Eu sou jovem. Tenho 22 anos. Sou de uma das gerações mais violentadas da História. Digo isso, porque eu sei que há algo que todo jovem tem, e teve, fosse na época dos faraós egípcios, na educação feroz dos bárbaros, na disciplina rígida das distancias chinesas, no altar de liberdade norte-americano ou em alguns conturbados anos passados no Brasil.
Os jovens tinham ídolos.
Mas minha geração não teve esse direito.
Há pouco tempo atrás, para cada arte, para cada campo do conhecimento, existiam ícones. Existiam referências. Marx era uma referência na Filosofia. Dali era uma referência na arte. Brizola era uma referência na política. Cada um cometia suas cagadas; mas estava-lhes reservado um lugar, uma cadeira simbólica, que os taxava de incontestáveis para gerações.
Eu sempre digo que sou um jovem velho; sou um jovem muito século XX. Digo isso, talvez, com uma inconsciente amargura. Talvez por saber que eu, que sempre pensei ter princípios, não tinha a sustentação ideológica que tinham os jovens antes de mim.
Quem tem minha idade não viveu grandes movimentos literários, nem grandes mobilizações políticas, não participou de festivais de rock revolucionários, quem tem minha idade não viveu nada que desse a impressão de que estávamos, através disso ou daquilo, mudando o mundo.
Eu penso, todos os dias, em mudar o mundo. Mas mudar o mundo, pra mim, é, antes de tudo, pensar que posso mudá-lo. Antes, a juventude pensava que podia mudar e pensava que estava mudando. Hoje, eu penso que posso. Mas sei que isso não tem futuro, o mundo não pode ser mudado. Penso algo com a consciência de que estou dando à minha existência um sentido que não existe. Esse dilema persiste na minha cabeça, e vai persistir até o dia da minha morte.
Como eu disse que era um jovem muito século XX, um subproduto do passado, eu me detive, talvez num ato (novamente) inconsciente, a tomar como referência os ícones do passado. Assim o foi com o próprio Marx, com Buñuel, com Huxley, com John Lennon, com Jack Kerouac. Chegou um tempo em que eu percebi que nada do que eu lia, via ou escutava era produzido por gente viva. Senti-me deslocado. Senti-me culpado, por não prezar por aquilo que a minha geração produz - logo eu, que sempre defendi tanto a minha geração. Ora, eu sei que a minha geração não é pior que as anteriores, não é mais burra, não é mais alienada que qualquer outra.
Mas o problema não está na minha geração. O problema está no mundo que nos é oferecido. Um mundo insosso, cruel, deprimente. Sinto uma tristeza só de pensar na condição humana. Pobre ser homem, ser solitário e carente de ídolos, de deuses, de tudo. Pobre de mim, de nós. Pobre de todos nós, porque somos humanos, e o ser humano é, antes de tudo, um ser carente.
Já matutei muito sobre todas essas questões. Mas não dá; minha cabeça permanece lá atrás. Permaneço roubando ídolos de outrem. Na minha cabeça, efervescem os sonhos dos moleques dos anos 1960, 70, 80. E hoje sei que, como eles, eu também estou cada vez mais carente de ídolos.
Tudo isso é só pra dizer o quanto me doeu ler hoje as notas sobre o falecimento de Richard Wright, o Rick, tecladista do Pink Floyd, banda que durante um bom tempo fez a minha cabeça, deliberou o que eu pensava e defendia, não só na música, mas na arte em geral, na política, no comportamento. Pink Floyd foi a banda que me abriu a cabeça depois de 15 anos perdidos. Eu, um moleque punk, que passei a vislumbrar um mundo de possibilidades quando descobri os teclados do Rick. Um teclado é um mundo de imaginações mil para quem vem da escola punk. Hoje tenho um teclado, aprendi uns truques nele, algumas coisas; mas, claro, nada que se compare ao que Rick faria dormindo. Mesmo assim, já é grande coisa.
Richard Wright era, na briga de egos do Pink Floyd, o cara que dava a alma na música e que menos exigia os holofotes. Amava tanto sua banda que, mesmo quando foi injustamente demitido dela, continuou sendo seu tecladista, sem receber os grandes lucros a que os outros membros tinham direito.
O Pink Floyd, quando surgiu, trazia uma autenticidade e originalidade tão veementes que causou impacto em todo o meio musical. Autenticidade e originalidade são virtudes bastante relegadas a segundo plano a quem faz arte hoje. No teatro, o que vale é o humor vazio. No cinema, o que dá a nota são os efeitos especiais. Na música, o hiato é ainda maior. Procuro e só vejo qualidade em bandas de metal - e mesmo assim, a qualidade técnica é imensa, mas a criatividade é quase zero. Falta perceberem que a beleza das coisas não está na técnica, não está no "fazer certo"; está, sim, no feeling, no subjetivo, no conceito.
Ao contrário dos camaradas mais velhos, não tive a oportunidade de ver o Pink Floyd juntos, nem, muito menos, de acompanhar a obra desta banda em momento presente. Para mim, tudo que conheço deles, assim como tudo que vejo agora na minha estante de livros, filmes e discos é passado. Hoje, se tornou ainda mais passado.
"E eu não estou com medo de morrer,
a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo.
Porque estaria com medo de morrer?
Não há razão para isso,
você tem que ir algum dia."
"Eu nunca disse que estava com medo de morrer."
"Se você pode ouvir este sussurro, então você está morrendo..."
Os jovens tinham ídolos.
Mas minha geração não teve esse direito.
Há pouco tempo atrás, para cada arte, para cada campo do conhecimento, existiam ícones. Existiam referências. Marx era uma referência na Filosofia. Dali era uma referência na arte. Brizola era uma referência na política. Cada um cometia suas cagadas; mas estava-lhes reservado um lugar, uma cadeira simbólica, que os taxava de incontestáveis para gerações.
Eu sempre digo que sou um jovem velho; sou um jovem muito século XX. Digo isso, talvez, com uma inconsciente amargura. Talvez por saber que eu, que sempre pensei ter princípios, não tinha a sustentação ideológica que tinham os jovens antes de mim.
Quem tem minha idade não viveu grandes movimentos literários, nem grandes mobilizações políticas, não participou de festivais de rock revolucionários, quem tem minha idade não viveu nada que desse a impressão de que estávamos, através disso ou daquilo, mudando o mundo.
Eu penso, todos os dias, em mudar o mundo. Mas mudar o mundo, pra mim, é, antes de tudo, pensar que posso mudá-lo. Antes, a juventude pensava que podia mudar e pensava que estava mudando. Hoje, eu penso que posso. Mas sei que isso não tem futuro, o mundo não pode ser mudado. Penso algo com a consciência de que estou dando à minha existência um sentido que não existe. Esse dilema persiste na minha cabeça, e vai persistir até o dia da minha morte.
Como eu disse que era um jovem muito século XX, um subproduto do passado, eu me detive, talvez num ato (novamente) inconsciente, a tomar como referência os ícones do passado. Assim o foi com o próprio Marx, com Buñuel, com Huxley, com John Lennon, com Jack Kerouac. Chegou um tempo em que eu percebi que nada do que eu lia, via ou escutava era produzido por gente viva. Senti-me deslocado. Senti-me culpado, por não prezar por aquilo que a minha geração produz - logo eu, que sempre defendi tanto a minha geração. Ora, eu sei que a minha geração não é pior que as anteriores, não é mais burra, não é mais alienada que qualquer outra.
Mas o problema não está na minha geração. O problema está no mundo que nos é oferecido. Um mundo insosso, cruel, deprimente. Sinto uma tristeza só de pensar na condição humana. Pobre ser homem, ser solitário e carente de ídolos, de deuses, de tudo. Pobre de mim, de nós. Pobre de todos nós, porque somos humanos, e o ser humano é, antes de tudo, um ser carente.
Já matutei muito sobre todas essas questões. Mas não dá; minha cabeça permanece lá atrás. Permaneço roubando ídolos de outrem. Na minha cabeça, efervescem os sonhos dos moleques dos anos 1960, 70, 80. E hoje sei que, como eles, eu também estou cada vez mais carente de ídolos.
Tudo isso é só pra dizer o quanto me doeu ler hoje as notas sobre o falecimento de Richard Wright, o Rick, tecladista do Pink Floyd, banda que durante um bom tempo fez a minha cabeça, deliberou o que eu pensava e defendia, não só na música, mas na arte em geral, na política, no comportamento. Pink Floyd foi a banda que me abriu a cabeça depois de 15 anos perdidos. Eu, um moleque punk, que passei a vislumbrar um mundo de possibilidades quando descobri os teclados do Rick. Um teclado é um mundo de imaginações mil para quem vem da escola punk. Hoje tenho um teclado, aprendi uns truques nele, algumas coisas; mas, claro, nada que se compare ao que Rick faria dormindo. Mesmo assim, já é grande coisa.
Richard Wright era, na briga de egos do Pink Floyd, o cara que dava a alma na música e que menos exigia os holofotes. Amava tanto sua banda que, mesmo quando foi injustamente demitido dela, continuou sendo seu tecladista, sem receber os grandes lucros a que os outros membros tinham direito.
O Pink Floyd, quando surgiu, trazia uma autenticidade e originalidade tão veementes que causou impacto em todo o meio musical. Autenticidade e originalidade são virtudes bastante relegadas a segundo plano a quem faz arte hoje. No teatro, o que vale é o humor vazio. No cinema, o que dá a nota são os efeitos especiais. Na música, o hiato é ainda maior. Procuro e só vejo qualidade em bandas de metal - e mesmo assim, a qualidade técnica é imensa, mas a criatividade é quase zero. Falta perceberem que a beleza das coisas não está na técnica, não está no "fazer certo"; está, sim, no feeling, no subjetivo, no conceito.
Ao contrário dos camaradas mais velhos, não tive a oportunidade de ver o Pink Floyd juntos, nem, muito menos, de acompanhar a obra desta banda em momento presente. Para mim, tudo que conheço deles, assim como tudo que vejo agora na minha estante de livros, filmes e discos é passado. Hoje, se tornou ainda mais passado.
"E eu não estou com medo de morrer,
a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo.
Porque estaria com medo de morrer?
Não há razão para isso,
você tem que ir algum dia."
"Eu nunca disse que estava com medo de morrer."
"Se você pode ouvir este sussurro, então você está morrendo..."
The Great Gig on The Sky (Richard Wrhight)
13 comentários:
Li tua postagem antes mas como não sabia, ou não lembrava quem é Pink Floyd..."acho que nasci na idade média" esperei minha filha chegar e perguntei.
O que mais me chamou a atenção, até mesmo porque sou sentimental foi a frase final.
É chocante!
Olá!
Adorei o seu blog! Não deu tempo de ler muitos textos, mas gostei dos que pude ler.
Vivo me perguntando que geração é essa a minha...
com sua permissão, quero adicionar seu blog aos meus favoritos pra que eu possa acompanhar as atualizações.
Um grande abraço!
Também fiz minha homenagem ao Rick.
E falo mais uma vez... São vários os grandes nomes que pairam no desconhecido.
Não consigo para de escutar PF desde ontem. E mesmo varrendo o mundo atrás de boas bandas - e elas existem - fica a certeza que de ninguém chegará onde eles chegaram.
São o J.S. Bach do Rock.
Por outro lado Leon, mesmo vendo tanta gente alienada e com gosto duvisoso, vejo muitos jovens de 14/15 anos escutando essas coisas setentistas, progressivas.
No fundo acho que sempre é assim, o próprio povo elitiza algo que deveria ser popular.
"o ser humano é, antes de tudo, um ser carente."
Adorei!
Maravilhoso, texto, Leo!
Xerus
Concordo plenamente com o teu post.
Mas a juventude ainda tem tempo para fazer muitas coisas...é só começar....
Abraços e parabéns....
Estava tentando me lembrar de alguma coisa que eu ouvi... sobre o homem que está sempre com os pés voltados para o passado. Ia ser legal mesmo se eu lembrasse.:/
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RIP, Rick.
cara seu blog eh massa, curti muito seus textos, nao curto tanto PINK FLOYD quanto vc, mas essa historia tocou fundo, poucas bandas/artistas tem essa capacidade de tocar fundo jovens como nos msm depois q acabam... parabens
É genéticamente impossível que um filho do Bukowski nasca pouco feio. Hahahahaha
Iza
Tentei transparecer esse chocante a partir do quão chocante me foi saber da morte do Rick... Espero ter conseguido.
Arlequina
Somos dois perdidos nesse parque de gerações...
E fique à vontade para adicionar o blog nos favoritos... É uma honra...
Chantinon
Você tem razão, o progressivo permanece com adeptos, permanece sendo ouvido por adolescentes, mesmo com a sua crescente elitização... Concordo com o que dissesse. Aliás, fazer arte para as massas é um preconceito de alguns admiradores de progrock né...
Jariny
Sua visita é sempre bem-vinda!
Guilherme Pião
Disse tudo, grande... Vamo lá, mãos à obra... Abraço!
Nica
Também sou igualmente esquecido... Mas valeu a intenção...
Henrique Pinho
Cara, prazer conhecê-lo nesses dias em Fortaleza, obrigado pelo comentário!
Camilla
Seu comentário vem sempre a calhar... Minha postagem foi pouco perto dessa sua... E não precisa agradecer pelas visitas... Beijos!
***
Obrigado a todos, voltem sempre!
Literatura Vil
Viu como também acompanho os comentários!
Acho que não eu não respondia por preguiça mesmo. Agora vou passar a respondê-los.
Beijos!
Certa vez fui a um barzinho que é famoso pela MPB. Naquela noite tocava a estrela do bar, um violonista de primeira mão. Tocou Chico, Tom, Vinicius, Joao Gilberto, mas principalmente Toquinho. A cada música uma pausa para falar da composição, do compositor, da melodia e da história. Achei que aquele rapaz tivesse, no mínimo, uns trinta e tantos anos... Não sei se pelo nível cultural, pelo estilo musical ou pelo vestuário mesmo (maldita primeira impressão). Na mesma noite, descobri que ele tinha apenas 22.
é fantástica a maneira como utilizamos de um triste conformismo a fim de transformar em mais fácil a tarefa de se acostumar. De se acostumar com a falta de ídolos, com a falta de idéias, com a falta de necessidade de pensamento, de se rebelar, de ir contra nada, de ir contra tudo.
E isso não é uma critica ao seu texto. Pelo contrário, é a admissão soslaia de que faço parte do grupo que não ve alternativa a não ser se conformar, e se entristecer, e tentar ser diferente, nessa massa, ser verde no meio do vermelho dessa gente.
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