Eu nunca como nada antes das 14h, mas como eu acordara muito cedo num dado dia, optei por ir a um café me alimentar com algo substancial naquela manhã. Pedi um suco de laranja e um pão com manteiga, mas fui obrigado a comer um outro sanduíche natural, muito sem-graça, que de nada tinha gosto.
Enquanto me abastecia com aquelas migalhas a fazer cócegas na minha boca, cujo sabor, já irrisório como antes dito, estava ainda mais desgastado pela sobreposta dor-de-dente que me incomodava há uns dias, pela vidraça eu notava os preocupados rostos das pessoas que se apressavam a ir à escola, trabalho, faculdade, cursinhos ou que - estes menos preocupados - voltavam da noitada, e isso até me divertia, embora não interferisse em nada na minha sisudez facial.
No café, não tinha quase ninguém aquela manhã. Numa das mesas, um funcionário de repartição de meia-idade comia um bolo com refrigerante meio apressado, enquanto parecia rabiscar um folheto de classificados, e no balcão uma garota vestida de uniforme de lojas de roupa e com uma cara emburrada acompanhava-se de um pires no qual uma gelatina verde tremulava de modo incrivelmente incômodo. Como eu já estivesse há dois dias sem falar com ninguém e receoso com as conseqüências negativas dessa inatividade para minhas cordas vocais, peguei meu suco e meu sanduíche e fui interrompê-la, sentando-me a seu lado.
– Quem é você, o que quer? – ela me perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Seus olhos eram grandes e meio puxados e sua pele de um moreno claro, indeterminando sua origem. Tinha uma vasta e bonita cabeleira negra, embora estivesse bem descuidada aquele dia.
– Quem eu sou não importa, você se esquecerá assim que sair deste boteco.
– Isso não é um boteco. Não freqüento botecos.
– Que seja, ou que não seja, aliás. Mas pela sua cara e seu humor, parece-me que um boteco propriamente dito lhe cairia melhor.
– Eu pareço acabada? – perguntou me passando um olhar de criança manhosa.
– Parece. – respondi, simplesmente. Sua aparência mudou bastante, pelo visto não esperava minha confirmação. Alterou a face com um misto de espanto e reprovação, mas logo daria de ombros e fingiria ignorar.
– Meu namorado me deixou.
– Hahaha!!! Que sorte a minha, hein? Vim-me sentar logo ao lado duma garota desiludida com um namoro...
Enquanto me abastecia com aquelas migalhas a fazer cócegas na minha boca, cujo sabor, já irrisório como antes dito, estava ainda mais desgastado pela sobreposta dor-de-dente que me incomodava há uns dias, pela vidraça eu notava os preocupados rostos das pessoas que se apressavam a ir à escola, trabalho, faculdade, cursinhos ou que - estes menos preocupados - voltavam da noitada, e isso até me divertia, embora não interferisse em nada na minha sisudez facial.
No café, não tinha quase ninguém aquela manhã. Numa das mesas, um funcionário de repartição de meia-idade comia um bolo com refrigerante meio apressado, enquanto parecia rabiscar um folheto de classificados, e no balcão uma garota vestida de uniforme de lojas de roupa e com uma cara emburrada acompanhava-se de um pires no qual uma gelatina verde tremulava de modo incrivelmente incômodo. Como eu já estivesse há dois dias sem falar com ninguém e receoso com as conseqüências negativas dessa inatividade para minhas cordas vocais, peguei meu suco e meu sanduíche e fui interrompê-la, sentando-me a seu lado.
– Quem é você, o que quer? – ela me perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Seus olhos eram grandes e meio puxados e sua pele de um moreno claro, indeterminando sua origem. Tinha uma vasta e bonita cabeleira negra, embora estivesse bem descuidada aquele dia.
– Quem eu sou não importa, você se esquecerá assim que sair deste boteco.
– Isso não é um boteco. Não freqüento botecos.
– Que seja, ou que não seja, aliás. Mas pela sua cara e seu humor, parece-me que um boteco propriamente dito lhe cairia melhor.
– Eu pareço acabada? – perguntou me passando um olhar de criança manhosa.
– Parece. – respondi, simplesmente. Sua aparência mudou bastante, pelo visto não esperava minha confirmação. Alterou a face com um misto de espanto e reprovação, mas logo daria de ombros e fingiria ignorar.
– Meu namorado me deixou.
– Hahaha!!! Que sorte a minha, hein? Vim-me sentar logo ao lado duma garota desiludida com um namoro...
Ela ficou nitidamente envergonhada, e direcionou a vista à gelatina. Seus olhos úmidos e inquietos pareciam estar tentando acompanhar cada movimento daquela gosma que já estava a cair sobre a mesa do balcão, visto que ela não o comia e somente usava a colher para brincar com aquele experimento que expressava, em seus movimentos repetitivos e enfadonhos, a pequenez de sua existência, posta em crise com um fim de namoro.
– Tudo bem, pra ser sincero, eu não sou essa insensibilidade toda que pareço.
– É sim. Eu sei. São todos iguais, afinal.
– Meu bem, não sou, e essa sua infelicidade, acredite, nada tem a ver com seu namorado.
– Quem é você pra saber?
– Acredite, eu não falaria isso se não tivesse substância para tanto...
– Não entendo você... parece tão... babaca. Mas, ao mesmo tempo, parece tão compreensivo...
Nós nos fitamos complacentes, e damos seguimento à conversa, na qual ela me contou tudo sobre o namoro, sobre o que estudava - fazia uma faculdade aí que dizia ser o seu maior sonho, mas falava do curso como se fosse uma experência torturante. Seu nome, eu saberia, era Elizabeth. Elizabeth Jasmin. Namorava com Saulo há coisa de um ano e pouco. Ele que lhe tinha arrumado o emprego numa dessas lojas de roupas populares. Por sinal, estava atrasada para o trabalho aquele dia - "não importa mais", foi o que me disse. Num determinado momento, perguntou o que eu fazia.
– Estudo também... faço Geografia... o resto do tempo, não faço nada.
– Que massa! – sua resposta não trazia nenhuma empolgação, naturalmente, a despeito da exclamação. No instante seguinte, tornamos a falar de sua vida. Nossa conversa tomaria ainda umas duas horas, que inclusive lhe tinham devolvido a fome.
A fluidez de nosso papo indicava que tínhamos mais coisas em comum do que oposições, na verdade. Seu humor até tinha melhorado, embora pausasse quando falasse do ex-namorado.
– Você é bem legal – foi o que me disse, desinspiradamente. Estava carente e suscetível a comentários do tipo, eu bem sabia. Mas nós realmente nos daríamos bem a maior parte do tempo naquela manhã. Ao final, nossos olhares se fixaram e nos beijamos lenta e carinhosamente. Ela parecia frágil como uma boneca de porcelana, de modo que quase não a toquei enquanto nos beijávamos. Ficamos apreciando um ao outro no fim de tudo.
– Eu gostei de você - foi o que me disse, baixinho. Sorri, apenas. E, imprensando os lábios e já me levantando da cadeira, lhe respondi.
– Também gostei de você... preciso ir. Até algum dia – então me retirei, pagando pelas guloseimas e dando-lhe um novo beijo, mas desta vez a beijei no rosto, com mais paternalismo que sentimento de atração. Ela não pareceu tão surpresa como eu temia que ficasse, embora exprimisse certa desolação aparente nas sombrancelhas parcamente levantadas.
Quando fechei a porta do café, achei que nunca mais a veria, e me conformei com a condição, embora ela fosse simpática e até que uma boa companhia. Mas ainda a reencontrei uma vez, só que desta vez não fui notado. Eu estava sentado num ponto de ônibus quando a reparei vindo abraçada a um rapaz, que, pela camisa, pude perceber se tratar do tal Saulo, já que tinha seu nome bordado. Ela o vigiava fixamente, e seus olhos brilhavam, à medida em que seguiam passeando pela calçada, e sua boca se calava para ouvir a voz dele, e seus braços pequenos sofriam para enroscar-lhe o pescoço. Elizabeth bem demonstrava estar envolvida por Saulo de modo a nunca mais querer que lhe escapasse das mãos. Ela se revelava tão impressionada com ele que seu desejo poderia ser traduzido numa fome incompreensível, numa idolatria, enfim, em qualquer coisa, porém nada que se aproximasse de um sentimento minimamente amoroso e recíproco. Ela estava feliz. Aliás... ela parecia feliz. Nada mais que isso. Pobre Elizabeth.
5 comentários:
Pobre mesmo!
Bem, por outro lado, quando ficar solteiro novamente, já sei que visitas matinais a botecos são relativamente produtivas (ou seriam improdutivas?).
Fala sério... você não deve saber nada de geografia. Vai para psicologia, isso tá bombando!
É o negócio mais rentável desse século.
Gosto do jeito que vc escreve.
O jeito que descreve as realções humanas, homem-mulher.
Parabéns. ;D
Velho,
sua postagem anterior tava equivocada. Você escreve mesmo é bons contos. Contos são difíceis de se escrever. Por isso vale o esforço e vale o pressiosismo. Melhor que encher o blogue dessas presunções que vemos por aí.
Parabéns, tá massa! (tá massa! com empolgação, hehehe)
hahaha.. vou nem dizer o q achei! rsrs!
=*
MUITO BOM MESMO.
Pobre Beth. Dessas existem muitas... uma pena.
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