Não comemorei meu aniversário de 21 anos em casa. Eu nunca dormia em casa quando minha mãe estava. Geralmente ela dormia na casa de seu namorado, exceto quando eles brigavam e ela voltava de surpresa com um bocado de latas de cerveja para beber enquanto lê ou faz tricô. Decidi dar uma volta. Quando o relógio marcou a 0h00 do dia 6 de dezembro, eu estava no aeroporto. Na época, não tinha um puto sequer que fosse suficiente para pagar algum lanche caro daquele recinto. Na verdade, eu nunca tinha ido ao aeroporto, mesmo morando a menos de dois quilômetros dele. Mas depois dessa primeira vez, passei a visitá-lo com certa frequência nos anos seguintes. Às vezes comia; no entanto, o que me atraíam mesmo eram os aviões a subir e a descer, e ocasionalmente observar distantemente as reações emocionais de despedida e ansiedade das pessoas que aguardavam outras, ou que se despediam delas. Eu ia sempre à madrugada. Às vezes chamava alguém, alguns amigos talvez. Nunca toparam. Faz sentido. Aeroporto não é um grande programa, sobretudo porque o movimento é baixo. Fácil pra dar sono, embora eu não me lembre de ter adormecido nas vezes que fui.
Fiquei umas três horas por lá. Saí pilotando a minha antiga Biz, uma motoca que a minha mãe comprara anos antes mas nunca usou; tinha medo. Apesar de simplória, ela era valente. Sofri vários acidentes com ela - nenhum muito sério, é verdade. Mas tenho certeza que outras motos dificilmente suportariam a pressão.
Com a Biz, eu rodava muito com pouca grana. Era a combinação perfeita. Naquela madrugada em particular, saí do aeroporto e fui até a casa de Barba, apelido de um amigo que eu havia conhecido meses antes e que morava do outro lado da cidade. Queria levar alguma coisa para bebermos, mas decidi confiar na possibilidade (alta) de que ele mesmo tivesse um bom acervo de bebidas esperando para serem escolhidas. Infelizmente, eu ignorei o fato de que o Barba morava com uma manada de gente - a irmã, o sobrinho, o cunhado e, pior, os pais. A mãe do Barba não suportava os amigos dele, e o pai nutria um igual desprezo. Quando toquei a campainha e ouvi os primeiros grunhidos (que, eu sabia, não eram do meu amigo) e me dei conta da situação, saí correndo antes que alguém atendesse e deixei a moto lá, estacionada na frente da casa dele.
Depois que esperei uns dez minutos na esquina, estava voltando para pegar a moto, só que tive uma outra ideia: sair caminhando pela cidade, coisa que gostava de fazer - e ainda gosto -, embora não fizesse. Caminhei por toda a estrada da Redinha - bairro perto do qual o Barba morava - e fui até a ponte nova, atravessando-a para chegar ao Centro da Cidade. A essa altura, o sol já se avizinhava no oceano, dando a entender que dali a algum tempo, tudo clarearia.
Decidi parar para descansar da longa caminhada no pé do Farol de Mãe Luiza. Sempre achei macabra a imagem desse farol à noite - agora, porém, com os primeiros filetez de luz matinal, ele parecia transmitir mais singeleza. No entanto, sua posição, situada no alto dum morro, continuavam a dar um ar sinistro a ele. Eu não sabia, mas dois anos depois daria aula em um colégio meio lascado e com chão de terra batida que ficava quase em frente ao farol, nas noites de sexta. Eu me lembro que, sempre que saía da aula, ia beber um conhaque que eu levava na bolsa. Às vezes chamava algum amigo, ainda que nenhum topasse. Também não topavam meus convites para ir à Via Costeira, ninguém topava. Lembrei disso enquanto continuava a caminhada matinal do aniversário. A Via Costeira era extensa, charmosa e silenciosa à noite, e extremamente desagradável ao dia, mesmo às 6h da manhã. Depois que passei do posto policial, caminhei mais uns dois quilômetros e fiquei numa área da praia isolada dos hoteis que a cercavam. Ali, fui até a beira do mar e sentei. Enquanto via o mar dançando e franzia a testa para cobrir os olhos do sol que se posicionava à minha frente, eu cantarolava qualquer coisa. Exatamente daquele jeito, sentado e com os cotovelos apoiados sobre as pernas, adormeci.
Não tinha relógio, mas pela posição do sol quando acordei, já devia ser meio dia. Foi a essa hora que a maré encheu e me encharcou, fazendo-me despertar. Lamentei pelo horário; esperava que ao meio dia eu estivesse perto da BR 101, para aproveitar a viagem e almoçar no restaurante Barriga Cheia, que ficava próximo ao Estádio Machadão, com a importância de uma mísera nota de real que eu continha em um bolso.
Como a Via Costeira é muito distante da BR, quando cheguei lá já eram 18h00. Meu aniversário não caminhara como eu esperava. Estava meio atordoado pelas andanças sem fim e não conseguia me lembrar de onde deixara a moto. Cheguei ao restaurante Barriga Cheia, mas evidentemente não serviam mais almoço a essa hora. Decidi pegar um ônibus, com o único real que eu tinha, e ir pra casa, só que o motorista não aceitou. Decidi ficar um tempo pelas redondezas do Machadão: naquele dia, terça-feira, duas horas depois haveria um jogo do América. Eu podia pedir no meio da multidão uma moeda a alguém para poder voltar para casa sem precisar fazer o trajeto a pé.
Descansei essas horas, mas foi em vão. O jogo era apenas para cumprir tabela. O América já não disputava nada, de maneira que ninguém foi assistir, exceto algumas pouca dezenas de pessoas hostis demais. Já eram 21h00, porém o jeito seria voltar para casa a pé mesmo.
Cheguei em casa faltando poucos minutos para o fim do dia. Devia ser coisa de 23h40. Minha mãe não estava; havia deixado um pequeno bolo de ovos e um bilhete desejando feliz aniversário. Não comi o bolo, decidi procurar algo para beber. Encontrei na geladeira meia dúzia de latas de cerveja que ela deixara na noite anterior. Serve, pensei.
Pus todas na mesa e bebi mais apressadamente que o habitual. Senti dor de cabeça depois. Estavam muito geladas e eu mesmo não estava muito bem. Quando me dirigia para o quarto, lembrei de onde deixara a moto! Peguei o telefone, liguei pro meu amigo Barba, e disse pra ele que havia uma moto na frente de sua casa, e que se possível guardasse pra mim que um dia eu pegaria. Depois disso, caí na cama; já bastava de aniversário.
5 comentários:
Mas que aniversário animado, hein? =P
Leon, você tem um jeito de escrever que me lembra Fernando Sabino. Ele escreve coisas simples, mas de uma maneira que prender o leitor. Assim é você.
Gosto muito das coisas que você escreve.
Estava com saudade daqui. Adorei sua visita lá no Sacudindo.
Um abraço!
Lendo sinto a agradável sensação de conhecer a fundo as personagens do conto.
O namorado da mãe, a moto que de tão querida mais parece gente...rs
Fugir e deixar a moto na frente da casa do amigo... os pais raivosos poderiam quebrar a moto.
E O aniversário antes comemorado praticamente só, hoje já pode ser em companhia e uma boa companhia.
Enfim, viajando no conto...
Beijos, querido!
Iza
resgatou a moto?
aniversários são uma merda!
Aventuras de um Bukowskiano num aniversário qualquer.
Eu já li esse texto umas 300 vezes. mas nunca soube o que comentar.
você escreve de uma maneira que sempre me faz acreditar. eu não sei se é ficção ou se isso realmente aconteceu e você foi anotando no caminho. é mesmo magico.
um beijo,
ps. perdoe qualquer coisa, estou meio bêbada.
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