Eu não me lembro de quando comprei meu primeiro relógio. Não me lembro de quando comprei a TV. Não me lembro da primeira assinatura de revista ou jornal que fiz. Também vejo meus livros, discos, filmes, e não me lembro da circunstância em que adquiri a maioria deles. Mas duma coisa eu me lembro: de quando comprei o meu primeiro espelho.
Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando, para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu vi – ou me vi, não sei bem! Meu olhar foi preso de bate-pronto! O fato que estava colocado é que eu não podia deixar ali aquela magnífica obra. Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura não era imponente, mas tinha um estilo modernizado, em madeira de mesclas douradas e escuras. A superfície do espelho suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: comprei no mesmo instante.
Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho. Talvez por isso não reagi ao impulso de adquirí-lo. O último que tive eu quebrei, não me lembro como. Entretanto, depois de comprado este espelho, eu demoraria a me interessar por outro. Para mim, já bastava um no quarto. Pois um outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são esses vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos – os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, esses que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.
Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.
Enfim, apliquei o espelho ao lado direito da cama, que fica no centro do cômodo. Esteticamente não era um bom lugar para pô-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para o lado direito que sempre me levanto, ao acordar. Tal ritual passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante... uns quinze minutos.
Depois buscaria um café, um pão, um biscoito, qualquer coisa. E voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem...
Passou a ser assim todos os dias, invariavelmente.
O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matei ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério. Não fosse, eu não perceberia, a partir da própria imagem do meu quarto, que as coisas precisavam ser mudadas. Estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava uma segunda e última chance de colocar a vida nos trilhos.
Hoje, por mais que esteja empoeirada e sua estrutura esteja caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.
8 comentários:
Leon,
este seu texto é mesmo excelente. Ele possui profundidade e beleza.
Parabéns, cara.
Mas é assim mesmo... depois que coloquei um espenho no meu armário, não consigo olhar pra ele menos de 5 minutos, atrás de espinhas, manchas ou qualquer coisa que tenha para ver em mim mesmo...
e não, eu nao estou para casar, é só uma brincadeira hehe.
muito bom!
é real ou tu inventou?
hehehehehe...
o ser humano precisa sempre de uma platéia... nem que seja ele mesmo!
bjus!
É real :)
***
o ser humano precisa sempre de uma platéia...
nem que seja ele mesmo!
Muito bom!
adorei o texto e o blog, que eu ainda não conhecia. às vezes a gente passa tanto tempo no espelho que esquece de viver.
Parab+ens
Concordo com a Letícia. O narcisismo corre em nossas veias...Leia um conto de Machado de Assis chamado "O espelho". Você vai gostar.beijos!
"Estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança."
lindo!
Legal, Leon.
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