segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sob suor e curativos

O telefone tocou quebrando o silêncio e me lembrando que eu não estava só no mundo. Da minha posição, sentado à poltrona da sala, nem precisava virar o rosto para vê-lo. Observava-o, de seus sons a suas luzes piscantes, me informando que alguém, conhecido ou desconhecido, em algum lugar, estava à minha procura.

Levantei-me com dificuldades. Estava com a perna esquerda envolvida por gesso. Estava com curativos no braço e no rosto. Tinha sofrido um acidente, aquele dia. Estava, ainda, tonto. Minha cabeça girava. Quando cheguei em casa, já era noite. Na sala, sentei e liguei a TV. Os atores, seus zumbidos, palavras incompreensíveis e risadas injustificadas me deram dor-de-cabeça e tornei a desligá-la. Queria ir para a cama dormir, mas algo me mantinha preso à cadeira. Agora tentava, cambaleantemente, fazendo caretas e apoiado na parede, chegar ao telefone, que ainda tocava com intensidade.

- Sim?

- Boa noite, posso falar com o senhor Leon Karlos? - disse uma garota.

- Alguma novidade?

Não havia novidades. Era mais uma cobrança. Eu me lembrei que estou endividado, dos cartões de crédito à conta nos bares e mercearias do bairro vizinho. A garota de voz doce só veio me lembrar que eu não tinha direito ao sossego enquanto não pagasse.

- Então, quando pagará?

- Se eu lhe disser que pagarei, boneca, estarei mentindo.

- Senhor, é preciso...

- Você não me oferece alternativa, então eu tomarei a liberdade de pensar em alguma.

- Se o senhor não pagar, precisaremos tomar as providências cabíveis...

- Boa noite, senhorita.

Desliguei o telefone. Estava-lhe virando as costas, quando tocou de novo. Atendi friamente.

- Sim?

- Por que você fez isso? Aliás, aliás, aliás... por que você NÃO fez?! - era uma outra voz, tão feminina quanto, porém muito mais descontrolada.

- Dê-me um tempo... isso o quê?

- Ligar! Por que você não me ligou? Acha que sou o quê?

(suspiro meu...)

- Tem idéia de como fica minha cabeça?? Sabe, depois que...

- Preciso desligar! - interrompi.

Desliguei e tirei o fio da tomada. O telefone tocaria à vontade. Eu não estava para delongas. Com muitas dificuldades, voltei ao lugar onde estava minimamente aconchegado. Além do corpo machucado de um repentino acidente de moto, não me bastavam os tormentos de cobranças na cabeça, e a lembrança de que pessoas estavam à beira do suicídio por minha causa. Tentava esquecer tais tolices, mas continuava a não ter paz. Naquele ambiente escuro e abafado, eu mal conseguia respirar. O suor me descia pela testa. Não adiantava fechar os olhos, pois tudo se tornava muito mais claro e ofuscante.

Estava com sede, mas há dias não havia água em casa. Estava com fome, mas o pão que restava eu deixaria para comer na manhã seguinte. Meus lábios tremiam, meus dentes trincavam. Peguei no bolso uma cartela de comprimidos e tomei um, dois, tomei logo todos, de uma vez. De meu olhar marejado, eu só visualizava os pés titubeantes do sofá sobre um piso ondeado.

Percebi, a partir de mim mesmo, o quão o humano é frágil, suscetível a doenças, acidentes, envelhecimento, descuido e uma infinidade de inquietações emocionais e psicogênicas. E que essas coisas o acompanham durante toda a vida... que deprimente existência a deste ser que sabe que sabe!

Também pensei que, mesmo com todas as pragas e aflições como acompanhante principal, ainda assim vivemos tanto. Anos, décadas! É quase um milagre... é algo... inexplicável.

O ser humano é mesmo o mais forte de todos.

8 comentários:

An@Lu disse...

Ah Leon, amei! às vezes a gente quase que sobrevive. Me lembrei do dia em que fiquei doente, morando sozinha, e esqueci de comer. Só lembrei por causa da dor de cabeça... rsrsrs
Mas isso sou eu que sou doida mesmo :)!
Boa literatura! :)

Let's disse...

esses cartões de crédito... pra eles quanto mais tempo tu demorar pra pagar, é melhor pra eles, que vivem de juro, hahahahahaha....
bjus!

Cruela Veneno da Silva disse...

Oi
te encontrei em um topico de uma comunidade do orkut (desafio de blogs) e é claro que o seu venceu.

Muito bom.. a forma como vc escreve me faz lembrar do Rubem Fonseca.

Parabéns.

qq hora dessas eu venho aqui te roubar... mas eu repasso os créditos.

abraços (do calcinhas no box)

Vivi disse...

"O ser humano é mesmo o mais forte de todos" exatamente por causa das pancadas, acidentes, tropeços, contas pra pagar...É o que diz Nietzsche (aff, hj eu tô pedante né): "O veneno que mata as naturezas fracas é um fortificante para as fortes".
Grande abraço!!

Coelho Carnívoro disse...

outro ótimo texto...
e me faz dar graças pela minha capacidade de nao ficar doente

e me fez pensar em outra coisa, q é a vontade que as pessoas têm de fugir de suas responsabilidades, mas como se sentem cada vez mais presas a elas...

Unknown disse...

Leon,
seu texto está cada vez melhor. Este é excelente. Só não vá largar a militância e virar um intelectual alcoolatra, hehehe.
Abração

Andiara Moraes disse...

Fragilidade psíquica e emocional... por vezes pensamos que é uma espécie de sofrimento eterno, que nunca passará... mas nos enganamos e sobrevivemos a tudo isso.
Há quem não segure a barra... os que seguram tiram força sabe-se lá de onde para seguir seus caminhos...

curti o "degustável" pro meu blog! e esse novo tá bem legal!
beijo!

An@Lu disse...

e aí leon? cansou, muito trabalho, falta de inspiração?
saudade de um uísque teu...