As duas baratas roendo o banco do carro normalmente seria algo que me deixaria embaraçado ao notar, mas pouco chamou a minha atenção na última vez em que tomei uma viagem de táxi. Isto porque o que eu mais queria, que era tão-somente aconchegar-me na poltrona de casa e beber até dormir, parecia o fator mais inalcançável aquela madrugada.
Lembro-me que quando sentei no banco, falei para o motorista: "toca pra BR-101!" De onde eu estava, à beira da estação ferroviária da Cidade Baixa, chegar à BR-101 de táxi, eu sabia, comeria uns bons trocados. Porém, eram 3h da manhã, os ônibus demorariam a aparecer e não haveria trem naquele dia. Um táxi, uma vez na vida, não faria mal. O motorista nada disse, apenas abriu caminho entre os largos do Centro. Eu estava sentado no banco traseiro, muito deteriorado, com uma gosma já meio endurecida no encosto, como de alguém que tivesse posto algo pra fora ali. O mal cheiro consumia o ambiente. Havia algo como uma cortina fechando minha visão pro lado da frente (nem de longe lembrava uma limusine; era um Corsa já a cair os pedaços). Querendo me esquecer de que estava num concentrado de fezes e vômito, puxei conversa, de modo não muito simpático, é lógico:
- O que me parece é que seu carro tá meio acabado, não acha irmão?
- Não sou teu irmão, guri.
- Tá, e o que me diz do que eu acho?
- Não me importa o que você acha. É desconto que você quer? Vá se danar! Ou se cala ou paro o carro e te deixo aqui mesmo!
Eu não queria confusão, apesar de estar meio cabeça-quente à hora. Também não queria ficar ao relento mais tempo do que já passara naquela madrugada que chegava ao fim. Mas meio sem saber o que fazia, eu lhe perguntei:
- Você dorme neste antro, não é?
- Tá me provocando, guri?
- Qual é, velho? Vai me negar tua natureza?!
O motorista parou o táxi e me mandou descer. Eu disse, é claro, que não desceria. Cheguei a ameaçá-lo: "ou você me leva ao meu destino ou vai se dar mal..." mas eu também não assustava ninguém, naquele momento. Falei, então, que só sairia dali se fosse obrigado.
- Tá bem guri, não fique exaltado. Acho que tem algo pra você aí onde você tá sentado, tome uma dose e cale sua boca. - Foi o que me disse, mudando o tom e oferecendo o litrinho que já se escondia no estofado rasgado do banco. Não restava, no pote, destilado suficiente para mais que três goles. Apesar de eu estar com uma vontade enorme de beber ou comer qualquer coisa, recusei a oferta. O rótulo já demonstrava pequenas ranhuras, fáceis de deduzir que seriam das baratas ou dos camundongos que deviam viver por ali. Além de o gargalo estar trincado, parecia também bem sujo. Nitidamente, era de algum cliente anterior, que provavelmente teria voltado a beber depois de vomitar todo o carro.
A viagem seguia e o motorista não parecia apressado. Pude ver que não era culpa dele; realmente o pretenso veículo não tinha condições de ir mais rápido. Devíamos estar a uns 40km/h. Àquela hora da madrugada, eu faria o trajeto em 10min com um carro. Nós estávamos há 15min e nem metade do caminho feito. Com tom mais benevolente, o motorista agora puxava conversa:
- Então, guri... o que faz nas ruas a essa hora? Você faz programa no Centro?
- Cala a boca, rapaz...
- Aprenda a respeitar quem veio antes de você, moleque. Sabia que eu posso ser você amanhã?
- Eu não acredito, coroa. Parecemos bem diferentes.
- Por que acha?
- Sabe de uma coisa? Você me convenceu a nunca mais pegar um táxi novamente!
O motorista parou o carro. Eu silenciei, e esperava mais alguma asneira, ou um novo convite para me retirar.
- Você anda de mal com a simpatia, guri?
- Nunca andamos juntos às 3h da manhã.
- Aprenda a viver e isso vai mudar, moleque.
- É você o modelo de quem sabe viver, chofer? A imagem que tenho de sua figura aí do outro lado da cortina é a de um velho pálido, doente, virgem e sem ambições.
O motorista gargalhou violentamente. Finalmente, disse: - não sou velho, nem doente, nem muito menos virgem. De resto, é verdade.
Dito isso, voltou a tomar o rumo, até chegar ao destino apontado por mim. Não soltou mais um pio sequer. Com o carro parado, mantive-me sentado no banco de trás esperando ele abrir a cortina para pegar o dinheiro e eu ver-lhe a cara lisa.
- Tá aqui tua grana, velho.
Ele girou a cortina e pegou o dinheiro. Olhei para ele, porém estava muito escuro e a sombra me impedia de ver o seu rosto. Estranhamente, quando ele pegou as duas notas de minha mão, levou-as diretamente à boca, mastigou, engoliu e permaneceu a me encarar. Embora eu não pudesse perceber nem seu olhar nem ruga alguma no seu rosto, sabia que me cravava fixamente.
Na sua imobilidade, senti o incômodo de minha própria presença. E era a minha presença que quebrava a harmonia naquele ambiente. Um ambiente grotesco, propriedade de mais um personagem da noite, que seja. Percebi a minha condição, de um jovem aventureiro que não sabe das coisas, e que usa o mundo dos outros como subterfúgio. O motorista estava errado; eu não estava fadado a ser como ele no futuro. Na prática, eu não valia sequer mais que as baratas, que matavam o tempo alimentando-se do excremento e do resto de seus clientes.
Um comentário:
até hoje tive sorte com os taxis.
;D
muito bom, teu texto.
beijos
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