. Eu continuei como estava, despertando gradativamente.

Quem é você?, perguntei ao sujeito.

Ele é meu namorado, disse Marta.

Seu o quê?! Isso é uma piada?

Meu namorado, eu também tenho direito, sabia?

Certo, é um prazer conhecê-lo, tchau.

Eu trouxe ele pra cá, ela disse. Aí eu não suportei. No entanto, ainda procurei ser calmo.

Vão embora daqui, eu falei.

É só um tempo, ela insistiu.

Marta, eu já falei: vão-embora-daqui.

Deixe de ser fresco, cara, disse o sujeito.

Eu me levantei e fui em direção a ele, que era da minha altura e parecia mais novo, mais magro, só que parecia bem corajoso, mantinha a face firme como a de um militar em formação. Cheguei bem perto do seu rosto e mandei ele repetir a merda que havia falado.

Deftones, pare de provocá-lo!, disse Marta.

Deixe de ser fresco, ele repetiu de maneira acintosa.

Agora vire suas costas, vá embora e nunca mais quero te ver na minha frente, eu disse. Marta a essa altura me xingava deliberadamente, ainda que eu não a ouvisse mais.

Tá com ciúmes dela, mané?, o sujeito perguntou. O clima pesou.

Suma daqui, agora, e leve essa louca com você.

Foda-se!, ele disse.

Na mesma hora eu lhe desferi um murro que me deixou até hoje com a marca de seus dentes em minha mão direita. A raiva acumulada me deu tanta força que o golpe fez o cara ser jogado pra trás, tentando se segurar na parede, porém cambaleando mais alguns passos de lado e finalmente caindo bastante tonto. Sua boca sangrou feio na frente.

Seu cretino!, seu selvagem!, gritava Marta.

Fui em direção ao cara e ofereci a mão pra ajudá-lo a levantar. Ele segurou, levantou e saiu com uma cara que buscava disfarçar sob um ar de firmeza a qualquer custo, a imensa dor que seus lábios friccionados e suas franzidas testes denunciavam. Ele se foi e a Marta foi junto, bem como eu queria.

Quando fechei a porta que me deitei na cama e peguei o livro que estava no birô ao lado, era exatamente Almoço Nu, cheio de rabiscos dela. Ainda dei uma pequena corrida até a porta e abri para entregar a ela. Os dois ainda estavam no final do corredor abraçados bem como um amoroso casal em início de relacionamento. Eu gritei para que ela viesse levar meu livro que ela tanto encheu de rabiscos inúteis, mas fui ignorado, ela logo puxou o rapaz pra saírem logo do corredor e enfim irem embora, em definitivo.

Eu só soube do falecimento da Marta três dias depois dela ter sofrido um atropelamento fatal na Hermes da Fonseca. Ouvi dizer que estava acompanhada na ocasião, mas não soube detalhes da história. Fui na missa de Sétimo Dia e lá encontrei o sujeito que tinha sido pivô de minha briga com a falecida. Pedi desculpas pelo murro que desferi nele e ele acatou. Depois da missa, ele ainda chamou pra beber alguma coisa. Eu não queria, mas ainda dividimos uma garrafa de cerveja. Ficamos contando um para o outro histórias torpes envolvendo a Marta, mas nos divertimos bastante nisso. No final da conversa, ainda mostrei pra ele as marcas dos dentes dele que carrego na mão; dentre as várias risadas que demos aquele dia, esta foi a derradeira.




6 comentários:

Ind Caroline x) disse...

Interessante... mais uma de suas coisas interessantes! pessoas que você conhece, interessantíssimas!
eu sei q esse meu comentário não é nada culto como o seu, mas é q às vezes não acho que há o que se dizer sobre o q vc escreve, só admirar, são coisas pessoais, e que não pedem opinião, como uma peça de museum em q vc só observa e observa... não precisa dizer nada...
mas, engraçado mesmo, é a moçoila e o rapaz terem a audácia de ficarem sentidos por vc não querer hospedar o hombre em sua casa, cara de pau é pouca coisa! isso de contar casos da falecida, sempre funciona pra afastar um pouco o clima tenso! good ver vc escrevendo ;)

Anônimo disse...

Por incrível que pareça, somente agora comecei a pensar na morte com mais profundidade e menos medo da morte dos outros. Meu maior medo era o medo da morte dos outros.

É triste quando acontece com pessoas jovens... E é sempre chocante quando é alguém com que convivemos...

Beijos!

Ade disse...

Eu me emocionei com a história relatada nesse espaço tão aconchegante... tão símples, mas com conteúdo rico em acontecimentos marcantes que fazem-nos refletir mais sobre a vida.

Sua escrita é perfeita e saborosa de ler. ^^

Laisa Maria disse...

engraçado como teus textos tem um sabor caracteristico. essas histórias que começam já nos envolvendo de forma imperceptivel. quando dei por mim já estava dentro, vendo tudo como em um filme. enfim, depois de um tempo inerte é muito bom sentir esse sabor novamente.
até a próxima, um sincero beijo.

Gabriela Marques de Omena disse...

A unica certeza desta vida é a morte. Ainda sim é triste. Eu mesma não aceito-a.
Mas pensando bem, devia ser como você mesmo disse, bons momentos na memória, uma história pra contar e boas risadas.
A vida é uma passagem. Não levamos nada desse plano, pelo contrário, deixamos nossa marca.
Por isso, é necessário curtir enquanto ainda há vida.

Deliciosa leitura.
Escreves divinamente.

Beijo doce.
Obrigada por sua presença em meu cantinho.
Estava com saudades daqui. Peço desculpas por meu sumiço. Na verdade, quem lamenta sou eu, afinal, nada melhor que ver a vida em outra perspectiva, assim: lendo teus singelos contos.

Teixeira Duarte disse...

Olá Leon,

Que bom o blog voltou à ativa.
Gosto dos seus textos.
Inspirado na sua iniciativa, passei a publicar minhas poesias no meu blog.
Dá uma passada lá.
Abraço