Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea".
Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autosustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.
O desejo de ser um militar de carreira se foi. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.
Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, afinal. Assim lhe diziam os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. Para aquele jovem acidentado, no entanto, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É fato que suas habilidades básicas lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.
Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em concentrar-se. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".
Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância. Mas rapidamente tornou-se mais que isso; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Eu, que só o via por meio de meu antigo colega de escola, passei a, eventualmente, visitá-lo. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado (dava vontade de chorar quando eu o via sem sequer conseguir se levantar após umas poucas doses). Mas ele ainda bebia às escondidas. Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.
O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A ele obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom amigo.
Então, senti saudades.
Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa - o meu espanto, meu arrepio, meu sobressalto, e o retorno daquela vontade de chorar - quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...
Esse cara estragou a sua vida, pensei, ao desligar mecanicamente o telefone. Mas isso era besteira. Era julgamento. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Ele apenas estragou á sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a minha avó - minha avó não, avó da minha irmã... uma senhora de setenta que literalmente negou até a morte qualquer possibilidade de eu ser sangue de seu sangue. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. Mais uma vez, segureia as lágrimas por ele. Bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar, pobre homem. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, como a senhora minha mãe, que vive por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.
E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.
Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.
Mais uma vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.
Com o pensamento em Adelmário de Souza Matos
Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autosustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.
O desejo de ser um militar de carreira se foi. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.
Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, afinal. Assim lhe diziam os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. Para aquele jovem acidentado, no entanto, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É fato que suas habilidades básicas lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.
Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em concentrar-se. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".
Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância. Mas rapidamente tornou-se mais que isso; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Eu, que só o via por meio de meu antigo colega de escola, passei a, eventualmente, visitá-lo. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado (dava vontade de chorar quando eu o via sem sequer conseguir se levantar após umas poucas doses). Mas ele ainda bebia às escondidas. Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.
O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A ele obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom amigo.
Então, senti saudades.
Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa - o meu espanto, meu arrepio, meu sobressalto, e o retorno daquela vontade de chorar - quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...
Esse cara estragou a sua vida, pensei, ao desligar mecanicamente o telefone. Mas isso era besteira. Era julgamento. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Ele apenas estragou á sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a minha avó - minha avó não, avó da minha irmã... uma senhora de setenta que literalmente negou até a morte qualquer possibilidade de eu ser sangue de seu sangue. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. Mais uma vez, segureia as lágrimas por ele. Bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar, pobre homem. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, como a senhora minha mãe, que vive por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.
E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.
Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.
Mais uma vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.
Com o pensamento em Adelmário de Souza Matos
13 comentários:
chorar um mistério para mim, principalmente em despedidas... acho q sou durona...
Sabe, � muito f�cil para a fam�lia desse homem conden�-lo como um parasita pelo que ele se transformou. Eu acho uma besteira quem se entrega a bebida, ao cigarro, a marginalidade, devido as frustra�es que a vida nos traz. Mas s� quem vive uma situa�o dessas sabe o quanto pode ser dif�cil encarar os problemas. N�o � todo mundo que consegue tirar de letra e dar a volta por cima, por isso, n�o condeno ningu�m por, muitas vezes, errar - e acabar deixando que a vida lhe leve para algum lugar.
Sobre sentir saudades, � engra�ado. Tem horas em que sentimos uma falta danada dos velhos amigos e, quando vamos procur�-los, vimos que tomaram rumos diferentes. Muitos deles nem lembram do nosso rosto, dos momentos em que dividimos juntos. Outros, embora o tempo tenha apagado certas recorda�es, conseguem guardar um certo carinho pela gente.
Apesar de ser dolorosa, as despedidas s�o importantes. � como fechar uma porta e, logo depois, abrir uma nova, para aproveitar o que nos espera do lado de fora.
Quero agradecer � suas visitas l� no meu cantinho. Os teus coment�rios s�o os que eu mais gosto de ler. Possuem uma opini�o bem pr�pria e muito conte�do. Assim como os teus textos, que eu adoro demais (e n�o canso de falar isso). Beijo grande!
PS: ah, n�o sei se encontrei meu pr�ncipe encantado. Ele n�o � nem um pouco parecido com o Di Caprio e as vezes t� mais pra sapo do que pra pr�ncipe. O bom � que ele me faz um bem danado, e � isso que importa ^^ .
Massa, cara. É pena que seja reciso uma vida tão angustiada pra que alguém possa escrever esses belos textos.
Abraços
"As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar."
Eu não costumo segurar o choro. Muito menos agora.
"Ter saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio." (Alceu Valença)
Receba aí o meu sincero abraço...
Nunca me esqueci da cena de Tomates Verdes Fritos...
Tem um bebum mais prá lá do que pra cá...
A bondosa senhora leva a garafa do líquido precioso aquele velho moribundo.
Se me perguntarem o pior defeito de um humano, eu digo... é esse tal de julgamento!
E o pior... o pior não é segurar o choro e depois chorar compulsivamente.
O pior é não dar o adeus, mesmo que último, mesmo que a pessoa nem se lembre de você.
Isto sim, é o pior.
Se cuida.
Não segure o choro.Expresse-se!!
Caralho, Leonel. Muitíssimo bom. E emocionante de uma forma madura.
Interessantíssimo como você tratou de outra pessoas, situações alheias, como narrador dos próprios sentimentos. Sendo você personagem ou não.
Parabéns!!! Já tá na minha lista dos melhores!!!
É com muita satisfação, logo eu que estou começando, que visito blogs de verdade, com conteúdo a mostrar. Quero ler tudo, não somente este post. Eu também voltarei. Com toda a certeza.
Gosto de ver jovens com a metade da minha idade e que se interessam pela boa escrita. Que não se submetem aos modismos baratos, como tu. Na filosofia tenho colegas de tua idade e muita maturidade. Isso me causa parplexidade pois minha filha tem 21 anos e ainda é infantil ou dengosa. Até breve!
Pois é Leon, a sigla saiu errada mesmo, o pessoal do TDB errou. Agradeço aos elogios quanto ao layout e também ao blog, fico muito feliz mesmo! Ah, sobre a rotina, concordo plenamente com o que tu disse. Sempre tem um que vai dizer que não devemos misturar o branco com o preto, nem ter rock e música clássica na mesma pasta do computador. Numa propraganda de tevê, agora não lembro do que era, mas era explícita a idéia de que tínhamos que modificar o tempo todo e nunca nos acomodar. Claro que é chato fazer a mesma coisa todos os dias, mas fugir da rotina também é um saco. É sempre legal balancear as coisas (tudo o que é demais faz mal, lembra?). Mudar a rota de vez em quando faz bem, assim como trocar a marca do biscoito salgado. Mas não para todo o sempre.
Olha, eu sei que tu demora para postar, mas eu estou aqui esperando por novas postagens, ehehehe. Brincadeira, eu entendo teus motivos. Beijo grande!
Segurar o choro, algo que não consigo fazer. Já tentei, mas para mim não deu. Chorando ou não a dor existe. E dor como a das despedidas são foda.
Oi querido, como vai?
Quanta sensibilidade.. estou impressionada!
Sabe... eu perdí grandes e queridos amigos(as).. e também não tive a chance de me despedir.
A vida nos direciona, nos move... e cada um segue um rumo.
Mas, o que me consola é saber que. fiz parte da existência, de cada um deles.
Sobre a maneira de lidar com um fracasso, é complicado julgar.
As vezes, tudo o que uma pessoa precisa, é de uma palavra, um ombro.
E, na maioria das vezes, as pessoas viram as costas.
Conseguí, demover a idéia de suicídio, de duas amigas. Elas estavam à um passo de cometê-lo.
Tudo o que fiz, foi ouví-las.
Hoje estão com seus maridos, com filhos, e felizes.
A humanidade anda muito apressada, para chegar nem se sabe onde.
Acabou o companheirismo... poucos se importam com o próximo. Passam a maior parte do tempo, olhando para o próprio umbigo.
Acredite, meu lindo... você foi muito importante para esse amigo.
Você lhe deu alento e, onde quer que ele esteja, há de ser-lhe muito grato.
Obrigada pela visita.
Beijokinha carinhosa.
Vassourando
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