Eu preferi não pensar em muita coisa quando fui jogado naquela cela que exalava umidade e fedor. Lá dentro, fui ter com outros três caras, todos velhos, cinqüentões aparentando mais de setenta. Eu era o único garoto preso naquela delegacia. Na verdade, havia também outro garoto - meu primo -, mas ele foi para outra cela. Eu estava de temporada numa cidade pequena do interior do Rio Grande do Norte chamada Brejinho, na qual a família tinha um grande sítio, onde eu e meu primo passávamos o dia proseando, tomando sol deitado numa rede, e na noite íamos passear pela cidadezinha, e sentávamos na praça central para sentir melhor a brisa e as garotas oferecidas do povoado. Na época, tínhamos vinte anos. Em várias dessas ocasiões os policiais nos baculejavam, mas só nessa vez eles roubaram a benzina que meu primo em vão tentara esconder, e também somente nesse dia os fardados cumpriram a velha promessa de nos fazer dormir no xadrez.
No fim do corredor das celas, o tímido soar do alarme de um relógio digital, que deveria ser do polícia que fica de plantão, parece que despertava o trio com quem eu dividia a cela. "É meia-noite", disse um deles. "Mais um dia no inferno para o meu currículo". Seu parceiro de beliche lembrou que o inferno decerto era muito pior que aquilo, e que era questão de tempo até experimentarem - todos estavam esperando seus julgamentos. A conversa entre eles se estendia e todos ignoravam a minha presença, o que me incomodava, mas também me tranqüilizava. Enquanto eu estava com pensamentos viajantes, contudo, percebi que em dado instante fez-se um silêncio na cela e, ao que notei, os três me vigiavam.
- Estuprou a namoradinha? - Perguntou-me o cara que estava na parte de cima do meu beliche. Seu bafo estava horroroso, a partir do qual se sabia perfeitamente qual era a dieta que praticava: cachaça, café e feijão-com-arroz. Eu quase gofei e escondi minha careta com as mãos.
- Esse parece com aqueles abobados que fumam maconha na escadaria da Igreja todo dia.
- Eu não fiz nada - falei, enfim, com a impressão de que dissera uma grande idiotice.
- Nenhum de nós fez nada, seu babaca! - Defendeu-se o primeiro, um velho desdentado.
- Está nos chamando de trapaceiros?! Criminosos?! - Desafiou o segundo, um negro alto porém magrelo e preguiçoso.
- Você já deve ter ouvido falar na recepção que se faz na cadeia para os novatos, não é? - Disse o terceiro, tentando me intimidar. Ele tinha sobrancelhas grossas que escondiam os olhos sádicos; era muito peludo e gordo, mas não se mostrava forte. Quando me fez essa pergunta, esfregava as mãos com calma.
- Tente alguma coisa e eu quebro seus três narizes sujos, seus velhotes.
Eu certamente não era nenhum grande lutador, mas não seria tarefa árdua me defender daqueles coroas se necessário fosse, e eles sabiam disso.
- Escutem - falei -, por que vocês não me emprestam um gole dessa breja para baixarmos a poeira por aqui?
Sabe-se lá onde eles arrumavam aquelas garrafas de cachaça, mas percebi o desdentado, que era também baixinho, grisalho e tinha um andar torto, escolhendo um dos três litros dispostos na cabeceira de seu beliche e me passando-o de imediato. Obviamente, não havia copos nem nada que lembrasse a menor higiene. O gargalo estava ensebado por completo, e eu engulhei mais uma vez quando vi onde poria minha boca. Pelo visto, nenhum deles utilizava a piazinha que estava chumbada na parede para a mínima limpeza bucal, mas eu tentei dar uma utilidade para aquele acessório.
- Vá lá, desculpem, mas eu preciso dar uma boa lavada nesse gargalo - disse (como se um passar-água fosse suficiente). Enquanto eu esfregava a garrafa na pia, um deles me perguntou: - Todo mundo na cadeia é preto, pobre ou burro. Você se encaixa em qual destes?
- Sei lá, sou meio preto e meio pobre, como vocês podem ver. Mas burro não sou mesmo! - Disse isso e girei a garrafa. O álcool saiu queimando minha garganta, nunca acostumada a esses mal-tratos, sobretudo por fazer meses que eu não bebia. Mesmo assim, bebi todo o resto do litro. Eles riram com o meu desconforto, mas a risada desta vez era carismática, camarada. A partir daí, senti que ficaria muito mais fácil passar todas aquelas horas por ali, pois o amanhecer estava ainda muito distante, e provavelmente eu não dormiria até lá.
- Sente-se, sua garganta tem a madrugada toda para se adaptar. - Disse o desdentado, que se chamava Tinoco. Dos outros dois, não me recordo o nome.
- Eu comi a filha do prefeito. À força. O pneu do carro dela furou na frente da minha barraquinha, que fica bem depois do Posto. Então aproveitei. Por isso estou aqui. - Disse o negro. E continuou: - Pena que não era nenhuma adolescente. A mulher já tinha lá seus 40.
- Ouvi falar no seu caso. Gerou estardalhaço.
- Pois é, fiquei famoso. - Disse o negro, exalando orgulho e auto-afirmação. Ao contrário do que fizera este cafajeste, os outros dois não tinham feito nada mais sério. O gordo foi pego, como se imagina, roubando comida. Sanduíche. Em flagrante. No ato, tentou resistir à detenção e ainda causou estragos no trailler que era o ponto de encontro jovem da cidadela. O velho desdentado estava lá porque a pensão estava atrasada. Há seis meses, desde que foi declarado que ele deveria pagá-la.
- Eles podem me manter preso por 1000 anos, porque nunca pagarei essa pensão.
Tinoco dizia que amava a ex-esposa, e pagar a pensão seria assinar embaixo o divórcio e financiar a nova vida dela, barbaridade à qual ele não poderia se submeter. Pelo que contava de seu casamento, parecia ter sido muito devoto e carinhoso, mas nunca se sabe. Tinha uma filha chamada Cinthia.
- Sou apaixonado por uma Cinthia - falei, e levei um soco na cara.
- Seu filho da puta! - gritava e repetia Tinoco, e foi rapidamente detido pelos outros dois.
Seu murro me pegou de surpresa; não cheguei a sangrar, mas minha boca doía muito. Na marca dessa violência, senti que havia não somente o ciúme de um pai por uma filha (sobretudo porque a Cinthia à que me referia não era a filha dele), mas o desespero de um velho que não queria perder as coisas de valor que tinha. Mas ele mesmo constatava que já havia perdido.
Não houve olhar de repreensão nem de minha parte nem da parte dos outros dois parceiros da cela pelo soco que o Tinoco me dera. Não houve nem poderia haver. Todos sabíamos que aquelas noites no xadrez nos obrigava a deixar algo para trás. Eu me mantive jovem depois daquela madrugada. Aquele trio, porém, só levaria para o fim de suas vidas o abatimento - a juventude, as aventuras, a percepção de que algo pode ainda ser mudado, todas essas coisas eram apenas uma tênue e frágil lembrança dum passado muito distante, quando Brejinho não passava de um vilarejo, e talvez nem isso. E eles viam em mim e nos moleques da minha geração apenas a certeza de que o tempo passava, mas certas coisas não mudam. Nunca.
12 comentários:
Este conto me lembrou a maneira de escrever de Graciliano Ramos. Lembrei-me de Memórias do Cárcere.Vejo em ti um pouco de Graciliano.
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Acho que tens muito o que contribuir com a blogagem sobre o analfabetismo. Tens muita experiência, professor.
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Beijos!
Lendo a postagem, imaginei um livro, contando a diferente história dos 3 prisioneiros. Acho que ficaria muito interessante. Um dia ainda quero escrever um conto a altura dos seus. O tom de melancolia que colocas em seus textos, chego a sentir daqui. Amo-os.
Ótimo, Leon.
(Aqui na janela dos comentários fica aparecendo a mensagem de que vc removeu alguma comentário:
"Comentário excluído
"Esta postagem foi removida pelo autor."
Nao seria melhor fazer com que não apareça isso, tem como?)
Valeu!
A qualidade continua impecável! Saudades daqui! :)
Toda vez que te leio sinto vontade de escrever...talvez eu tente, mas o medo de não conseguir parece maior que a vontade de tentar.
Os contos continuam a me perturbar...mas não tenho nenhum comentário decente sobre o texto em si, melhor me calar!
Huuum, que surpresa voltar nesse blog e encontrar mais um conto tão bueno! Sabe, nunca tinha pensado por esse lado, mas a menina aqui de cima tem razão: sempre que fecho o teu blog após lê-lo, dá uma vontade enorme de escrever! Talvez seja por isso que deixo para visitá-lo por último, com calma e dedicação. Assim, se a vontade de organizar minhas idéias surge, tenho todo o tempo do mundo.
Mas vamos falar do post...
Esse medo de perder o pouco que se tem é um ótimo assunto para se explorar. No caso do Tinico, que temia perder a filha para o jovem-recém-preso, fica claro que uma das poucas coisas que lhe restou foi o amor pela pequena. E não precisamos irmos longe para ver o quanto isso acontece frequentemente. Eu, por exemplo, morro de medo de perder alguém que gosto mundo, os meus pertences, as oportunidades.
Beijo grande, Leon!
Parabéns pelo texto e pelo blog em geral. Muito bom MESMO! Já linkei no meu!
Como sempre, ótimo texto!
Eu gosto mais daqueles mais "viajados"... Mas esse marasmo de cidades pequenas, suas figuras enrugadas e caricatas é um belo pano de fundo.
São pouquíssimas as oisas que de fato mudam. No geral, apenas esquecemo-nas.
Belo conto, como todos os que leio aqui. Tens o dom de escrever frases de efeito! Sempre encontro alguma que marca, porque faz sentido com o que vivo.
Gostei muito! Parabéns.
massa...muito bom mesmo
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