Quando terminei de me aprontar e vi que eram 23h, senti logo um arrependimento por ter topado o convite. É verdade que meu colega Daniel muito insistira para que eu lhe desse uma carona e o acompanhasse àquela festa e eu estava devendo mesmo esses favores, mas, que droga, o que eu vou fazer numa festa universitária?! Sobretudo quando o perfil dos presentes não foge muito ao estilo de playboys e patricinhas?... Sequer tinha roupa para ir - estava usando uma botina como calçado. Finalmente, só aceitei porque a bebida seria livre, embora minha resposta tenha sido travestida, para meu camarada, de "só topei porque vai ter muita mulher"; convenhamos, as garotas que ali veria seriam as coisas de menor valor do local...
E foi exatamente como pensei. Eram todas lindas, maravilhosas, perfeitas, mas não conseguiam sustentar a própria beleza. Senti-me completamente deslocado, ainda que meu amigo tentasse me entrosar na sua roda de conversas inúteis. A festa era de universitários do curso de Biologia (também chamado de BioloRgia), e eu e o Daniel sabíamos que nossa presença por ali seria interrompida assim que ele encontrasse, para passar o resto da noite, a sua cocota, como gostava de dizer..
Eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que via a multidão. Quando, ao meu lado, apareceu uma menina, senti um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa, uma boneca, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, talvez por manter fixo olhar em mim por mais de dois segundos, rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa história, abri de modo bastante original a conversa:
- Oi?
Ela me ignorou, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem, desta vez, expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.
Do outro lado, Daniel corria em minha direção, até dizer, ofegante, apontando para duas garotas tão bonitas quanto sem-graça:
- Bicho, você não sabe o que encontrei! Tem duas garotas ali disponíveis, estão chamando a gente até o apê delas. S'embora cara, vamos nessa!
- Vá lá, irmão. Vou ficar por aqui.
- Como é?! Você é louco?! Vamos lá, rapaz! Uma noite com uma garota dessas não se esquece!
- Garota, o que é isso mesmo? Esqueci...
- Puts cara, e você que pegava geral no tempo do médio...
Tive que topar o convite, a fim de que ele parasse de falar tanta besteira.
Uma das garotas estava com o carro do pai, e fomos de carona com elas, num papo bastante animado entre a motorista e meu parceiro Daniel nos bancos da frente. No de trás, eu estava acompanhado pela Dina, que morava no apê com a amiga. Eu lhe disse que não era chegado a apelidos e lhe perguntei seu nome, mas ela se recusou a dizê-lo.
- Cuidado com o meu amigo estranho - disse Daniel -, ele não deve transar há dez anos, é mais chegado em árvores e ovos crus - essa piadinha, como outras, fez sucesso no carro, e as meninas riram.
No apê, que era ali no badalado bairro de Ponta Negra, e era um senhor apê, maior do que minha casa, meu amigo tratou de agarrar sua garota e levar lá pra dentro. Logo ouvimos gritos e gemidos. A Dina também não estava muito para papo e veio em cima de mim, tirando meu cinto enquanto nos beijávamos. Sua boca tinha um maldito gosto de cigarro, e eu sempre odiei cigarro, desde a primeira vez que vi minha mãe fumando, desde que um médico me recomendara ficar a dezenas de metros de um cigarro, desde que beijei a primeira garota, tudo isso ali há muito tempo atrás. Quase escarrei na boca da pobre da Dina, mas me contive e a afastei lentamente, ainda que com certa brusquidão.
- Pare - falei. - Que tal se você escovasse sua...? - ela me deu um tapa antes que eu terminasse a frase.
- Quem você pensa que é, seu idiota, imprestável?
- Quer parar de falar assim?
- Qual o seu problema? Você é um veadinho ou o quê?
- Chega, vou embora daqui - ela me deu um novo tapa, e tentou dar uma seqüência deles, mas eu a pus à força no sofá, ordenei que ficasse ali, e saí batendo a porta.
Era madrugada e eu decidi que iria a pé pra casa, já que a moto eu havia deixado lá no estacionamento disponibilizado para a festa, e só voltaria lá em 24 ou 48 horas para pegá-la. Nesse momento, contudo, eu só queria ir para casa. Caminhava desolado e cansado pela Roberto Freire, avenida famosa pela grande incidência de travestis se oferecendo para motoristas e andarilhos insones sedentos de sexo, e um deles chegou a me interromper, oferecendo uma noite maravilhosa. Como não tinha interesse, disse-lhe apenas que não tinha dinheiro.
- Então não rola, conheço seu tipo.... vive sem dinheiro e só se consegue coisas fáceis... mas quem busca facilidade não encontra qualidade nem substância. Lembre disso, querido.
No fim de tudo, fui obrigado a concordar.
13 comentários:
Tua cara esse conto...
"...é mais chegado em árvores e ovos crus" - hilário.
Valeu, professor!!!
A última frase se encaixou direitinho no resto do conto. Também acho que vale muito mais uma pessoa na qual podemos conversar, do que apenas um contato físico por uma noite e depois, nada mais.
Bem estranho, geralmente os garotos aproveitam o mole da garota para "dar uma curtida". Bom que és diferente. " Não encontramos no que é facil a tal qualidade e substancia".
Beijo, beijo!
Uma festa... mulheres vazias...um beijo em um cinzeiro, ops, em uma moça...
As vezes depende muito do que buscamos e do que queremos encontrar.
Neste conto, tudo se encaixa.
Queremos buscar incansavelmente as coisas que queremos e nos frustramos por que escolhemos caminhos errados ou mais fáceis mas que acabam nos desviando do nosso objetivo!
Ótimo texto para uma abordagem filosófica.
Beijos!
Tava com saudades de passar por aqui com tempo e te ler!
Adorei.
foda, to curtindo os contos.. continue assim Leon !
que histórias! uiaehuiaehuiae
ninguém merece esse tipo de festa, prefiro ser rotulada de nerd por preferir game party e butecos do que ir nesse tipo de coisa, mas com amigos não tarados e trago livre que mal tem né?
Gente que fuma é um porre ainda mais pra mim que tenho rinite e asma.
beijo amo ler aca...
pena que vou ficar um pouco afastada...
Não sei se é um conto ou um relato, mas de qualquer forma, ficou muito bom...
É o tipo de texto que a gente lê sem perceber o tempo passar.
Infelizmente, a sua crítica não é nem um pouco anacrônica... Está difícil encontrar não apenas mulheres, mas SERES HUMANOS que passem além da superficialidade. Esse culto moderno ao hedonismo simplesmente não me agrada...
Mas cada um com suas escolhas. Não critico quem só quer saber de "curtir a vida" como um filme de sessão da tarde - não posso sequer dizer que isso é errado, não sou dono da verdade (exceto, talvez, da minha verdade).
Só posso mesmo lamentar por não encontrar pessoas que pensam como eu, pra que eu possa ao menos me isolar em uma ilha cercado de boas companhias...
Muito bom!
Mas com esse seu papo, você tá é filtrando e pegando só as que não fumam! Hahahah!
Não vou negar que quando chegou na parte dos travestis eu fiquei assustado... afinal, como seria o final dessa historia?
Hahahha!
Na minha opinião ninguém descreve o mundo melhor que Nelson Rodrigues, e por sorte nossa, existem vários autores ao estilo Charles Bukowski, afinal, essa vida é uma merda mesmo! :)
E você vem caminhando para juntar esses dois mundos, sexo e frustração... Disso ai nem os "universitários" escapam.
Sou super crítica com relação a esse assunto. Não que eu goste de isolar das pessoas, mas prezo bastante alguém com que eu possa bater um "papo cabeça". As pessoas jogam pedras em mim quando falo que patricinhas são anorexas com merda na cabeça. Não é preconceito contra elas. Mas é que isso é clichê e previsível. Muitas pessoas só sabem enxergar o superficial da vida, as aparências.
Sinto tristeza quando penso nisso.
o engraçado, é que a única garota que vc chegou a pensar ter um intelecto parecido com o seu, foi a que de relance, chegou a dar uma atenção pra vc... garanto que se ela falasse sobre o faustão, mas olhando profundamente nos teus olhos, vc diria que ela era uma discípula do macluhan, hahahahahaha...
muito divertido o post! e note: não estou rindo da desgraça alheia!
bjus!
Ahh as coisas aki estão assim tb, as vezes eu saio com esperanças e elas logo são dizimadas com um ambiente hostil e cheio de pessoas que não querem nem saber o nm. Pelo menos vcs homens são ignorados, a gente tem q fugir de apalpadas e assovios.
Gostei muito do seu blog e da sua forma de escrever, irei aparecer mais vezes. ;)
eu quero fazer biologia, depois dessa vou até pensar melhor.. uahsuias :P
Bom Dia.
Não pude deixar de rir ou ler seu texto.Não,eu não estava rindo de você.Estava rindo de nós todos...
Todo o processo civilizatório e contrato social e...agimos de forma tão primata.
Pouco mudou no que diz respeito aos padrões de afetividade.Talvez a plasticidade moderna que recobre os relacionamentos não passe apenas de uma fina camada de verniz.
No fundo continuamos um bando de fêmeas a busca dos melhores reprodutores.E os machos a busca da melhoria da especie.
ps.Somos colegas de labuta
Docente em sociologia
Prazer em ler vc.
http://lagoadetapes.blogspot.com
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