quarta-feira, 5 de novembro de 2008

30 dias na escuridão

Eu bebia muita água quando acordava. Não tinha mais nada na geladeira. Além disso, a água era quente; toda noite eu passva no escuro, pois constantemente faltava energia no meu quarteirão, numa freqüência diária rigorosíssima. Isso se deu durante um mês. A energia acabava no início da noite e voltava pouco antes do amanhecer. Não era tempo, portanto, de a água da geladeira sequer ficar gelada.

Nessa época, eu trabalhava numa peixaria. Descarregava caminhões levando sacolas e sacolas enormes de peixes nas costas para um galpão na Rua Rio Madeira. Não me restava nada além. Não tinha outro emprego, não estudava, tinha saído de casa e não me restavam alternativas. Dentro daquelas condições, aquele emprego me parecia precioso. Fui cínico às alturas na primeira conversa que tive com o tal do Correia, Senhor Correia, que comandava o negócio ao lado de sua mulher.

- Qual sua experiência? - Perguntou-me.

- Toda.

- Já tem experiência nisso, em transporte e guarda de carga?

- Claro. Mas aqui não se trata de carga, e sim de peixe.

- É a mesma coisa, garoto.

Parou, deu uma telefonada, e uma mulher baixinha e formosa - sua esposa - entrou, forneceu-lhe uma cartela de cigarros, e, sempre olhando de soslaio para mim, saiu. O chefe chegou a me oferecer, ao que recusei, e acendeu um para si, dando uns cinco tragos antes de voltar à conversa.

- Você não me parece um cara forte - disse, com cabeça virada para o teto e os olhos voltados para mim.

- É verdade, mas dou conta.

- Não aceitamos aventureiros de primeira viagem. Você já tem experiência em carteira assinada antes?

- Tenho sim.

- OK, entraremos em contato.

Fui embora com a certeza de que não entrariam em contato, e que essa entrevista seria somente uma a mais na minha lista. Mas ao acordar no dia seguinte, às 9 horas, percebi que havia acabado de receber uma mensagem de celular:

VOCÊ FOI ACEITO PRO CARGO, TERA UM MES DE ESPERIENCIA E DEPOIS ASSINAMOS SUA CARTEIRA. COMPARESSA AS 8H DESTA QUARTAFEIRA NA CASA DO PEIXE, RUA RIO MADEIRA, 481.

A mensagem havia chegado de madrugada. Fiquei me perguntando porque aquela convocação tão impessoal. Poderiam ter mandado carta, ou telefonado, ou qualquer outra coisa. Uma mensagem de celular, com todos aqueles erros gramaticais? Sem falar que, à hora que li, já estava atrasado em uma hora. Só fiz beber água e fui, não escovei os dentes nem tomei banho, apenas lavei o rosto e me dirigi ao galpão onde trabalharia.

- Está uma hora e meia atrasado - disse-me o Sr. Correia, na porta do galpão.

- Desculpe, só recebi a mensagem agora há pouco... sabe como é essa tecnologia...

- Você só me verá novamente no dia da assinatura de contrato. Minha esposa cuidará de tudo que precisar. Ao trabalho.

- Responda-me uma coisa, por favor: por que me mandou a mensagem de madrugada?

- Porque foi à madrugada que decidi contratá-lo.

Ainda me questionei o que o houvera feito decidir, à madrugada, pela minha contratação, ele que deveria ter recebido pelo menos uns vinte perdedores no dia anterior. Fui ao trabalho, pesadíssimo demais, hei de considerar. Os outros rapazes não compreendiam bem a minha presença ali. Eram praticamente todos másculos, velhos, casados e banguelas. Eu não era nada disso. Era pequeno, truncado, notava-se pelas minhas mãos que nunca havia pego no pesado. No início me ignoravam. Diziam, soube depois, que achavam que eu era algum funcionário do patronato, uma espécie de espião. Passaram a ser mais rigorosos comigo, só pela maldade. Quando chegou a primeira camionete com peixes, fui ao estacionamento descarregar. Só tinha três caras pra fazer isso aquela hora.

- Espera o caminhão que vai trazer os cantilados, é dele que você vai descarregar - disse-me um dos outros dois.

Fiquei sentado e em menos de dez minutos viria um caminhão com novo carregamento. Mas se tratava de carregamento mais pesado - era por "cantilado" que chamavam. Sofria para carregar os sacolões nas costas, enquanto escutava pequenas risadas dos demais, risadas que passaram a ser altas e propositalmente constrangedoras com o passar dos dias.

Os funcionários reclamavam que eu era lento e não acompanhava o serviço deles. E realmente era impossível para mim. Fui, então, chamado à administração, já no terceiro dia.

- Estou fazendo um ótimo serviço - falei.

- Tenho certeza - falou a mulher do outro lado do balcão, a Sra. Correia - "mas pode me chamar de Marta, ou Martinha!". Ficou parada me analisando e depois fui dispensado.

Nos dias seguintes, tentei ser mais veloz no trabalho, mas ainda sentia muito o peso do peixe. Além do que, também me alimentava muito mal. Bebia água de manhã, trabalhava nove horas por dia, sem almoçar, pois não tinha dinheiro suficiente até receber pelo primeiro mês e aproveitava a hora do almoço pra tirar um cochilo. No fim do expediente, ia tomar um café em algum bar, comprava uns biscoitos e comia em casa, no sofá, enquanto vislumbrava a sala escura, praticamente todos os dias, pois nunca houve luz à noite nesse período.

Fui chamado outras duas vezes à administração. A segunda delas, no 28° dia. Até que eu tinha suportado demais.

- Eu gosto de você. Mas você precisa colaborar - disse-me, com ar de compreensão, a Marta, ou Martinha. Eu não sabia que ela gostava de mim, mas ela devia gostar de todos os outros caras que trabalhavam no galpão, imaginei.

- Olha, não gosto de nenhum dos outros, só de você. Esses coroas musculosos, nojentos e mal-educados também não trabalham direito, apenas reclamam de alguns bobos como você, e eu preciso chamá-lo para dar a entender que estou dando bronca. Mas eu não estou dando bronca, entende?

- Entendo.

- Mas eu percebo que você tem alguma classe, você não fala com esses brutamontes - disse, e sorria enquanto falava. Eu estava impassível.

- Escute - prosseguiu - foi graças a mim que você entrou aqui, eu quem pedi para meu marido.

Enquanto dizia isso, Martinha se levantou da sua cadeira. Tinha abandonado o ar maternal e agora estava mais cortejadora.

- Não quer sair comigo na próxima sexta, no fim do expediente? Podemos ir a algum bar, e depois lhe dou uma carona até sua casa.

Tava muito claro que a Martinha estava se oferecendo pra mim, mas eu não queria. Não gosto de mulheres mais velhas, e ela era bem mais velha, tinha uns 48, conforme bisbilhotei no primeiro dia numa ficha que tinha na mesa de seu marido, contendo dados dos dois. Esqueci tudo, menos a idade deles: ela tinha 48, e ele também. Ainda que no caso dela parecesse menos, bem menos.

Eu não queria recusar o convite da Martinha, pois sabia que fatalmente perderia a minha vaga se o fizesse. Topei, então, de maneira bastante convicta e efusiva, como quem sabe que a noite iria além de uma carona. Ela ficou empolgada.

Mas a sexta seria meu 30° dia na empresa e o Sr. Correia apareceu e mandou me chamar. Eu estava com documentos em punho, e até esperava que o lobby da Martinha ajudasse algo na minha contratação. Mas eu sabia que seria difícil.

- Espera aí, cadê sua experiência? Sua carteira de trabalho está em branco!

- Bom, na verdade não tenho experiência alguma.

- Como assim? E mentiu pra mim? E minha mulher falando tão bem de você...

- É uma boa mulher.

O Sr. Correia provavelmente não gostou do meu comentário e me mandou embora. Finalizou a conversa com uma indelicada despedida, não sem antes oferecer um cigarro, novamente recusado.

- Pegue um cheque com o pagamento desse mês e saia daqui, suma, não volte nunca mais.

Fui embora sem sequer terminar o expediente. A Martinha devia ter me procurado um bocado no galpão, sem sucesso. Fugi dela, literalmente. Não tava pra romances clandestinos. Recebi muitas mensagens de celular e alguns telefonemas, todos ignorados. Pouco depois dos 30 dias que passei na peixaria, curiosamente o problema da energia elétrica no meu quarteirão seria definitivamente resolvido. Isso me leva a pensar que essa foi uma fase bem negra e obscura da minha vida. Com toda razão.

8 comentários:

Laluia disse...

Poxa...
gostei desse...
me fez lembrar de uma coisa ignorada por mim até 5 minutos atrás: no meu primeiro "contato" com os contos do L.F.Veríssimo, eu fiquei empolgada durante um tempo e até tentei produzir uns contos num antigo "caderno-diário" que hoje em dia não passa de cinzas, literalmente.
Não me lembro se deu certo, não me lembro de nenhum conto, mas tenho relances de uns trechos...
Dar certo na verdade não importa, pois como vc diz, "o que há mais importante em mim hoje é o que eu escrevo" e não importa o resultado!

beijos

Ind Caroline x) disse...

Aaah, dessa vez num fui a primeira.. =[
mas td bem..
será q um conto q faz referencia à falta d energia, tem a ver cm alguém q passo a noite em escuro ? hauehuah.. aaiaaai.. mas um d seus ótimos.. x)

BeeijO

Tatiana Pinheiro disse...

Me fez lembrar de "Factotum", do velho Buk...não sei se pelos peixes, não sei se pelo cigarro oferecido...

ótimo texto ;)

;**

Thu disse...

Muito bom Leon, adorei o conto. Clarisse Lispector disse uma vez que o "o que atrapalha ao escrever é ter de usar palavras...", mas acho que esse não é bem o seu caso, pq vc usa mais do que palavras, usa experiências e sensações palpáveis.
Um abraço...

Anônimo disse...

Não preciso repetir a forma como leio o que escreves. Confesso que me surpreendi. Pensei que o personagem seria contratado no final. A Martinha era uma safada(enxerguei Martinha assim), se me permite falar, e o marido não quis ser corno manso. Mas certamente Martinha encontrará outra vítima.


Beijos, Leon

Chantinon disse...

Esses dias não tem sobrado tempo.. passei algumas vezes aqui até ler tudo.

Como sempre, fantástico.

Juro que esse endereço me é familiar, RUA RIO MADEIRA, 481.
Hahaha!

Eu tenho uns contos desses, mas são historias com H, e são mais para Nelson Rodrigues do que para Bukowski. Hahah!

Mas o final sempre é assim, não como ninguém :)

Abraços!

Ester disse...

Hummm.. ainda estou digerindo..

Deftones disse...

hArlequina
Nossas origens são semelhantes... também comecei escrevendo em cadernos-diário... veja só...

Dida (Ingrid)
Totalmente... rs.

Tatiana Pinheiro
Li Factotum há alguns meses... Ainda tá muito presente na minha cabeça... sem dúvida, sua influência foi determinante no modo como compus o conto.

Thuanny
Adorei a sua descrição... obrigado pela visita!

Iza
É, a Martinha é o tipo de mulher que não deixa saudades...

Chantinon
Os meus também são histórias com H, heheh.. quanto à falta de tempo, creia, eu compreendo...

Esther
É natural, eu mesmo também demorei bastante para digerí-la, antes de vir postá-la...

Saudações e agradecimentos a todos!

Literatura Vil