- Cara, você parece um velho, um personagem de livro, um sei lá o quê... impossível rolar algo sério entre a gente!
Eu ainda me lembro de quando levei esse fora, embora já tenha uns anos para trás... Depois disso, a garota me derramaria tantos elogios que eu fui para casa com o ego mais inflado do que se tivesse voltado com o peso simbólico de um namoro nos ombros, mesmo sabendo que eram, todos eles, da boca pra fora. Fiquei pensando um pouco no que ela havia falado. "Um velho, um personagem de livro, um sei lá o quê"... o que seria esse sei-lá-o-quê? A que personagem de livro será que ela se referia? É verdade que ela já havia me dito que eu o parecia antes dessa ocasião, mas eu nunca me adiantei a perguntar, por alguma boba razão impossível de entender.
Eu ainda me lembro de quando levei esse fora, embora já tenha uns anos para trás... Depois disso, a garota me derramaria tantos elogios que eu fui para casa com o ego mais inflado do que se tivesse voltado com o peso simbólico de um namoro nos ombros, mesmo sabendo que eram, todos eles, da boca pra fora. Fiquei pensando um pouco no que ela havia falado. "Um velho, um personagem de livro, um sei lá o quê"... o que seria esse sei-lá-o-quê? A que personagem de livro será que ela se referia? É verdade que ela já havia me dito que eu o parecia antes dessa ocasião, mas eu nunca me adiantei a perguntar, por alguma boba razão impossível de entender.
Mas quando ela disse que eu parecia um velho - ela não seria a única pessoa a dizê-lo - a mim não foi novidade nenhuma; desde bem moleque já ouvia adjetivos do tipo, e mais ainda nos últimos anos. Eu passei um dia desses dos vinte outonos, mas percebo que meu corpo anda se deteriorando há tempos. O que é natural, para quem tem uma média de quatro horas de sono por noite como eu.
Dia desses, estava bebendo e conversando com uns amigos numa praia, quando fui com vontade demais ao gargalo...
- Argh! Ugh! Cof cof cof...
- O que foi, cara?! Tá engasgado?
(Cuspi.)
- Nossa, quase morro... O que é isso?
- Sei lá, meu... tem muito sangue... mas parece um... um dente! É isso, é um dente!
- Nossa senhora! - digo, mexendo no maxilar como se o estivesse pondo no lugar, procuro o retrovisor de um carro e como, através de um sorriso forçado, percebo que todos os dentes frontais se mantinham ali, não dei mais muita atenção ao acontecido.
- Meu, caiu um dente da sua boca... isso só acontece até os doze anos de idade ou depois dos setenta, cuidado cara!
- Nunca gostei do gargalo dessas garrafas de cachaça.
Só muitas horas depois, quando eu já estava em casa, lúcido, e fui escovar os dentes, percebi que realmente um dente me havia caído, um lá de trás, cuja classificação não faço idéia. Fiquei pensando como poderia ter caído logo um dente super-escondido, bem guardado nas trincheiras bucais, mas não me ative mais do que isso. O lado bom nessa história toda foi que a dor de dente que eu sentia já há cinco dias, enfim, se foi... o problema que me abateria a partir desse instante tragicômico seria uma intragável dor de ouvido!
Com tais dores, vinham zumbidos, sons de motores de avião e sinos dobrando dentro da minha cabeça. Sempre os ouvi, mas agora estavam em níveis elevadíssimos. O que, pelo menos no caso dos sinos, me apavorava: quando criança, sempre tive medo do som que eles emitiam... era um prenúncio de tudo o que há de ruim, eu pensava. Por quem esses sinos dobram? Pelos que vão ou pelos que ficam?
Essa agonia dentro de minha cabeça só poderia ser combatida se eu mantivesse minha audição ocupada. Tratei então de maltratá-la como eu bem sei, voltando a escutar música nas alturas até estourar, literalmente, as potentes caixas de som que tinha no quarto... outra alternativa era voltar a freqüentar os shows de rock nos bares do Centro e utilizar de modo incessante o fone de ouvido, que passou a me acompanhar quase diariamente onde quer que eu fosse.
- Ei, você... o que está achando da música?
- Oi? Como, professor? - pergunto afobado, lembrando que estava numa aula ao ver que o professor me apontava o dedo e retirando rapidamente o fone de ouvido... - Perguntou algo?
- Perguntei o-que-está-achando-da-música? - ele tinha a voz pausada e em tom elevado, tipicamente irritado.
- Ah não, professor, não é música... é o jogo do ABC na fm...
- Fora.
Durante essas férias que ainda não acabaram, no momento em que eu estava novamente ouvindo um jogo via fm com o fone de ouvido, notei que de repente um dos fones tinha estourado... comprei outro fone mas percebi que ele também não funcionava, o que achei estranho. No entanto, pouco depois, eu constataria que não foram os fones que queimaram - meu tímpano direito é que foi pro espaço...
- ... Ou isso pode representar o que chamamos de "perda progressiva da audição" - disse-me o otorrino com cara de peixe morto (cara de médico.)
- O.K., como reverto isso?
- Bom, se for esse o caso, e você só saberá após uma audiometria, não há como reverter.
- Hã? Repita essa última parte...
- Eu disse, garoto, que não-há-como-reverter! - agora estava com o mesmo tom pausado e elevado do professor.
- Peraí... a Medicina vive falando em transplantar coração, clonar organismos, e não consegue resolver uma mediocridade dessas?!
(silêncio)
- Que frustante devem ser as pesquisas da área de vocês, não? - tentei provocar.
(silêncio)
Na hora, pensei: "é por mim que os sinos dobram, e eu não sabia"...
- Tudo bem, mas não pretendo fazer audiometria, não gosto dessas bobagens... O que o senhor me recomenda como alternativa?
- Procure um psicólogo, já não posso fazer mais nada.
Sabe aquela velha história de pimenta nos olhos dos outros? Foi assim que percebi a situação.
E as pragas continuarão... para sempre.
15 comentários:
Olá meu grande comentador. Venho e o encontro triste.
Aparenta ter vivido muito, por isso o sentem velho, tem sabedoria.
Sou sensível e esta postagem me sensibilizou mais. Com esta postagem lembrei de Shopenhauer. Beijos!
Essa semana fiz 36 anos. Hoje foi aniversário de uma tia que gosto muito, 78. O filho dela, meu primo, foi meu melhor amigo. Comecei a mergulhar com ele com 14 anos, e até os 22 ainda eramos parceiros de mar. Mesmo esse sujeito sendo uma das melhores referências em caráter, amizade e inteligência, terminei me afastando dele. Ele é funcionário público, alcoolatra e totalmente desregrado. Eu não queria isso para mim. A historia do dente me lembrou ele, que estava hoje no aniversário da mãe. O cara tem 43 anos, parece ter 60. A única coisa que construiu no mundo foi uma filha, que por sorte não usa o pai como referência.
Meus amigos sempre me chamaram de "velho"... Mas no sentido de ser chato e caxias (certinho)... Mas ainda não estou perdendo os dentes :)
Sempre a melhor opção é viver mais, mesmo a vida sendo uma merda.
Rapaz... eu passei dos vinte há pouco, mas não me acostumei com a idéia de estar no meio termo dos trinta.
Quanto aos dentes... tive que extrair 8 (4 do siso, 4 pré molares)por causa do aparelho e tive de aguentar gozação sobre eu fazer prótese e não aparelho.
Já quanto a audição... a minha não é das melhores e estou postergando a audiometria. O meu problema é o som alto do fone... Mas pensa: tenho vizinhos insuportáveis, ando num fretado cuja rádio eu odeio. Fico sem alternativas. rs
Mas se cuida, viu? Se os sinos dobram por você? Não sei, mas o barulho deles me irritam. rs
Beijos! ^_^
Eu ainda estou novinha, mas já tenho problemas de audição, sofri perda progressiva da audição, por um timpano estourado na infancia, mas como cuidaram direito eu escuto um pouco. Mas no fim vou ficar bem surda quando chegar aos 30, eu acho.
Não perdi nenhum dente, só os de leite, mas tenho que perder os sisos. Não sei se tenho cabelo branco pq a cada 20 dias +- pinto o cabelo de vermelho. Foda, mas sinos são coisas bizarras mesmo. Eu sempre relacionava a filmes de terror e palhaços, eu tinha panico de palhaços. Beijos...
Ah alias depois de "trinta anos" te linkei no meu blog ^^
Se tem uma coisa que me dá medo, que tenho pesadelos recorrentes e faz com que eu olhe no espelho quando acordo, é a perda de um dente. Odeio a idéia, odeio a sensação e, odeio pensar no assunto. Odeio a coisa do dente caindo e o sangue jorrando desse conto (que não sei até que ponto é real), mas como já disse, o que me pertuba é o que me atrai. Por isso, mais uma vez, parabéns pelo texto.
Costumo dizer que quando alguém parece velho sem ser, é porque a alma é sábia e antiga. Porém nem todos tem maturidade, ou melhor, inteligência emocional para lidar com isso. Falando nessa inteligência, sabe onde posso comprá-la? rsrs
Esses dias fiquei pensando, que por mais que eu esteja na flor da idade e isso e aquilo, tenho uma leve sensação de que muitos anos se passaram e tudo que me resta nessa velhice precoce ou não, é uma casa vazia, vizinhos distantes e irritantemente barulhentos, um gato que se contorce ao me pedir carinho (nota-se: não sou chegada nesses bichanos), cabelos branquinhos como a neve e revoltos como nos tempos em que eu insistia em inventar passos para conquistar alguns sorrisos. Isso quando ainda tinha pernas flexíveis e os bailes não tinham muitas crianças.
Eu pensei nisso, e me encaixei no teu texto.
Tenho meus dezenove anos, mas minhas linhas de expressão e preocupação me dão bem mais do que posso calcular agora.
E o tempo não pára.
Quanto ao grifar algumas palavras nos meus textos, eu aprendi num blog, um tempo atrás, no estilo de "dez coisas que você precisa saber sobre blogs e visitas", digo que só fiz essa única dica ("negretiar" algumas palavras) e isso me trouxe leitores que estão comigo até hoje. Deu certo!!
Beijo grande, adoro te ler, aqui no teu blog, ou em comentários para mim ou para outros blogs. Acompanho-te.
Ia te indicar para receber os prêmios, mas daí andei olhando o blog e vi que não tinha nenhum selo. E como a boa imaginação que tenho, pensei que você não tivesse gostado da moda de receber selos. Pois há pessoas que não gostam de receber, pois consideram algo banal. Fiquei com receio de mandar e você não gostar muito...rs. Liga não, eu sou complexada assim mesmo. Da próxima indicarei o seu, pois o blog merece. E muito!
Abraço!
Nossa, tu me contou toda essa história pelo MSN e agora estou assim, bege, boba com a tua capacidade de transformar essas situações digamos que...chatas, em uma história com um certo lado cômico.
Eu acredito que há dois tipos de velhice: a externa e a interna. Quando as rugas começam a se acumular em nossa face, nosso corpo torna-se mais lento e começam a surgir problemas típicos da 3º idade, nada mais é do que um processo da vida, na qual nossa casca envelhesse e, daqui um tempo, não serve para mais nada.
Bem, a velhice interior é ainda mais grave que a do "lado de fora". Isso porque ela pode surgir quando você ainda tem a pele lisinha, órgãos sadios e poucos anos de vida. Essa sim nos encomoda, faz com que a gente perca o prazer de viver, passamos a ter preguiça das outras pessoas, enfim, é como se todas as nossas idéias, desejos e sonhos envelhecessem também.
Eu espero que esse não seja teu caso. Eu quero acreditar que tu manterá uma alma jovem por todos os anos que estão por vir. Eu desejo que, mesmo com um tímpano estourado e um dente a menos, tu possa demonstrar mais o teu lado juvenil, tanto nos textos, como na forma que tu te expressa.
Eu peço que, por favor, não deixe que o peso do tempo te canse, fazendo com que tu envelheça tão depressa.
Ah, agora falando de medicina: eu também fico sem entender como existe a cura para doenças mais novas e graves e, falando de casos mais simples, não existe se quer uma chance de reversão. Até mesmo o câncer, que é uma coisa que existe há muito tempo e que nunca descobriram uma vacina ou a cura total.
Beijo grande, Leon! E desculpa a demora, escola tomando meu tempo geral.
Meu deus, escrevi uma bíblia!
Ah, nossa! É deveras frustrante viver a velhice antecipadamente, porém, é ainda menos frustrante do que chegar à velhice propriamente dita. Problemas de audição, perda progressiva de memória e coordenação motora, até chegar à dependência.
E, meu caro, nos dias atuais, esperar pelos outros anda tão difícil que eu recomendaria uma boa cadeira estofada, se é que me entendes.
Sobre Rimbaud, li poucas coisas dele, mas muito me agrada a sua comparação, fico lisonjeada.
Ah, nossa! É deveras frustrante viver a velhice antecipadamente, porém, é ainda menos frustrante do que chegar à velhice propriamente dita. Problemas de audição, perda progressiva de memória e coordenação motora, até chegar à dependência.
E, meu caro, nos dias atuais, esperar pelos outros anda tão difícil que eu recomendaria uma boa cadeira estofada, se é que me entendes.
Sobre Rimbaud, li poucas coisas dele, mas muito me agrada a sua comparação, fico lisonjeada.
Te indiquei uns selos. =D
Beijos.
Perco cabelos e memórias...
Com certa frequencia!
E eu ainda nem se quer avancei os 21...
Belo relato!
Leon como é gostoso esse apego por ti! (:
Passei esses dias longe, mas pretendo voltar. Estava meia alucinada com os estudos e umas conturbações sentimentais. Mas é tão recorfortante saber que você lembra de mim. :D
Adorei ver cada comentário seu... Muito, mas muito obrigada por ter lembrado o meu aniversário. Fiquei tão feliz que abri um sorriso de ponta à ponta do rosto! :D
Nesses momentos a gente entende o sentido pra várias coisas.
Tô com o tempo super apertadinho, prometo que nesses feriadões que se sucedem venho aqui com bem mais calma e dou uma olhadinha em todas as atualizações. Juro pra ti que a curiosidade me ronda!
Abraços grande!
hahahaha!!!
"Procure um psicologo, não posso fazer mais nada..."
hauhauhaua...
Medico escroto, ele queria o que que você dissese obrigado doutor, fico feliz em saber...????
aff...
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