quarta-feira, 21 de maio de 2008

Até o Trem das Sete

Era quase meio-dia e eu precisava comer alguma coisa, em qualquer restaurante chinfrim do Centro. Fui, então, para o Panela Velha, já um antigo recinto, o único que me acostumei a almoçar numa boa. Os outros eram sujos e abatidos, características que, por mais que não me sejam estranhas, não me deixavam plenamente confortável. Mas nem por isso eram ruins. O Panela também não é nenhum primor de limpeza; aliás, nenhum restaurante que se localize ali pelo Beco da Lama é, afinal. Mas gosto de lá, desta vez em particular, sobretudo por conversar com o simpático cara da mesa do lado que puxava conversa, um tal de idade avançada, suado e cansado do trabalho pesado de ambulante, que realizava naquelas redondezas. Ele contou de suas desventuras pela Cidade Alta, de como sempre cai na laia de uns delinqüentes há tempos agem naqueles idos. "Não acredito mais em ninguém. Nem na minha mulher. E é sério! A TV mostra isso: hoje em dia, não se deve confiar em ninguém. Ninguém, meu amigo moço." Conversamos meia hora, por aí. Na hora de pagar, foi a vez de me deparar com a mulher mal-humorada do caixa, que sempre me dá o troco menor do que é de fato. "Ah, desculpa aí, jovem", é o que diz sempre, com jeito de quem chuta uma barata pro canto da parede depois de pisar nela sem querer.

Fora do restaurante, a coisa não muda muito. É meio-dia, mas ainda tem bêbado dormindo na calçada, nem sempre mendigo. Fico passeando pela cidade, e quem freqüenta o ambiente, sabe como há gente de todos os tipos: o metaleiro que fica garimpando algumas lojas de discos, as cigarreiras e bancas de artigos evangélicos onde a dona fica o tempo todo lendo a Bíblia e nem olha a chegada dos clientes. Ainda tem as meninas que estudam pelas escolas públicas dali - a maioria dá sempre bola, ou então debocha: "que é, nunca viu não??" Todas, desde a mulatinha de fichário rosa à loira "de farmácia" que pensa estar arrasando, têm um jeito de rapariga, de menina que mora no fim-da-rua, aquela que dá para todos os caras do bairro, e de quem aos 18 anos a pureza da feminilidade já é parte de um passado distante.

Por toda a tarde, ainda vejo vários tipos de toda espécie. Na Biblioteca que freqüento, encontro lá alguns coroas de ar professoral, um em particular muito compenetrado, incomodado apenas pelos próprios cabelos brancos e compridos, aparentemente não-cortados há uns três anos, que ficam voando a cada vez que o ventilador gira à sua direção. Pululando por sebos, vejo donas-de-casa mal-vestidas procurando livros didáticos para o filho: "meu filho é muito inteligente, então tem que arrumar um livro bom pra estar sempre praticando, né?" Que maravilha a ilusão de estar formando um novo-gênio!

No final da tarde, quando o Sol se põe, dirijo-me até a Ribeira. No dia em questão, eu iria para casa de trem. Fazia quase quinze anos que eu não andava de trem, mas a feroz crise financeira que se assolou não me deixava mais escolha; na capital que tem uma das passagens de ônibus mais cara do país (R$ 1,75), a passagem de trem a 50 centavos é uma rota sagrada, a via crucis do cotidiano. Todos os dias eu corria para tentar pegar o trem das 19h - mas gostava de chegar lá mais cedo, às 18h, para ver ainda o crepúsculo vespertino, colorindo o céu de vermelho e dando um brilho todo especial ao Rio Potengi.

E no trem, veja só... encontro todos eles: o velho ambulante, ainda suado; a mulher do Caixa, provavelmente com uns trocados barganhados com sua conhecida malandragem; o metaleiro, enfim com uma sacola, na qual deve levar um desejado disco, ou uma camiseta de banda; o bêbado que dormia na calçada, ainda muito maltrapilho; a evangélica, ainda com a Bíblia diante dos olhos; o coroa, aparentemente professor, com seu semblante de quem está satisfeito com a sabedoria recolhida. No meu vagão, além de entrar o ambulante, ainda revejo as raparigas das escolas adjacentes - uma delas até me reconhece: "diz aí, filé! Tu também anda de trem?" Não me lembro de ter respondido, minha comunicação com esse tipo de meretriz não funciona desde meus 17 anos; além de todos eles, ainda vejo a dona-de-casa, com um livro em punho, que se senta do meu lado. "E aí?" - Pergunto, com jeito de quem é novato no pedaço. Ela não me reconhece, e está desconfiada demais para aceitar uma conversa àquela hora.

"Porque hoje em dia não se deve confiar em ninguém, meu amigo moço" - é o que ainda ouço do ambulante, a um rapaz com quem puxava uma conversa.


11 comentários:

Anônimo disse...

Enquanto leio, vou formando a paisagem e os rostos das personagens desse conto. Então descubro que para escrever um conto que prende o leitor até o final é preciso descrever detalhes do ambiente, para que a imaginação não se perca.
Lendo fico lembrando da mensagem para que não se confie em ninguém e isso é verídico. Noto muito mais no mundo real onde cada um quer defender sua própria bandeira.
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Quanto ao tamanho dos comentários lá no blog, não se acanhe. Escreva o que quiser, qualquer dia desses vouroubar seu comentário e postar lá no blog. São de grande valia para mim.
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Beijos!

Anônimo disse...

A descricão dos personagens foi tão real que foi como se eu visse cada um deles aqui na minha frente. Um conto que retrata o cotidiano de não muitas, mas inúmeras pessoas.

Fabíola Weykamp. disse...

Enquanto eu lia, e não foi hoje, eu acabava presenciando cada cena, cada detalhe dos personagens e lugares.
E isso acontece somente quando quem escreve tem o dom de descrever sem poluir o texto. É dom mesmo!!

E o texto não sai da cabeça, e eu já o li há dias...
Não mesmo. Até porque, "hoje em dia não se deve confiar em ninguém meu moço", isso fica. :)

Adoro te ler!
Beijão, Leon!!!

Gabriela Gomes disse...

Tá mas e aí?

Quando sai o livro????

Deftones disse...

Ah, hm, bem... o livro ficou relegado a segundo plano... eu andei sem fonte de renda, e agora estou com uma fonte de renda instável... não tenho como financiá-lo, portanto, e ele provavelmente esperará mais de um ano para ser publicado. Só basta um pouco de menos preguiça para eu tirar a menção que existe à sua publicação do menu...

No mais, foi muito bom revê-la aqui!

Anônimo disse...

Cadê os contos novos, professor??? Não que não tenha valido a pena reler este (ô se valeu), mas...

M. [doc] B. disse...

Desistirei de te elogiar... Os elogios já se tornaram corriqueiros diante de tanta qualidade, beleza; perfeição.
É um exercício vim aqui ler teus textos. Este, em particular, criou algumas indagações sobre meus dias e rotinas... Transpiração para a escrita, talvez;
Mestre, PARABÉNS e até a próxima.

Sandrinha disse...

Ahn... então nem adianta eu cantar "I know you, You know me". Enfim. Difícil confiar em alguém mesmo, nos dias de hoje.

O problema querido é quando deixamos de confiar em nós mesmos.

(e o preço da passagem é este mesmo? R$ 1,75 o ônibus? My God! Aqui tá R$ 2,40! rs).

Se cuida! ^_^

Beijos!

Flávia disse...

e eu andei com vc por essas ruas.

Já pensou em escrever roteiros?

Beijos ;)

Chantinon disse...

"Que maravilha a ilusão de estar formando um novo-gênio!"

Achei esse texto particularmente mais deprê que os tradicionais (que já são bem down)
Bem, adorei!
Eu me amarro nesse cotidiano enfadonho e ao mesmo tempo empolgante... Pelo menos para o animo de ler.

Abraços!

Jân Bispo disse...

Vamos dizer que é definitifvamente encantador, e marcante, a descrição do personagens é espetacular, o conto nos leva para uma viagem sem sairmos do lugar e no fim nos joga a mensagem que quis passar definitivamente interessante!