quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Com um nó no estômago

Acordei no sofá, com as costas doendo, como sempre. Era o prenúncio de um mau dia, como são todos os outros dias. A TV estava ligada, e eu vi o viaduto por onde passo todo dia em direção aos trabalhos, faculdades e outros tormentos. O viaduto estava em segundo plano, em primeiro estava uma repórter bonita mas totalmente sem sal dizendo que o tempo estava nublado, mas que não choveria. Eu me levantei com muito esforço, sendo meu sofá bem rústico e duro, é péssimo para dormir... todo o corpo estava em cacos... peguei um copo de água e fui para a janela ver as pessoas passando na rua... fico olhando a rua em frente, os estudantes, os operários, as mães com suas crianças, todos seguindo em direção a algum lugar, seguindo até o fim da rua, seguindo até sumirem no horizonte, e eu quase morri nesse tédio.

Tomei um banho rápido e enquanto me vestia silenciosamente, o telefone tocou. O telefone residencial. Nunca havia passado o número para ninguém e ele agora estava tocando. Levei um susto, fiquei meio paralisado por segundos. Depois, ignorei. Continuei a vestir-me. Não queria atender. Não tinha nada a dizer, não queria ouvir nada, também não queria sair de casa. Por que era obrigado a atender essas exigências bobas? Tentei pôr mais pressa enquanto me arrumava, pois o telefone não parava de tocar e eu já estava incomodado. Mas antes que eu saísse de casa, ouvi o ônibus passando à frente. Foi-se rapidamente, e eu teria que esperar o próximo. O próximo, eu sabia, não passaria nos 40 minutos seguintes. Sentei-me no sofá com as mãos tapando o rosto... estava puto! Perdi a hora justo quando não devia... tinha uns exames de sangue para fazer. Tive que ligar para a moça do consultório.

- O que deseja?

- Quero remarcar o meu exame de sangue para amanhã.

- Para amanhã não será possível, pois...

- Então - interrompi -, quero remarcar para depois-de-amanhã.

- Também não será possível, senhor.

- Tudo bem, quando há uma data disponível?

- Infelizmente, não há mais datas disponíveis. O doutor fará exames até sexta e entrará em licença até o ano que vem. Você pode tentar...

- Não, não vou tentar mais nada, obrigado.

Eu estava agora com uma pilha de exames incompletos, e para tê-los todos teria que esperar até o ano que vem... horas e horas marcando consultas e fazendo exames de raios X para terminar nisso... desisti. Como já estava com a necessidade de sair de casa para compromissos outros, como dar aulas, e precisaria me deslocar mesmo assim até o Centro, decidi ficar vestido como estava, mesmo que só fosse sair depois do meio-dia, portanto dali a umas quatro horas. Cochilei no sofá enquanto isso e pus o despertador para alarmar exatamente ao meio dia.

Nesse dia, só duas aulas. Daria cinco, mas só dei duas, o restante das turmas saíram, foram participar de alguma atividade interativa da escola, e eu fiquei livre mais cedo. Ao menos algo para agradar o meu dia. Saí de lá e fui para a parada de ônibus. Mas estava havendo uma passeata de uns servidores públicos, funcionários da Saúde, e estavam fechando a avenida pela qual os carros vinham. Como o trânsito estava desregulado, precisei pegar a condução em outro lugar. Escolhi uma outra parada, mas não tinha certeza de que o ônibus passava lá. Esperei dez minutos e saí. Fui para uma outra parada, onde esperei mais dez minutos e nada. Cheguei na Avenida Rio Branco, onde tem mais quase quinze paradas de ônibus, e eu tinha que adivinhar em qual delas o meu ônibus parava... Como vi que seria difícil, decidi aproveitar o tempo que estava no Centro para fazer algo. Fui à biblioteca do Sesc, ali por perto.

Apresentei minha carteira de sócio na entrada e fui procurar uns livros. Procurei, procurei e nada encontrei. Decidi ir para a mesa de revistas. Enquanto folheava lá algo sobre a rodada do Campeonato Brasileiro no fim-de-semana anterior, uma funcionária veio ao meu encontro:

- Com licença, este é você? - perguntou, mostrando-me um formulário que continha meu nome, foto, dados e uma listagem de dois livros que eu tomara emprestado meses antes.

- Sim, sou eu. Apresentei minha carteira de sócio ao entrar.

- Claro, senhor. É que há dois livros da biblioteca que estão emprestados a você, e estão atrasados.

- É mesmo?

- É sim, um do Rubem Fonseca e um do... deixe-me ver, Ernesto...

- Ernest. Ernest Hemingway.

- Pois é isso mesmo.

- Olha, eu mandei um email recentemente para saber a quantas andava a minha situação aqui.

- E não obteve resposta? - ela parecia intrigada.

- Claro que não... Ninguém responde nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir, e dizem o que querem dizer. Ninguém mais sabe perguntar nada, assim como ninguém responde nada também.

- Mas, veja bem, os livros não são seus e...

- Ué, claro que são! Sou eu naquelas histórias! Hemingway me roubou, roubou a minha história e a minha personalidade para fazer aqueles contos! Acredite, boa moça, se ama mesmo a Literatura, aqueles livros estão melhores comigo do que aqui esquecidos nessa biblioteca decadente.

- Você tem dez dias para trazê-los, não digo mais nada - e me deixou em paz.

Depois que li todos os comentários sobre o economia e o futebol contemporâneos, saí, meio indisposto de continuar vagando, fui para uma parada de ônibus na qual sabia que meu ônibus pararia; para tanto tive que andar muito, cerca de meia hora. Peguei o ônibus e cheguei em casa, cochilei, bebi mais água, abri uns emails, li emails antigos, e percebi que havia muito mais emails ainda para trás... emails que nunca deletei em quatro ou cinco anos de uso ininterrupto de internet.

Comecei a ler e a deletar, e deletar, e deletar. Enquanto deletava ainda relembrava muitos, ainda via neles boas e más lembranças, sentia que estava estourando bolas de encher, preenchidas de emoção. Enquanto deletava, imaginava isso como uma versão moderna da coisa de queimar cartas, lê-las e jogá-las na lareira enquanto o rosto expõe faces de alegrias e decepções. Passei coisa de seis ou sete horas nesse rito, do fim da tarde ao início da madrugada, e já me sentia muito pesado por tanta carga emocional reavivada nesse momento - uma carga pesadíssima, registrada em doses homeopáticas, agora rememorada em escala industrial. Desisti de deletar os emails, só sobraram alguns poucos do passado. Estava querendo dormir, e fiquei com isso na cabeça. Reconhecia o meu rosto íntimo, dissimulado, de quem sai para a rua disfarçado com o próprio corpo. Pensei em refazer coisas, mas era impossível, a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo. Eu pensei nisso depois que li um deles, que escrevi há bastante tempo não lembro para quem e nem cheguei a enviar, ainda que fosse um email-resposta. Estava lá salvo na caixa de rascunhos do servidor. Em letras mal-formatadas, eu só adormeci depois de pensar bastante após reler tais palavras:

eu estava vendo e aprendendo algo sobre o escorpião, sobre a tendência regenerativa desse ser que se manifesta num impulso destrutivo, para reconstruir a vida permanentemente, e fiquei pensando nisso que você falou, que a vida é sempre um andar para a frente,mesmo que trôpego e cambaleante, e já não dá retorno possível para o passado. fica tudo se acumulando no altar do esquecimento. eu que só queria acordar sem esse nó no estômago. queria qualquer coisa doce, já que ando cada dia mais azedo. qualquer coisa que fosse como um deslumbramento ou um abraço. mas nada disso virá, a gente sabe. tudo se vai.

que merda.

até amanhã... quanto a depois, logo se vê.


8 comentários:

Laluia disse...

eu que tô aqui com as costas doendo... bem cansada, sem vontade de ir a aula ou de ler qualquer linha, não resisti à leitura do seu conto "bão de ler!".

eu pensei numas palavras pra resumir o que sinto quando leio o que vc escreve e assim descrevo: um conto dentro de um contista dentro de um conto.

só isso.
beijos

Chantinon disse...

É essa rotina do sofá que ainda vai me matar. :)

Anônimo disse...

E eu aqui viciada nestes contos. É como uma página de um livro que disponibilizas a cada tempo... para delicia de nossos olhos mas, eu não quero perder nenhum capítulo... nenhum...
Beijos!

Girotto disse...

gostei, sobretudo da parte final, me inspirou pensamentos negativos e fazia tepos que nada conseguia piorar meu estado de espírito. melhor assim, não desejo nada doce pra mim, ando muito enjoado.

abraços, camarada.

Ind Caroline x) disse...

faaaala terráquio.. até q fim eu tiv um tempiiim né.. aehaeuaehaueh
mas to sempre aki, isso q importa..
andei pensando sobre seus contos, e concordo cm a Héllen, "um conto dentro de um contista dentro d um conto".. como disse vejo vc em suas palavras.. =/

"... a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo."
(Y)

BeeeijOo

Anônimo disse...

nada mais que um dia comum... e dá um texto deste tamanho e com tantos detalhes... essa é a vida.
devolver livros em biblioteca sempre foi uma religião pra mim (bem metafóricamente falando, já que nem religião eu tenho). Eu não conseguia ler o livro, se soubesse que fui na data exata para renová-lo. Ficava nervoso e as letras começavam a sumir da minha frente. Aí eu chegava na biblioteca, renovava um, entregava outro e aproveitava para escolher mais um... e assim passavam-se os dias... Hoje em dia, eu nem sei onde fica a biblioteca de meu município. Desde que me mudei pra cá, nunca visitei a biblioteca pública. Como o tempo acaba com certos costumes. Ainda leio muito. Mas compro mais, quase não empresto, e quando o faço, é de pessoa física e não jurídica. Empresto de algum amigo que elogia esse ou aquele novo livro.
E gibis... Compro gibis toda semana. Esse vício eu creio que vá morrer comigo.

Katarina disse...

Adorei esse seu escrito e ainda bem que vc nao deletou. Realmente viver é andar para frente, tropeçar e cortar-se com os cacos de vidro que estão no chão. Sangrando, sabemos que estamos vivos. Sem isso, nem caminhar caminharíamos... só flutuaríamos, como projetos de algo que sequer existiu.

Deftones disse...

Arlequina
Nossa, embaralhou minha cabeça aí... rs.

Chantinon
Que nada, ela só faz bem...

Iza
Vejo assim também... na verdade, conceitualmente, vejo mais como um jornal, que é publicado todos os dias, sem que um dia tenha pretensão de chegar ao fim.

Girotto
Percebi que roubei de você a leitura do Hemingway, né? Heheh, você há de perdoar!

Ind Caroline
Não há mal em me ver no que escrevo... tudo aqui nesse blog sou eu, afinal... mesmo que não seja... até você sou eu, olhando de certo modo, heheheheheheh...

Gilgomex
Grande, temos essa diferença... não sou tão disciplinado assim.. na verdade, ler livros de biblioteca é difícil, porque não consigo ler nada com data marcada para terminar. Não que sete ou quinze dias sejam insuficientes... mas dá um ar de obrigatoriedade que rompe a magia da coisa... eu acho.

Katarina
Olá, é bom revê-la... sua descrição cabe bem ao que quis dizer. É sempre bem-vinda.


Saudações a todos!
Literatura Vil