Foi quando me olhei no espelho que percebi o quanto estava apreensivo. Eu conseguia ver embaçada minha imagem refletida mesmo estando o vidro total e perfeitamente polido. Eu estava na sala, estava sozinho no cômodo, lá na cozinha havia uma mulher, a cantar alto, freqüentemente me convidando para acompanhá-la no rito, sem sucesso.
Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezenove anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida, talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.
Eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tenha beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente que todas, para mim, eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.
"Você que é um cara de sorte", disse-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.
Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado, não de propósito, para que ela visse em mim não um moleque vazio, mas um garoto com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.
- Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai - foi o que ela me disse ao me ver observando a foto do rebento.
Ela me ofereceu um vinho e eu traguei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences dele que só pegava quando, de repente, sentia falta.
- Essa semana ele veio pra pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.
Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.
Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Cinthias, as Claras, Priscilas, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e rostos que ainda povoam minha cabeça. Com elas, compartilhei alguns bons momentos, mas nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saía a vagar sozinho pela madrugada.
Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como todas as mulheres solteiras em sua idade, muito carente. Seu jeito maternal, porém, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria. E jamais voltaria a vê-la.
Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim, corro o risco de ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeava calado pela noite escura.
Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezenove anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida, talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.
Eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tenha beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente que todas, para mim, eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.
"Você que é um cara de sorte", disse-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.
Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado, não de propósito, para que ela visse em mim não um moleque vazio, mas um garoto com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.
- Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai - foi o que ela me disse ao me ver observando a foto do rebento.
Ela me ofereceu um vinho e eu traguei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences dele que só pegava quando, de repente, sentia falta.
- Essa semana ele veio pra pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.
Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.
Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Cinthias, as Claras, Priscilas, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e rostos que ainda povoam minha cabeça. Com elas, compartilhei alguns bons momentos, mas nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saía a vagar sozinho pela madrugada.
Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como todas as mulheres solteiras em sua idade, muito carente. Seu jeito maternal, porém, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria. E jamais voltaria a vê-la.
Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim, corro o risco de ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeava calado pela noite escura.
13 comentários:
Tomo essa dose com você e ergo o copo, pq realmente podem ser estranhos os encontros que temos com as pessoas da nossa vida. Tão distintos que muitas pessoas simplesmente passam desapercebidas por nós e outras nos marcam a ferro quente, sem que haja nenhuma explicação para nenhum desses fenômenos...
Pois é... em nossas vidas passam Pessoas e pessoas. Aquelas que simplesmente passam, e sempre tem aquela que marca e fica pra sempre em nossa mente... É com certeza algo inexplicavel.
Eeeh... a tal da solidão, q dizem, bate no coração de quem se diverte e finge ser feliz, com todas, sem que tenha, ao menos, uma que lhe dê o devido carinho, aquela (e) em quem possa confiar, e contar sempre... Daí sem que haja amor, somente a diversão de passar algumas horas com alguém, que talvez nem verá novamente, os rostos e nomes, fogem um a um... deixando o vago e talvez até o arrependimento, e tbm o desejo de encontrar a peça q falta em sua vida!!!
Iza diz:
"Ele escreve na condição de observador e o mais incrível é o mistério que ele deixa em torno do personagem principal da trama."
...
Leon:
"...afinal, a primeira, a segunda, a terceira e todas as pessoas deste blog sou eu."
------
Meu querido amigo. Há muito tempo sei, "observador de si mesmo" e por acaso não somos todos assim, quando escrevemos?
------
E quanto ao conto, não adianta, fico sempre a imaginar como estariam agora as personagens...
Por acaso a mulher não estaria a pensar no menino que partiu, de repente?
...
Beijão!
Iza
Como você consegue transformar algo simples em um conto que prende!
Seu estilo deve fazer sucesso com as meninas, porque seus contos me lembram um filme: "Orgulho e preconceito", que talvez em livro seja melhor, por que na tela é muito chato algo sem um desfecho (sexual é claro).
Minha única aventura (arriscada)em conhecer uma mulher por trás de um meio de comunicação (telefone), renderia uma comédia italiana :)
Ah! sempre faço propaganda do seu blog, e agora é a vez de fazer desse aqui:
http://sunflowerrecords.blogspot.com/
É "uma" Bukowski de saias, só que divertida e muito louca :)
abraços
passando para informar o novo endereço do meu blog: Coluna do Lorida...
gilgomex.wordpress.com
Obrigada por comentar!
Eu gostei muito do seu blog, cara..
é difícil achar algo tão bom agora.. até o meu blog mesmo, é só um grande amontoado de besteiras!
ashsai, parabéns.
volte sempre ;*
I once had a girl,
Or should I say
She once had me.
She showed me her room,
Isn’t it good?
Norwegian wood.
She asked my to stay and she told me to sit anywhere,
So I looked around and I noticed there wasn’t a chair.
I sat on a rug
Biding my time,
Drinking her wine.
We talked until two,
And then she said,
‘It’s time for bed’.
She told me she worked in the morning and started to laugh,
I told her I didn’t, and crawled off to sleep in the bath.
And when I awoke
I was alone,
This bird has flown,
So I lit a fire,
Isn’t it good?
Norwegian wood.
Thuanny
Como é contraditória e confusa essa vida entre pessoas, hein?
Dani
Subscrevo cada palavra sua, pois concordo: é inexplicável.
Ingrid Carolline
Será que é possível encontrar essa tal peça? Acho que viver é buscar isso, ainda que inconscientemente... Obrigado, suas palavras dariam uma postagem à parte.
Iza
Você tem um bom olhar analítico... Percebe muito bem certas coisas, melhor que eu até. Não repreendi sua postagem quando comentei... Certa está você. Meus contos são assim mesmo.
Quanto à mulher do conto... Pobre mulher. Tão defasada existencialmente quanto o protagonista... Acho que todos somos assim. Beijos!
Chantinon
hehe, percebi que alguns contos meus seguem essa linha sim, de "quebrar o clima"... Se faz sucesso, acho que sim... Mas não corto toda e qualquer possibilidade de meus personagens molharem o biscoito... não sou tão estraga-prazeres, hehehe!
Conhecerei o blog, brigadão pelo toque!
Gilgomex
... Memorizado!
Luiza
É de besteiras que se compõe a vida...
Nica
... O que é da natureza dos pássaros nós não podemos oprimir... Bela letra, a analogia veio a calhar.
Como li este post depois do mais recente, entenda este comentário como continuação do "manuscritos".
"O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saía a vagar sozinho pela madrugada."
Pois é, como disse o Chantinon, será que seus contos fazem sucesso entre as mulheres?
Digo que sim, mas não os comparo ao Orgulho e Preconceito (que pra mim na tela tb foi muito chato,não por falta de desfecho, mas pela ausência de comunicação.
O que me chateia na vida, nas novelas, nos contos, nos amores... é que tantas histórias poderiam dar certo se as pessoas se abrissem sem medo de um "sim ou não". E depois ficam essas 'solidões', cada um na sua, sendo que juntos poderia ser melhor.
E a cada conto vc revela uma busca de porta em porta por algo que não encontra... sempre há a expectativa do encontro, o momento, a sensação de não ter encontrado novamente o que procurava e a saída solitária pela madrugada...
Eu gosto do que leio, mas às vezes tenho a impressão de lá no ouvir o eco de um coração.
abraços!
*Eu gosto do que leio, mas às vezes tenho a impressão de lá no fundo ouvir o eco de um coração.
Ao dar uma lida em vc (no teu blog) sinto que vc vive como se seus pensamentos o envolvessem como fumaça presa numa estufa, sufocando tua humanidade. Sempre observando, analisando, pensando, sentindo... muitas vezes sem externar isso para o plano concreto, ficando só no abstrato mesmo... Alma de escritor, de fato.
Gosto mto da sua forma de escrever. Analítico e objetivo, seco até, mas sem jamais ser desalmado.
hehehehehe, eu lembro disso.
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