segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A Primeira Noite

Já eram 23h e tantos e ele ainda não sabia para onde ir aquela noite. O Centro da Cidade estava esvaziado, e só se fazia presente a incômoda fetidez de mijo e cerveja que toma conta do lugar à noite. Embora a hora denotasse que já estava ficando tarde, parecia-lhe que muita coisa ainda aconteceria nos instantes seguintes. Mas ele não queria passar aquela noite na rua. Quisesse ou não, ela tinha algo de emblemático, de simbólico.

Depois de vaguear ante as pequenas lojinhas das ruas-beco que se acotovelam entre as principais vias da Cidade Alta, encontrou um hotel asqueroso, mas que oferecia a comodidade pela qual poderia pagar. "Ao menos uma TV ou um radinho deve ter", imaginou, consolando a si mesmo. O salão do hotel, com um balconista e outros quatro caras ao redor de uma mesa jogando cartas, era uma ebriedade só, e lhe trazia à sua memória os filmes vagabundos aos quais costumava assistir na infância - aquele lado escuro da vida, que nunca pensou em experimentar de fato. No entanto, o tempo corria e ele não estava chegado a reflexões. Pegou a primeira chave que o estonteado atendente lhe oferecera e foi ter com o primeiro quarto desconhecido que o acolheria. Lá, nada de radinho ou TV. Apenas uns beliches sujos, quase nenhum com estofado. Da janela, que ficava a dois andares do chão, o que dava uns dez metros de altura, contemplava a decadência dos muitos mendigos, entorpecidos nas calçadas pequenas daquelas ruelas. A maioria das pessoas agradeceria por ter uma cama para dormir, ele pensou. "Sou um ingrato filho-da-puta".

Durante toda a vida, esperou por aquela noite. Contudo, não imaginava que passaria como um mundano, num hotel nojento qualquer. Não chegou a chorar; e se o fizesse não seria por saudades nem por desesperança. Aconchegou-se da forma que pôde, e, pela noite, leu um livro de Cassady, mais um jovem inconseqüente doutros tempos que o ensinara a desprezar a boa-vida que recebera até ali. Não agüentava o tormento daquelas horas e retirou da mochila uma garrafa de vinho pela metade, que o ajudaria a se aquecer e divagar o restante da madrugada, bem percebendo que estava longe de sentir sono. A certo instante, somente quando precisou do toalete, foi que ele entendeu que não estava num suíte - não havia suítes ali, afinal. Caminhou até o fundo do corredor, mas o pouco de dignidade que guardava (que frescura, ó céus!) o impedia de usar o banheiro coletivo repugnante que era dividido entre todos os hóspedes do andar, composto de bêbados, prostitutas e, ocasionalmente, um ou outro adolescente fugidio, "igual a você", conforme lhe dissera um dos embriagados que conhecera na entrada.

Tudo se passou num misto de alegria e tristeza - mas uma tristeza jubilosa, quase uma constatação de que estava vivendo um lado mais sincero e honesto da vida, tal como ela deveria ser de verdade no seu imaginário. Estava, no fim das contas, satisfeito. Nos vinte anos anteriores, fora sempre tido como um sujeito esquisito e ermo, mas os adjetivos inglórios até então recebidos pouco significavam agora. Já não pensava mais em nada depois de alguns tragos de vinho, quando reparou num crucifixo que ornamentava, solitário, uma das paredes do quarto, entre rabiscos de caneta outrora traçados por hóspedes canalhas e metidos a poetas. "Deus, aprendi com você a ser um errante", foi o que disse. Ou parece que disse, não tinha certeza.

Sua paz acabou quando bateram na porta, às 4h e tantas, enquanto filetes de luz matinal já começavam a iluminar o ordinário ambiente. Embora ele estivesse acordado, estava absorto demais para ter consciência disso. Estava drogado, diriam, como sempre disseram, os lugares-comuns que povoaram sua vida. Mas enfim percebeu que havia mesmo alguém forçando a porta no corredor. Quem seria? Ele não imaginava. Bem poderia se tratar de apenas um beberrão tentando entrar no quarto errado, ou até um serviço de quarto, mas isto ele sabia que não havia naquele antro. Talvez alguém que, após alguma procura, descobrira o seu paradeiro. Tentou não dar muita atenção, entretanto as batidas não cessaram. Até que, num dado momento, sem entender muito bem o porquê e sem que se preocupasse com motivos ou razões, desceu-lhe uma minúscula lágrima pelo rosto, e um sorriso indolente desestatuou seus lábios. Pegou uma caneta que tinha no bolso para pôr uma sentença na parede, como tantas outras que já estavam ali expostas. Ele se viu quase completamente sem o controle dos próprios nervos, e, com muito esforço, escreveu: É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida. Dito isto, não tinha muito mais a fazer. Então se dirigiu à janela. É bem verdade que dez metros nem sempre chegam a ser fatais, mas ele estava decidido a pular de cabeça para baixo, para não ter muitas chances. "Nunca tive segundas chances", pensou, no fim. "Seria muita ironia se tivesse agora".

20 comentários:

Critical Watcher disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Critical Watcher disse...

Nossa!
Quanta coisa bonita por aqui. Somos conterrâneos? Legal saber disso... Você escreve muito bem, meu caro. Senti na pele todo o arrepio da situação da personagem... Poucas pessoas me emocionam, e você fez isso com primor.

Parabéns... Manteremos contato!

M. [doc] B. disse...

Ah, concordei com o Vicente! (:

Nessas histórias onde o juízo, ou falta dele, comanda o ser são as melhores. Alguns traços desta ''A primeira noite'' foi muito parecido com um livro que estou lendo do Victor Hugo.
Não posso negar a minha curiosidade em saber quem batia na porta dele e também mais detalhes do que se passava em sua mente. Mas acho que a omissão disto me fez gostar ainda mais. Aguçou a minha curiosidade.
Muito boa a saída dele em pegar a garrafa de vinho no estopim de suas dores.

Ah, quero ler mais. :)

M. [doc] B. disse...

Pode deixar que quando eu reaparecer aí em Natal avisarei com o maior prazer.
Mas como disse pro Vicente esse ano acredito que irá ficar um pouquinho complicado, mas sempre da-se um jeitinho! (:
Quanto ao meu aniversário nunca gostei muito nem do mês nem do dia, mas assim seja. Preferia ter nascido no mês de Outubro. Daí é exigir demais, deixa queieto!

Aí, aí, aí, Leon.... =*

Anônimo disse...

Adorei todo o seu blog. O texto fantástico, o layout original... Muito bom.

Beijos.

Andiara Moraes disse...

Curioso como a reflexão muitas vezes só vem com palavras alheias. Realmente, as palavras foram saindo sem que eu esperasse muito... é sabido que, pra cada ação, uma reação. Por que não aplicar essa regrinha às palavras?

O blog esquecido nem era exatamente o do Blogspot, mas sim o do Live Spaces. Esquecido mesmo... mas não abandono o Cada Salto! Nunca! Hahahah!

Beijo!

M. [doc] B. disse...

Victor Hugo é um mestre! Que mágia ele tem com suas palavras, com suas histórias. Até a divisão dos capitulos é perfeita. Hahahahaaha
Sim, eu sou uma pivete fanatica por seus livros. Que bom que eu achei alguém pra compartilhar esta paixão comigo.
Leon, desde a primeira vez que eu entrei aqui no seu blog achei ele um lugar confortável e cheio de prazer e de fato a cada vez que lia os outros posts comprovava o que achava!

Sorte, muita sorte eu tenho de ter encontrado ele! (:

E eu estou curiosa pra ler a continuidade... Tenho a certeza da qualidade.
Quanto a comemoração em Outubro eu gostei muito da idéia, muito mesmo! Nunca havia pensado nisto. Mas acho que ninguem vai querer comemorar comigo... :S

Enfim, quero voltar aqui rápidinho! o~~
Beijo grande, Leon! =*

Gabrielle disse...

Eu também fiquei com peninha da Márcia, da Eneida e do Manuel (coitado, sete filhos!), aliás, um pouco de pena de mim, porque o texto mostra bem o que acontece aqui na minha rua. Esses dias, mal tinha chegado em casa e vieram perguntar para a minha tia onde eu andava (sem exagero, foi coisa de segundos), acho um absurdo mesmo! Então estava afim de falar bem na língua dessa gente fofoqueira, ahahaha, por que falar que "fofoca não é legal, que isso e aquilo", não passa realmente o que acontece em um condomínio. Entre moradores desse tipo, não há amizades, eles esquecem de cuidar da própria vida e, como eu falei, eles precisam das novidades alheias para sobreviver. Triste, muito triste, mas acontece. E a gente detesta, né??

Agora vamos para o seu post! Fico encantada com a maneira que tu consegue descrever os lugares, não só nesse texto, mas na maioria dos teus outros. Tu descreve detalhe por detalhe, além das ações do personagem. Acho incrível.
A idéia de fazê-lo escrever na parede foi fantástica. Também fiquei curiosa para saber quem batia na porta.
Adorei, de verdade!

Beijo grande! :D

Gigis disse...

e se acontecesse a ironia??
quem será que batia na porta?

Chantinon disse...

Falaram em Victor Hugo, lembrei do documentário que vi ontem sobre Caravaggio. Entrei em um debate sobre os verdadeiros artistas e a maldição do sofrimento, da dor.

No mundo em que felicidade é comprada, e sofrimento é algo imposto a Britney Spears e as celebridades, acho que a arte está nesse mundo dos esgotos que você descreve.

O grande problema é que não queremos viver nos esgotos, nas sarjetas. Oh! mundo difícil!

[Vamô parar com esse negócio de "gay". Isso termina queimando uma imagem imaculada... Criada com muitos anos de píadas machistas e milhares de litros de cerveja :)]

Abraços [De longe]

Hahahahaha!

Victor H. La Quay disse...

Incrivel como você descreve bem as cenas , as pessoas , os lugares ... lêr seu texto é praticamente assistir um filme e ver todos os detalhes .

cenas sempre tão perfeitas e idéias sempre são corretas marcam a alma da Literatura Vil .

Abraço.

Paulo Roberto disse...

verdade, vc escreve bem, adorei os detalhes, quem bateu a porta?
Achei vc no blog da minha conterranea no Forma nominal, achei interessante teu comentario lá e fui ver quem era, tive uma boa surpresa, tô linkando vc e voltando mais vezes pra ler os outros post´s.

um forte abraço!

M. [doc] B. disse...

Como tu se passas? Saudades da sua pessoa... (:

Let's disse...

"É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida"

com essa frase, eu pensei num final otimista... aí vem o pulo... me surpreendeu!

não concordo com a atitude, mas a reviravolta,(pelo menos, pra mim) foi muito boa!

bjus!

Samilla Fonseca disse...

E à porta, quem era? Meu deus, fiquei curiosíssima!!! Oo


;*

M. [doc] B. disse...

A curiosidade me consome...
Qual será a nova maravilhosa surpresa que me passarás? :)

Chantinon disse...

Cara, vou te dar uma dica...
Como seus textos são longos...
Arruma um modo de deixa-los em .PDF
Assim dá para imprimir, ler e divulgar com os amigos!

Girotto disse...

Maluco, ficou muito bom o texto, sucesso de crítica. Felizmente não lhe falta nenhuma inspiração onírica.

Agora vou ler o novo.

Abraços

Anônimo disse...

Chantinon

Sim cara, é uma boa idéia, e eu realmente pensei nisso... breve farei isso, converto todos eles num arquivo PDF, divulgo e disponibilizo aqui para download. Pensei nisso até porque vou registrá-los na BN.

De qualquer modo, valeu pelo toque!!

Anônimo disse...

Eu lembro desse. Inesquecível.