Quando eu acordei e, ao tentar conectar, percebi que tinham cortado minha net mais uma vez - a equação correta, afinal eu não pagara as duas contas anteriores -, peguei os únicos 5 reais que restavam na minha carteira e decidi tomar duas cervejas no boteco da rua. Eu detestava cerveja de manhã, mas isso não me ocorreu naquele instante... detestava tanta coisa, afinal. Podia dizer que detestava desde vários aspectos de mim mesmo até o fato de a bandeira dos Estados Unidos estar fincada no solo lunar. Não deixava de fazer as coisas por tais frescuragens. Fui bebericar com os trocados que me restava, pois então.
Quando cheguei e me aportei no bar, percebi uma intensa movimentação em torno de uma mesa... ao que os outros bebuns foram se desaglomerando, pude perceber: o Baiano, um conhecido figura do bairro, negro, literalmente baiano, de quase dois metros de altura estava em prantos, uma imagem de dar pena. Nitidamente, tivera sofrido, para ver-se em tal condição, um grande golpe. Não fiz alarde algum; não o conhecia, assim como não conhecia nenhum dos outros assíduos freqüentadores do bar, senão de vista. Eu devia ser o mais jovem a beber por ali, de vez em quando. O lugar só servia mesmo, decentemente, para os funcionários públicos quarentões que por ali moravam. O fato de eu ser um reles adolescente até pouco tempo atrás me tornava um cara totalmente deslocado, tanto no bar quanto fora dele. Percebia isso quando as meninas, os garotos, as mães de minha rua olhavam torto para mim, quando passavam. Decerto a impressão que eu lhes oferecia é a de que sou tão-somente um jovem pinguço, um sem-futuro, um pequeno alcóolatra "que Deus o tenha". Não era eu quem ia negar, embora nunca tenha gostado desses reducionismos. De qualquer modo, me felicitava saber que a molecada do bairro fazia parte da autêntica geração-saúde. A academia era o ponto de encontro no conjunto, e eu devia ser o único que era esnobado até pelas raparigas do fim-da-rua. Enquanto vagueava em pensamentos, no entanto, uma coroa de seus trinta e tantos anos perdidos sentou-se em minha mesa, talvez porque não tinha mais lugar no bar, talvez porque, simplesmente, uma vez na vida, queria falar com uma pessoa diferente.
- Sabe por que o Baiano está chorando? - perguntou-me.
- Não faço idéia - na verdade, pouco me interessava. Choro não é a coisa mais rara de se ver num bar; só perde para palavrões e para ruídos de socos.
- Um amigo dele morreu!
- Ah... um amigo. Que pena, não?
- Você conhecia um cara que... - e começou a dar detalhes sobre um vendedor de muambas piratas. Eu respondi com um grunhido. Na verdade, queria não responder, mas tentei ser minimamente simpático.
- Ele também era vigilante, sabe? - ela continuava fazendo sua descrição.
- Acho que conheço, sim - respondi, já totalmente indiferente à fofoqueira, que estava à minha frente com um copo vazio. Ela parecia um pouco constrangida por eu não ter dado, até então, um sorriso por contido que fosse, nem tampouco oferecido um gole de minha preciosa cerveja. Mas não se deixou abater.
- Pois é, foi ele que morreu!
- Ah...
- Morreu hoje de manhã, Baiano era um velho amigo, soube agora da notícia!
Não pude deixar de notar, no palavreado daquela senhora, uma ponta de sorriso em seus lábios - uma ponta de sorriso! Que bondoso estou sendo!
Seus olhos só faltavam brilhar quando me falava.
- Você já chegou a falar com ele? - tornou a me perguntar, depois de acolher-se num silêncio de uns cinco minutos, por exigência velada de meu pouco entusiasmo.
- Muitas vezes...
- Ele morreu do coração. Andava muito triste, sabe? Comprou um carrinho, um Uno Mille, meu Deus, pouco tempo atrás. O carro foi roubado em dois meses... mas ele ainda tinha mais trinta e quatro prestações pela frente, e pagou todas elas, poxa vida...
Ela se empolgou.
- Sabe o que eu lhe dizia? - continuou - Eu lhe dizia "não desista!" Corra atrás, faça lá seu futuro, mostre pra esses ladrõesinhos que você não se deixa abater. Ele até chegou a comprar um fusquinha, agora há pouco tempo, e eu lhe disse "tá vendo? Tem que começar de baixo." Tentei ajudar o que podia, mas ele tinha ficado pirado depois que perdeu o primeiro carro, oh Deus, passou a beber, a mulher o deixou, pobre dele...
Eu, aos poucos, perdia completamente minha mínima compostura e interrompi a conversa oferecendo-lhe uma cerveja. Queria acabar com a história ali. Já estava abrigado por um grande e incomum sentimento de depressão, não pela internet cortada, nem muito menos pela notícia da morte do rapaz. Mortes eu já vira aos tantos. Já assisti a motoristas alucinados atropelando travestis por esporte, já presenciei cenas de mulheres de quarenta tendo o crânio trespassado por uma bala de 38 pelo próprio marido, já me sujei com o sangue de uma adolescente quando a vi cair do 3º andar do prédio onde eu morava, caindo quase sobre minha cabeça, até. Não, definitivamente a morte daquele rapaz não me incomodava o dia, embora eu reconhecesse que fora um impiedoso fim para um pobre cidadão comum, que só conseguiu o primeiro carro depois de trinta anos de serviço, e ainda assim trabalhando na labuta pelo dia e com serviço alternativo pela madrugada. Isso mais me incomodava que a sua morte, certamente trágica. Porém, o que realmente me derrubava naquela manhã era a atitude daquela estranha mulher, a tentar me tirar o sossego para expelir pela boca mal-cheirosa e pelo olhar pernicioso o seu fetiche com a história de fracasso do malogrado vigilante, agora um cadáver congelado que provavelmente tornar-se-ia, no futuro, mero personagem secundário de suas próprias histórias, um anti-herói, um homem que tanto fez e pouco conquistou, e morreu triste e solitário.
- Beba uma cerveja e cale-se, por favor - Eu lhe disse, já impaciente.
- Ah... desculpe. Você era amigo dele, né?
E ela me acompanharia, respeitosamente de bico fechado, nas duas garrafas. Percebeu o meu estado de completo desânimo. Compreendeu, ainda que tardiamente, o quanto me afetara aquela história, aquela amolação. De fato, o que me incomodava era algo muito além disso. Estava enjoado por ver, na mesma e antitética cena, um brutamontes cair-se aos prantos enquanto uma pequena mulher disfarçava sua alegria e seu gozo pelo mesmo motivo. Aquilo era demais para mim. As lágrimas que corriam em minha face quando cheguei em casa corroíam como ácido a já mal-tratada pele de meu rosto. Definitivamente, evitaria voltar àquele bar. Assim se deu. Nunca mais vi aquela abelhuda, nem nunca mais senti um enjôo tão latente enquanto ouvia de alguém uma história, por triste e tocante que fosse. O impacto que senti dentro de mim mesmo naquela ocasião me deixaria anestesiado para semelhantes situações, no futuro. Sim, estava categoricamente anestesiado. Insensível. Indiferente. Se isso seria bom ou ruim, porém, eu nunca saberia.
Quando cheguei e me aportei no bar, percebi uma intensa movimentação em torno de uma mesa... ao que os outros bebuns foram se desaglomerando, pude perceber: o Baiano, um conhecido figura do bairro, negro, literalmente baiano, de quase dois metros de altura estava em prantos, uma imagem de dar pena. Nitidamente, tivera sofrido, para ver-se em tal condição, um grande golpe. Não fiz alarde algum; não o conhecia, assim como não conhecia nenhum dos outros assíduos freqüentadores do bar, senão de vista. Eu devia ser o mais jovem a beber por ali, de vez em quando. O lugar só servia mesmo, decentemente, para os funcionários públicos quarentões que por ali moravam. O fato de eu ser um reles adolescente até pouco tempo atrás me tornava um cara totalmente deslocado, tanto no bar quanto fora dele. Percebia isso quando as meninas, os garotos, as mães de minha rua olhavam torto para mim, quando passavam. Decerto a impressão que eu lhes oferecia é a de que sou tão-somente um jovem pinguço, um sem-futuro, um pequeno alcóolatra "que Deus o tenha". Não era eu quem ia negar, embora nunca tenha gostado desses reducionismos. De qualquer modo, me felicitava saber que a molecada do bairro fazia parte da autêntica geração-saúde. A academia era o ponto de encontro no conjunto, e eu devia ser o único que era esnobado até pelas raparigas do fim-da-rua. Enquanto vagueava em pensamentos, no entanto, uma coroa de seus trinta e tantos anos perdidos sentou-se em minha mesa, talvez porque não tinha mais lugar no bar, talvez porque, simplesmente, uma vez na vida, queria falar com uma pessoa diferente.
- Sabe por que o Baiano está chorando? - perguntou-me.
- Não faço idéia - na verdade, pouco me interessava. Choro não é a coisa mais rara de se ver num bar; só perde para palavrões e para ruídos de socos.
- Um amigo dele morreu!
- Ah... um amigo. Que pena, não?
- Você conhecia um cara que... - e começou a dar detalhes sobre um vendedor de muambas piratas. Eu respondi com um grunhido. Na verdade, queria não responder, mas tentei ser minimamente simpático.
- Ele também era vigilante, sabe? - ela continuava fazendo sua descrição.
- Acho que conheço, sim - respondi, já totalmente indiferente à fofoqueira, que estava à minha frente com um copo vazio. Ela parecia um pouco constrangida por eu não ter dado, até então, um sorriso por contido que fosse, nem tampouco oferecido um gole de minha preciosa cerveja. Mas não se deixou abater.
- Pois é, foi ele que morreu!
- Ah...
- Morreu hoje de manhã, Baiano era um velho amigo, soube agora da notícia!
Não pude deixar de notar, no palavreado daquela senhora, uma ponta de sorriso em seus lábios - uma ponta de sorriso! Que bondoso estou sendo!
Seus olhos só faltavam brilhar quando me falava.
- Você já chegou a falar com ele? - tornou a me perguntar, depois de acolher-se num silêncio de uns cinco minutos, por exigência velada de meu pouco entusiasmo.
- Muitas vezes...
- Ele morreu do coração. Andava muito triste, sabe? Comprou um carrinho, um Uno Mille, meu Deus, pouco tempo atrás. O carro foi roubado em dois meses... mas ele ainda tinha mais trinta e quatro prestações pela frente, e pagou todas elas, poxa vida...
Ela se empolgou.
- Sabe o que eu lhe dizia? - continuou - Eu lhe dizia "não desista!" Corra atrás, faça lá seu futuro, mostre pra esses ladrõesinhos que você não se deixa abater. Ele até chegou a comprar um fusquinha, agora há pouco tempo, e eu lhe disse "tá vendo? Tem que começar de baixo." Tentei ajudar o que podia, mas ele tinha ficado pirado depois que perdeu o primeiro carro, oh Deus, passou a beber, a mulher o deixou, pobre dele...
Eu, aos poucos, perdia completamente minha mínima compostura e interrompi a conversa oferecendo-lhe uma cerveja. Queria acabar com a história ali. Já estava abrigado por um grande e incomum sentimento de depressão, não pela internet cortada, nem muito menos pela notícia da morte do rapaz. Mortes eu já vira aos tantos. Já assisti a motoristas alucinados atropelando travestis por esporte, já presenciei cenas de mulheres de quarenta tendo o crânio trespassado por uma bala de 38 pelo próprio marido, já me sujei com o sangue de uma adolescente quando a vi cair do 3º andar do prédio onde eu morava, caindo quase sobre minha cabeça, até. Não, definitivamente a morte daquele rapaz não me incomodava o dia, embora eu reconhecesse que fora um impiedoso fim para um pobre cidadão comum, que só conseguiu o primeiro carro depois de trinta anos de serviço, e ainda assim trabalhando na labuta pelo dia e com serviço alternativo pela madrugada. Isso mais me incomodava que a sua morte, certamente trágica. Porém, o que realmente me derrubava naquela manhã era a atitude daquela estranha mulher, a tentar me tirar o sossego para expelir pela boca mal-cheirosa e pelo olhar pernicioso o seu fetiche com a história de fracasso do malogrado vigilante, agora um cadáver congelado que provavelmente tornar-se-ia, no futuro, mero personagem secundário de suas próprias histórias, um anti-herói, um homem que tanto fez e pouco conquistou, e morreu triste e solitário.
- Beba uma cerveja e cale-se, por favor - Eu lhe disse, já impaciente.
- Ah... desculpe. Você era amigo dele, né?
E ela me acompanharia, respeitosamente de bico fechado, nas duas garrafas. Percebeu o meu estado de completo desânimo. Compreendeu, ainda que tardiamente, o quanto me afetara aquela história, aquela amolação. De fato, o que me incomodava era algo muito além disso. Estava enjoado por ver, na mesma e antitética cena, um brutamontes cair-se aos prantos enquanto uma pequena mulher disfarçava sua alegria e seu gozo pelo mesmo motivo. Aquilo era demais para mim. As lágrimas que corriam em minha face quando cheguei em casa corroíam como ácido a já mal-tratada pele de meu rosto. Definitivamente, evitaria voltar àquele bar. Assim se deu. Nunca mais vi aquela abelhuda, nem nunca mais senti um enjôo tão latente enquanto ouvia de alguém uma história, por triste e tocante que fosse. O impacto que senti dentro de mim mesmo naquela ocasião me deixaria anestesiado para semelhantes situações, no futuro. Sim, estava categoricamente anestesiado. Insensível. Indiferente. Se isso seria bom ou ruim, porém, eu nunca saberia.
10 comentários:
trágico.
mas mesmo pra mim (que não vi tantas e tão impressionantes mortes, como você), uma morte não seria realmente motivo para tanto diálogo de uma pessoa que eu conheço, ou sobre uma pessoa que não conheço, por causa de um chorão que também não conheço...
mas o mais importante é que (a não ser que você esteja numa lan house) sua net foi releigada!!!
rs
PS: gostei de seus textos.
PS 2: caso queira, pode dar uma olhadinha (e uma comentadinha) lá no meu...
abraço.
realmente trágico...vlw a força lá no tópico,são uns idiotas nanana...nem me apego!!bom que gostou dos meus textos...vo passa aqui também mais vezes!!
;*
HUmmm! Parece que cerveja a R$ 2,50 é tabelado nacionalmente, exceto SP, onde uma dessas marcas chingling de cerva custa no barato R$ 6,00
Realmente trágico. Ainda mais pelo fato de que a mulher contava-lhe a história com uma ponta de sorriso nos lábios.
Gostei do teu blog, tu te expressas muito bem.
Seu texto melhorando e seu sucesso aumentando, só dá Leon! Essa bosta é bem assim, fique alegre quem quiser, nessa pica.
Abração
Muito bom, Leon.
Parabéns, rapaz.
Você tem uma ótima capacidade de expressar uma literatura de prender a atenção de quem sabe degustar boas palavras.
Atenciosamente,
AMORIM JÚNIOR, Roberto Fernando
Nosso senhor tem cada morador, né?!
ehehe
Teu texto tá ótimo! ;D
beijão
oi leon! tem nomeação para você lá no meu blog!
beijos
Fala, Leon!
Nem todo mundo consegue transformar fatos despercebidos muitas vezes, em bons textos, como vc fez nesse.
;)
Massa, Leonzinho. Muito bom texto, uma ótima leitura desse tipo de situação... e desse tipo de pessoa.
Já ficou entre os melhores para mim... hehehe
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