De qualquer forma, ainda valeu pelo tempo que passei com ela, tão raro ultimamente. Dei-lhe, apenas, um diadema de presente e uns brinquedos aí. Sugeriram que eu desse-lhe livros, para estimular a leitura... mas já incentivo demais a leitura dela, oferecendo gibis e velhos livros, além de sempre pegar uns livretos infantis na universidade onde minha mãe trabalha, quando a visito. Obviamente, não sou eu quem educo a Maria Eduarda; porém, quero que ela aprenda que livros não são presentes, pois isto dá idéia de raridade, de querer algo que ainda não se tem. Livros são coisas do cotidiano, para todos os dias, sempre. É como, por exemplo, quem rotineiramente dá um bombom de chocolate para seu filho quando vem do trabalho - imagine a decepção do filho se recebesse um bombom de chocolate no aniversário!
Lembro-me de quando ela me visita e as histórias bobas e sutis que gostamos de escrever no Bloco de Notas. Eis uma delas, revisada:
O muro
Era uma vez um menino. Um tal de Dudu, que jogava bola com seus amigos, na escola. De dia e de noite, todos os dias, toda semana, durante todo o ano, e no outro ano e assim por diante. A quadra da escola onde jogavam só tinha uma trave de gol. A do outro lado, não tinha nada. Era um muro que dava para uma casa. Nenhum dos meninos sabia o que tinha na casa... mas o que isso tinha de mais?
Os meninos, então, aproveitavam e faziam do muro a outra trave. Tinha até o gol desenhado, com as redes e tudo, no muro, a giz. Já estava até apagado pelos gols que o Dudu fazia... e ele era o melhor da escola! Fazia muitos gols! Ele se achava, é claro, o dono do mundo! Dizia que todos tinham inveja dele! De brincadeira, né.. até que uma vez ele chutou a bola tão forte, mas tão forte, que a bola passou pelo alto muro e caiu dentro da casa! Depois de os meninos arregalarem os olhos e começarem a discutir pra reclamar de Dudu, eles decidiram que, já que Dudu chutou, ele devia pular o muro e ir lá pegar. Dudu não queria, é claro... afinal, o que tinha atrás do muro? Pelo jeito, devia ter somente uns adultos chatos e já teriam furado a bola! Podia ter cachorros também!Podia não ter nada, ser apenas um terreno baldio e cheio de lixo...
Até que de repente... a bola volta pro lado de cá. Os meninos não entendem... mas continuam a jogar bola, todos felizes... mas Dudu fica pensando "quem jogou a bola?" E no dia seguinte, ele, de propósito, jogou a bola pro outro lado de novo. Nenhum dos meninos sabia que era de propósito, então brigaram pra ele subir! Ele nem chiou... só que passou meia hora imaginando o que poderia ter do outro lado. Até que, tremendo de medo, ele, com a ajuda dos amigos, escalou até o alto do muro pra pular pro outro lado... na subida, começou a ouvir uns gritos de criança, mas não conseguia entender... e quando chegou no alto do muro, ele olhou do outro lado e ficou deslumbrado com o que viu!!!
Lá no quintal da outra casa, ele ficou surpreso! Tinham quatro meninos jogando bola... tinha um gramadinho.. tinha umas traves de gol pequenas! Uma bola muito mais bonita, e tinham até camisas de times! O Dudu ficou olhando e nunca acreditaria que lá do outro lado haveria tanta coisa legal, tanta coisa que todos os meninos quisessem! Dudu acha que nunca ouviu o grito dos meninos porque o muro era tão alto que não dava pra ouvir da quadra do colégio. Os meninos da casa jogaram lá, até que perceberam Dudu, e chamaram ele pra jogar lá também... mas Dudu não podia, pois tinha que ficar na escola. Os meninos, então, devolveram a bola de Dudu, e chamaram ele pra jogar alguma vez. Ele ficou superfeliz!
A partir daquele dia, todas vezes que Dudu vê um muro, acha que do outro lado, o que mais existe é vida, é coisa boa... ele apenas ficava triste que coisas tão boas ficassem presas em muros altos, que não deixava as crianças brincarem umas com as outras...
Nenhum comentário:
Postar um comentário